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João Arantes Payne

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Jornalista, Mestre em Ciência Política. Editor do Orbis Media Review e Professor do Master: Núcleo de Negócios de Mídia.

Li recentemente um artigo sobre os riscos da personalização no mercado de mídia – isto é, questionando uma opinião frequentemente ventilada de que as pessoas querem consumir aquilo que atende os seus gostos. A dinâmica, os algoritmos e a própria natureza das redes sociais nos acostumaram ao entendimento de que “sim”, que personalização de fato é o que todos buscamos.

Entretanto, uma pesquisa recente conduzida na Dinamarca pela Roskilde University põe um ponto de interrogação nesta opinião – pelo menos quando se trata de personalização em conteúdo jornalístico. O levantamento mostrou um número considerável de pessoas que se disseram preocupadas, acreditando que notícias personalizadas poderiam levá-las a perder informações relevantes. Para outras, o conteúdo personalizado tem um risco adicional: evitar com que se deparem com opiniões desafiadoras – isto é, opiniões com as quais a pessoa não concorda, mas ainda assim a desafia intelectualmente.

É claro que a Dinamarca não é o Brasil e que uma pesquisa como esta poderia apresentar resultados diferentes neste canto do mundo. Além disso, há de se considerar que as pessoas frequentemente afirmam uma coisa, mas agem de maneira completamente oposta – como eu que, em abstrato, digo que uma vida saudável é algo a se buscar, quando na verdade como chocolate ao fim de cada refeição.

Ainda assim, a pesquisa instiga uma boa reflexão – na verdade, a reflexão essencial do jornalismo, isto é: o que devemos fazer e como devemos atuar? A resposta padrão costuma ser bem simples: informar o público de maneira ética e responsável, apresentando fatos relevantes, doa a quem doer. A questão é como fazer isso.

Com alguma regularidade, tenho feito críticas ao princípio de “ouvir os dois lados de uma mesma história”. Em teoria, na verdade, não há nada de errado nesta prática. O problema é que, muitas vezes, o mérito de tal proposta tem dado lugar a uma abordagem burocrática, resultando em publicações rígidas e pouco criativas. Não tiro o mérito do repórter e do seu trabalho árduo e essencial de coleta de informações. A crítica se faz apenas em relação ao texto que é apresentado ao leitor, em especial às poucas aspas que abrimos, dando voz a especialistas escolhidos a dedo que, na verdade, não tem muita chance de compartilhar suas observações, já que sempre selecionamos umas poucas palavras que pouco sintetizam pensamentos e argumentos complexos.

Da pesquisa realizada pela universidade dinamarquesa, me chama a atenção o receio compartilhado pelos entrevistados de perderem acesso a opiniões desafiadoras como consequência do conteúdo personalizado. Como já foi dito anteriormente, as redes sociais, com suas indestrutíveis bolhas, mostram que muita gente gosta do seu nicho. Mas esse não é uma realidade em cima da qual devemos nos balizar – e não apenas pela missão do jornalismo, mas porque as redes têm se tornado um ambiente de enfrentamento. Poucos caracteres não são suficientes para elaborar um argumento complexo, então o que resta às pessoas é sintetizar o que pensam e como enxergam seus oponentes ideológicos. O resultado acaba sendo o clima de briga que tanto conhecemos.

A dinâmica de um produto jornalístico tradicional é muito diferente, mesmo porque, ao consumir certo conteúdo, o público assume uma postura passiva muito diferente do comportamento ativo das redes. Mas o que resta às empresas de mídia se, aqui, estou desencorajando tanto a postura de ouvir os dois lados em uma mesma matéria, quanto a postura de assumir um posicionamento ideológico claro?

Uma resposta – que não é fórmula alguma de sucesso – é permitir que cada conteúdo não seja apenas um relato de fatos recheado por uma ou outra seleção de aspas, mas que reflita as análises e opiniões de quem assina a matéria em conjunto com as informações previamente coletadas. De forma sincera e aberta, profunda e propositiva, opiniões se tornam um excelente recheio para qualquer conteúdo, que passa a ser único por refletir a alma de quem escreve. Pessoas se conectam com pessoas, o que faz desta abordagem uma ótima forma de a audiência perceber que existe um humano, e não uma fórmula, dando vida ao conteúdo. Como coloca Esther Thorpe no Media Voices, “audiências reais querem notícias reais feitas por pessoas reais”.

Lembrando que boa parte do público deseja ser desafiado por opiniões. Mas isso significa que elas sejam muito bem fundamentadas, caso contrário não são desafiadoras. Se for para defender um ponto, é preciso trazer os argumentos mais profundos possíveis. Se for para criticar uma determinada postura, é preciso primeiro entender verdadeiramente os seus fundamentos – caso contrário, criticamos uma caricatura, batemos em um espantalho e, acima de tudo, ofendemos a audiência. Mas uma defesa ou uma crítica sólida, bem fundamentada e interessante será capaz de encontrar um leitor curioso.

Isso significa que todo o público vai admitir, se encantar e consumir este tipo de conteúdo? Não e nunca! Nunca conseguiremos o engajamento de todos, embora lutemos tão fortemente contra qualquer faísca de opinião em uma reportagem tradicional com receio de incomodar certa parcela da audiência. Ao contrário, frequentemente acabamos ocultando estas opiniões, que nem por isso deixam de existir, por detrás de um linguajar de objetividade.

Sem dúvida, ser fiel aos fatos apurados é essencial para que aquilo que publicamos continue merecendo o nome de jornalismo. Mas apresentação de fatos, o desenvolvimento de análises e a emissão de opiniões bem fundamentadas não são excludentes. Aqui no Orbis já apresentamos diversos veículos que trabalham com um conteúdo que mistura a objetividade dos fatos com a subjetividade de quem escreve. Não há problema intrínseco nisso. Diante da atual overdose de informações e de conteúdos compartilhados, talvez este seja um caminho que ofereça um diferencial verdadeiro para o público.

Obter resultados financeiros consistentes produzindo conteúdo noticioso continua sendo um desafio notável para inúmeras empresas de mídia. Os problemas apontados são inúmeros e bem conhecidos: as preferências dos consumidores mudaram, o formato do conteúdo jornalístico não tem mais um grande apelo, estamos perdendo a luta pela atenção para a indústria do entretenimento…

Todos são pontos válidos que, por vezes, geram uma dúvida ainda mais dramática: será que o jornalismo se tornou obsoleto?

Antes de responder essa pergunta, é interessante pensar de onde vem o valor de um determinado produto, já que boa parte do nosso drama deriva disto. Para entender este ponto, proponho olhar para outros mercados que têm muito a ensinar, permitindo uma análise sobre nossa própria situação e para onde podemos ir.

 

Um problema de precificação

Qualquer empresa ou negócio lutará para aumentar a margem de lucro do seu produto. Se esta margem for muito baixa, afinal, talvez nem seja interessante produzi-lo. Neste sentido, os negócios de varejo não se encontram em uma situação muito legal, e o motivo é bem claro: não é possível vender um microondas, uma televisão ou um jogo de panelas por um preço muito mais alto que aquele adquirido pela própria loja, pois o que não falta aos consumidores são opções. Assim, se a empresa X tem o impulso de vender um microondas por duas vezes o seu valor de mercado, a consequência é que ela simplesmente ficará sem clientes, que passarão a comprar na loja Y ou Z por um preço muito mais adequado.

Sem ter, portanto, margem para aumentar o preço dos produtos vendidos, resta às empresas de varejo reduzir seus custos e aumentar sua eficiência para poder vender a preços mais baixos.

Nem todos os outros setores do mercado vivem a mesma situação. A Apple certamente não pode aumentar o preço de seus produtos indefinidamente sem arriscar perder clientes, mas ela – bem como qualquer outra empresa de tecnologia – consegue ter considerável autonomia para definir o quanto eles valem. Uma nova linha de smartphones mais finos, elegantes, com melhor bateria ou uma tela dobrável. Tudo isso são diferenciais sobre a concorrência – e diferenciais que influenciam no quanto uma empresa consegue cobrar por eles.

Quando olhamos para cada mercado separadamente, portanto, vemos duas situações diferentes: uma empresa que revende produtos costuma ter pouca flexibilidade para definir seus preços porque o mercado está saturado de itens iguais ou muito semelhantes. Já uma empresa de tecnologia – e de muitos outros setores – não encontra o mesmo problema porque ela é a única produzindo aquele produto. Sim, há uma boa oferta de smartphones por aí, mas apenas a Apple produz o iPhone e apenas a Samsung produz o Galaxy. Assim, cada empresa define o quanto cobrar pelo seu dispositivo.

O fator da subjetividade é outro a entrar em campo. Embora seja fácil calcular o custo de produção de uma tela dobrável, é muito mais difícil definir o valor que isso gera para os possíveis compradores. As empresas podem trabalhar em cima deste fator para aumentar o quanto cobram pelos produtos, ainda mais se a tela dobrável for algo que somente você tem a oferecer. Já as empresas que revendem não tem quase nada de subjetivo e único a oferecer; ao contrário, os clientes levarão em conta apenas fatores objetivos na hora da compra como preço e a melhor oportunidade de parcelamento.

Em suma, quanto mais uma empresa consegue trabalhar com a percepção de valor do seu produto – que aumenta quanto mais exclusivo ele for –, mais ela conseguirá aumentar seu preço e, portanto, sua margem de lucro.

 

Como esta lógica se aplica ao jornalismo?

Não é fácil definir o valor de um produto jornalístico. Em geral, os preços cobrados em assinatura, por exemplo, acabam sendo definidos pela disposição do público em pagar pelo que temos a oferecer. Como profissionais do setor, nossa tendência, naturalmente, será pensar que o que fazemos vale mais do que R$ 20,00 ou R$ 30,00 de mensalidade. A história e legado do jornalismo corroboram essa crença.

