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Quando Ana Brambilla escreveu no Linkedin a respeito de escolher o que publicar, de dar atenção a uma coisa ou outra, me lembrei das palavras do premiado fotojornalista Damir Sagolj quando ele fala a respeito da interferência na realidade (no caso dele, das fotos) quando se tira da bolsa uma câmera.

Escolher é essencial. Edição é escolha. Mas se nossa presença altera a cena, já não estamos mais falando de realidade.

Damir Sagolj diz: seja invisível.

“Eu entro em cena tentando ser o mais invisível possível. Eu não sou aquele que vai entrar com a câmera e começar a dar zoom in e zoom out para cima e para baixo”.

“Entro literalmente com as mãos no bolso e depois pego minha câmera e faço um ou dois cliques”.

“Você não quer ser um fotógrafo que entra no espaço privado de alguém tentando capturar a realidade porque, então, já não é realidade”.

Outros documentaristas e fotógrafos dizem mais ou menos a mesma coisa.

E eu, que venho do mundo texto mas costumo olhar também pelas lentes das câmeras, experimento isso toda vez que fotografo.

Basta apontar uma lente que a cena muda. Seja num baile, num show, nas ruas de uma cidade – a mentalidade selfie está por toda parte.

Por isso, muitos profissionais estão optando por usar celulares ou pequenas câmeras para registrar histórias, a fim de ter a menor interferência possível na cena.

Vejo que o mesmo pensamento vale quando estamos diante da observação para um texto. Observar nossas escolhas, graduar nosso olhar e, assim, buscar chegar o mais perto da realidade de uma situação sem interferir nela.

Obviamente, a não interferência é uma situação utópica. Mas é uma realidade que, se chegamos num lugar e observamos primeiro antes de tirar uma câmera, um gravador ou um bloco de notas da bolsa, conseguimos perceber melhor, captar de forma mais próxima da realidade sem interferir – muito – nela. Se não invisível, ao menos discreto o suficiente para não alterar o que se está vendo.

E investigar na base, ouvir mais.

Faço essa reflexão porque eu mesmo venho percebendo que essa volta pra base – o estar na rua – é a essência que precisamos ver no jornalismo em um mundo superlotado de opiniões, achismos, histórias plantadas e desinformação.

Na minha troca de mensagens com Ana Brambilla, ela me fez algumas observações.

“Não poderia concordar mais quando tu falas: ‘se a gente chega num lugar e observa primeiro, consegue perceber melhor, captar melhor’.  

E pergunta:

“Vejo que este ‘perceber melhor’ é um perceber ‘mais fiel’ à verdade. Faz sentido? Será que é disso que estamos carecendo, como humanidade? Temos tanta versão sobre tanta coisa… Está nos faltando verdade na vida? Nas relações? Na mídia, at all?”

Grandes questões.

Um perceber mais fiel à verdade? Prefiro não dizer a verdade porque a verdade pode incitar a discussão do que é verdadeiro ou não.

Minha opção é usar a palavra precisão, como aconselha Aidan White, fundador e presidente de honra da Ethical Journalism Network.

Na visão dele, com a qual concordo, existem cinco valores centrais do jornalismo e o primeiro deles é a precisão – os outros são a independência, a imparcialidade, a humanidade e, por fim, a responsabilidade pelo que se publica.

“Precisão é muito importante. Portanto”, diz White, “o primeiro princípio é a precisão. Não fazer o manuseio enganoso dos fatos. Trabalhamos com fatos. Informações baseadas em fatos”.

O fotógrafo documental Dan Milnor, atualmente, prefere usar equipamentos discretos, justamente para que sua simples presença como fotógrafo não altere a realidade que ele quer retratar.

“Mais equipamento, menos acesso. Fica muito claro: esse aí é um fotógrafo profissional”, constata.

“Hoje as pessoas não querem estar perto de uma pessoa que carrega uma tonelada de equipamentos”.

O mesmo acontece com o fotojornalista Hélio Campos Mello. Quando foi preso no Iraque, durante a Guerra do Golfo, em 1991, ele levava na bagagem 38 quilos de equipamentos fotográficos.

Nos dias de hoje, ele trabalha em um projeto que busca mostrar, com humanidade, a vida e história da população em situação de rua de São Paulo, fotografando com uma câmera simples. Seu objetivo, em primeiro lugar, é a conexão pela empatia, percebendo as pessoas e seus sentimentos.

“Eu procuro chegar de leve. Conversar, saber quem são, de onde vieram, suas razões. Enfim, olhar o humano em primeiro lugar. Depois as fotos”, explica Campos Mello.

Obviamente, são situações diferentes e objetivos distintos, mas anoto aqui para registrar a comparação entre os dois momentos e reforçar a ideia da não interferência.

Gosto de pensar como os fotojornalistas, pois a foto resume. É foco no que importa, na simplicidade, no essencial.

Dan Milnor explica:

“Você tem que pensar no que está acontecendo à sua frente. Especialmente se você é um fotógrafo documentarista baseado na realidade”.

“Eu não orquestro as coisas em campo (…) Não arranjo as coisas. Se você arranja imagens você não é mais um fotógrafo documentarista”.

Mas, voltando às perguntas de Ana Brambilla: Temos tanta versão sobre tanta coisa… Está nos faltando verdade na vida? Nas relações? Na mídia, at all?”

Do jeito que vejo está faltando precisão no relato e foco no que estamos vendo. É preciso, de um lado, tempo de observação para evitar avaliações precipitadas ou enviesadas e, de outro, essa não interferência de que estamos falando.

E falta também outro dos cinco valores centrais do jornalismo: humanidade.

O fotojornalista Farn, de Singapura, é mais um que optou por usar apenas uma câmera e uma só lente para documentar seus trabalhos e buscou refinar seu olhar a fim de enxergar de forma mais humana.

“A fotografia é um meio poderoso de contar histórias. E há histórias importantes que precisam ser contadas e não aparecem na mídia tradicional”.

Ele conta que a primeira vez que foi a um campo de refugiados, não sabia nada a respeito. Foram muitas e muitas visitas, conversas, convivências, até o dia em que, ao ampliar uma foto, foi tocado pelo olhar de uma criança.

“Quando ampliei a foto, olhei nos olhos dela e me vi através dos olhos dela”.

E assim surgiu a exposição The Boat That Moves Forward, em parceria com o também fotógrafo Amirnorashid Bin Amari (conhecido como Am), mostrando a vida e as pessoas do Campo de Refugiados de Rohingya.

“Conte uma história que realmente importe. Uma narrativa”, diz Farn.

Portanto, talvez seja justamente isso que esteja faltando na nossa forma de mostrar a realidade: refinar nossa forma de olhar e contar histórias que realmente importam.

Foi o que fizeram Farm & Am no campo de refugiados. Observaram e sentiram o que observavam.

E sentir é muito importante, pois no mundo hiperconectado de hoje, é fácil se deixar levar por versões superficiais ou nem sempre verdadeiras dos fatos.

Cabe a nós, jornalistas, acredito eu, conseguir tempo, calma, precisão e humanidade suficiente para nos permitir um olhar mais profundo nos olhos das pessoas, a exemplo do que fez Farn, e assim captar com algum grau de verdade o que está muito além das lentes.