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Ana Brambilla

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Jornalista, Doutora em Comunicação Social. Editora Orbis Media Review. Professora e Pesquisadora do Master Negócios de Mídia.

O que uma jovem nascida em 2001 tem para ensinar a jornalistas, acadêmicos e gestores de veículos da atualidade? Em poucas palavras: muita coisa.

O comentário de Melina Barragan, estudante do segundo ano de Comunicação Social da Universidad Austral, de Buenos Aires, flutuava despretensiosamente no chat da sessão online de lançamento do livro “Cultura Snack”, de Carlos Scolari, na última semana. Ela dizia:

“Nossas mentes – como produto do esquecimento – funcionam de maneira ‘micro’, ou seja, condensamos e encurtamos grandes ideias para lembrar do ‘essencial’ de cada texto, sem que isso signifique, necessariamente, uma ‘simplificação’, mas que possamos dar conta de toda a complexidade de algo em poucas palavras. Talvez os ‘microtextos’ sejam reflexo dessa natural necessidade humana.”

As linhas de Melina subiram na lateral direita da tela com a velocidade da interação de mais de 200 pessoas presentes na sessão ao vivo. Se Melina tivesse se prolongado, possivelmente eu não teria alcançado sua mensagem como, de fato, não consegui ler os comentários de vários colegas.

Meus limites não eram apenas visuais, mas cognitivos. Queria prestar atenção na fala do autor e dos painelistas. Queria visitar os links de referência que eles compartilhavam. Queria ler os comentários no chat. Queria eu mesma compartilhar meus pensamentos na ocasião. Mas era isso: uma ocasião, um momento carregado de informação. E minha atenção se pulverizava naquele turbilhão de ideias incríveis, atuais, atraentes demais para mim.

Então pergunto: em que momentos do cotidiano NÃO nos sentimos assim, atraídos por vários lados, por informações que queremos consumir? 

Dou ênfase ao querer consumir, porque na vontade já há um componente importante da atenção que colocamos naquilo que nos cerca. Nem assim, porém, é possível captar tudo o que chega a nós.

O breve não é, necessariamente, efêmero ou superficial.

Francisco Albarello

Melina entendeu essa limitação tão humana, tão contemporânea. Ela não julgou essa característica da mente como preguiça ou desinteresse. Ao contrário! Queremos captar a complexidade das coisas e recordá-las! Mas como carregar, numa memória exausta, toda a bagagem densa e extensa do conteúdo que boa parte dos jornalistas ainda considera “de qualidade”?

Microformatos e a miniaturização do mundo

Carlos Scolari traz da micrologia – estudo de estruturas muito pequenas – um olhar compreensivo aos textos curtos e a quem os prefere.

  • Os bonsais permitem que árvores sejam móveis
  • As séries aproximam o cinema do cotidiano
  • As urnas funerárias devolvem a presença do ser à casa
  • O Código de Hamurábi compactou as leis para que fossem memorizadas
  • Os refrões fazem uma música “grudar” e marcar época
  • Os slogans publicitários impulsionam o consumo
  • As “porções”, de bares e restaurantes, encolhem a refeição e aproximam pessoas

Quando foi que associamos o alto valor à extensão de algo? Objetos de grandes dimensões, geralmente, são imóveis, perenes, estáveis, como os volumes de uma enciclopédia. Eles nunca saíam das bibliotecas; era apenas para consulta local. Enquanto isso, o livro já foi uma forma de “portabilidade do conhecimento”.

Henry Jenkins, em “Cultura do Compartilhamento” (2013), comparou grandes empresas tradicionais como hieroglifos na pedra. Já startups e companhias inovadoras voam leves, como a palavra escrita no fino papiro.

Se a miniatura compactar o mundo de modo que podermos levá-lo de um lado a outro, a brevidade dos microtextos facilita a sua circulação pelas redes. O texto curto é mais lido e compartilhado. O vídeo rápido chega a mais pessoas. Eis a raiz de todo o processo de viralização, de uma nova circulação [hiper]midiática. Eis uma cultura mais gasosa do que líquida, compara o autor.

Jornalismo snack?

Julgar se algo é melhor ou pior com base apenas na portabilidade nos leva aos comerciais de “micro system” dos anos 80 e para a icônica imagem do jovem dançando na rua com um 3 em 1 apoiado no ombro. Sabemos que isso não basta ao jornalismo. Então, será mesmo o caso de abraçarmos sem medo a cultura snack?

“O breve não é, necessariamente, efêmero ou superficial”, define Francisco Albarello, mediador da discussão. Este, aliás, seria justamente o maior desafio do jornalista e de todos que produzem conteúdo para o ambiente digital: como ser breve sem ser simplista? 

De tudo o que fazemos, publicamos e falamos, o que, de fato, fica?

Carlos Scolari percebe que é possível haver um micro que aponte ao macro. Escrever um texto curto que conte uma história, de fato, não é tarefa simples. O exercício da síntese requer conhecimento profundo sobre uma pauta e muita habilidade narrativa. O autor acredita que, por trás de muitos conteúdos “micro” publicados pela web, há uma trama gigantesca de significados, referências, cruzamento de ideias que ficam apenas sinalizados a um leitor sobrecarregado.

Como consumimos informação? A colagem informativa individual

No comando de um processo único e individual de consumo de informação, cada usuário é responsável pelas suas escolhas, quase um editor particular. É neste trajeto que ele fará conexões entre as inúmeras micro informações com que se depara ao longo do dia.

Talvez o usuário nem faça esta colagem informativa conscientemente. Como disse a estudante Melina, condensar para guardar na memória pode ser o reflexo de uma natural necessidade humana. Aos veículos e jornalistas, então, nos resta buscar um lugar neste patchwork de ideias. Tanto melhor se entregarmos um conteúdo enxuto, objetivo, que faça ao menos uma parte deste trabalho mental de seleção e recorte da realidade.

Qual a probabilidade de um conteúdo longo, cheio de expressões formais ou rebuscadas, distante de um cotidiano formado por instantes eternos ser parte do mosaico de informações do indivíduo contemporâneo? De tudo o que fazemos, publicamos e falamos, o que, de fato, fica?

