Todos os anos, um batalhão de profissionais de comunicação ruma para o South by Southwest, em Austin, no Texas, para tentar decifrar o que será tendência nos próximos meses. Curioso notar, porém, que fala-se muito pouco sobre os impactos que o evento tem sobre os rumos da mídia – e do jornalismo. E sim, as discussões são profundas e os caminhos, interessantíssimos.

Neste ano, claro, tudo girou em torno da inteligência artificial. Na esteira do Chat GPT – que tomou de assalto as manchetes e as conversas em praticamente todos os fóruns -, o SXSW foi monopolizado pelas IAs. Até tivemos, como sempre, muitas discussões sobre temas como segurança digital, tratamento e cuidado com dados, realidade aumentada, metaverso, futuro do lazer e tantos outros assuntos intrigantes. Mas, rigorosamente, todos os momentos foram pontuados pela interseção com a inteligência artificial. E, claro, com o jornalismo não poderia ser diferente.
Faço um corte para 2016. Naquele ano, uma longa e profunda trilha sobre jornalismo permeou o SXSW. Uma mesa me chamou atenção: “Newsopalypse: Can Digital Really Sustain Media?” (Newsopalypse: o digital pode mesmo sustentar a mídia?) – um trocadilho envolvendo a palavra “news”, notícia, e apocalipse. O encontro trazia o “Chief revenue office” (o diretor de receita) do Washington Post, Jed Hartman, além de Joe Mandese, do MediaPost, Joy Jones, da AP, e Lindsay Nelson, da Vox Media. Todos pesos-pesadíssimos da indústria. Uma das conclusões da mesa era de que diversificar as fontes de receita se mostrava imperativo e urgente. E a outra, de que a plataforma é parte do conteúdo, da experiência (e, consequentemente, do valor da entrega). Quem tem a melhor entrega, a melhor experiência, ganha mais.
Um dos erros da atualidade é separar a produção da plataforma da produção de conteúdo. Os dois têm que estar juntos, criando, pensando e distribuindo conteúdo. Conteúdo é o rei. E a plataforma é a rainha. Você tem que ser fantástico no conteúdo, mas também tem que ser fantástico na tecnologia, na plataforma, disse Lindsay Nelson, da Vox, na ocasião.
De volta a 2023, ficou a sensação de que não andamos muito. Um ano antes do “newsopalypse” de 2016, Jonah Peretti enfeitiçara os produtores de conteúdo com o “modelo Buzzfeed”, baseado na conversão por emoção e apelando para o que há de mais profundo na humanidade. E hoje nos vemos numa encruzilhada: a inteligência artificial chegou a um ponto que parece estar próxima de atingir o estado da arte em produção de conteúdo. Porém, ainda sem o “buzzfeedismo”, a emoção, o toque humano.
Se em 2016-2017-2018 nos digladiamos com alt+right, fake news e algoritmos enviesados, buscando o que há de pior na humanidade com fins obscuros, em 2023 parecemos estar perto de uma forma de automatizar o que for “commodity” e focar naquilo que é humano. Emocionar, fazer rir, chorar, informar, educar (e aqui vale uma referência ao modelo de produção de conteúdo “User Needs”, de Dmitry Shishkin).
E foi mais ou menos este o caminho que o South by Southwest 2023 tomou – olhando sob a ótica do jornalismo (e da produção de conteúdo, se quisermos abrir o leque). ChatGPT, Jasper, Dall-E, QuillBot e tantas outras ferramentas, já disponíveis (e utilizadas em pequena escala), foram consolidadas e “colocadas em campo”. E, mais uma vez, o jornalismo peca em dois pontos: o ceticismo, que se torna uma barricada para discussões mais profundas, e o corporativismo, que insiste em defender padrões pouco saudáveis nos negócios jornalísticos atuais.
Jogo luz sobre o ceticismo. Nas mesas sobre IA para mídia, nos corredores, nos emails e fóruns, sobressaíam os argumentos de que 1) a IA não está pronta, 2) a IA não é confiável, 3) a IA não é ética, 4) a IA é de alta complexidade de implementação. Novamente, repetimos os erros da informatização das redações, da “internetização” das redações, da Googledependência e Facebookdependência de nosso ofício. Discutimos pouco e agimos menos ainda. A consequência foi o absoluto caos – desde a ausência em mecanismos regulatórios até o canibalismo de nossos processos jornalísticos em prol de audiência para alimentar os monstros que fingimos não ter visto. O “newsopalypse” – o apocalipse das notícias e de seu modelo de negócio.
A IA, de fato, não está pronta, logo, não é confiável. Mas, a internet está pronta? Ou estava pronta quando entregamos nossos negócios para algoritmos ainda em maturação? Certamente não. É exatamente esta a hora de embarcarmos, discutirmos, participarmos desse ciclo de desenvolvimento que, mais uma vez, irá revolucionar produção, consumo e monetização. Temos aqui uma esperança de renascimento, e para isso, precisamos ter voz ativa nesse processo de maturação e adoção da IA para que possamos fazer o melhor uso possível dela.
