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Aprende-se que, no constante exercício da profissão jornalística, é sempre imprescindível ouvir os dois lados de um fato, e que esta seria [teoricamente] a atitude ideal do bom jornalista! Mas, na prática, sabemos que ouvir os dois lados e garantir a imparcialidade tão sonhada pela grande mídia é tão difícil  – ou praticamente impossível – se levássemos em conta a essência fundamentalmente humana do jornalismo. 

A ideia defendida por Geneva Overholser em “Death to bothsidesism” nos traz à vida real e expõe a tentativa frustrada do mainstream em buscar uma neutralidade utópica na produção de notícias. A jornalista, veterana do The New York Times e do The Washington Post, defende o fim dessa isenção que, no fim das contas, acaba por apresentar uma “realidade a preto-e-branco ao leitor”. Além disso, afirma que a mesma imparcialidade faz com que “as pessoas pensem que não há nada sólido em que possam acreditar”.

Por essas e outras razões, fica difícil aceitar que a regra de ouro – defendida não só pelos publishers brasileiros como no mundo todo, desde o século passado – esteja cada dia mais comprometida.

E você, caro leitor, deve estar se perguntando: se a objetividade não serve ao jornalismo, o que, então, podemos fazer?

Podemos, todas as noites, deitar nossas cabeças no travesseiro com muita tranquilidade, sabendo que nossa sociedade (ainda) suporta a liberdade de defender pontos de vista sem que falemos obrigatoriamente dos dois lados de um fato. “Mas, com isso não estimulamos a bolha?”, podem perguntar. Também. Contudo, o jornalismo não é o grande culpado nessa história. Enquanto os veículos procurarem a verdade – nem que para isso tenham que declarar o fim deste “Doisladismo” – e tiverem a noção de que juntos podem manter a democracia, então grande parte da missão estará cumprida. 

Por isso, considerando o contexto mercadológico em que veículos de diferentes posições podem (e precisam) coexistir, não seria esta uma evolução do modo de se defender a democracia?

Quando falamos da constante luta pela informação é fácil imaginar que em um canto do ringue estão os grandes veículos de comunicação, com a paciência, experiência e credibilidade que só o tempo pode conceder. No outro, o adversário jovem e impetuoso das redes sociais, que não quer esperar soar o gongo para nocautear seu oponente com seus longos braços internéticos.

Todavia, é preciso nos questionarmos sobre uma coisa nessa batalha: ela deveria, de fato, estar acontecendo?
A verdade é que ela já começou, e ainda não podemos enxergar quem será o vencedor.

Podemos assisti-la de camarote quando, por exemplo, youtubers famosos, celebridades de todos os tipos começam a pressionar plataformas de produtos online, marcas e veículos importantes de mídia a se dobrarem perante a fúria do que ultimamente chamamos de “cultura do cancelamento”.

Neste cenário, porém, enquanto o trabalho do jornalismo deveria trazer novas ideias aos leitores, informar o público sobre as perspectivas e estar acompanhado dos mais recentes questionamentos, o poder influenciador das redes está – como bem disse Bari Weiss em sua carta aberta ao NYT – trabalhando para que o jornalismo encerre os debates e traga uma clareza moral que não é própria de sua natureza.

Enfim, o jornalismo pode ter vencido alguns rounds durante um tempo, mas quantos outros não perdeu nessa luta infame e infinda?

No dia do jornalista, 7 de abril, fui surpreendido por um post no Facebook. Seu autor, Eduardo Castro, brilhante jornalista, mexeu com o coração do seu ex-professor de ética da comunicação. 

“Amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar. Foi o que você disse no dia da minha formatura e eu lembro todos os dias que levanto para trabalhar. Parabéns, professor”. 

Confesso que me emocionei. Ao mesmo tempo, caro Eduardo, ao revisitar o que eu te disse lá atrás, e que você não esqueceu, renovei minha convicção da importância daqueles valores: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade radicalizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor.  Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá blá blá  na entrada do Palácio da Alvorada, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo não deve confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa  e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. 

Chegou a hora do jornalismo propositivo e inspirador.