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Raphael Müller

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Raphael Müller é publicitário, com pós-MBA TrendsInnovation pela Inova Business School-SP, MBA em Gestão Empresarial pela FAE-PR e em Marketing pela FGV-RJ. Liderou e participou de diversos projetos de transformação digital, de posicionamento e de gestão comercial em empresas como: DCI, O Globo, Gazeta do Povo, TV Record – Campinas, TV Band – Santos, Sistema Globo de Rádio, Rede NOVABRASIL FM, entre outras. Professor do Master Negócios de Mídia, conselheiro TrendsInnovation certificado pela Inova Business School-SP e mento-coaching certificado pelo MCI – Mentoring Coaching Institute.

Poucos personagens tiveram maior repercussão na história dos Estados Unidos – e porque não dizer na história mundial -, do que Abraham Lincoln (1809-1865). Décimo sexto presidente norte-americano, Lincoln é tido como um dos principais idealizadores da democracia moderna e é definido como um dos maiores estadistas de todos os tempos por sua visão, pela capacidade de propor soluções, por sua inteligência emocional e pelo poder conciliador.

Acontece que o jovem advogado Abraham não indicava que daria espaço no futuro ao moderado Lincoln. Ainda antes de cursar a faculdade de Direito, o rapaz desenvolveu o hábito de escrever poemas e cartas ridicularizando e difamando seus desafetos. Em 1842, utilizando-se do codinome “Rebecca”, ele publicou um editorial com mentiras, ou meias-verdades, em um pequeno jornal de uma cidade do Estado de Illinois, zombando de um belicoso político irlandês.

Fake News. Nunca gostei do termo pela confusão, proposital ou não, que ele pode gerar na análise de um conteúdo.

Sensível e orgulhoso, o ofendido político descobriu o autor do texto e o desafiou para um duelo do qual somente o vencedor sairia vivo. Lincoln ficou apavorado. Era contra duelos, mas não tinha alternativas, uma vez que a recusa mancharia a sua honra para o resto da vida.

Na data marcada, os dois oponentes já estavam no local e …ufa! – no minuto final, a turma do deixa-disso entrou em cena suspendendo a peleja. A partir deste dia, Abraham Lincoln nunca mais escreveu uma linha sequer para insultar, difamar, ridicularizar ou contar mentiras sobre qualquer pessoa.

Elevar uma mentira, uma falsificação ou, para ficar no termo da moda, uma “fake” à condição de notícia – ou “news” – é contraditório e só estimula a confusão de quem seriam os agentes responsáveis pela produção de conteúdos inverídicos.

De certa maneira, o editorial de Lincoln, nos dias de hoje, poderia ser enquadrado no que convencionamos chamar de Fake News. Nunca gostei do termo pela confusão, proposital ou não, que ele pode gerar na análise de um conteúdo.

O princípio de uma notícia é exatamente basear-se em fatos. Portanto, para ser “news” é preciso ancorar-se em “facts”. Elevar uma mentira, uma falsificação ou, para ficar no termo da moda, uma “fake” à condição de notícia – ou “news” – é contraditório e só estimula a confusão de quem seriam os agentes responsáveis pela produção de conteúdos inverídicos.

Por exemplo, neste exato momento se você leitor acessar o site do portal Brasil Escola, uma referência importante de pesquisa para estudantes e professores de todo o país, e procurar “o que são Fake News?”, você verá a seguinte declaração no primeiro parágrafo:

“Fake News são notícias falsas publicadas por veículos de comunicação como se fossem informações reais. Esse tipo de texto, em sua maior parte, é feito e divulgado com o objetivo de legitimar um ponto de vista ou prejudicar uma pessoa ou grupo (geralmente figuras públicas)”.

Veículos de comunicação não produzem textos com o objetivo de difamar, desqualificar ou subverter a verdade. Quem faz isso não faz “Fake News”. Faz mentira, difamação e crime pelo qual deve ser investigado, julgado e responsabilizado.

Tal definição coloca em um mesmo balaio empresas jornalísticas – a quem devidamente cabe a classificação de veículos de comunicação -, sites noticiosos que vivem a soldo de determinados grupos militantes ou criminosos digitais. Estes entes devem ser separados e tratados de maneira diametralmente oposta às empresas de mídia.

Veículos de comunicação não produzem textos com o objetivo de difamar, desqualificar ou subverter a verdade. Quem faz isso não faz “Fake News”. Faz mentira, difamação e crime pelo qual deve ser investigado, julgado e responsabilizado.

Acontece que o jornalismo profissional, por mais correto e cuidadoso que possa ser, não está livre de falhas. (Vale um parêntese aqui para tratar deste outro termo maluco criado nestes tempos de desinformação, uma vez que, se é jornalismo, então é sempre profissional, qualquer outra coisa não é jornalismo).

Portanto, desculpem a audácia, mas deixo aqui a provocação para adotarmos novas nomenclaturas. De agora em diante sugiro chamarmos “Fake News” de “Mentira”, “Jornalismo Profissional” de “Jornalismo” e “Erro Jornalístico”, caso queiram, de “Mistake News”.

Adotando estas definições conceituais, deixamos de propagar rótulos que aviltam a produção jornalística, indispensável ao estado democrático e à garantia das liberdades individuais, nos afastando do drama existencial de Hamlet, uma vez que já está mais do que na hora de nos libertarmos do dilema “Fake or News”.