Infodemia: Estamos cansados de tanta informação

Scolari não faz uma ode aos textos curtos. Como pesquisador, ele constata que as pessoas leem cada vez menos de forma linear. “Estamos esgotados. Desde que começou a pandemia, a sensação de incerteza, a dificuldade de ter foco nas coisas nos faz experimentar um colapso na produção de sentido”, analisa.

A sensação de estarmos soterrados em informação e à mercê de nossas próprias [boas ou más] escolhas não é nova. Ele lembra que a percepção de quem viveu no começo do século XIX era de que o mundo movia-se rápido demais. Até o telégrafo pode ser entendido como uma pré-snackização do conteúdo. A popularização dos jornais, o surgimento das emissoras comerciais de rádio e TV no século XX também causaram esse esgotamento mental que hoje damos o nome de infodemia.

Compatível à reflexão, o livro “Cultura Snack: lo bueno, si breve…”, apresenta o conteúdo de 200 páginas em aforismos. A experiência pretendida pelo autor é que o público faça uma leitura não-linear, começando por onde quiser, pulando páginas, voltando outras… aos moldes da obra-prima de Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha (Rayuela), publicada originalmente em 1963.

Ainda disponível apenas em espanhol, o novo livro de Scolari provoca:Se falar muito aborrece, falar pouco leva à decisão sobre o que dizer e o que ignorar. Quando o atirador tem poucas balas, deve escolher muito bem como usá-las, para onde e quando apertar o gatilho”.

[Breve] Nota:

Se você chegou até aqui e a julgar pelo tamanho deste texto, já percebeu que ainda tenho muito o que aprender sobre Cultura Snack e microformatos… 😉

Ah, e se interessar, um assunto correlato é o “microjornalismo”, tema da tese que defendi em 2018. Download livre aqui.

“O modelo de paywall não pensa no consumidor. O consumidor quer ler apenas os artigos que lhe interessam, de seis ou sete veículos, sem ter que pagar seis ou sete assinaturas. E a tecnologia permite isso. Vamos fazer!


John L. Hennessy, presidente da Alphabet Inc. (aka Google)

Em entrevista publicada pelo espanhol/catalão La Vanguardia, Hennessy defende o micropagamento no consumo de conteúdo jornalístico. Entre as justificativas está o fato de que a venda de assinaturas, no meio digital, faz mais sentido aos veículos do que aos consumidores. Ou seja, não há user-centricity ou a priorização do usuário não norteia as atividades da empresa.

Isso se deve à cultura digital estar tão arraigada ao “snackable content”, ou seja, ao ato de “petiscar conteúdo” pulverizado por vários sites com os quais não se quer – nem se pode – estabelecer compromissos de longo prazo como são as assinaturas.

Assinaturas e o “bundling” no jornalismo

Para a empresa jornalística, o “bundling” ou o “a circulação de pacotes de conteúdo” é a estratégia ideal para criar previsibilidade de receita e equilibrar o caixa.

Em veículos impressos (jornal ou revista), há quem compre a edição pela matéria de capa ou para ler apenas a seção de esportes. No entanto, precisa pagar pelo exemplar inteiro. Isso ajuda, no fim do dia, a compensar o custo de produções pouco rentáveis, mas que o veículo julga necessário ter.

Um exemplar, por si só, já é um bundling. Assinaturas, então, são o bundling do bundling. A mesma lógica se aplica aos pacotes de TV a cabo: quantos de nós pagamos por canais que nunca assistimos, só porque ele “está no pacote”?

Pense no tamanho da admiração e da fidelidade que o usuário precisa ter com o veículo para tornar-se um assinante… É quase um casamento! Tem contrato, compromisso. Impossível? De forma alguma. Só difícil, muito mais difícil do que seguir a natureza do comportamento de consumo atual.

Microinteresses voláteis

No consumo de conteúdo digital – e respeitando a lógica da cauda longa – lemos esporte no veículo especializado; dificilmente no generalista. Mais: se neste mês estou interessada em aplicação de papéis de parede, encontrarei facilmente conteúdo jornalístico que atenda pontualmente minha demanda. E isso não quer dizer que eu tenha razões para me tornar assinante de uma revista de decoração.

Mês que vem é provável que eu já tenha instalado o papel de parede e esteja em busca de informações sobre intercâmbio ou a respeito de tratamentos revolucionários de uma doença X. Há poucos anos o Google chamou isso de “micromomentos“, sob a ótica do marketing. Podemos chamá-los de “microinteresses” ou microdemandas de informação ultra personalizados e voláteis. Eis o snackable.

Micropagamento e câmaras de distribuição

Já falamos, neste Orbis, sobre micropagamento. Não é algo simples e, não raro, soa utópico. Nas palavras de Hennessy:

“Pagaremos um micro valor por cada notícia que leremos e uma câmara de compensação redistribuirá esse pagamento entre os editores.” 

John L. Hennessy, presidente da Alphabet Inc.

Em tempo: as declarações de Hennessy são deste mês, o mesmo mês em que o Facebook proibiu a publicação e a visualização de conteúdo jornalístico australiano no mundo inteiro, estimulado pela lei de barganha de mídia daquele país que, entre outras regulações, cria um fundo alimentado pelas big techs, em favor de pequenas empresas jornalísticas.

Vale a provocação e a reflexão.

Publicações de todas as partes do mundo viveram o “corona-bubble” de audiência online. Entre abril e junho de 2020, sites de revistas, jornais, portais de notícia eliminaram seus paywalls e viram as métricas subirem com fôlego. A boa notícia era que, em assunto de vida-ou-morte, o público confia mesmo é no jornalismo profissional.

A preocupação estava no momento de voltar a cobrar por acesso ou assinatura. Com a economia abalada, o público realmente se animaria a pagar por conteúdo depois de acessá-lo gratuitamente por algum tempo? The Atlantic foi um caso extraordinário já no começo de 2020 e converteu 36 mil assinantes apenas no mês de março, quando a contaminação já se espalhava por mais da metade do mundo.

Enquanto o mercado estremecia, The Atlantic comemorava. O restante do ano mostrou que a pandemia não seria suficiente para frear o bom momento do business. Felizmente, The Atlantic não estava sozinha.

