Uma das teorias que explicam a crise que o jornalismo vive nos dias de hoje é a do jornalismo declaratório. A fuga de anunciantes causada pela transformação digital estaria empobrecendo os meios de comunicação e comprometendo, por consequência, as redações e a qualidade do conteúdo produzido pelos veículos.
Num ambiente onde os recursos humanos são escassos, também falta tempo para fazer o básico, ou seja, checar as informações. Seguindo esta lógica, a escassez acaba preenchida com declarações que não são confrontadas com dados, fatos ou até mesmo versões diferentes da mesma história, o que em tese deveria ser a essência do jornalismo.
Àqueles que acreditam nesta teoria, a cada dia faltam mais recursos e sobram mais declarações alimentando um círculo vicioso que deixa o conteúdo ainda mais pobre de informação, portanto, menos interessante para o público.
No entanto, uma outra versão é possível para explicar o surgimento do jornalismo declaratório. E parte do problema teria origem no processo de desintermediação da mídia. À medida que os meios de comunicação foram perdendo o monopólio da informação, muitas autoridades e personalidades – as fontes da notícia de uma forma geral – passaram a usar outras mídias para chegar ao público.
Num primeiro momento esta tendência parece inofensiva, algo que faz parte de um novo modelo de consumo da informação no qual todos são potenciais produtores de conteúdo. Mas a situação se agrava quando estas mesmas fontes passam a evitar os meios de comunicação, priorizando apenas outras mídias para garantir o direito de não serem confrontados por suas declarações e fazendo com que prevaleça uma narrativa que lhes é favorável.
Neste cenário, o prefeito já não precisa da imprensa para anunciar uma nova obra, mas também não será questionado se o dinheiro deveria ir para outra área. O jogador de futebol pode comentar a vitória do seu time em uma live do seu Instagram, mas se esquiva de dar declarações quando a equipe perde. A celebridade consegue dar spoilers do seu novo papel na novela com vídeos curtos no TikTok, mas evita que alguém aborde suas polêmicas pessoais.
Talvez por isso, surge um movimento quase espontâneo, nos meios de comunicação, de evitar o mal-estar natural que surge quando se é obrigado a confrontar as fontes com fatos e dados. O jornalista, então, se limita a captar as declarações e, com isso, mantém uma relação amigável entre fonte e o veículo.
Nesta dinâmica, após colher a declaração com perguntas de conexão e não de questionamento, a análise do que foi dito acontece em um segundo momento, dentro do processo de construção da notícia. É neste contexto que ganha relevância o fact checking de entrevistas que confrontam as declarações aos fatos, comparando o que é verdade ou não. A mesma lógica se aplica aos comentaristas políticos que, distantes fisicamente das autoridades, conseguem analisar as declarações de forma mais crítica e contextualizada.
O caminho mais óbvio para os críticos dos meios de comunicação é apontar que a crise do modelo de negócios estaria justamente na omissão do jornalismo em sua responsabilidade de questionar os entrevistados. Mas isso não leva em conta que o risco de perder o acesso à fonte da informação pode ser ainda mais prejudicial, favorecendo a prática do jornalismo declaratório.
Uma vez que o veículo perde o acesso à fonte, ela certamente buscará outro canal – seja de notícia ou mídia social – para fazer tal declaração. Isso agrava o processo de desintermediação da imprensa e terceiriza a responsabilidade de trazer à público aquela versão ainda que, num primeiro momento, esteja descontextualizada de outros fatos ou versões.
Soma-se a isso o tom inquisitório com que muitas entrevistas e sabatinas assumiram, como se para confrontar declarações com fatos ou dados fosse obrigatório submeter a fonte a um constrangimento público para livrá-la moralmente da culpa de ter divulgado uma informação de forma imprecisa do ponto de vista jornalístico. O público manifesta aversão a este modelo de entrevistas e tem por instinto a tendência de ficar do lado que se mostra acuado, na posição de vítima (ainda que circunstancial).
Por fim, vale lembrar que existe ainda um terceiro caminho possível para o excesso de declarações nos meios de comunicação. Justificados pela necessidade de trazer os muitos lados de uma história, no lugar de ampliar e contextualizar a informação, muitos meios acabam se limitando a expor versões declaradas deixando ao público o julgamento opinativo.
A proposta deste artigo não é defender o jornalismo declaratório, mas entender os possíveis cenários que fazem deste modelo um fenômeno crescente. Está claro que, em todos estes cenários, a qualidade da informação é prejudicada, reduzindo a relevância do jornalismo em geral. Mas como reverter esta onda que parece a cada dia ganhar mais força?
Parte da resposta reside em voltar a fazer o básico e revisitar os bons e velhos pilares do jornalismo. Porém, ao mesmo tempo é necessário inovar e repensar a forma como abordamos estas fontes, extraindo delas informação que não seja meramente declaratória, mas que tampouco precise soar com uma acordo de delação premiada.
O fato é que mesmo que os veículos optem por não dar mais espaço ao jornalismo declaratório, este conteúdo terá cada vez mais lugar na sociedade através das redes sociais e, de uma forma ou de outra, acabará repercutindo na imprensa. São muitos os casos recentes de lives, podcasts ou vídeos amadores que pautam debates importantes.
Por que, então, estamos terceirizando esta responsabilidade, ainda que a origem seja uma declaração? Nossos colunistas não farão comentários acerca do tema de qualquer maneira num segundo momento? Não vamos suitar o assunto com enfoque em contexto de qualquer forma? Somos tão superiores ao ponto de que só vale ter acesso a uma fonte se pudermos extrair dela o que quisermos, no formato que melhor nos convém?
Precisamos ter a humildade de reconhecer que já não detemos o monopólio da informação e tampouco somos os únicos caminhos para se revelar a verdade. Talvez seja a hora de aposentar, de uma vez por todas, a capa de super-homem, assumindo que é o disfarce de Clark Kent o que mais condiz com a nossa realidade – e que nem por isso deixamos de ser bons jornalistas.
