Pessoas são seres curiosos. Surpreende o quanto podem deduzir sobre os outros e, ao mesmo tempo, conhecer tão pouco sobre si mesmos. Tal fato é muito claro quando se analisa as ideologias. Não raro, os mais imersos em um pensamento ideológico único acreditam estar acima deste mal, como se nenhum conjunto fixo de ideias guiasse a forma como eles percebem o mundo. Tirando este raciocínio da escala individual e o trazendo ao patamar do coletivo, também percebe-se que sociedades inteiras podem considerar-se “não ideológicas” quando tomadas por uma ideologia dominante.

No livro The Uncensored War, o autor Daniel C. Hallin analisa a cobertura da Guerra do Vietnã feita pela mídia norte-americana. Entre os aspectos discutidos por ele, a ideologia predominante na sociedade da época está no centro da obra. É esta ideologia, afinal, que moldou não apenas o formato da cobertura midiática, mas também o enfoque frequentemente dado pela imprensa dos conflitos que antecederam a entrada oficial do país na guerra.

Hallin explica que o jornalismo da década de 1960 possuía um aspecto ambíguo: ainda que a profissionalização da atividade tenha dado aos jornalistas liberdade para atuarem sem interferências políticas, a necessidade de fazerem uma cobertura isenta e imparcial exigia que acessassem regularmente órgãos internos do governo. Em outras palavras, os profissionais podiam atuar com independência, mas dependiam de informações cedidas pelo governo, por membros da burocracia e por parlamentares em geral.

“De várias formas, a profissionalização do jornalismo nos Estados Unidos fortaleceu, ao invés de enfraquecer, os laços entre a imprensa e o Estado”, escreve Hallin.

Deixar de publicar aquilo que o governo lhes concedia, portanto, significaria resignar da própria objetividade, um dos valores reinantes na época.

Desta forma, o presidente do país tinha a capacidade de controlar o noticiário, pois declarações do Chefe de Governo estavam sempre no topo dos critérios de noticiabilidade. Ao mesmo tempo, criticar abertamente informações oficiais significaria tomar lado no debate e abandonar a isenção.

Mas este aspecto diz respeito apenas à cultura jornalística da época. Havia, ainda, a ideologia de meados do século XX nos EUA, que também influenciava o noticiário. Segundo Hallin, “o consenso bipartidário forjado durante as administrações de Truman e Eisenhower que associaram a política exterior a (uma questão de) ‘segurança nacional’ (…) retiraram a maior parte das decisões relativas à política externa da agenda do debate político”.

Esta ideologia da Guerra Fria, por sua vez, não era detida apenas pelos políticos da época, mas por toda a sociedade na qual se incluem os jornalistas. Um dos motivos para o noticiário conter tanto desta ideologia – cujas crenças eram de que os EUA deveriam atuar no âmbito internacional para conter o avanço comunista impulsionado pela URSS e China – era de que as colunas dos jornais estavam repletas de declarações de oficiais do governo americano. Mas além disso, “os próprios jornalistas estavam tão profundamente imersos na ideologia da Guerra Fria quanto aqueles sobre quem escreviam”.

O mundo vivia em conflito entre o modelo comunista soviético e a democracia liberal americana. E neste contexto, o que estava em jogo era a influência sobre os demais países do globo. O fato de ser uma ideologia, portanto, não implica que seja ruim ou que seja falsa. O problema é que ela “estreite o âmbito do pensamento”, como colocou Orwell no clássico 1984.

E neste sentido, Hallin argumenta que na época anterior à entrada de fato dos EUA na guerra, nenhum grande debate estava acontecendo sobre o direcionamento da política pública do país. Este silêncio “não representava o fim das ideologias, mas o triunfo de uma única sob todas as demais. Era uma época de consenso ideológico e isso era verdade, acima de tudo, na política externa”. O espaço para este debate viria apenas depois e com uma força poderosa, como descobriu Lyndon Johnson, presidente responsável pela escalada dos EUA na guerra.