As campeãs

Dez marcas de revistas norte-americanas tiveram desempenho positivo em todos os canais de circulação durante 2020, em comparação ao ano anterior. Entre elas, média de crescimento foi de +34% em desktop, +56% em mobile e +11% no consolidado print + digital.

Além da The Atlantic (+25% print+digital, +25% desktop e +38% mobile), a New Yorker registrou crescimento significativo (+20% desktop, +5% mobile e +13% print+digital), assim como a Wired (+19% desktop, +21% mobile, +23% print+digital). Elle foi outra marca conhecida dos brasileiros que teve algum êxito no mercado norte-americano, na faixa de +2%.

Formatos digitais x Mídia impressa

A circulação de 92 revistas norte-americanas em mobile cresceu +11%, o que não ficou muito atrás dos resultados positivos em desktop, que subiram +13%. Nos números absolutos, porém, o consumo no celular (627 milhões) é mais de quatro vezes maior do que no computador (148 milhões).

Apesar do crescimento, os formatos digitais ainda perdem em circulação para as edições impressas. A quantidade de leitores que preferem o papel é 16 milhões maior do que o grupo que lê pelo celular. No entanto, no suporte analógico, a queda de circulação é representativa e nem mesmo todo o crescimento em plataformas digitais é capaz de compensar essa perda. O consolidado print+digital apresentou resultado de -7% no comparativo entre 2020 e 2019 e atingiu 75% do mercado rastreado.

O movimento de forte queda no impresso acompanhado pelo aumento da circulação digital acontece em marcas que já existiram, existem ou estão por chegar ao Brasil:

  • Fast Company: +9% desktop, +37% mobile, -9% print+digital
  • Marie Claire: +13% desktop, +39% mobile, -21% print+digital
  • Vogue: +21,5% desktop, +38,5% mobile, -14% print+digital
  • In Style: +27% desktop, +3% mobile, -14% print+digital
  • Men’s Health: +33% desktop, +20% mobile, -7% print+digital
  • Women’s Health: +55% desktop, +38% mobile, -8% print+digital

Outras revistas mundialmente conhecidas tiveram um ano apertado ou negativo:

  • Time: +0,3% desktop, -12% mobile, -9% print+digital
  • People: -1,5% desktop, +1,5% mobile, -11% print+digital
  • Reader’s Digest (Seleções): -25% desktop, +13% mobile, -5% print+digital

Vídeo

Aos publishers que enxergam no vídeo o formato de salvação das revistas, o mercado editorial norte-americano emite um alerta: 38% dos principais títulos daquele país registraram queda de visualização.

Entre as marcas mais conhecidas estão Esquire (-37,2%), O Oprah (-64,7), People (-10,5%), Sports Illustrated (-80,5%), Time (-29,5), Vanity Fair (-4,8%), Vogue (-15,4%) e Wired (-9,1%). Até The Atlantic, que teve alta em todos os canais de circulação (desktop, mobile e print+digital) também caiu em visualização de vídeos (-2,4%).

Ainda assim, no índice geral, o formato vídeo teve um leve aumento de +1,7% em relação a 2019. As responsáveis pela melhora no cenário são quatro marcas que viram seus analytics dispararem nos players: National Geographic (+207,9%), Mother Earth News, da Ogden (+178,9%), House Beautiful, da Hearst (+151,1%) e Fast Company (+81,2%).

O relatório

Todos os dados acima constam no relatório Media 360º, publicado em dezembro de 2020 pela Alliance for Audited Media. O levantamento reúne dados de entidades como Ipsos, Comscore e outros institutos de monitoramento de circulação nos Estados Unidos e está disponível para download.

Não é preciso trabalhar com redes sociais há muito tempo para lembrar dos incontáveis anúncios que as plataformas fizeram com o intuito de manter seus newsfeed longe das fake news. Além de destinar, eventualmente, gordas verbas de PR para veículos, empresas como Facebook, Twitter e mesmo o Google assumiram o papel de social justice warrior. Além de abraçarem causas ligadas às minorias identitárias, chamaram a si a tarefa de lutar contra a desinformação em seus ambientes. Nada mais justo… quanto “insustentável”.

Algumas das iniciativas…

… em novembro de 2020, o Twitter passou a notificar usuários que curtissem conteúdos sinalizados como “enganosos”;

… em maio de 2020, o Facebook comunicou a criação de um “conselho internacional independente” – com direito a ganhador de Nobel da paz – que decidiria o que os usuários poderiam ver ou não;

… em novembro de 2020, o Twitter revelou plano para “conter a desinformação” nas eleições norte-americanas;

… em outubro de 2020, o Twitter anunciou a chegada do Birdwatch, em teste desde agosto daquele ano, uma possibilidade de os usuários contextualizarem tweets que trariam mensagens reportadas como falsas;

… em setembro de 2020, o Twitter colocou no ar uma funcionalidade que alertava os usuários para lerem um conteúdo linkado antes de compartilharem. A ferramenta dizia: “As manchetes não contam toda a história“;

… em outubro de 2020, TikTok e Twitter fecharam parceria com o Tribunal Superior Eleitoral para “evitar fake news” nas eleições municipais brasileiras;

… um ano antes, em outubro de 2019, o Facebook lançou uma aba exclusiva para notícias, na intenção de “conter as fake news”;

… em dezembro de 2019, uma ferramenta do Instagram se propôs a “filtrar as fake news”;

… em abril de 2019, o Facebook assinou acordo com uma série de redações brasileiras que colaborariam com o programa global de fact cheking da rede;

… esse programa, aliás, já existia desde 2016 e em 2018 passou a contar com agências verificadoras de informação, como a Lupa e a Aos Fatos;

… além de outras tantas iniciativas (se você lembrar de mais alguma, por favor, conte nos comentários!).

manchetes fake news social media

Segundo o próprio Facebook, medidas como as parcerias de fact checking resultaram na diminuição de 80% das fake news nos Estados Unidos. “Estamos comprometidos em combater a disseminação de notícias falsas no Facebook“, anunciava em 2018 a líder de parcerias com veículos de mídia para LatAm.

Pouco mais de dois anos depois, em meio à ameaça planetária de sofrer regulação em diversos países, as social big techs começam a pedir socorro.

