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Silvia Bessa

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Silvia Bessa atua como jornalista há mais de vinte anos. É ganhadora de mais de vinte prêmios jornalísticos, entre eles Esso, Embratel e Correspondentes Internacionais da ONU. Seus trabalhos se destacam por tratar de questões sociais e humanas do Nordeste e pelas narrativas que valorizam a história de vida das pessoas.

Todo repórter merece um bom editor. Um tutor que o motive, um interlocutor que entenda de jornalismo e o faça rever decisões editoriais. E, em situações-limite, tome-as para si. Correção: não só merece como precisa. Seja eu, Luís Costa Pinto, Paulo Francis ou John Hersey…  Observe que fauna ampla esta – da jornalista que faz investigação social no Nordeste, passando pelo que impulsiona a derrocada de um presidente da República, o que escreve críticas ácidas e o que narra uma explosão que matou 140 mil pessoas. Um editor, este ser que vem sendo testado – muitas vezes, dispensado – diante da crise do jornalismo e da dinâmica acelerada da internet.

“PC é testa de ferro de Fernando [Collor]”, “Os dois dividem tudo”, contava com ineditismo Pedro Collor, o irmão do então presidente Fernando a Luís Costa Pinto, jovem repórter pernambucano que trabalhava na sucursal da Veja em Brasília. Mais de duas horas de conversa. Novo encontro à noite, agora à beira-mar da Praia de Pajuçara. Dois copos de Red Label como testemunha. O que tinha ali era uma bomba, sabia o jornalista. Só tinha um problema: a conversa não foi gravada; Pedro Collor não quis.

É urgente destacarmos a importância do editor capaz de desempenhar o papel que lhe cabe: aprimorar o conteúdo, dar consistência à informação e, anonimamente, permitir que o holofote da glória se volte para o repórter.

Na conexão Maceió-São Paulo se iniciava o diálogo entre o repórter e o diretor da Veja, Mario Sergio Conti. Por fim, Conti liga para Elio Gaspari – correspondente em Nova York, antecessor do cargo de Conti na Veja e cuja opinião ainda era muito respeitada na revista. Cinco horas da manhã, repórter vidrado na escrita, Elio Gaspari aconselha a não publicação até que houvesse uma gravação. A grande bomba que a revista tinha nas mãos não foi publicada naquele momento. Só seria edições depois, quando Luís Costa Pinto conseguiu que Pedro Collor desse a entrevista gravada – com o desfecho que todos conhecemos.

Se a primeira versão tivesse sido publicada, as consequências poderiam ter sido outras. “Você teria o maior problema de sua vida”, disse anos depois Gaspari ao repórter, em um jantar. “…Veja daria a entrevista e a revista começaria a circular no sábado. Ela não estava gravada. Não tinha foto de Pedro falando com você. As anotações tinham sido feitas com sua letra, a letra do jornalista. No domingo, o Pedro Collor, acertado com o governo, iria à TV e desmentiria tudo. Diria que o repórter inventou aquilo e a revista caiu na lorota. Você e a Veja estariam desmoralizados…”. A história é contada pelo próprio Costa Pinto em Trapaça, livro que ele lançou ano passado. 

Um editor que ponderasse. Foi o que faltou ao crítico Paulo Francis, quando escreveu o artigo Tônia Carrero sem peruca, no Diário Carioca de 17 de outubro de 1958, um texto “mesquinho e cruel” contra a atriz. O próprio Francis –  as aspas são dele – lamentaria depois não ter ouvido uma voz que o contrariasse, um editor que recomendasse o engavetamento do texto por alguns dias para então avaliar se tinha usado a dose certa de tinta. “O artigo é sórdido, imperdoável, uma das mais pungentes vergonhas da minha vida, porque foi pessoal, mesquinho, deliberadamente cruel, sem que houvesse motivo”, contou Francis em suas memórias, O afeto que se encerra (1981)

Pare, espere ou avance na apuração. Complete. Lembro de uma celeuma criada no Diário de Pernambuco, em 2008, onde eu estava como repórter especial e produzia cadernos com longas reportagens. Havia percorrido oito mil quilômetros entre o Norte e o Nordeste do Brasil, dividindo o trajeto com a colega Marcionila Teixeira e a fotógrafa Alcione Ferreira, para falar sobre a hanseníase, a doença mais antiga da história que se colocava como ameaça às novas gerações. 

Fui salva apenas por uma boa edição, feita por um profissional muito mais experiente que eu?  

Tinha a promessa de 12 páginas limpas de jornal de uma doença que até no papel enfrentava preconceito. Quando publicar? Investimentos editoriais assim costumam ter destaque na edição dominical, mas como estampar nesse dia uma reportagem sobre doença tão discriminada?. “A grande inovação será publicar no domingo. É a quebra do padrão”, defendeu o também repórter especial Vandeck Santiago, que para mim sempre funcionou como editor. A diretora de redação, Vera Ogando, decidiu: “Publica-se no domingo, sem dúvidas”. Repercussão grande. Ministério da Saúde negociou a publicação para uso informativo de agentes de saúde. Prêmio Esso. Acima do episódio, estava a presença de dois editores experientes que acompanharam da produção à publicação. 

Na ativa há duas décadas, na maior parte do tempo como repórter, não foi só um; vivi alguns dilemas e questionamentos sobre o papel do editor. Este a seguir conto em conversas em turmas de estudantes. Havia deixado a editoria de política e estava focada em especiais. Escrevi uma longa reportagem sobre o fenômeno das lan houses no Nordeste. Partilhei com Vandeck cada passo da matéria, assim como as dúvidas enfrentadas. Veiculada como série de reportagem, ganhou repercussão nacional, impressionou jurados e se destacou como reportagem de informação científica. No Recife, ouvi de colegas: “a edição estava brilhante”. Ali, duvidei da minha capacidade de repórter. Fui salva apenas por uma boa edição, feita por um profissional muito mais experiente que eu?  

O tempo mudou o modus operandi nas redações. Estamos diante do imediatismo imposto pela internet e padecendo com parcos recursos em virtude da crise econômica.

Meu editor percebeu a inquietação e insegurança da repórter iniciante sobre o resultado do esforço Sertão afora. “Leia Hiroshima, veja quantas vezes John Hersey teve de reescrevê-lo”. Sem comentários extras.

Primeiro, a reportagem sobre Hiroshima sairia em série, como de costume. Editores tomaram decisão inédita de condensar todo material em 30 mil palavras, numa única edição da New Yorker. O autor escreveu 150 páginas e as enviou aos editores. Eles fizeram um total de 200 observações até a reportagem ser concluída. Hersey havia passado seis semanas escrevendo a matéria. Só na primeira parte foram 47 observações com perguntas para a melhoria da matéria. Entre tantas, Harold Ross, um dos editores, apontava uma “falta grave”. Segundo ele, a primeira versão deixava pairar uma incerteza. Afinal, o que matou as pessoas: o incêndio, os escombros ou a concussão?

Aprendi a lição em 2007. O tempo mudou o modus operandi nas redações. Estamos diante do imediatismo imposto pela internet e padecendo com parcos recursos em virtude da crise econômica. Reduzem salários, postos e encurtam o processo produtivo. Hoje, em 2020, caminhei alguns quilômetros a mais. E chego aqui com a convicção de que é urgente destacarmos a importância do editor capaz de desempenhar o papel que lhe cabe: aprimorar o conteúdo, dar consistência à informação e, anonimamente, permitir que o holofote da glória se volte para o repórter.