Ainda assim, aumentar o preço cobrado é sempre um risco, e sabemos que há um limite do quanto podemos exigir dos leitores – mesmo daqueles que mais se interessam pelo que temos a oferecer. Para entender como podemos trabalhar melhor o nosso produto e precificá-lo de acordo, é útil entender de onde vem o nosso valor. Aqui, selecionei dois critérios:

1 – Tradição e credibilidade: O peso deste critério é inquestionável. Jornalistas sabem muito bem que credibilidade não se cria de um dia para o outro – embora possa se deteriorar rapidamente caso a publicação derrape na apuração dos fatos com regularidade. O público também reconhece este valor, de forma que veículos com nome e uma longa tradição tenderão a encontrar mais facilidade em gerar volume de leitores do que veículos que carecem destes elementos. Em geral, as reportagens de veículos tradicionais costumam ser generalistas e informativas, evitando ao máximo a subjetividade de quem assina a matéria. Não a toa, isenção e imparcialidade são palavras-chave nestas empresas.

2 – Especialização/posicionamento: aqui estamos falando de veículos cujo principal objetivo é a diferenciação. O meio para isso será o conteúdo, que pode pender tanto para a objetividade das análises quanto para a subjetividade de quem escreve – e muitas vezes, enfatizando estes dois elementos ao mesmo tempo. Assim, podemos ver matérias que não apenas apresentam informações, mas que contam com explicações profundas sobre um determinado acontecimento e suas possíveis implicações. Igualmente, é possível encontrar diversas reflexões feitas pelo autor sobre os temas abordados, de forma que a sua subjetividade passa a ser o elemento principal do conteúdo. Em ambos os casos, o conteúdo transcende a simples exposição de fatos apurados. Nenhum veículo que aposta nesta estratégia será puramente informativo.

Vale observar que os dois critérios acima não são excludentes. Veículos que apostam na diferenciação do conteúdo também podem gozar de forte credibilidade, gerando ainda mais valor ao conteúdo vendido. Veículos tradicionais também podem adotar uma estratégia editorial posicionada ou especializada, embora muitos prefiram não fazê-lo para não desagradar certa parcela dos leitores.

A pergunta crucial é: qual veículo tem maior possibilidade de fidelizar a audiência e qual tem mais flexibilidade para definir o valor do seu produto? Assim como em outros setores do mercado, a resposta será aquele que tiver maior exclusividade.

Ao se ater apenas à informação e à objetividade dos fatos, muitas empresas acabam limitando o potencial do seu produto. Mesmo os furos de notícia, valorizados como são por quem trabalha no meio, tem pouco valor nos tempos da internet e do ponto de vista do público, já que serão imediatamente replicados por outros veículos e portais. Assim, fica difícil precificar adequadamente o seu conteúdo quando a oferta de outros parecidos com o seu são ofertados a baixo custo ou mesmo gratuitamente.

A tabela abaixo ajuda a entender esta ideia. Os créditos vão para Jay Acunzo que dividiu o conteúdo jornalístico em dois grupos: informativo e reflexivo, de um lado; generalista e personalizado, de outro. De acordo com ele, o produto “informativo” e “generalista” possui pouco valor e pouca orginalidade, caindo, assim, na “gaiola da commodity”. Uma vez ali, os veículos acabarão com dificuldade de atribuir grande valor a ele.

Essa é uma realidade dura de engolir, ainda mais considerando que a maior parte do produto jornalístico de fato é, e continua sendo, informativo e generalista. Embora este tipo de conteúdo tenha rendido muitos frutos na época da abundância de receita publicitária, o cenário atual é muito diferente. Grandes e tradicionais empresas de mídia frequentemente atrelam o seu nome e tradição ao conteúdo publicado, o que de fato traz resultados comerciais. Mas isso nem sempre será suficiente se a maior parte do seu conteúdo estiver no âmbito da commodity, dentro do qual você é forçado a competir por volume. Fora dela, sua luta é por impacto.

Diante das circunstâncias existentes, portanto, se torna cada vez mais necessário encontrar uma estratégia de produto que seja mais robusta do que se apoiar no nome e credibilidade construídos ao longo do tempo para vender conteúdo. Essa realidade se aplica mais a certos produtores de conteúdo e veículos de mídia do que outros, mas ainda assim é uma estratégia que todos deveriam considerar.

O impacto de uma mudança na estratégia editorial sobre a audiência também é algo esperado. Muitos veículos, sobretudo os tradicionais, costumam temer uma queda no volume de acessos e assinantes. O risco é real, ainda mais porque o conteúdo informativo e generalista tende a apelar a um público volumoso, enquanto o conteúdo especializado, posicionado ou reflexivo tem o efeito oposto, apelando a um público de nicho. É quase como se o centro gravitacional mudasse de lugar.

A questão é que volume não é sinônimo de valor, de forma que os veículos que se apegam a este elemento arriscam ser facilmente substituíveis.

Talvez, portanto, não seja o setor que está obsoleto, mas apenas a estratégia editorial adotada por muitos.

Notícias puramente informativas tem pouca exclusividade pois são facilmente replicáveis. Já notícias especializadas, analíticas ou opinativas são únicas. O resultado é que elas tem muito mais valor agregado do que apenas a informação, e sem que haja percepção de valor, não há como sustentar um produto e um negócio por muito tempo.

Assim como em muitos outros mercados, também no mercado de mídia.

“O que? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?” Essa é a fórmula básica do jornalismo que todos aprendem na faculdade e depois replicam nas redações. Começa-se respondendo estas perguntas, que são as mais importantes e mais factuais, para depois estender o texto com quaisquer outros dados apurados pelo repórter. Ouvir especialistas também é um elemento que não pode ser esquecido – de preferência especialistas com visões opostas, o que assegura a imparcialidade da matéria.

Toda esta fórmula faz muito sentido e garante a produção do jornalismo profissional com o qual nos acostumamos. O que incomoda aqui são duas palavras: “fórmula” e “produção”, o que faz parecer que a escrita jornalística é um processo mecânico e não uma atividade humana.

Tudo bem, essas fórmulas de produção de conteúdo podem ser interessantes se tomadas como sugestão ou indicativo de como estruturar uma boa matéria. O problema é quando elas se tornam uma norma rígida a ser seguida e quando os jornalistas passam a se preocupar mais com a sua aplicação do que com o produto que será entregue aos leitores. No atual momento em que as empresas de mídia não mais dominam a narrativa e tampouco detém a hegemonia sobre a comunicação, estes modelos podem ser repensados.

Engajar a audiência continua sendo O desafio

A delicada situação financeira do setor de mídia levou muitos veículos a explorarem novas formas de gerarem receita. É verdade, a publicidade continua presente no jornalismo, mas já não é de hoje que essa fonte de recursos se mostra cada vez mais limitada e incerta. Por isso, as empresas passaram a apostar na receita direta do consumidor, mas o problema é que a estratégia editorial muitas vezes não acompanha o modelo de negócio implementado.

O fato inescapável é o seguinte: se o objetivo dos veículos é colocar de pé uma bem-sucedida e robusta carteira de assinantes, então eles precisam se tornar realmente diferenciados. Para uma empresa de mídia tradicional, o diferencial pode ser simplesmente sua reputação. É um diferencial potente e que precisa ser preservado. Um outro caminho, sobretudo para os veículos menos estabelecidos, é apostar no conteúdo de nicho, seja explicitando claramente seus valores ou focando em uma área de interesse específico (tecnologia ou esporte, digamos).

Até aqui não há nenhuma novidade sendo dita. Toda esta história já é conhecida e há muitos veículos indo nesta direção. Um ponto menos abordado é que o conteúdo de nicho nem sempre será suficiente para engajar o leitor e obter sua assinatura. É preciso também repensar a estrutura narrativa do conteúdo produzido e apresentado aos leitores.

No último Digital News Report do Reuters Institute, o fator mais importante elencado pelo público para assinar um veículo foi “melhor qualidade ou conteúdo distinto”. O que isso significa é que não basta fazer o jornalismo de sempre, é preciso fazer um jornalismo diferenciado. Não basta que digamos que o nosso conteúdo tem credibilidade. Se o público não achar justificável aplicar o seu suado dinheiro para comprar uma assinatura, esta narrativa é em vão.

É claro, a apuração dos fatos continuará sendo importante. Mas mesmo uma reportagem de alta qualidade pode não ser boa o suficiente se for embalada de forma industrial. Se o objetivo é fazer com que os leitores se engajem com o seu veículo a ponto de se tornarem cativos, então a forma como as histórias são contadas também contam, e contam muito!

Na sessão seguinte busquei apresentar dois exemplos de narrativas diferenciadas produzidas por algumas empresas de mídia. As matérias não estão reproduzidas na íntegra, porém as citações são longas e representam um formato de conteúdo no qual podemos nos inspirar.


Dois exemplos de estruturas narrativas diferenciadas

1 – Smartphones estão fazendo com que nos importemos menos com a humanidade?

The Spectator, 09 de novembro de 2023

A geração Z foi a primeira a crescer conectada aos smartphones. Essas pessoas passaram a adolescência banhadas pela luz das telas e agora estão deprimidas e ansiosas. Nós deveríamos ter previsto isso? Até recentemente, meus amigos que também são pais estavam em negação. Z é a melhor geração que já viveu, eles diziam, livre dos preconceitos e determinados a reciclar.

Bem, estes dias de otimismo acabaram (…) O que aconteceu de errado? É o Instagram? O TikTok? São os influencers e suas vidas inalcançáveis? As crianças estão sendo cuidadas, elas estão murchando por falta de brincadeiras ao ar livre? Eu ainda não me atrevi a compartilhar com minhas colegas mães meu medo adicional: de que as redes sociais estão roubando suas almas. Isso me ocorreu enquanto eu desperdiçava meu fim de semana no Instagram navegando pelos vários stories: uma criança israelense feita refém; o perfeito café com leite feito com especiarias de abóbora; corpos nos escombros de Gaza; tente essa simples cura para dor no pescoço.

Não são apenas os jovens que se informam pelas redes sociais. E notícias nas redes sociais, em tempos de guerra, significam um gotejamento de horror em todas as plataformas misturado com posts dos amigos. Mas o que acontece com o cérebro em desenvolvimento quando você o alimenta com conteúdo ultraviolento e vídeos de gatinhos? Como isso afeta a empatia emergente de uma criança? Eu não imagino que alguém tenha qualquer ideia.