Facebook quer que Estado se responsabilize pelo conteúdo

O head do Facebook no Canadá, Kevin Chan, declarou recentemente que não é mais sustentável as empresas de social media autorregularem os conteúdos que circulam em seus ambientes e que é tempo de os governos entrarem na jogada.

“Neste momento, são empresas privadas – como o Facebook – que decidem o que pode ou não ser veiculado no Facebook e achamos que muitas pessoas não estão de acordo com isso. Elas querem políticas públicas onde haja responsabilidade pública legítima e democrática. Então, se os legisladores puderem acordar onde esta linha limítrofe deve ser traçada e então impô-la a nós, isso certamente seria bem-vindo.”

Tomemos o tema com calma…

Conteúdo impróprio, como calúnia (grosso modo, fake news), injúria e difamação (discurso de ódio), já é legalmente proibido e amplamente rejeitado em regimes democráticos. Quem sempre flertou com os limites entre a informação publicável e a ofensa foi o humor, mas o jogo de cena que as big techs têm feito com veículos jornalísticos perdeu a graça há muito tempo.

Empresas jornalísticas estão duplamente em desvantagem em relação às redes sociais: perdemos a publicidade para elas e ainda trabalhamos de graça, alimentando perfis com conteúdo profissional que sequer convertem em visitas aos nossos produtos digitais. A pergunta é: qual o objetivo de veículos continuarem alimentando seus perfis com chamadas de conteúdo? O esforço realmente compensa?

Sob a chancela do livre mercado, as redes sociais se ergueram sobre um modelo de negócios sabidamente predatório aos veículos jornalísticos. Olhemos para o ecossistema econômico global, em que diferente indústrias coexistem, e notamos que o transporte por aplicativo erodiu o mercado de táxis, assim como o AirBnB estremeceu a indústria hoteleira. Mas em nenhum desses casos o negócio inovador se alimentaria dos antecessores: Uber prescinde táxis e AirBnB não se estabeleceu usando hotéis. Já as redes sociais, ainda que não dependam do conteúdo jornalístico, souberam usá-lo muito bem para não orkutizar.

Veículos podem evitar que plataformas se “orkutizem”

Muito já se especulou sobre “o que seriam das redes sociais sem conteúdo produzidos por profissionais” e a resposta é esta: seriam um Orkut. Vale dizer que o Orkut e redes contemporâneas ainda pouco habitadas por marcas jornalísticas (como Twitch e TikTok) guardam a preciosidade do diálogo interpessoal com dimensão midiática, isto é, indivíduos se unem ao redor de interesses compartilhados e trocam informações de extrema relevância particular. Mas esteja seguro de que poucos acessam tais redes com a intenção de ver notícias, como fazemos com Facebook, Twitter, YouTube e mesmo Instagram ou WhatsApp.

É importante lembrar da insistência com que as social tech giants afirmam que não são veículos jornalísticos e nem querem ser – elas sabem que isso implicaria assumir a responsabilidade sobre algo que não conseguem gerenciar: o conteúdo.

É bem verdade, porém, que as plataformas onde os veículos ainda não operam abrigam toda sorte de material, conteúdo vulgar – quando não ilícito – e levam seus próprios usuários a se perceberem cercados pela desfaçatez humana. Àqueles que não lembram, foi daí que se popularizou o termo pejorativo orkutizar. O Orkut orkutizou quando foi adotado massivamente e povoado por qualquer conteúdo (sem filtros e sem a presença de veículos jornalísticos). Foi a partir deste momento que o Orkut entrou em declínio.

Sobram pesquisas mostrando quanta gente usa as principais redes sociais como fontes de notícias. A expressão social media as a news source chega ter um verbete da Wikipedia. Outro indicativo do quanto as redes precisam do conteúdo jornalístico em seus newsfeed são os projetos de parceria que Google e Facebook oferecem a redações mundo afora, amplamente sustentados no discurso do quanto essas big techs acreditam em um jornalismo de qualidade e querem contribuir para que a indústria editorial se fortaleça!

Ocorre que Google News Initiative e Facebook Journalism Project estão longe de contornar o estrago que as big techs causaram aos veículos. As empresas jornalísticas, aos poucos, acordam para esta realidade. Daí surgem, pelo menos, dois posicionamentos:

(1) Não, as big techs não devem ser responsabilizadas pela crise financeira nas redações

Neste caso vale lembrar que veículos criaram o hábito de compartilhar seus conteúdos gratuitamente nas redes com a intenção clara e válida de aumentar suas audiências e, com isso, fazer crescer o faturamento publicitário. Estávamos enganados – é preciso reconhecer. A audiência já não vem mais sem boost post e o faturamento publicitário migrou para os newsfeed.

Jogar a responsabilidade sobre o conteúdo para o poder público significa onerar ainda mais o Estado – consequentemente, o cidadão -, atribuindo a governos inaptos uma tarefa crucial para manter estas plataformas operantes. Tanto a máquina estatal quanto as administrações públicas são inaptas a dar limite para os conteúdos das redes sociais simplesmente porque desconhecem os processos, porque os algoritmos são opacos e inacessíveis, porque o esforço de fiscalização é tão inviável que os próprios donos das plataformas já não conseguem mais lidar com o peso que isso representa.

Na realidade, portanto, empresas jornalísticas estão duplamente em desvantagem em relação às redes sociais: perdemos a publicidade para elas e ainda trabalhamos de graça, alimentando perfis com conteúdo profissional que sequer convertem em visitas aos nossos produtos digitais (sites, apps, assinaturas, whatever). A pergunta é: qual o objetivo de veículos continuarem alimentando seus perfis com chamadas de conteúdo? O esforço realmente compensa?

Não se trata de abandonar as redes sociais; apenas repensar o jeito como veículos se fazem presentes nas plataformas, de maneira que faça sentido tanto para eles, quanto para o público, quanto para as próprias big techs.

Àquelas redações que ainda registram vantagem significativa de negócio ao publicar seus links nas redes, não há do quê responsabilizar as big techs. Quando a troca é justa, cada um faz a sua parte do negócio: veículos se comprometem com a produção de conteúdo e redes sociais se encarregam da distribuição. No entanto, sabemos que isso não é uma realidade.