Esferas de Hallin

O livro The Uncensored War talvez seja mais famoso pela teoria desenvolvida pelo seu autor e atualmente conhecida como Esferas de Hallin. O diagrama elaborado por ele serve para entender como alguns assuntos são tratados na mídia. Afinal, ainda que muitos profissionais da área acreditem que sua cobertura é isenta de paixões, inconscientemente certas temáticas são vistas de formas totalmente diferentes pelos jornalistas.


A primeira das três esferas, Hallin chamou de Esfera do Consenso. Nela estão temas e ideias tidas como senso comum. Nas palavras do autor, “Dentro desta região, jornalistas não se sentem impelidos a apresentar visões opostas (…) Pelo contrário, o papel do jornalista é de servir como um defensor dos valores consentidos”. Na cultura que temos atualmente, é de se esperar que uma ideia como liberdade de expressão seja automaticamente tratada como algo bom no espaço jornalístico. E se for preciso argumentar sobre o tema, será para fazer uma defesa deste princípio. Aqui o jornalista não atua de forma imparcial. Ele sequer questiona sobre o quão bom certo princípio, de fato, é, pois este já está enraizado na cultura à qual ele pertence.

Margeando a Esfera do Consenso está a Esfera da Controvérsia Legítima. Aqui, sim, o jornalista atuará de forma isenta. Afinal, as questões nela contidas estão plenamente abertas a questionamentos e o jornalista não tomará lados. Ao contrário, ele servirá apenas como um transmissor de opiniões. O conceito de ouvir os dois lados caberá para as ideias atualmente em debate pela sociedade.

Por fim, resta a Esfera do Desvio – ou como chamarei, a Esfera da Aberração. Este é o domínio “daqueles atores políticos e opiniões que os jornalistas e o mainstream político da sociedade rejeitam como indigno de ser ouvido”. Aqui os jornalistas “cumprem o papel de expor, condenar ou excluir da agenda pública aqueles que violam ou desafiam o consenso político”. Novamente, neste espaço, o jornalista não atuará de forma isenta. Ele irá assumir que certos valores são ruins e não dará a eles o benefício de serem debatidos. Alguém que defenda, por exemplo, que discriminar e excluir da sociedade determinadas pessoas em função de sua raça, será automaticamente descartada ou invalidada, juntamente com sua opinião, pela mídia. Esta ideia, afinal, é tida como uma aberração pela cultura atual.

Como ideias são fluídas e princípios são moldados pelas circunstâncias, muitos temas e valores podem transitar entre as esferas. E o jornalista, embora goste de pensar que está livre de ideologias, será tão influenciado como qualquer outro pela cultura do momento.

De 1960 para 2020

De uns anos para cá, tanto o Brasil quanto os EUA e boa parte dos países ocidentais entraram em um processo de polarização política. A maior parte do mainstream midiático, acadêmico e intelectual, de forma geral, viu suas ideias e valores confrontados por parcelas significativas da sociedade. É possível encontrar diversos motivos para que estes confrontos tenham emergido de forma tão súbita e potente. Aqui me concentro em apenas dois: falta de consenso ideológico na sociedade e o crescimento das redes sociais.

Boa parte da obra de Hallin se concentra entre os anos 1960 e 1965 e o consenso ideológico do qual ele trata na primeira metade do livro não demorou para se desfazer. Ainda nesta década, avançava no mundo uma ideologia progressista. A contracultura veio para mudar costumes por muito tempo tidos pela sociedade. A libertinagem sexual começava a ser estimulada. O uso de drogas passou a se intensificar. No âmbito político, o papel dominante dos EUA, não apenas como potência mundial mas principalmente como referência cultural, era desfeito. Na França, estudantes protestavam, entre outras coisas, contra o capitalismo e instituições tradicionais como a Igreja.