Como todos os animais, nós aprendemos por meio de associações. Se você coloca uma imagem seguida da outra repetidamente, o cérebro irá inevitavelmente criar conexões entre elas. Durante vários meses no início do século XX, o Dr. Pavlov (fisiologista russo) ensinou seus pobres cães a associar o som de uma sineta tocando com o seu jantar. Daí em diante, os cachorros salivavam toda vez que ouviam uma sineta. Tal como os cães, o mesmo com os humanos. Seria uma ironia se a mesma imagem de atrocidades, aquelas que são postadas para mostrar o quanto nos importamos, no fim das contas levassem os jovens a se tornarem indiferentes com o sofrimento do mundo real. Às vezes eu suspeito que isso já aconteceu.

Quando se trata de auxiliar as pessoas a entenderem o mundo e a realidade em que vivem, uma notícia repleta de subjetividades e opiniões pode ser mais eficaz do que uma notícia objetiva e factual? A resposta pode parecer contraintuitiva, mas em certos casos, argumento que sim. Digo em certos casos porque tudo irá depender da qualidade da análise que baseia a opinião de quem escreve. Mas se a análise e a opinião forem qualificadas (sim, isso é subjetivo), elas podem provocar no leitor uma profunda reflexão muito mais poderosa do que uma mera informação. Uma informação é apenas uma informação, enquanto uma análise e uma opinião podem agir como alimentos para a mente. Esta matéria da Spectator me parece um bom exemplo disso.


2 – Sons mortos: uma nova onda de IA significa que artistas já falecidos talvez nunca consigam descansar

The Free Press, 20 de novembro de 2023

É uma emoção arrepiante ouvir uma nova música dos Beatles em 2023, desde que você não pense muito sobre o fato de que metade da banda está morta.

A música Now and Then é um milagre da tecnologia moderna de IA, extraindo a demo original de Lennon datada de 1970 de gravações que até então eram inutilizáveis. A voz de Lennon soa nítida e atual, como se ele tivesse gravado ontem.

Mas é claro que ele não fez isso. Ele está morto desde 1980. E mesmo que não estivesse, é debatível se o som da música seria qualquer coisa semelhante com o novo lançamento.

Mas ei, é uma nova música dos Beatles! Quem se importa se metade de seus membros não queria que ela fosse gravada ou provavelmente gostaria de ter uma palavra a dizer na mixagem final?

A IA nos jogou em um debate ético muito confuso sobre quanta propriedade nós temos sobre os artistas que já não estão mais conosco.

A icônica cantora francesa Edith Piaf, que morreu em 1963, irá tanto narrar quanto aparecer em um próximo filme biográfico sobre sua vida. Mesmo os Rolling Stones (…) esperam continuar se apresentando após o túmulo. ‘Quando todos nós tivermos partido, ainda haverá a IA, então vocês não conseguirão se livrar de nós’, disse Mick Jagger em uma entrevista para a CBS.

Por um lado, é incrível pensar que os artistas que amamos nunca irão morrer. Por outro (…), não é possível que estejamos sustentando os mortos com roupas diferentes, enquanto fingimos que nada mudou? Mick Jagger pode estar entusiasmado com a IA agora, mas ele ainda está vivo e tem total controle sobre a banda. Isso mudará quando ele partir, e os criadores de IA tiverem a palavra final.

No futuro próximo, muitos dos maiores artistas de todos os tempos serão digitalmente exumados para intermináveis tours de ‘despedidas, só que não’ e para a criação de novas músicas muito depois que seus pulmões tiverem parado de funcionar. Adam Lowenberg, diretor de marketing da produtora musical Primary Wave – uma empresa dedicada a manter, vivas e funcionando, estrelas que já faleceram – cunhou o seu próprio termo para esta nova indústria: ‘redesenvolvimento artístico’.

A Primary Wave está apostando alto na nostalgia pós-morte.

‘Há simplesmente muito o que fazer com uma estrela’, disse o fundador da Primary Wave, Lawrence Mestel, para a Free Press. ‘Existe uma capacidade ilimitada de criar valor’.

Valor sem os riscos de um músico vivo. Artistas mortos não podem se envergonhar no palco no intervalo do Super Bowl, ou dizer a coisa errada no Twitter, ou enlouquecer com anfetaminas, ou decidir mudar drasticamente seu som ou sua carreira. Eles também não podem morrer novamente.

Diferentemente do exemplo anterior, aqui temos uma matéria mais parecida com uma reportagem tradicional. Mas mesmo ela foge muito do padrão. Claro, há citações e muito levantamento de informações por parte do jornalista. Mas em meio a todo este material, há também muito da opinião de quem assina a matéria. Poderíamos dizer que o objetivo e o subjetivo não estão em conteúdos separados, mas compõem esta única publicação. Por isso, mais um bom exemplo de um artigo que foge do padrão – e por isso mesmo, se torna único.


O que podemos tirar destes conteúdos

Nenhum dos exemplos dados – e poderia haver muitos outros – são de veículos tradicionais como New York Times, Washington Post, Wall Street Journal, The Guardian e daí em diante. Mas isso não significa que não sejam sérios e que não publiquem bons conteúdos.

Aliás, linhas editoriais bem-marcadas são uma característica das duas empresas. A Spectator, por exemplo, se vangloria de ter escritores sem “comprometimento partidário”, cujas opiniões “variam da esquerda para a direita”, mas que tampouco possuem “qualquer pretensão de ser imparcial”. A Free Press não é muito diferente, já que seus repórteres são estimulados a oferecer debates, furos e provocações. A ideia certamente não é produzir um conteúdo generalista ou imparcial, tanto é que são claros em afirmar que “você não concordará com tudo que publicamos, mas nós achamos que este é exatamente o ponto”.

Mas o que importa aqui é que ambos os veículos e os artigos selecionados têm um outro elemento em comum: nenhum deles segue o padrão tradicional de reportagem. Na verdade, todos misturam informações factuais com análises feitas pelos próprios autores e suas opiniões sobre os assuntos abordados. Em nenhum destes veículos existe a separação entre conteúdo objetivo e opinativo, e se isso contraria o padrão jornalístico com o qual estamos acostumados, também garante matérias exclusivas e diferenciadas que são muito mais eficientes em engajar o leitor.

É possível que eu esteja enviesado pelas minhas próprias preferências e que aquilo que eu estou apresentando como bons exemplos nada mais sejam do que um gosto particular? É claro que sim. Mas o ponto é justamente este: nós nunca conseguiremos agradar a todos. Nosso conteúdo será sempre restrito a parcelas do público e devemos trabalhar com este fato em mente. Caso contrário, continuaremos produzindo um conteúdo generalista que pouco difere do conteúdo dos concorrentes e que pouco engaja a audiência.

Retomando um ponto anterior, há um paralelo entre as normas tradicionais do jornalismo e o padrão industrial que avançou em todo o mundo ao longo dos últimos séculos. Ainda que seja verdade que a indústria trouxe grandes vantagens ao permitir que produtos fossem feitos em massa para serem consumidos a custo reduzido, o ponto é que este modelo serve apenas para quem tem escala, e este não é mais o caso do jornalismo.

Como coloca Jacob Donnelly, fundador do Media Operator, “Todos os sinais apontam para empresas de mídia se tornarem menores e mais focadas em sua base de usuários-alvo e leais”. Talvez esta seja realmente uma tendência, ainda que dolorosa para as grandes empresas de mídia e interessante para aquelas de pequeno e médio porte. Mas se for para fidelizar a audiência, os veículos devem evitar ao máximo que seus conteúdos sigam uma linha de produção industrial e passem a seguir a lógica da produção artesanal: com produtos feitos em quantidades limitadas, porém com qualidade superior; publicando menos, porém publicando melhor; atingindo audiências mais restritas, porém muito mais leais. Está aí um outro caminho a ser tentado, que concilia a estratégia editorial com o modelo de negócios que ainda temos dificuldade de colocar de pé.

Com crescente regularidade tenho recorrido a uma ideia que pode ser resumida da seguinte maneira: se uma pessoa se empenhar, ela consegue encontrar justificativa para qualquer coisa.

A meu ver, nada resume tão bem o ambiente das redes sociais e de todo o debate político atual. Seja para defender sua ideologia ou para definir quem é vilão e mocinho na guerra entre Israel e Hamas, haverá sempre alguma informação perdida por aí capaz de confirmar aquilo em que acreditamos. O curioso é observar como todos nós conseguimos pescar algumas poucas notícias ou fatos que corroboram uma opinião prévia enquanto ignoramos todo o resto que joga contra nossa narrativa pré-estabelecida.

Frequentemente percebo isso quando entro em uma rede social ou acesso o site de um jornal. É tanta informação disponível que cada um pode selecionar aquilo que quiser. Se estou pré-disposto a tomar o lado dos palestinos no atual conflito, posso encontrar mil matérias dizendo que Israel bombardeou de forma cruel e desumana um hospital localizado na Faixa de Gaza. Se estou pré-disposto a defender o lado israelense, posso encontrar mil outras notícias dizendo que o hospital foi, na verdade, alvo de um míssil mal direcionado por terroristas palestinos. É claro que existe uma verdade neste e em outros casos, mas o ponto é que o ambiente de notícias hoje parece uma prateleira de supermercado onde cada um pode pegar o produto que melhor satisfaz suas preferências.

Para não ficar relativista demais, reconheço que o conteúdo das empresas de mídia sérias não pode ser comparado com muito daquilo que se vê no Twitter. Mas mesmo nelas, o excesso de informação pode ser um problema, ainda mais quando esta informação é desprovida de contexto. E se o jornalismo acaba por confundir as pessoas mais do que esclarecê-las, não será uma surpresa se elas começarem a evitar o que temos a dizer.

O que podemos fazer de melhor para evitar essa situação?

Arrisco dizer – e falo isso como leitor que acompanha o noticiário publicado dentro e fora do Brasil – que o público (e por consequência as empresas de mídia) se beneficiaria muito se tivesse mais acesso a notícias bem contextualizadas, capazes não apenas de informar sobre acontecimentos recentes, mas também de dar sentido ao cenário mais amplo no qual estamos inseridos.