A IA, evidentemente, não é ética e nem moral. Afinal, a IA não é humana. A Ética Socrática é baseada em valores morais, em caráter, na razão, na autonomia. A IA executa funções a partir do corpus que “devorou”. Tanto Platão quanto Sócrates entendiam a ética como uma consequência da sabedoria, da “consciência do que se faz”. Já a máquina, não, ela não “sabe” o que faz. Como me disse Garry Kasparov, lenda russa do xadrez, no SXSW, a “a humanidade tem o monopólio da maldade. Deste modo, a IA não pode nos causar mal”.

A IA tampouco é de complexa implementação. Ferramentas de smart publishing, já disponíveis, podem se beneficiar dos processos de automação, síntese e distribuição. Repórteres podem usar a IA para transcrever, traduzir, criar tópicos, manchetes, para fazer apurações sobre dados estruturados. Profissionais de performance podem usar a IA para cruzar dados, criar apresentações, dashboards, fazer buscas em bancos. Fact-checking, e jornalismo de dados podem ter uma revolução, tanto em processo quanto em escala. Times de produto podem acelerar o desenvolvimento, as correções de bugs e a implementação de novas features, visando ao alto impacto e com baixo esforço. É um ganha-ganha-ganha-ganha.
Sendo assim, as discussões do SXSW, em 2023, focaram na Inteligência Artificial. É verdade que boa parte das conversas mantiveram suas reservas e torceram o nariz para as novas tecnologias, mesmo que a ampla maioria dos presentes sequer tivesse tido contato com qualquer uma das ferramentas disponíveis.
Um dos “cases” lembrados no festival foi como, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, a redação do “The New York Times” caçoava da tal “world wide web” – apelidada de “world wide wait”, por sua lentidão, digamos assim. No Brasil, eu vivi experiência similar, no Jornal do Brasil online – a internet era o “solavanco necessário”. Outros veículos entenderam a web como um “monstro que ameaçava a TV”. E, à época, olhamos pro lado e fingimos que a WWW não era nada e não iria a lugar algum. Temos agora, com a IA, uma rara chance de reconstruir o jornalismo e recuperar o tempo perdido. Meu conselho? Testem, abracem, discutam, implementem. Sobreviver a um novo “newsopalypse” é muito, muito difícil.
Outros tópicos do SXSW
Metaverso – Sim, ele está vivo. O assunto mais quente de 2021 e 2022 não tomou a proporção que se esperava. Mas não foi enterrado. Para a futurista dinamarquesa Sofie Hvitved, a iniciativa ainda está limitada por tecnologia e orçamento. E sim, vai ter um papel fundamental na economia do futuro. Para Arnold Ma, da agência digital Qumin, lembra que o “Grande Metaverso Chinês”, estruturado pelo partido comunista, vai movimentar US$ 8 trilhões nos próximos anos, lastreado pelas gigantes Tencent, Alibaba e Baidu, com a ByteDance, do TikTok, correndo por fora.
Extended Reality (XR) – O termo genérico foi criado para agrupar tecnologias como Realidade Virtual (VR), Realidade Aumentada (AR) e Realidade Mista (MR). Em 2023, o SXSW montou um andar inteiro com experiências sensoriais e imersivas impressionantes. Você podia emular como é ver o mundo como os autistas veem, sentir cheiros, sensações táteis, viver a experiência de estar no meio de um local bombardeado na Ucrânia ou na plateia de um show de K-Pop. O grande aprendizado da feira é que o XR, hoje, é limitado apenas pela nossa capacidade de criar conteúdo e experiências. As plataformas evoluíram assustadoramente e há um nicho enorme a ser aproveitado.
Dados – A privacidade dos dados se tornou pilar do SXSW. Ancorados por Brittany Kaiser, a analista que expôs o escândalo da Cambridge Analytica, uma empresa que usava dados roubados do Facebook, a trilha de privacidade contou com nomes como Ian Beacraft, do mensageiro Signal, e Garry Kasparov, ativista da privacidade digital, passando por Michal Pechoucek, CEO da Gen e um dos maiores especialistas no campo do planeta. O dado seguirá como o ativo por muitos anos – e seu uso, hoje, é limitado pelos recursos de processamento.
Blockchain e Bitcoin – Parecem estar cada vez mais assimilados. Se antes eram trilhas isoladas, agora estão presentes em praticamente todos os setores. Dos micropagamentos e financiamentos, à inovação, aos games e organização urbana.
A tecnologia existe e está cada vez mais se desenvolvendo. Como as usaremos – e não se as usaremos –, é a questão que ainda cabe a nós decidir.