A polarização dos últimos anos é consequência, em parte, das súbitas mudanças culturais de meados do século passado. A mídia pode ter assumido como consenso as ideologias que se desenvolveram da década de 1960 em diante. Mas as eleições de Bolsonaro e Trump, a aprovação do Brexit e a forte retomada de pautas conservadoras mostram, claramente, que boa parte da população não a acompanhou nesta nova cultura progressista. Ainda assim, faltava a muitos os meios para criticar o senso comum jornalístico e divulgar suas próprias opiniões. Este papel, por sua vez, tem sido cumprido pelas redes sociais.

Não é difícil compreender porque o jornalismo se isolou em uma bolha ideológica própria que reluta em admitir que existe. Acostumados a falar sozinhos, os profissionais de imprensa não perceberam que poderia haver tanta discordância em potencial. Para retomar Hallin, as visões de mundo que jornalistas tinham como consenso estão, para muitos, na Esfera do Debate Legítimo, quando não na Aberração. O fato de acusarem tantos de fake news talvez seja explicado por isso. Afinal, quando se transforma opiniões em senso comum, elas se tornam indistinguíveis de fatos.

Na Esfera do Consenso não estão apenas aqueles valores que a sociedade irá defender; estão ali, também, aqueles cujo mérito ninguém precisa questionar, uma vez que já são amplamente aceitos por todos. O erro de muitos jornalistas foi creditar ao consenso aquilo que é consensual apenas para si e seus pares. A cultura e as ideologias presentes no meio jornalístico simplesmente não são compartilhadas por milhões de cidadãos do Brasil e do mundo.

Este erro, no entanto, não deve ser creditado apenas na conta dos profissionais da mídia. Ele se estende, também, às classes pensantes. São raros os acadêmicos, filósofos, sociólogos e intelectuais em geral que não compartilham da chamada ideologia progressista cujo credo, em sua forma mais extrema, reside em ver nas coisas novas um caminho certo rumo ao progresso e na conservação de práticas e hábitos antigos – como defesa da estrutura familiar tradicional, de valores cristãos, de uma ética de virtudes e não de uma meramente utilitarista – um resquício obscurantista de um passado ainda não contemplado pelo racionalismo.

Neste sentido, é curioso perceber como a atual polarização política e ideológica é apontada como um problema causado por esta parcela da população que não adotou a cultura progressista. O reflexo desta incompreensão por parte das classes pensantes fez surgir uma das culturas mais perigosas dos últimos tempos: a cultura do cancelamento. Seus proponentes, tão certos de que seus valores são consensuais e corretos, não admitem que tantas pessoas possam ter uma opinião diferente das suas.

Este conflito poderia ser amenizado pela simples aceitação de que as questões mais recorrentes dos tempos atuais fazem parte da Esfera do Debate Legítimo. Ao contrário, esta esfera parece estar a cada dia menor e aqueles que discordam dos consensos progressistas são jogados diretamente no rol das aberrações. Na falta do debate, portanto, resta transformar os atuais insurgentes em meras caricaturas a quem não se deveria dar voz, pois são vistos como anomalias de uma cultura racista, fascista, intolerante e intolerável.

Este caminho não pode levar a outro resultado que não a adoção de uma ideologia dominante, embora alcançada não de forma natural, mas pela imposição, que deixará no caminho incontáveis pessoas canceladas.

O jornalismo, espaço essencial da liberdade de expressão, precisa repensar o seu papel neste contexto. Imerso na cultura progressista, ele não precisa necessariamente abandonar os seus valores, mas entender que eles não são consensuais exceto dentro do próprio meio.

E se hoje tantos jornalistas assumem a polarização dos últimos anos como algo ruim, só existe uma solução: retomar a tão atrofiada Esfera do Debate Legítimo para que, com o estímulo de novas discussões e argumentações, a sociedade possa encontrar, de forma natural, novos consensos ou retomar aqueles que ficaram no passado.

Autor

Jornalista, Mestre em Ciência Política. Editor do Orbis Media Review e Professor do Master: Núcleo de Negócios de Mídia.