As grandes plataformas se manteriam sem os veículos? Claro! E o risco de orkutizar e entrar em decadência? Isso se resolve ao tomar responsabilidade pelo conteúdo circulante – algo que as empresas de redes sociais, aparentemente, vêm tentando, sem sucesso, e começam a entregar os pontos. É importante lembrar da insistência com que as social tech giants afirmam que não são veículos jornalísticos e nem querem ser – obviamente, pois isso implicaria assumir a responsabilidade sobre algo que elas não conseguem gerenciar.

Jogar a responsabilidade sobre o conteúdo para o poder público significa onerar ainda mais o Estado – consequentemente, o cidadão -, atribuindo a governos inaptos uma tarefa crucial para manter estas plataformas operantes. Tanto a máquina estatal quanto as administrações públicas são inaptas a dar limite para os conteúdos das redes sociais simplesmente porque desconhecem os processos, porque os algoritmos são opacos e inacessíveis, porque o esforço de fiscalização é tão inviável que os próprios donos das plataformas já não conseguem mais lidar com o peso que isso representa.

As redes sociais se tornaram monstros, gigantes incontroláveis. Lidar com a humanidade, em tudo de bom e ruim que há nela, definitivamente, não é coisa para moleques de irmandades acadêmicas.

(2) Sim, as big techs devem ser responsabilizadas pela crise financeira nas redações

Uma forma de resolver o dilema das redes com as empresas jornalísticas é adotando a proposta – tão lúcida quanto transformadora – que vem sendo apresentada pelo presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Marcelo Rech. Ele próprio conta no vídeo abaixo (aos 59’36”):

“Vivemos um momento em que as grande plataformas digitais, em seus processos de construção de negócio, produzem uma poluição social. Não é a intenção delas, mas a poluição social – bolhas, fake news, desinformação, discurso de ódio – é o lado obscuro, o efeito colateral das redes sociais de forma geral. Quem tem a capacidade, a habilidade, a competência para fazer a limpeza dessa poluição é o jornalismo profissional. Tenho advogado que as grandes plataformas que produzem essa poluição social paguem uma taxa de limpeza. Quem limpa é o jornalismo profissional. A atividade do jornalismo deve ser remunerada, em parte, pelas plataformas de redes sociais. É como se elas estivessem produzindo uma fumaça ou despejando um produto poluente num rio e alguém tem a capacidade de fazer a limpeza desse rio. Nós fazemos a limpeza desse rio. É preciso criar agora uma taxa de limpeza da poluição social produzida pelos gigantes digitais.”

Marcelo Rech, presidente da ANJ

Como fazer isto é algo amplamente discutível. Mas o propósito maior inauguraria uma nova era para o jornalismo, de algum senso de justiça e ordem ao caos. Na proposta de Rech, qualquer tentativa das redes sociais em envolver governos na gestão de seus produtos, com a esperança de conter o movimento de regulação e taxação, resultaria ineficaz.

Veremos (ou faremos) isto acontecer?

Um dos exemplos mais proeminentes do membership no jornalismo encerrou as atividades nesta virada de ano. O holandês Correspondent comunicou a decisão, no início de dezembro, alegando a inviabilidade financeira do projeto internacional.

“A decisão de descontinuar o Correspondent foi tomada em função a adversidades financeiras, o que tornou a nossa redação em língua inglesa financeiramente insustentável. Nos últimos três meses vimos um aumento significativo no cancelamento de associações, com os membros mencionando, frequentemente, uma insegurança financeira pessoal.

Lição #1

As apostas crescentes em reader revenue se chocam com a instabilidade econômica gerada pela pandemia. Quando boa parte dos sites jornalísticos levantaram seus paywalls no começo de 2020 – período que coincidiu com o aumento natural no consumo de notícias profissionais – foi inevitável cogitar se o público aceitaria pagar por conteúdo (outra vez ou pela primeira vez). Ainda assim, alguns veículos registraram crescimento nas assinaturas, como a Atlantic, em claras exceções.

Portanto, em tempos de contenção, salários reduzidos, demissões, desaceleração econômica e “auxílio emergencial”, qualquer tipo de reader revenue precisa ser tomado com muita cautela e planejamento. O “curto-prazismo” freia as pessoas diante de quaisquer novas despesas – e as faz reverem as despesas atuais na intenção de cortar o que não é essencial. Pesquisa deste Orbis Media Review mostrou isso no contexto da pandemia.

E segue o comunicado:

Infelizmente, não conseguimos demonstrar o valor do jornalismo do Correspondent para um número significativo de membros. Com a torrente de manchetes sobre a Covid-19 dominando o noticiário na maior parte do ano, se tornou realmente muito difícil oferecer conteúdo atemporal a membros em mais de 140 países.”

Lição #2:

Esta lição já havia sido ensinada pelo OhmyNews em 2010. Em novembro daquele ano, entrevistei o criador do veículo sul-coreano, o jornalista Oh Yeon-ho e ele mencionou a falta de clareza sobre uma audiência global como uma das razões do fim das atividades da versão em inglês do OhmyNews.

Entendo que o fato do Guardian ser publicado em inglês foi decisivo para que as doações devolvessem as operações do jornal ao azul. Uma audiência global é mais numerosa, mas também é mais difusa, difícil de ter suas demandas entendidas e atendidas por um veículo de pequeno ou médio porte.

A cultura da cauda-longa, da micro segmentação no consumo de tudo o que há no meio digital aperta veículos em nichos. Aqueles que se pretendem maiores do que um nicho, que simplesmente não cabem em um recorte de interesse são expulsos para fora do jogo. Eis o grande dilema de os meios generalistas na atualidade: como recuperar a relevância falando sobre tudo, para todos?

Em novembro de 2010 eu sugeria que a solução para o jornalismo colaborativo – pois o OhmyNews era 100% colaborativo – era ser hiperlocal. Com o tempo entendi que essa história de segmentação extrema vai além da geografia e se acerta bem com nichos de interesse. Há que ser profundo antes de ser extenso.

Isso leva à terceira lição trazida pelo comunicado sobre o fechamento do Correspondent:

As pessoas querem saber de suas fontes de conteúdo: “A escola dos meus filhos estará fechada amanhã?” e “Quando eu poderei tomar a vacina?” – Ainda que essenciais, esse não é o tipo de jornalismo que nós nos dispusemos a fazer. Ao invés disso, estávamos focados em questões transnacionais.”