Uma matéria que li hoje mesmo exemplifica isso. O texto, publicado na revista Spectator, é do professor e historiador Timothy Garton Ash e fala sobre a difícil situação da Ucrânia agora que o foco dos EUA também se volta para Israel. Diz ele:

Eu voltei ao Reino Unido depois de ter estado na Ucrânia fortemente persuadido de que isso é o que nós, na Europa, devemos fazer (aumentar a ajuda no esforço de guerra ucraniano). A alternativa – infelizmente quase tão provável quanto ruim – é que o Ocidente acabe por se contentar com uma ‘paz’ que implique na perda de uma grande parcela do território por parte da Ucrânia. Isso não seria paz, mas um conflito semicongelado – apenas uma pausa antes outra rodada de guerra, tal como temos visto por décadas no Oriente Médio. No meio tempo, isso também permitiria a Putin declarar vitória em casa, podendo ficar no poder por mais tempo, e mandando a mensagem errada para Xi Jinping sobre Taiwan…

Neste caso o autor sequer está apresentando fatos, dando uma nova informação ou replicando aquilo que outros veículos já publicaram. Ao contrário, sua maior preocupação é apresentar os dilemas sociais presentes na Europa e nos EUA (ler artigo completo) e analisar as consequências globais de um processo de paz que implique no fortalecimento da posição Russa e enfraquecimento do campo ocidental.

A análise é perfeita? Certamente não, tal como acontece com muitas previsões sobre geopolítica. Ainda assim, ela faz algo de interessante: aumenta o entendimento do leitor sobre a situação do mundo no atual momento de uma forma que poucas matérias – sobretudo aquelas que apenas informam sobre um novo bombardeio, um novo conflito armado ou ainda uma declaração esdruxula de um político qualquer – conseguem fazer.

Aqui no Orbis, falamos com regularidade que o conceito de “menos é mais” também se aplica ao jornalismo. Esse “menos”, entretanto, se refere ao número de matérias publicadas, jamais à qualidade do conteúdo. Permitir que um repórter publique em um ritmo menor pode dar a ele o tempo necessário para uma bela apuração. Com isso, aumentamos o valor do nosso conteúdo e oferecemos ao público mais do que um amontoado de informações perdidas e descontextualizadas.

Batemos tanto na questão da fake news que ignoramos que a polarização não precisa de falsidades para se estabelecer. Basta uma informação perdida para glorificar um grupo ou demonizar o outro. Não são apenas as redes sociais que contribuem para este fenômeno. Também o jornalismo, quando repercute polêmicas desprovidas de substância ou fatos sem a devida contextualização, colabora para enfraquecer nossa percepção da realidade e reduzir a qualidade da discussão.

O fim da editoria de esportes do New York Times não é um assunto lá muito novo – inclusive já comentamos sobre ele por aqui. Mas mesmo temas passados podem render novas reflexões, e por isso vale a pena voltar ao assunto, sobretudo para analisar como as empresas de mídia podem aprimorar seus produtos.

É claro, do ponto de vista estratégico e de negócios, a editoria de esportes realmente não fazia muito sentido, especialmente depois que o Times comprou o muito mais especializado The Athletic no início de 2022. Além disso, eliminar a editoria não significava apenas deixar parte do conteúdo para a sua vertical mais especializada, mas permitia que o próprio Times reservasse suas páginas para o conteúdo sobre política e sociedade que sempre foi parte central de sua cobertura. Na época, escrevemos o seguinte sobre essa questão:

Deixar de cobrir esportes ou qualquer outro assunto tão tradicional em veículos generalistas ainda é uma decisão difícil e, por isso, evitada (…) Parece mais fácil e melhor aceito pelas lideranças expandir o que já é feito: cria-se suplementos e projetos especiais em assuntos do momento, abre-se perfis em todas as redes sociais – inclusive naquelas que não têm a mínima relação com a essência do veículo (…) Atira-se para todos os lados e não se acerta o alvo.

Estrategicamente falando, portanto, o Times parecia ir por um caminho interessante e muito mais condizente com as atuais demandas do público e com o atual contexto do mercado. Na era em que a publicidade deixa de ser uma fonte segura de receita para as empresas de mídia, ter um modelo editorial nichado, e não generalista, tende a ser uma forma mais segura de obter recursos diretamente dos leitores. Mas isso por si só não explica o fim da editoria de esportes.

 

O problema está no conteúdo

Ethan Strauss é um jornalista esportivo que por muito tempo cobriu a NBA, a liga de basquete americana, pela ESPN. Como muitos de seus colegas de profissão, ele abandonou as grandes empresas de mídia e hoje tem seu próprio blog, chamado “House of Strauss”, onde escreve regularmente. Para efeitos deste artigo, o que realmente nos interessa é uma de suas recentes publicações sobre a descontinuidade da editoria de esportes do NYT, que para ele se deve, em grande medida, ao fato de que os “leitores, dentro ou fora de Nova York, não eram atendidos (pelo conteúdo esportivo do Times)”. Simple as that!

A carta assinada por A.G Sulzberger, Publisher do Times, em que se explica os caminhos tomados pelo jornal, corrobora essa percepção quando diz que por muito tempo a editoria de esportes foi responsável por grandes reportagens envolvendo “investigações sobre temas urgentes como concussões e doping, leituras obrigatórias sobre um time de futebol feminino do Afeganistão, uma trágica avalanche em Washington e muito mais”.

Imagino que todos estes temas tenham rendido ótimas matérias, mas concordo com Strauss quando ele questiona qual interesse o leitor americano médio tem pelas reportagens mencionadas. Será mesmo que um torcedor fanático de baseball ou basquete quer mesmo saber sobre um time de futebol feminino do Afeganistão? O futebol tradicional, aquele jogado com uma bola redonda, sequer é um esporte popular nos EUA.

Não é à toa que parte considerável da população começa a sentir que o trabalho feito por nós, jornalistas, simplesmente não é de seu interesse. Aqui vale uma longa citação de Strauss:

Na ausência de um público-alvo, o jornalista ainda pode se sentir realizado criativamente e validado por seus colegas do setor. Seu trabalho só não durará muito tempo. Isso não é uma tragédia, e sim o resultado esperado para todos os outros negócios do mundo. Nós não somos diferentes, embora queiramos ser. Nós não somos transcendentes, embora talvez tentemos. Somos apenas trabalhadores servindo o interesse de pessoas que não são menores do que nós. Quando nos esquecemos disto, esquecemos como fazer o trabalho.

Verdade seja dita, não concordo 100% com o que diz Strauss. Há algo de transcendente no jornalismo, ou ao menos algo que o torna diferente de muitos outros trabalhos. Parte disso se deve à nossa relação com o público – o que me leva a mais uma discordância com a citação acima: nossa função não é apenas servir o interesse das pessoas. Devemos também servir à verdade dos fatos e ter sempre um alto grau de independência que nos permita tocar em sensibilidades, mesmo que elas desagradem empresas privadas, agentes públicos ou o público em si.

Dito isso, há também algo de certeiro no que Strauss escreve. Mesmo que atender o interesse da audiência não seja sempre uma obrigatoriedade, tampouco podemos trabalhar de costas para ela.

Podemos achar que somos sempre objetivos, mas isso não é inteiramente verdade. O jornalista, assim como qualquer outra pessoa, possui valores morais que se refletem nos temas que priorizamos, nas pautas que escolhemos e no tom do conteúdo que publicamos. O ponto é que os valores morais que predominam em nosso meio frequentemente são diferentes daqueles de boa parte da audiência.

É claro, portanto, que as críticas feitas por Strauss não se aplicam somente à cobertura esportiva, mas ainda mais claramente à cobertura política, social, cultural. São tantos temas contraditórios e complexos, e mesmo assim frequentemente apresentamos uma visão de uma via só, que mostra apenas o que o certo e condena o que é errado, como se não houvesse nenhuma zona cinzenta no meio. A pergunta que nos devemos fazer é se o tom, o enfoque e as pautas que priorizamos dialogam com o que o público pensa e o que ele quer ler, ouvir, assistir?

Sem dúvida alguma, isso tudo dependerá do tipo de veículo sobre o qual estamos falando, e este é o ponto crucial. Nossa visão de mundo tem sua legitimidade. A questão é que ela não é universal. A equação sobre o que publicar fica mais fácil para um veículo de nicho. Já para um veículo generalista, é preciso levar em conta ideias e valores que nós mesmos podemos não gostar. O fato, porém, é que se as pautas que escolhemos e os valores que embutimos, consciente ou inconscientemente, nas matérias que publicamos, dialogarem apenas com uma restrita audiência, sem dúvida iremos acabar por alienar o restante da população.

As vezes o público quer algo simples como saber o resultado da última partida de futebol ou quem levou a medalha em sei lá qual esporte. Por vezes também deseja apenas ler algo agradável e construtivo sobre aquilo que está à sua volta ao invés de ouvir problemas que muitas vezes parecem abstratos e distantes.

Há problema em falar do futebol feminino do Afeganistão? De forma alguma! É errado dar mais uma notícia sobre a questão climática ou abordar problemas que nós consideramos estruturais da sociedade? Também não. Acontece que as vezes as pessoas querem algo mais simples, algo que diz respeito à realidade na qual elas vivem. Por que não dar isso a elas?

Não tem como escapar, se queremos ser relevantes, precisamos oferecer ao público aquilo que seja de seu interesse ou que dialogue com seus valores, não com os nossos. Podemos nos convencer que somos fundamentais para a manutenção da democracia, e em algum grau podemos estar certos. Mas este argumento não nos trará audiência, e sem ela não podemos nos manter. É quando nos esquecemos disso que deixamos de ser necessários.

Outro dia estava assistindo a um filme destes produzidos por Hollywood e me deparei com uma cena da mais comum e banal possível: um casal que é recebido na casa de seus amigos e, antes de entrar de fato na residência, faz uma pequena parada no hall de entrada para deixar os casacos, cumprimentar os anfitriões, trocar um abraço e perguntar um ao outro “como estão”. A cena de não mais de um minuto continua, e fico  pensando comigo mesmo: “e não é que isso tem tudo a ver com jornalismo”.

