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Meu primeiro contato com a tecnologia blockchain foi em uma visita ao escritório da Civil Project, em Nova York. A Civil tinha por objetivo criar uma rede descentralizada de produtores de conteúdo independente e conectá-la por blockchain aos consumidores de notícias. A plataforma também pretendia ser livre de anúncios. É de conhecimento geral que a publicidade ainda é a principal viabilidade econômica para o sustento de empresas jornalísticas. Mas este panorama está mudando…

A Civil Project iniciou suas atividades em 2017, quando o mercado de criptografia começava a tomar corpo, mas terminou no ano seguinte por não conseguir atingir sua meta mínima de subsistência de US$8 milhões anuais.

Blockchain é uma solução com potencial para a indústria do jornalismo, já que permite lidar com dados que precisam ser mantidos sob controle e de forma colaborativa.

Atualmente, a Civil vem tentando seguir na plataforma ConsenSys, através de uma doação de US$5 milhões deste consórcio. Também firmou parceria de licenciamento de conteúdo com a Associated Press (AP), na qual a AP entregaria seu conteúdo, incluindo notícias nacionais e internacionais à Civil, para que as agências de notícias pudessem acessá-las nesta plataforma.

Foi uma das primeiras tentativas e que infelizmente não se concretizou. Mas, então, ainda seria viável aplicar ao jornalismo a tecnologia baseada em blockchain?

Uma pesquisa realizada pelo Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, em Nova York, indica que a tecnologia baseada em blockchain é uma solução com potencial para uma indústria do jornalismo, já que permite lidar com dados que precisam ser mantidos sob controle e de forma colaborativa.

A ideia seria construir uma plataforma onde qualquer leitor interessado poderia assinar um serviço baseado em criptomoeda para checagem de informação jornalística.

Para aplicar essa tecnologia em nossa indústria, precisaríamos das instituições (veículos de comunicação, governos e empresas), de pessoas (clientes, leitores e assinantes) e de mineradores (que cuidariam das transações em criptomoeda).

Blockchain a serviço da credibilidade

O jornalismo tem estado sob forte crítica mundo afora. Mais da metade dos internautas está preocupada com a capacidade em separar o que é real e falso na rede, segundo o relatório de notícias digitais do Reuters Institute. A pesquisa também revela que o nível médio de confiança no noticiário tem caído em todo o mundo e menos da metade dos entrevistados afirma confiar nos meios de comunicação que utilizam.

As redes sociais continuam crescendo exponencialmente, mas seguem sem saber lidar com um problema básico: a incapacidade de impedir adequadamente a disseminação de desinformação. No mundo digital, a linha entre o real e a ficção é cada vez mais tênue, sutil.

Para tentar combater a disseminação de notícias falsas, as chamadas ‘fake news’, a ideia de usar blockchain no jornalismo seria construir uma plataforma onde qualquer leitor interessado poderia assinar um serviço baseado em criptomoeda para checagem de informação jornalística.

O sistema poderia checar não só textos, como também imagens, vídeos e áudios. Estes dados seriam indexados por blockchain, que é imutável, e poderia ser incorporado a qualquer material compartilhado, certificando se um fato seria verdadeiro ou não.

Uma alternativa de viabilidade econômica para o projeto seria ele ser patrocinado pelas próprias gigantes da tecnologia, principais interessadas em diminuir o impacto da disseminação de notícias falsas.

Neste serviço, qualquer tipo de informação jornalística poderia estar armazenada com segurança e ser acessada novamente, como a data e a hora de publicação de um conteúdo (texto ou imagem), a origem das informações contidas em uma reportagem, como ela foi compartilhada, como foi a reação dos leitores ao conteúdo, entre outras coisas.

Estadão foi acusado de difundir fake news. O blockchain teria ajudado a desmentir a acusação?

Um exemplo real de necessidade de checagem de informação foi o caso em que o Estadão foi acusado de propagar notícia falsa ao divulgar uma foto de praia lotada no Rio de Janeiro.

Outro estudo também revela, no relatório anual da Freedom House, que o público vem perdendo confiança na mídia profissionalizada. Pelo 14º ano consecutivo, o nível de liberdade de imprensa vem caindo em todo o mundo, e não é incomum ver, seja em países pobres ou ricos, forças políticas tentando insistentemente desacreditar veículos de mídia profissional. 

O aumento do medo e da violência também estão crescendo na atuação jornalística, à medida em que a liberdade de imprensa cai, como mostram o relatório do Repórteres sem Fronteiras (RSF). Dos 180 países analisados, somente 8% consideram o clima de mídia satisfatório.

Buscar uma solução que fortaleça o trabalho do jornalismo, de forma a tentar neutralizar o impacto da disseminação de desinformação, ajudaria a melhorar as condições de atuação dos profissionais e a fortalecer os laços democráticos e de liberdade de expressão tão importantes para uma sociedade mais justa.


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

Certa vez, ouvi a história de uma empresa farmacêutica que tinha um problema a ser resolvido e não via outra saída a não ser trocar todo seu maquinário. Obviamente, isso demandaria um custo financeiro gigantesco. O problema era que, em sua linha de produção, algumas caixinhas do xarope mais vendido pela empresa acabavam chegando às farmácias com os vidros vazios. Tudo por causa de uma falta de regulagem na máquina que injetava o líquido do medicamento dentro dos vasilhames, a qual, infelizmente, não tinha mais conserto.

Um dia, o diretor da empresa, num último esforço para resolver a dificuldade, convocou uma reunião com todos os funcionários para pensarem juntos numa solução que não onerasse tanto a companhia. Após os diretores darem seus pitacos mirabolantes, com ideias revolucionárias e sem sucesso, uma figura simples – mas com muito vigor – saiu do meio dos colaboradores e surpreendeu o grupo.

Dona Maria, que há 10 anos realizava o serviço de faxina na área de produção – portanto, conhecia o setor como a palma de sua mão – levantou o braço e disse: “Dá licença, desculpe me meter na conversa dos doutores, mas… e se a gente colocar um ventilador ao lado da esteira de produção? Assim, as caixinhas com os vidros de xarope vazios cairão da esteira com a força do vento e não corremos o risco de enviá-las junto das que irão cheias para as farmácias.”

É comum, caro leitor, acharmos que a inovação está nas mais altas tecnologias, na necessidade de novos profissionais, novos “maquinários”, modelos de negócio, na análise de novos dados etc. Mas, no fundo, será que – como os executivos da empresa citada acima – não estamos procurando inserir elementos nas redações que nos provoquem uma sensação de inovação mais do que o verdadeiro tesouro da transformação que vem das ideias simples, de pessoas simples?