Lição #3:

É evidente que as pessoas querem saber sobre a escola dos filhos! Afinal, o interesse vai ao encontro da informação que toca, que altera, que impacta a vida de cada um de nós. É nisso que qualquer indivíduo vê valor e talvez até se disponha a pagar. Enquanto isso, o Correspondent publicava coisas como “jornalistas ameaçados e a democracia sob pressão” ou “como entender melhor as trabalhadoras do sexo”.

O rol de assuntos do veículo contemplava temas como:

  • Autocracia nos Estados Unidos
  • Skype é palco para violinista
  • Tributação mais fácil
  • Identidade da mulher muçulmana
  • Dificuldades de alugar uma casa
  • Cardápio político para os próximos anos
  • Conselheiro espiritual ajuda pessoas que os planos de saúde deixam morrer

… e por aí vai. Eu realmente tenho dificuldade para esboçar um nicho de audiência que tenha interesses tão profundos sobre temas tão diferentes. Lembre-se da lógica da cauda longa, sempre! Ela comanda qualquer consumo no meio digital, a começar pelo consumo informativo. Dificilmente dedicamos tempo e atenção àquilo que nos interessa superficialmente.

A terceira lição, portanto, é o foco editorial. E essa lição se torna ainda mais forte quando se trata de um veículo projetado para ter um programa de membership.

Assim como o jornalismo colaborativo do OhmyNews, membership presume comunidade. E comunidade só se forma ao redor de: 1) interesses ou 2) regiões. Se a sua audiência é ampla e o seu enfoque editorial é generalista, é mais do que provável que o membership não seja o modelo de negócio apropriado ao seu veículo.

Membership, a propósito, não é um modelo de negócio de prateleira, que pode ser escolhido como quem procura um jeito de pagar as contas. A condução de um programa de associação é, possivelmente, uma das tarefas mais difíceis e exigentes, pois não se basta em geração de receita. Ao contrário: até que gere alguma receita, o membership só irá funcionar depois de se ter uma coesão muito forte entre a redação e o público.

Membership se presta para compor um modelo híbrido de geração de receita. Mesmo assim, só tende a funcionar em rotinas editoriais praticamente artesanais. Membership não é prática que combine com jornalismo industrial.

Não creio que o Correspondent tenha feito jornalismo industrial. Os problemas deles foram outros: falta de enfoque editorial, imprecisão da audiência e timing (que não pode ser considerado propriamente um erro dos criadores; talvez uma falta de visão).

É uma pena que o Correspondent em inglês deixe de existir. Mas assim como o OhmyNews, a versão local – holandesa – segue firme e forte. A diferença que ela traz em relação à versão internacional, até onde consegui entender, é o idioma (portanto, o escopo da audiência). Então resta acompanhar o De Correspondent para ver se o time terá aprendido com a própria experiência ou se teremos, entre todos, outras lições para aprender.

Conceber uma proposta de valor para produtos jornalísticos não é tarefa simples. Não faltam métodos que nos ajudem a chegar naquilo que dará sentido ao meu produto. Do business model canvas ao Osborn’s Checklist, os frameworks usados pelo marketing parecem perfeitos para encontrar a inovação e desenhar a estratégia de qualquer produto ou serviço: das máquinas de Nespresso ao aplicativo de contratação de pedreiros. Mas produto jornalístico é difícil…

A dificuldade, no entanto, não está no framework e nem no jornalismo, mas na forma como nos apropriamos dessas ferramentas. Ou melhor: nossa dificuldade reside na perspectiva com que costumamos olhar para produtos editoriais. 

Dois passos para ampliar a perspectiva

E qual perspectiva é essa? “É a do conteúdo, é claro!” Afinal, nosso core business ainda é a produção de conteúdo, certo? Sim e não. Ao passo em que, de fato, o conteúdo esteja no cerne de nossas operações, ele já não sustenta o luxo de corresponder à totalidade da geração de receitas necessárias para manter a operação.

Portanto, o passo número um é abrir a possibilidade de que a proposta de valor de nossos veículos – aqui caberia mencioná-los como nossas “marcas” – está em algo além do conteúdo de qualidade: serviços, selos, tecnologias, licenciamentos de marca entre outras “atividades paralelas” irrompem nosso campo de visão de negócios.

O segundo passo é mudar a nossa perspectiva na hora de montar a proposta de valor deste produto editorial com algo mais. Ainda que estejamos falando de um veículo puro e simples, cuja operação se concentre 100% na produção e venda de conteúdo, o lugar de onde olhamos para ele faz toda a diferença.

Outro dia, durante uma sessão de mentoria, um colega apresentava a ideia de um veículo de notícias sobre educação para jovens brasileiros. Quando eu perguntei sobre qual seria o diferencial do produto, ele mencionou uma atualização mais frequente que a concorrência e o uso de dados atualizados. Nossa conversa continuou comigo dizendo:

Colega, eu peço que tu feches os olhos agora e te imagines dentro do quarto de um adolescente de 17 anos, que passa dez horas por dia jogando videogame, que tem uma namorada e briga com a mãe porque não quer arrumar o seu quarto. Agora me diz qual o diferencial do teu produto para atrair este jovem – e não apenas para te diferenciares da concorrência.” – Educadamente, ele riu, embora eu imagine que a vontade dele fosse de arrancar meus cabelos. Mas mesmo insuficiente, até imaginar-se nos sapatos do outro é um exercício difícil de fazer.

Rompendo a bolha do nosso olhar

A endogenia no jornalismo é tão grave que limitamos nosso olhar ao que está no espelho e ao lado, para dentro do próprio produto e para a concorrência imediata. Entender que youtubers também concorrem com nossos veículos tem sido um avanço na compreensão de mercado. Mas a coisa não para por aí. Enquanto nosso produto não tiver uma proposta de valor clara para o público, a conta nunca vai fechar.

Um método cruel – mas extremamente eficaz – que nos ajuda a definir a proposta de valor de um produto jornalístico é perguntar-nos: “E se nosso veículo deixa de existir, que impacto isso causará na vida das pessoas?” Enquanto a resposta for “pouco” ou “nenhum”, é sinal de que temos um longo caminho a percorrer.