Sinal de obsessão? Certamente! Mas acontece que realmente fiquei com aquilo na cabeça. Como consumidor de conteúdo jornalístico, tenho a sensação de que minha relação com as empresas do ramo é muito parecida com esta cena descrita. Mas há uma importante – até crucial – distinção. No meu caso, e suponho que isso sirva para muitos outros consumidores, fico parado no hall de entrada sem quase nunca ser convidado a entrar e me aconchegar no restante da residência. Pior ainda, me parece que uma vez no hall de entrada, os anfitriões tentam a qualquer custo me manter ali permanentemente, sem permitir que eu abandone esta casa muito peculiar de onde é difícil sair e dentro da qual não consigo realmente me sentir confortável.

Tudo isso está relacionado ao modelo de negócio que as empresas jornalísticas tentam emplacar. É uma história batida, mas que vale a pena retomar: com a perda do domínio sobre a publicidade, boa parte dos jornais começaram a investir paralelamente na assinatura como forma complementar de geração de receita. Sabemos bem disso, mas a verdade é que a relação do consumidor com o veículo – e do veículo com o consumidor – geralmente não é forte o suficiente para justificar o investimento em uma assinatura. Para solucionar este problema, o que acontece muitas vezes é uma “forçação de barra” para obter a assinatura do potencial cliente.

É verdade que a maior parte dos paywalls criados não são extremamente rígidos. Cadastro feito e você está autorizado a ler uns poucos artigos por mês. É uma estratégia bem pensada que facilita que o leitor tenha um gostinho do que o veículo pode lhe oferecer. O problema acontece depois que estes poucos artigos são consumidos. Quero ler algo mais e a única possibilidade que tenho passa a ser a assinatura.

Os valores cobrados não são abusivos e muita gente tem condição de pagar cerca de R$ 20,00 por mês para ler um jornal. Acontece que hoje em dia todas as empresas apostam na assinatura. Para uma pessoa normal, portanto, aqueles 20 reais não são apenas 20 reais, mas um valor acrescido a diversas outras assinaturas que terminam por pesar enormemente no bolso.

Ou seja, os veículos acabam criando uma situação chata para o cliente que quer consumir apenas um ou outro conteúdo. A dura verdade é que poucas pessoas desejam acessar nosso site e ler o que publicamos diariamente ou com alguma regularidade. Estes clientes, sem dúvida, são os mais valiosos e devem ser constantemente valorizados para que mantenham suas assinaturas e engajamento com o veículo. Muitos outros, entretanto, serão consumidores esporádicos. E por que não permitir e aceitar que assim o sejam?

Os micropagamentos são um modelo de negócios surpreendentemente pouco aproveitado e explorado pelas empresas de mídia. É verdade que ele não garante o cadastro que, de uma forma ou de outra, coloca as pessoas em um pipeline de conversão. Mas muita gente jamais será convertida em cliente regular. Devemos aceitar este fato que, entretanto, não significa que fulano e ciclano não possam ser clientes ocasionais. A assinatura e o micropagamento, portanto, não são modelos conflitivos, mas complementares – e para as empresas de mídia que precisam urgentemente incrementar suas receitas, podem ser, ambos, valiosos.

Como cliente posso afirmar de forma categórica: com regularidade, pagaria de bom grado uns poucos reais para ler uma matéria de meu interesse. Quando vejo, entretanto, que terei que me cadastrar no site, fazer uma assinatura que pode até mesmo sair de graça nos primeiros meses, tendo logo a desistir de acessar o conteúdo – em especial se ainda não conheço a casa onde estou entrando. A verdade é que, na maior parte das vezes, eu simplesmente não quero ter o trabalho de cancelar uma assinatura mesmo quando sei que não serei cobrado nada por ela. Chame de preguiça, mas é uma preguiça que certamente atinge muitas outras pessoas.

Precisa realmente ser assim? Por que não dar ao potencial cliente alternativas? Permitir que paguem esporadicamente por uma ou outra matéria não é apenas uma forma de gerar uma receita complementar. É uma maneira fácil – possibilitada por ferramentas práticas de pagamentos hoje existentes – de dar ao leitor a possibilidade de colocar os pés no hall de entrada e sentir o ambiente, saindo sempre que assim desejar. Talvez demore muito para ele se fidelizar com uma assinatura. Talvez isso nunca aconteça. Mas ainda assim é melhor do que aprisioná-lo dentro de uma casa na qual ele não quer estar.

O que diz nosso senso comum sobre o posicionamento ideológico da direita e da esquerda em relação à imprensa? Estes grupos aprovam ou reprovam o que fazemos, leem ou não leem o que publicamos, concordam ou não concordam com o que escrevemos?

Algo que ajuda a entender estas questões é uma recente pesquisa publicada pelo YouGov que perguntou aos americanos se eles confiam ou não confiam nas empresas de mídia. Os dados dizem respeito a nada menosdo que 56 veículos presentes nos EUA, dentro os quais estão alguns dos mais reconhecidos do mundo, como o New York Times, a revista Time, Forbes, The Economist e a rede BBC, para citar apenas alguns. Figurões, de fato, que desfrutam de uma longa tradição no jornalismo.

Ainda assim, quem realmente conquistou o primeiríssimo lugar da pesquisa foi o The Weather Channel – o canal do tempo americano.

No primeiro momento, esta constatação pode trazer algum desânimo. Mas há de se convir que o dado talvez não seja lá muito surpreendente considerando que o canal esteve distante de qualquer polêmica em função da própria natureza de seu conteúdo. Todos os outros veículos presentes na pesquisa tratam, de um jeito ou de outro, da rotina política – o assunto que mais tem dividido as pessoas e resultado em fadiga em relação às notícias nos últimos anos.

Em mais detalhes

Toda a polarização que observamos no cotidiano e nos embates que se passam nas redes sociais se refletem na opinião em relação às empresas de mídia. A CNN americana, por exemplo, assim como New York Times, fez um combate ferrenho a Donald Trump no período em que foi presidente dos EUA. Não à toa, no recorte da pesquisa que apresenta o grau de confiança por preferência eleitoral, estes são dois dos três veículos que mais dividiram Republicanos e Democratas, juntamente com a MSNBC. Portanto, se a CNN, a MSNBC e o New York Times possuem uma ótima pontuação de confiança entre Democratas (55, 54 e 53 pontos respectivamente), a pontuação delas entre Republicanos é extremamente negativa (-37, -37 e -30 pontos).

São pouquíssimos veículos que tem um grau de aprovação similar entre estes dois grupos. Novamente, o The Weather Channel desfruta de muita confiança entre eleitores da direita e da esquerda. Outros que não dividem muito Republicanos e Democratas são empresas de mídia menores, como o The Daily Caller (diferença de 12 pontos entre cada grupo), The Washington Examiner (11 pontos), The Federalist (10 pontos) e o Infowars (4 pontos).

Além disso, o que a pesquisa nos mostra é que mesmo entre os eleitores médios que não apresentaram uma preferência partidária, o grau de confiança nas empresas de mídia não é muito alto. Para os veículos tradicionais, o que pode explicar isso é a própria polarização e a fadiga em relação às polêmicas políticas que incomodam justamente aqueles que não são politizados (algo que foi apontado pela Reuters em relatório de 2022).

Mas política não explica tudo. No caso dos canais menores como os já citados acima, este baixo nível de confiança pode ser explicado pelo simples fato de não serem amplamente conhecidos ou não possuírem uma longa tradição jornalística (convenhamos, é difícil confiar naquilo que não conheço ou em um veículo que ainda não viveu tempo o suficiente para conquistar credibilidade).

 

Há algo de peculiar na direita

Um argumento caricato – e frequentemente utilizado – para explicar por que os Republicanos (e pessoas conservadoras em geral) não confiam nas empresas de mídia tradicionais é que elas têm sido fortemente impactadas por fake news, criando um eleitorado muitas vezes conspiracionista e avesso ao que publicamos.

Outra explicação que parece mais razoável (e também produtiva) é que a maior parte dos veículos presentes na pesquisa do YouGov tem conseguido falar a língua do eleitorado Democrata com muito mais sucesso do que a do eleitorado Republicano. Isso é algo presente no livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, em que os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin identificam como o eleitorado conservador (presente não apenas nos EUA) foi colocado à margem da discussão pública. Portanto, ao sentirem que o seu discurso e valores não são representados ou mesmo minimamente respeitados por diversas instituições (o jornalismo sendo uma delas), eles se revoltam contra toda esta classe falante. Parte deste argumento parece fazer sentido, embora não explique tudo aquilo que a pesquisa identificou.

Talvez o ponto mais curioso de se observar é que mesmo os veículos mais identificados com a direita não conseguiram uma pontuação de confiança equiparável ao que muitos veículos obtiveram perante o eleitorado Democrata. A Fox News, frequentemente associada ao que há de mais “direitista” por aí, obteve uma média de 41 pontos de confiança com os Republicanos. Embora seja um bom número, está abaixo da média de 50 ou mais pontos que NBC, Time, BBC e Washington Post – para citar apenas alguns – obtiveram entre Democratas.

Um dos casos mais interessantes de citar é o da revista National Review, que foi fundada em 1955 por William Buckley Jr., um dos mais influentes intelectuais e comentaristas políticos da direita de seu tempo. Ainda hoje a revista se propõe a publicar “comentários conservadores sobre as principais questões políticas e culturais, domésticas e globais”. Ainda assim, a National Review desfruta de um maior grau de confiança entre Democratas do que entre os próprios Republicanos (20 pontos contra 3). A margem é expressiva demais para ser ignorada. O que pode explicar este fenômeno?

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que há diversas divergências dentro do campo conservador. Nos EUA, em especial, é fácil notar este embate entre conservadores tradicionais, cujo pensamento continua sendo expresso pela revista National Review, e a corrente da direita que surgiu nos últimos anos e teve em Trump o seu principal expoente. Há uma profunda discordância entre os dois grupos, de forma que qualquer veículo que queira representar o conservadorismo terá uma grande dificuldade de ser a voz unânime deste grupo.

