Sempre soube que tinha algo errado.

Não fazia muito tempo que eu tinha entrado no mercado de trabalho e já me questionava. Lembro de uma noite, depois de um dia inteiro na redação, ter comentado com meu marido — que não é do ramo — que eu não entendia a importância de escrever e publicar aquilo que estava escrevendo e publicando.

Não tenho certeza se era recém-formada ou não, mas sei que era meu primeiro emprego em um site de notícias superespecializado. Escrevíamos apenas sobre política mato-grossense.

Em geral, as matérias tratavam de decisões políticas. Trocas de partidos, reuniões, aprovações de projetos, brigas, picuinhas, fofocas – quase sempre, situações que não tinham absolutamente qualquer relação com a população que esses políticos “governavam”. Mas eram textos sempre envoltos num manto de suposta importância e seriedade, afinal, é política e as pessoas deveriam se interessar por ela.

Bom, foi nisso que eu decidi acreditar.

Os anos passaram e eu “cresci” no ofício de jornalista. Passei de estagiária a repórter e de repórter a editora. Troquei de emprego algumas vezes; parte delas voltando para empresas e cargos que eu mesma havia decidido deixar, e sempre fazendo a mesma coisa: escrevendo sobre estes “fatos” políticos que não pareciam ter qualquer relevância na “vida real”.

Embora aquele questionamento, lá do início da carreira, ainda rondasse minha mente, eu estava em uma situação cômoda, profissionalmente falando. Trabalhava muito, é verdade, mas sabia exatamente o que fazer, o que facilitava minha vida. Ganhava relativamente bem e, de quebra, ocupava um espaço com um certo status. Era reconhecida entre outros jornalistas e entre os políticos.

Hoje, cerca de 10 anos mais tarde, entendi que aquele primeiro site, o superespecializado, tinha um público específico. Mas ainda acho que meus questionamentos não eram sem sentido. Aqueles “fatos” não importavam para ninguém, além das próprias pessoas que eram retratadas nos textos. E o restante da sociedade não estava errada em não se interessar por “política”.

Não sei exatamente o que me fez enxergar isso com clareza, mas me senti isolada entre os colegas de profissão. Com raras exceções (sobrariam vários dedos de uma mão), eles pareciam não estar vendo o que eu via. Considerei mero comodismo. Mas, afinal, quem era eu para criticar?!

O que seria o certo então?

Não sou das jornalistas mais antigas no mercado, mas com o passar dos anos acompanhando (e vivendo) a profissão, fui, cada vez mais, sentido falta de contexto.  

Colher os dois lados de uma história e reproduzir o que cada um deles disse; relatar que determinado projeto de lei foi aprovado ou manchetar obras que custaram ou custarão X milhões de reais não me parece fazer sentido. Não o suficiente. 

É preciso deixar claro para o leitor o que muda (ou não) na vida dele depois desses fatos.   

É necessário mostrar, com clareza, qual o impacto disso – em termos práticos – na vida daquele cidadão médio, que dedicou parte do seu tempo para ler aquela informação.

Convenhamos, a maioria das pessoas sequer consegue imaginar a quantia de X milhões de reais que foi gasta nas obras que retratamos. Você consegue?

O contexto é o que faz o jornalismo, e é exatamente o que nós, jornalistas, estamos deixando de lado há anos.

À medida em que a tecnologia avança, as sugestões de pautas se transformam em “textos prontos para publicação”; as entrevistas, em conversas por telefone e, agora, em perguntas respondidas pelo WhatsApp.

Temos feito cada vez menos e, no lugar de informar, “empobrecemos” nossos leitores.

Vou dar um exemplo prático.

Era 2021. Um release chegou na redação em que eu trabalho mostrando dados sobre a abertura de novas empresas em Mato Grosso ao longo de 2020. À primeira vista, eram dados animadores. Só no segundo quadrimestre daquele ano, 22 mil novos negócios criados no Estado. Um crescimento de 10% na quantidade de empresas abertas.

Mas “algo de errado não estava certo”. O contexto era a pandemia e a crise econômica que veio junto com ela, causando desemprego e falências.

O mesmo release afirmava que, entre as atividades desses novos “empreendedores”, as que mais se destacavam eram vendas, seguida do ramo de estética. Ou seja, mais de 11 mil pessoas que “viraram empresárias” eram vendedores, cabelereiros, manicures, maquiadores.

De volta ao contexto, o setor de serviço — e os salões de beleza estão nesse nicho de mercado — estava na lista dos mais afetados pelas medidas de isolamento social, a ponto de virar polêmica se o ofício de cabelereiro poderia ou não ser considerado um serviço essencial.

Logo, não seria estranho supor que esses cabelereiros, manicures e maquiadores não eram realmente empresários. Estavam mais para pessoas desempregadas que se viram obrigadas a empreender para tentar manter alguma renda.

Até o mais acomodado dos jornalistas deveria perceber isso. Seria preciso ser um extraterrestre e ter caído na Terra há poucos dias para não estranhar os dados. Mas poucos não se limitaram a simplesmente reproduzir o release.

E nossa rotina nas redações está repleta de outros casos não tão óbvios assim.

Nós desistimos do jornalismo?

Uma pergunta que não me sai da cabeça é: por que paramos de questionar? Por que paramos de indagar se aquilo que está diante dos nossos olhos faz sentido, se aquilo que foi dito é mesmo a verdade? Por que continuamos nesse “piloto automático”, se está tão claro que estamos no caminho errado?

Quando iniciei a carreira, não tinha a experiência necessária para entender porque certas coisas pareciam não ter sentido. Além disso, precisava me enquadrar em um mercado de trabalho que, na minha avaliação, exigia aquele “padrão” de jornalismo. Hoje, tenho convicção de que aquilo que eu sempre achei errado, estava errado de fato. E, infelizmente, parece que só piora.

Uma mudança é mais necessária, mas sinto que, a cada dia que passa, fica mais difícil praticá-la. É um sentimento que me fez pensar em largar a redação e até o jornalismo. Mas, enquanto esse dia não chega, acredito que o mínimo que posso fazer é ser uma voz (hoje sei que não estou tão sozinha quanto eu imaginava) que clama por boas práticas na profissão.

O mercado, de fato, impõe um ritmo desumano e industrial. Mas nós PRECISAMOS fazer diferente. Estar inconformado é o começo.

Autor

Laura Nabuco é jornalista formada pela Universidade Cândido Rondon (incorporada pela Universidade de Cuiabá). Atualmente, responde como editora-chefe do site O Livre. Trabalhou como repórter e editora dos cadernos de Política dos jornais Diário de Cuiabá e A Gazeta, além de ter passagens como assessora de imprensa na Assembleia Legislativa de Mato Grosso e outros sites de notícias locais.