Mapear as necessidades (ou as dores) do público não é algo que se faça de modo solitário, nem através de conversas com amigos ou mesmo olhando para analytics. Não se trata de “achar que o público precisa disso ou daquilo”. O investimento – seja como tempo, esforço, seja como dinheiro, nosso ou de outros – é sempre alto para se lançar ao achismo. Nesta hora, nada substitui a pesquisa. Façamos enquetes, focus groups, convidemos usuários para tomar um café conosco. Mergulhemos, sem medo nem ideias pré-concebidas, no incrível e desconhecido mundo real!

Lembro da inquietação de uma colega com os baixos resultados da operação, perguntando retoricamente “onde estava o leitor” da publicação dela? Seu veículo era uma joint venture brasileira de uma revista internacional. Me perguntei, em silêncio: “Quem disse que o seu leitor existe no Brasil?”

Até que ponto imaginamos audiências, presumimos demandas, idealizamos propostas editoriais para só então tentar encaixá-las no mercado?

Não percamos de vista a super oferta informativa e a diversidade de conteúdos de toda espécie, inclusive de qualidade, inclusive gratuito, a que as pessoas estão expostas 24 horas por dia. Por que elas deixarão de consumir esses conteúdos e virão a nós?

São perguntas incômodas que devem estar na raiz de qualquer proposta de valor de um produto editorial. Nos toca enfrentá-las ou pagar o preço de ser apenas “mais um”.

Quem trabalha com informação tem que ter muita vontade de servir. É com a compreensão de jornalismo como um serviço à sociedade que Marcello Corrêa Petrelli chegou à presidência do Grupo ND, conglomerado de mídia de Santa Catarina composto por 10 veículos, entre canais de televisão, jornais e plataformas digitais.

Em entrevista concedida ao jornalista Prof. Dr. Carlos Alberto Di Franco, no dia 12 de novembro de 2020, Petrelli apontou caminhos de prosperidade a empresas de comunicação. Tanto se fala nas dificuldades trazidas pela big techs, nos desafios apresentados pelas redes sociais, na dura competição pela atenção do usuário em tempos de overdose informativa. Mas para Petrelli, “quando se tem problemas, se tem oportunidades”.


“Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, lembra Marcello Pettreli, presidente do Grupo ND de comunicação, de Santa Catarina.

“A verdadeira revolução da redação é defender a simplicidade, a humildade e, principalmente, o desejo de servir, de buscar aquilo que realmente interessa às pessoas e se relacionar. Jornalista tem que gostar de se relacionar”, analisa o ex-agricultor, que entregava pizza nos Estados Unidos para bancar os estudos e hoje lidera uma equipe de quase 600 funcionários.

A simplicidade que Petrelli acredita estar na raiz dos desafios a serem abraçados pelos jornalistas começa na formação do profissional. “As escolas formam jornalistas com uma visão distante da realidade, de querer estar próximo dela”, critica. Ao invés do estereótipo do “jornalista que sabe tudo”, é preciso “se aproximar das pessoas do mundo real, do que elas querem ouvir e saber”.

Menos Brasília, mais jornalismo local qualificado

Ele lembra que, como jornalistas, temos o “cacoete” de priorizar a política nos nossos noticiários. Como o brasileiro já não confia mais em político, “falar de política o tempo inteiro é perder audiência”, sentencia Petrelli. Ele ainda alerta: “Quanto mais noticiamos a política, mais poder eles têm, mais distanciamento da sociedade eles tomam. Nós damos todo este foco, toda essa coisa de ‘Excelentíssimo Senhor’ aos políticos. Mas temos que dar foco para quem? Para as pessoas comuns que estão dando emprego, buscando soluções, o empresário, o cidadão que atua no terceiro setor, para esta sociedade maravilhosa que aparece muito pouco [no noticiário] mas que está nas redes sociais”, observa.

“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais assim. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos.”

É fato que as redes sociais trazem toda sorte de conteúdo e deixam nas mãos do usuário a tarefa de selecionar no que vai acreditar. “A pandemia colocou as redes sociais no lugar delas”, tranquiliza Petrelli, lembrando as inúmeras pesquisas que apontaram níveis de confiança discrepantes entre os veículos tradicionais e sites de relacionamento que retratam uma reaproximação do público a players de jornalismo profissional. Mas as redes vão além das fake news e mostram uma realidade muito particular que exerce profundo impacto na vida das pessoas. Este conteúdo, no entanto, não aparece na TV nem nos jornais. “Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, pondera.

Diminuir o volume da cobertura de Brasília ou mesmo das agendas de vereadores e deputados é um caminho possível e até indicado para a despolarização do debate. Petrelli lembra dos tempos em que vivia em San Diego, há cerca de 30 anos, e o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, visitou a cidade. O jornal local noticiou o fato na quinta página da edição; se fosse no Brasil, seria matéria de capa! Como diz o Prof. Di Franco, muitas vezes “sobra Brasília, mas falta informação local, regional qualificada”.

Jornalista, um prestador de serviços

Enquanto vários colegas propagam a ideia de que o “jornalismo existe para incomodar governo”, a população cria uma imagem do noticiário – e dos jornalistas – cada vez mais desagradável para conviver. Não é gratuito o crescimento dos news avoiders nem a propagação do jornalismo de soluções. Enquanto muitos de nós publicamos denúncias sob a expectativa de que elas mobilizem a população, o que geramos é sentimento de impotência e afastamos ainda mais os consumidores das notícias.

“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais preciso isso. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos”, orienta Petrelli.

O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações.

Mudar a cultura que envolve a prática do jornalismo não é fácil, ele concorda. Mas o quanto antes se começa, mais cedo se colhe os frutos. 

O primeiro passo é desenvolver no jornalista a percepção de que ele é um prestador de serviços. Isso passa pela humanização do profissional, pela adoção de uma postura mais transparente, que assume a culpa quando erra, que é criativo, sensível e, sobretudo, nutre relações com diferentes grupos de indivíduos. Entender de tecnologia é importante, mas já está virando uma commoditie. “O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações”, prenuncia Pettreli.