Um outro fator que talvez ajude a explicar este fenômeno, é que boa parte da direita tem apresentado, nos últimos anos, um comportamento mais personalista do que institucional. Isso significa que sua confiança tem estado mais presente em indivíduos específicos do que em órgãos públicos, um partido político, entidades sociais ou veículos da imprensa. Basta lembrar que quando foi eleito em 2016, Trump se apresentou como um outsider dentro de seu próprio partido. A sua briga não era apenas por uma agenda que ele considerava benéfica para o país, mas contra todo um establishment dominado ao longo de muitos anos por uma cultura progressista em ascensão. Pouco importa aqui discutir se ele estava certo ou não – há diversos argumentos que podem ser usados para refutar ou corroborar sua visão. O que importa é que esta característica – disseminada por Trump mas não criada por ele – se tornou a expressão de boa parte da direita ocidental. Tudo isto faz com que os veículos tenham dificuldade de conversar com os conservadores.

Ao todo, a maior parte da imprensa americana ressoa uma visão liberal de mundo – que embora não esteja associado à matriz tradicional da esquerda trabalhista, ecoa muito do pensamento progressista presente em todo o ocidente e rechaçado com diferentes níveis de intensidade pelas diversas correntes da direita atual.

 

E o que dizer de nós mesmos

Agora que já olhamos bastante para o perfil e comportamento conservador, vamos falar um pouco de nós mesmos. Uma pesquisa publicada em 2021 pela Universidade Federal de Santa Catarina mostrou que o perfil dos jornalistas está fortemente atrelado ao espectro ideológico da esquerda. Nada menos do que 52,8% dos participantes se identificaram como sendo de esquerda, enquanto outros 25,9% disseram ser de centro-esquerda e 2% de extrema-esquerda. Já a centro-direita respondeu por 2,5% dos entrevistados. Apenas 1,4% e 0,1%, por sua vez, disseram ser de direita e extrema-direita respectivamente.

É interessante perceber que o número de profissionais se autodefinindo como de extrema-esquerda quase equivale ao total dos que se dizem de centro-direita. Se somados todos os espectros de uma mesma ideologia (do mais radical ao mais moderado), 80% dos jornalistas podem ser considerados de esquerda, enquanto que apenas 4% se dizem de direita. Os 16% restantes se disseram de centro ou preferiram não informar seu posicionamento.

Um último dado curioso é que 10,3% dos jornalistas entrevistados são filiados a algum partido político. Destes partidos, o PT é o mais popular com 40,1% de todos os filiados, seguido do PSOL (17,6%), PCdoB (7,8%), PSB (3,4%) e PSDB (2,9%). Esta taxa impressiona ainda mais se comparado com os dados coletados na época pelo Tribunal Superior Eleitoral, que mostravam que 7,4% de toda a população era filiada a algum partido político. Ou seja, jornalistas possuem um engajamento partidário mais alto do que a própria população que não necessita de nenhum compromisso com a isenção como nós.

 

Com quem estamos falando

Embora a equiparação das pesquisas do YouGov e da UFSC seja complicado por estarem tratando de países diferentes, o fato é que a direita, no Brasil como nos EUA, tem apresentado um comportamento similar em relação às empresas de mídia.

Mas se há um profundo ceticismo em relação à maior parte dos veículos, o que temos a ver com isso? Afinal, seguimos rigorosos critérios éticos, temos sempre a objetividade em mente e publicamos matérias que passam por diversos filtros de checagem. Se alguém não gosta disso e continua achando que a imprensa não é digna de confiança, o problema não é nosso, certo?

Bom, em parte. Por um lado, quem quer que argumente que a imprensa não tem a função de agradar a ninguém está parcialmente correto. Boa parte da nossa relevância vem do fato de que devemos apurar e publicar o conteúdo doa a quem doer. Entretanto, há muito mais no jornalismo do que isso. Não é preciso ficar chovendo no molhado: todos sabemos que uma informação passa por recortes, que os deadlines frequentemente dificultam uma apuração mais criteriosa e que os repórteres são propensos a falhas assim como qualquer outro ser humano.

A reportagem, portanto, jamais será ideal. Ela será o possível em uma dada circunstância. Mas isso não significa que não podemos nos esforçar mais para nos comunicarmos com os outros. O mundo de hoje, mais plural e complexo do que nunca, mostra que não basta estar atento à informação que será publicada. É preciso também estar atento ao linguajar que será empregado na matéria e quem irá consumi-la.

Neste sentido os dados da pesquisa da UFSC são importantes. Jornalistas terem uma preferência ideológica não é um problema e não faz de ninguém um profissional precário por si só. Ainda assim, é necessário um cuidado com vieses inconscientes, que levam muitos a acharem que seus valores são universais e bens absolutos questionados apenas por elementos radicais e extremistas da sociedade (há sempre uma justificativa legítima para as pessoas terem as ideias e valores que tem. Ser jornalista implica, frequentemente, se colocar no lugar dos outros).

Portanto, mesmo que a reportagem seja feita com a melhor das intenções e seguindo uma boa apuração, ainda assim é possível que a forma como ela foi produzida contenha vieses que, de tão inconscientes, o próprio jornalista não será capaz de notar, mas que não passarão desapercebidos por quem estiver consumindo o conteúdo.

Mais do que nunca, o jornalismo de hoje em dia não é mais apenas uma comunicação de mão única. O público precisa, cada vez mais, ser atendido – e fazer com que ele não se revolte com o conteúdo já é um grande passo para construir uma relação de confiança. Isso significa sempre publicar o que a audiência quer ouvir? Não, mas demonstrar que entendemos e respeitamos a sua visão de mundo, que somos capazes de tê-la em conta ao tratar de temas espinhosos e legitimamente debatíveis pode ser um bom caminho – em especial se quisermos nos conectar com partes da audiência que se sentem incompreendidas e que atualmente estão fora do nosso alcance.

Navegar pela internet realmente oferece grandes momentos de reflexão. Percebi isso outro dia quando procurava fotos em um destes muitos bancos de imagens que existem por aí. Na ocasião, precisava de uma que representasse o jornalismo, e embora houvesse uma porção de belas fotografias e ilustrações, o que mais chamou a atenção foram as imagens de itens como um megafone ou de uma pessoa gritando como se fosse ativista de uma causa qualquer. Engraçado que na busca por jornalismo tenham surgido tantas figuras que significam o oposto da nossa profissão – ou ao menos o oposto daquilo que deveria ser o seu pilar: a isenção, a objetividade, a imparcialidade.

Não vou negar: minha vontade de estudar jornalismo sempre foi ancorada no desejo de causar um impacto na sociedade. Acredito que eu não seja uma exceção entre tantos outros que entraram nesta área. Mas é preciso cuidado para que esta poderosa motivação não acabe nos desviando dos critérios que distinguem o jornalismo de outros tipos de manifestações públicas sobre eventos correntes.

Todas estas questões vêm na toada de um artigo do Professor Carlos Alberto Di Franco sobre o tema. Segundo ele, é preciso “lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos”. Assim, segundo ele, “É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital”.

Para mim, o apontamento mais arrebatador do artigo é de que a audiência ficará conosco apenas “se soubermos apresentar um produto de qualidade”.

Esta conclusão pode parecer óbvia, mas está longe disso. A PL das Fake News, que voltou ao noticiário em função dos recentes debates ocorridos em Brasília, é prova disso. Para além do projeto em si que muda a cada dia – e certamente terá sofrido novas alterações assim que este artigo for ao ar –, o que chama a atenção é o posicionamento corporativo de muitas empresas de mídia e associações do setor.

A ideia que parece guiar muitos dos nossos colegas é a de que a lei beneficia o jornalismo profissional e, mais importante do que isso, as notícias corretas e precisas que publicamos. Como consequência direta, o maior vencedor é a sociedade, que se fortalece ao ser nutrida com informações verdadeiras e bem apuradas.

Essa visão, entretanto, é demasiadamente simplista. Pouca coisa prova isso tão bem quanto a pandemia da Covid-19. Assim que começou a se espalhar pelo mundo e chamar a atenção do noticiário, por exemplo, muitas das empresas do setor foram rápidas em rechaçar a hipótese de o vírus ter surgido em um laboratório chinês – algo por vezes associado a algum tipo de teoria da conspiração.

Algo parecido aconteceu com as próprias vacinas, cujas alegações de causarem problemas como arritmia cardíaca eram frequentemente tratadas como negacionismo. Mesmo as máscaras, consideradas fundamentais para conter a disseminação do vírus eventualmente se mostraram duvidosas. Em todos estes casos, muitas empresas de mídia optaram por ouvir fontes oficiais, tratando-as como detentoras da verdade absoluta e suprimindo qualquer tentativa de questionamento.

Isso certamente não deve levar ao extremo de que a imprensa não é uma fonte confiável de informação. Ao contrário, tais apontamentos servem apenas para nos lembrarmos de que não somos uma fonte de informações corretas e precisas apenas pelo fato de existirmos.

É certo que o jornalismo possui sua ética própria, critérios de noticiabilidade que nos ajudam a definir as pautas mais pertinentes, exigências de apuração para garantir a qualidade do conteúdo publicado – elementos que contribuem para a profissionalização do nosso setor e do trabalho que realizamos. Mas para que todos estes elementos contribuam realmente para o bom jornalismo, é fundamental termos a noção clara de que o simples status de “jornalista” não garante a qualidade do conteúdo produzido. O contrário é mais verdadeiro: é a noção de nossa própria falibilidade e de nossas limitações que tendem a nos deixar sempre vigilantes para os erros e exageros que podemos cometer.


A retomada do protagonismo

Muita da nossa discussão sobre fake news se dá em função da desintermediação causada pelas mídias sociais – e como elas abriram espaço para que qualquer um pudesse escrever e falar aquilo que pensa, tirando dos jornais o protagonismo que sempre tiveram e abrindo a caixa de pandora para que todo tipo de mentira e desinformação saísse.

Mas mentiras e manipulações dos fatos sempre existiram. O que mudou é o alcance que elas podem ter nos dias de hoje e a perda da centralidade dos jornais como fontes confiáveis de informação. Contra dois destes elementos nós não podemos realmente lutar. Nenhum projeto de lei será capaz de suprimir e aniquilar informações consideradas falsas por qualquer órgão de Estado. O alcance do conteúdo não controlado e não produzido por nós, jornalistas, também não pode ser revertido a não ser que revertamos o próprio avanço tecnológico (o que parece improvável). A única coisa que realmente podemos fazer, portanto, é reconquistar o protagonismo que um dia tivemos – algo que não pode ser feito pelas vias da força.

Para isso, é fundamental entendermos que muitos embates presentes não se dão dentro do campo da verdade e da mentira, e sim no campo das interpretações sobre aquilo que é bom e aquilo que é ruim dentro do contexto atual. Isso faz com que o termo fake news seja frequentemente usado não para apontar erros objetivos nas informações presentes, mas para fazer um julgamento de valor sobre as posturas ideológicas de certos grupos sociais. E convenhamos, quando falamos em fake news estamos pensando em um grupo político específico, aquele de viés conservador que surgiu nos últimos anos e cujo posicionamento desagrada profundamente a maior parte do nosso setor.

Quando lançaram o livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin fizeram uma análise profunda, repleta de dados, mostrando alguns dos motivos que explicam a ascensão disso que nos acostumamos a chamar de direita conservadora e que teve expressões nacionais e internacionais com figuras como Bolsonaro, Trump, Le Pen. Confesso que não sei qual é o posicionamento pessoal dos dois autores sobre estes políticos e o movimento que eles representam. Mas também, pouco importa se são contra ou a favor. O que é realmente relevante é que eles conseguiram chegar a conclusões interessantes sobre os motivos por trás do surgimento destes movimentos ideológicos – conclusões que vão muito além daquela lista de palavras rasas que a então candidata à presidência dos EUA Hilary Clinton usou para descrever metade dos apoiadores de Trump: “racistas, sexistas, homofóbicos, xenofóbicos, islamofóbicos”.

Termos como estes simplificam movimentos sociais complexos. A própria Clinton, por exemplo, foi derrotada por Trump em 209 distritos americanos que haviam votado em Obama nas duas vezes em que ele concorreu ao cargo. Igualmente, Trump obteve o voto de um terço dos eleitores “latinos” do país, assim como o Brexit obteve mais ou menos a mesma quantidade de votos de grupos etnicamente minoritários da Inglaterra. Estes dados fazem parte da pesquisa de Eatwell e Goodwin e mostram como a palavra racismo e xenofobia não dão conta de explicar a ascensão da direita atual – na verdade, é possível que causem mais confusão do que esclarecimento.

Os dois autores até concordam que “alguns nacionais populistas enveredam no racismo e na xenofobia”, mas isso não deveria, segundo eles, “nos distrair do fato de que eles também tocam em ansiedades públicas abrangentes e legítimas”. Como bem explicam, estes eleitores questionam, por exemplo, “o modo em que as elites (culturais, políticas e mesmo econômicas) se tornaram cada vez mais isoladas das vidas e preocupações das pessoas comuns”. Estas pessoas também questionam “a erosão do Estado-Nação, que é visto como a única construção que foi capaz de organizar nossas vidas políticas e sociais”. Talvez mais significativo ainda, “elas questionam a capacidade das sociedades ocidentais de rapidamente absorver taxas de imigração (…) que não tem precedente na história da civilização moderna”, assim como questionam que tipo de sociedade estas e outras mudanças sociais levantadas por outros movimentos políticos criarão.

E ainda assim, pouco espaço houve na mídia para uma discussão aprofundada e uma tentativa genuína de entender as motivações por trás das preferências políticas desta parcela do eleitorado (o que não significa concordar com elas). Em 2017, por exemplo, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial francesa que terminou com a vitória de Emmanuel Macron, a revista Vanity Fair publicou o artigo “Marine Le Pen pode tornar o fascismo mainstream?”. Que haja diversos motivos legítimos para se criticar as posturas e políticas públicas defendidas pela então candidata é uma coisa, mas banalizar um termo tão complexo de uma ideologia que devastou a Europa em um momento específico da história é algo completamente diferente. Não há dúvidas de que tal conteúdo ofendeu uma parte considerável da população que tinha seus motivos legítimos para votar em Le Pen.

E aqui vai o ponto final sobre esta reflexão: a despeito das possíveis e eventuais fake news, da ampliação da capacidade de ler e publicar qualquer coisa no ambiente digital e dos excessos nos diferentes posicionamentos políticos que se encontram por aí, o fato é que a postura da sociedade – ou parte dela – em relação às empresas de mídia tem muito mais a ver com os nossos posicionamentos editoriais do que com estes e outros fatores externos.

É verdade que uma PL sobre o assunto pode até tornar o ambiente digital mais salutar, embora os custos disso devam ser seriamente questionados. Mas mesmo que isso aconteça, nada indica que o público voltará a confiar plenamente em nosso trabalho. Portanto, se quisermos reconquistar o protagonismo que já tivemos, precisamos que a população volte a ver relevância em gastar o seu tempo lendo aquilo que publicamos. Nada disso será possível se antes não conseguirmos demonstrar que entendemos o que o nosso público realmente pensa sobre os assuntos que cobrimos diariamente.

Há uma certa tendência no jornalismo de evitar escrever em primeira pessoa, o que se dá, em parte, pela necessidade de separar a história da opinião de quem a conta. Aqui no Orbis, entretanto, já argumentamos algumas vezes que há motivos interessantes para revisitar esta ideia. Portanto, começo este artigo fazendo uma confissão pessoal: fiquei extremamente impactado com uma recente leitura que fiz sobre o número de crianças que abandonaram as escolas nos últimos dois anos.

A matéria em questão figurava na edição semanal da revista inglesa Spectator, a qual assino e leio com regularidade – e a qual já analisamos por aqui. Entretanto, o fato de que a evasão escolar narrada esteja acontecendo no Reino Unido pode gerar uma dúvida sobre a relevância da situação, uma vez que não diz respeito ao Brasil. Reconheço a legitimidade do questionamento, mas a verdade é que todo este relato é muito mais importante como contextualização do que pelo fato em si. Explico melhor:

Embora a matéria em questão tenha me provocado um belo de um impacto, o que realmente importa é que, de início, tive pouquíssimo interesse em gastar com ela o meu tempo diário de leitura – na verdade, o fiz quase por falta de alternativa melhor. É claro, o tema é interessante, mas minha preferência, em geral, é por artigos sobre política, questões internacionais importantes e por aí vai. Mas o fato é que, após ignorar a publicação por vários dias, ela eventualmente me venceu e obteve o meu clique.

E aqui está uma questão realmente interessante no que diz respeito ao jornalismo: teria eu lido a matéria caso ela não tivesse passado a semana toda estampada no site? Certamente não. Caso este fosse mais um artigo que nasce hoje para ser ocultado amanhã após uma nova leva de publicações, ao invés de passar uma semana inteira insistindo para ser lido, ele certamente teria fugido do radar de muitos leitores como eu. Coisas assim são sempre uma pena, especialmente quando se trata de matérias bem apuradas que trazem novos insights e perspectivas sobre a realidade – e não aquelas que simplesmente apresentam polêmicas que nada são além de espuma.

Imagem da edição semanal da revista Spectator, destacando a matéria “As crianças fantasmas – os estudantes que nunca voltaram após o lockdown”

Em comparação com o que acontecia nas revistas, as matérias de jornais sempre tiveram um pequeno ciclo de vida. Ao passo que os textos das revistas deveriam se manter vivos por cerca de uma semana, o dos jornais passavam por uma reciclagem diária. Entretanto, o que era natural do jornal impresso, talvez esteja se tornando um problema no ambiente digital. As matérias não apenas continuam com sua alta rotatividade, mas agora isso acontece em um meio em que tudo parece superficial e efêmero. Como gerar a percepção de que o conteúdo que publicamos, o trabalho que fazemos, tem realmente um valor que justifique o tempo investido em leitura?

Ainda temos o hábito de argumentar que o noticiário é importante para que as pessoas se mantenham informadas ou, de forma mais grandiosa, para que a democracia se mantenha viva. Estar antenado, realmente, costuma ser uma motivação forte, uma vez que isso pode sempre render frutos profissionais. Atualmente, no entanto, é possível se manter informado acessando diversas publicações online ou mesmo via rede social. Nada disso garante que o leitor irá acessar o NOSSO veículo.

E neste sentido, a alta rotatividade de matérias pouco acrescenta para o apelo de um jornal em específico, uma vez que esta prática não acrescenta valor ao conteúdo publicado, mas ao contrário, faz com que ele se pareça efêmero. Olhando pela ótica do leitor, o grande volume de publicações e o pouco tempo que elas permanecem em destaque nos sites não gera a percepção de que é preciso estar acompanhando o noticiário com regularidade, pois há uma probabilidade real de que o público acabe por enxergar o conteúdo como tendo pouca substância.


Fitas cassetes no mundo do streaming

Recentemente foi noticiado que o Spotify iria lançar uma fita cassete comemorativa da banda Metallica. Iniciativa estranha para uma empresa de streaming? Talvez não. Tudo aquilo que não é tátil possui uma longevidade inferior ao que é material – pois se não tocamos, logo não parece real; se não parece real, logo se torna descartável.

Obviamente, o Spotify não deixará de ser uma plataforma de streaming, mas com essa iniciativa, lança ao mercado algo que, por ser palpável, possui um maior valor perceptível. As consequências são várias: a fita pode apelar a colecionadores, fãs da música e aos nostálgicos, dando ao Spotify um status superior de marca que realmente valoriza a música.

A solução para todas as empresas de mídia que migraram para o digital é retornar ao físico? Certamente não. Mas é importante entender que se nos propomos a aumentar a percepção de valor das publicações, então estamos fazendo isso em um ambiente que não joga a nosso favor.


O que fazer para que nossos produtos conquistem maior perenidade?

Algumas propostas que podem ser do interesse das empresas de mídia que buscam encontrar um diferencial e fortalecer o financiamento direto pelo leitor já são bastante discutidas e repercutidas aqui no Orbis. Argumentar sobre a importância da busca pela qualidade do conteúdo pode até parecer uma obviedade. Qual jornal não tem como meta publicar matérias bem apuradas e com credibilidade, afinal de contas? Entretanto, quando falamos na busca pela qualidade e diferencial do conteúdo, não nos referimos apenas a isso. Tratamos, especificamente, de quebrar com alguns padrões, exigir dos repórteres uma apuração profunda (mesmo que isso tome tempo), que escrevam de forma clara, mas também criativa, que não publiquem aquilo que todos os demais veículos estão publicando (ou ao menos, não da mesma forma). Fazer isso não é tão óbvio e menos ainda fácil. Exige uma formação excepcional da equipe de reportagem – e com isso, investimento de recurso e tempo. Exige, também, uma mudança de postura. Não é possível colocar tal plano em prática exigindo que cada repórter publique algo novo todo dia (ou várias vezes ao dia). Para este modelo funcionar, é preciso seguir a lógica do “menos é mais”.

Mas não é bem disso que estamos tratando neste artigo. O ponto aqui é buscar uma maior perenidade para o nosso conteúdo. Para isso, a qualidade e o diferencial são o ponto de partida, são o elemento sem o qual a perenidade jamais será possível, mas não o objetivo em si. A verdade é que de pouco adianta publicar uma matéria bem apurada e bem escrita para que ela seja ocultada por novas publicações feitas no dia seguinte – ainda mais se forem publicações que pouco agregam na vida do leitor.

Neste sentido, algo que as empresas de mídia poderiam tentar é de fato insistir nas matérias publicadas. Sim, renovar constantemente o conteúdo é uma prática seguida essencialmente por todos os jornais e revistas que migraram para o digital – mas esta prática não precisa ser uma cláusula pétrea do jornalismo. Por que não manter a rotatividade de parte do conteúdo, investindo complementarmente em matérias especiais, bem apuradas, propositivas, redigidas de forma criativa e visualmente interessantes? E como são trabalhosas, por que não deixar este conteúdo em destaque por alguns dias ou uma semana inteira, como faziam as antigas revistas?

Certamente, isso também exige que as empresas passem a alocar parte de seus esforços a procurar pautas frias (ou mornas) que consigam se manter relevantes por um período maior de tempo. E qual é o problema disso? Talvez haja mais vantagens do que desvantagens em tentar algo assim. Se, por um lado, as publicações acabem deixando de apelar ao instinto mais primitivo do homem de reagir àquilo que é polêmico e escandaloso, por outro podemos não apenas contribuir para a construção de uma sociedade mais saudável, como também podemos garantir um diferencial maior em relação aos concorrentes.

Polêmicas são como tempestades: elas até despertam uma curiosidade inicial, até que se tornam banais quando percebemos que nada mais são do que simples barulho. Assim, pouco conseguimos do público além de uma atenção momentânea. Ademais, este tipo de conteúdo é facilmente replicado por outros veículos. A verdade dura é que pouco ganhamos com a reverberação de escândalos além de cliques acidentais. Já artigos substantivos podem engajar fortemente o leitor e, quem sabe, com a publicação constante de matérias assim, garantir a sua fidelidade com o veículo.

Agradecem aqueles que, como eu, nunca leriam certas matérias – e certamente se arrependeriam caso não o tivessem feito.

Numa cidadezinha sem nome, um dia aparece uma menina chamada Momo. A garota, órfã e carente de um lugar para se abrigar, acaba sendo acolhida pelas pessoas locais, que levam roupas para aquecê-la e comida com a qual possa se alimentar. Um anfiteatro abandonado acaba tornando sua moradia e, também, o local onde as pessoas vão visitá-la.

Nesta fantasia do alemão Michael Ende, a menina Momo acaba se tornando um ponto de encontro para a pequena comunidade local que recorre a ela para ouvir seus problemas, mas também uma adversária para os homens cinzentos – criaturas estranhas de pele acinzentada que representam o banco do tempo. São estes homens que prometem economizar o tempo das pessoas para que elas possam usá-lo futuramente com os devidos juros. É claro que, na obra, este tempo nunca é devolvido, e quanto mais tempo os cidadãos locais economizam, menos tempo têm para atividades consideradas não essenciais.

Obras infantojuvenis, sejam livros ou filmes, tendem a falar de temas complexos no linguajar próprio das crianças. Com Momo não é diferente, e o paralelo com uma sociedade que vive em senso de urgência é clara – e para nós, jornalistas, bastante útil. Afinal, se tudo é correria, podemos realmente esperar que o nosso trabalho seja devidamente acompanhado pelas pessoas? A verdade é que, independentemente da importância do serviço que prestamos, a boa leitura costuma ficar espremida entre o tempo do trabalho e o tempo do lazer. Como fazer para escapar dessa dura circunstância com um conteúdo que seja ativamente procurado pelo público, e não lido acidentalmente como acontece com tanta frequência?

O modelo pelo qual O Antagonista ficou tão conhecido é sempre uma opção. Aos moldes do Twitter, a ideia é publicar muitas matérias de forma extremamente enxuta, permitindo que nos encaixemos mais facilmente na rotina apertada das pessoas. Jornalisticamente falando, entretanto, há um problema. Toda matéria, por mais aprofundada que seja, oferece sempre um recorte da realidade. Quanto mais estreito for este recorte, menor será a capacidade da matéria de oferecer um retrato fiel e contextualizado do assunto em questão. Ademais, fica a dúvida sobre a capacidade deste modelo de engajar os leitores por muito tempo sem ficar constantemente publicando notícias quentes e polêmicas.

Para conseguir atingir os leitores com tempo cada vez mais escasso para a leitura, entretanto, a redução do tamanho das publicações não é a única solução. Ao contrário, há uma outra possibilidade ainda timidamente testada no Brasil em que o veículo aposta em artigos longos, detalhados e muito bem apurados. É certo que se o leitor já não dedica tanto tempo à leitura das publicações tradicionais, menor ainda será sua disposição para um conteúdo consideravelmente mais extenso. Para que este modelo editorial funcione, portanto, é preciso haver uma outra mudança cultural no jornalismo que envolve a quantidade de matérias publicadas diariamente.

Quem faz isso de maneira radical é o The Ken – publicação indiana que cobre notícias sobre negócios da Índia e do sudeste asiático. O diferencial mais chocante para nós é que, além do compromisso de ofertar matérias extensas e visualmente ricas, o veículo publica apenas um artigo por dia. Embora a quantidade de conteúdo seja pequena, a qualidade justifica a assinatura básica de 120 dólares por ano (algo próximo de R$ 50,00 por mês segundo a cotação atual da moeda). O preço é salgado perto do que nos dispomos a cobrar, e a publicação já contava com 30 mil assinantes em 2021.

Com isso, é verdade, o veículo abre mão de abordar inúmeras outras pautas relevantes do cotidiano que costumam ser publicadas por jornais tradicionais. Mas a questão é: o leitor consegue dar conta do tsunami informativo atual? Acredito que nem mesmo nós, jornalistas, conseguimos dedicar tempo de nossa rotina corrida para ler mais do que três ou quatro matérias. Não temos tempo para isso – o que dirá o leitor, que não vive da informação. Neste sentido, o The Ken oferece algo interessante: uma gama sucinta de conteúdo bem produzido para um leitor com pouco tempo à disposição para se dedicar a tudo aquilo que os jornais tradicionais publicam diariamente.

Este modelo possui uma dupla vantagem: da nossa parte, permite que os jornalistas, menos sobrecarregados com a obrigação de publicar muito, possam se dedicar a publicar melhor. Menos tempo empregado na publicação de vários artigos significa que mais tempo pode ser gasto na apuração de uma só matéria. Do lado do leitor, existe a vantagem de não precisar selecionar aquilo que há de mais importante para ler em um oceano de conteúdo oficial e não oficial. Tal tarefa é cansativa e, frequentemente, frustrante, pois gera a sensação de que não estamos conseguindo acompanhar o ritmo dos acontecimentos. Uma consequência habitual é a simples desistência de acompanhar o noticiário para ter em troca um certo nível de conforto e alívio emocional.

Além do escasso tempo que já temos para dedicar à leitura de artigos, o fato é que nosso dia a dia é marcado por incontáveis escolhas de maior e menor importância que temos de fazer. Tudo isso conta para um cotidiano desgastante onde a leitura jornalística acaba se tornando uma tarefa cansativa. Não é de surpreender que muitos se afastem do noticiário: ter que escolher o que ler dentre as incontáveis matérias que publicamos e entre os inúmeros veículos brasileiros existentes em uma rotina exaustiva, se torna simplesmente um esforço que para muitos não é recompensador. Por que não facilitar a vida do leitor? Por que não lhe oferecer uma gama menor, embora melhor, de conteúdo diário?

Realisticamente falando, devemos admitir que uma mudança radical para o modelo editorial e de negócios da publicação indiana seria extremamente complicado para os veículos brasileiros já estabelecidos. Uma matéria por dia, afinal, significaria abrir mão da receita publicitária tradicional – e dificilmente uma empresa de mídia teria fôlego financeiro o suficiente para bancar tão drástica mudança. Igualmente, a aposta em tal modelo editorial exigiria também uma atuação de nicho, o que também foge do padrão jornalístico com o qual estamos familiarizados. Infelizmente, a margem de manobra para novas iniciativas editoriais e financeiras é baixa. Mas, também, ninguém precisa girar 180º para começar um processo de mudança. Por essas e outras, mais do que um modelo definitivo, o The Ken oferece uma inspiração.

A máxima de que o cliente tem sempre razão é certamente questionável, mas que suas necessidades devem ser sempre altamente consideradas é um pressuposto que não devemos perder de vista. O caos informativo, por si só, já afasta incontáveis pessoas do jornalismo. Este fator, aliado à rotina conturbada que todos temos, produz um cenário ainda mais complicado para as empresas de mídia. Não podendo vencer os homens cinzentos com a ajuda de criaturas místicas, resta a nós adequar o conteúdo que vendemos a este cenário em que o tempo é um recurso cada vez mais escasso na rotina das pessoas.