Ao invés de se impor diante da sociedade ou de “baixar” suas verdades, o profissional da imprensa precisa encontrar alegria e leveza naquilo que faz. “Comunicação é fazer o bem”, avalia Petrelli. Ainda que a realidade a ser noticiada costume ser difícil, é preciso tratar a informação com tranquilidade e apontar caminhos. Só assim as audiências sentirão a satisfação de perceberem que suas vidas foram melhoradas graças às informações trazidas por aquele veículo jornalístico.

A histórica preocupação jornalística de delimitar as fronteiras entre Igreja e Estado faz, a cada dia, menos sentido. Não se trata de permitir que a ética se corrompa no exercício da reportagem, tampouco de renunciar ao compromisso inquestionável com a verdade. Mas se trata de sobrevivência.

Imerso em crises desde muito antes da pandemia, o jornalismo chegou a situações limítrofes de subsistência por recusar-se a enxergar, no espelho ao qual equivocadamente se dirige, um produto informativo, um produto do mercado de mídia. Veículos que já contam com esta visão o fazem timidamente, com baixo ou nenhum envolvimento das redações. Muitos jornalistas ainda se vêem ou são tratados como uma casta protegida, cuja missão social é o único compromisso profissional a ser cumprido.

Sob esta cultura, inúmeras gerações de jornalistas são formados e atuam em veículos deficitários, carentes de estratégia de mercado e cada vez menos capazes de absorver a mão de obra editorial. A News Product Alliance surge com a missão de reverter este cenário, aperfeiçoar e apoiar as equipes de produto de empresas jornalísticas.


Luciana Cardoso é Diretora de Estratégias Digitais do Estadão e compõe o comitê de criação da News Product Alliance.

O Estadão é o único veículo brasileiro a integrar, até agora, a jovem iniciativa internacional. Na entrevista abaixo, a Diretora de Estratégias Digitais do veículo e integrante do comitê gestor da NPA, Luciana Cardoso, conta como o projeto irá atuar para elevar o jornalismo mundial a um patamar mais adequado às peculiaridades e às necessidades do mercado.

Orbis Media Review – Como o NPA, objetivamente, irá atuar? Haverá entregas? O que a comunidade jornalística pode esperar neste sentido?

Luciana Cardoso – Temos muitas ideias! Estamos discutindo lançar um canal no Slack aberto a todos, criar uma conferência, oferecer mentoria ou programas de treinamento, etc. Ainda estamos nos estágios iniciais para lançar esta comunidade. Nossa prioridade é aprender mais sobre as necessidades para que possamos definir quais programas e serviços priorizar e garantir os recursos necessários para gerenciar essas atividades com sucesso.

Orbis – Existe um cronograma de atividades ou previsão dos próximos passos do projeto?

Luciana – Em um futuro próximo, compartilharemos as primeiras iniciativas do NPA. Nosso comitê de direção, dirigido por voluntários, tem como objetivo criar uma organização formal com posições de liderança permanentes e um conselho até o final de janeiro de 2021. Nosso objetivo é construir um conselho global e diverso que represente as muitas facetas desta comunidade. Os membros do conselho são responsáveis por manter a organização responsável por sua missão e supervisionar as decisões financeiras da organização.

Orbis – De onde (ou de quem) surgiu a iniciativa do NPA?

Luciana – Alguns dos membros da News Product Alliance se reuniram em abril de 2019 com a ideia de criar essa comunidade. Na época eram 15 pessoas com a vontade de construir um espaço para troca de ideias e conhecimentos. Ainda não era uma iniciativa global, algo que foi evoluindo com o passar dos meses.

Muitos dos veículos ainda não possuem equipes de produto e, quando possuem não estão trabalhando em parceria com as áreas de conteúdo e de negócio. Este conhecimento, muitas vezes, fica limitado à área de tecnologia.

Orbis – Quem financia a iniciativa?

Luciana – A Escola de Jornalismo da Universidade de Missouri, a Escola de Pós-Graduação em Jornalismo Craig Newmark da CUNY e o News Catalyst forneceram apoio institucional inicial.

Orbis – Quais são as principais dificuldades que o grupo percebe, atualmente, em veículos no que diz respeito à visão de produto?

Luciana – Atualmente muitos dos veículos ainda não possuem equipes de produto e, quando possuem não estão trabalhando em parceria com as áreas de conteúdo e de negócio. Este conhecimento, muitas vezes, fica limitado à área de tecnologia. Em alguns locais, são apenas indivíduos tentando criar produtos sem ter com quem trocar experiências e, por esta razão, é tão importante termos uma comunidade para apoiar.

Todos que desejam fazer parte desta comunidade são bem-vindos. Nosso foco é apoiar profissionais de produtos que trabalhem em organizações de notícias para alinhar as áreas editoriais, de tecnologia e estratégia de negócios.

Orbis – O site e o release de divulgação do projeto falam em colaboração, em construção de uma comunidade. Quem pode se vincular ao NPA e quais são as condições para integrar esta comunidade?

Luciana – Todos que desejam fazer parte desta comunidade são bem-vindos. Nosso foco é apoiar profissionais de produtos que trabalhem em organizações de notícias para alinhar as áreas editoriais, de tecnologia e estratégia de negócios. Acreditamos que construir alianças é essencial, pois todos trabalhamos com o mesmo objetivo de produzir jornalismo de qualidade e sustentável que beneficie nossas comunidades.

Orbis – Há muitos anos se fala da necessidade de as redações conhecerem suas audiências, o que, até agora, tem ficado majoritariamente limitado à leitura de analytics ou enquetes de mercado. O que está sendo feito – ou o que o grupo pretende fazer – para concretizar este objetivo?

LucianaUm dos princípios da comunidade é justamente o de auxiliar na disseminação de conhecimento entre os seus participantes. Este fica ainda mais rico com participantes de todo mundo, pois sabemos que alguns países já estão mais evoluídos no entendimento das audiências do que outros. Através dos programas de treinamento e mentoria buscamos aprofundar em questões tão importantes quanto estas.

Os profissionais de produtos de notícias em todo o mundo estão enfrentando muitos dos mesmos desafios e se sentem isolados ou sem apoio.

Orbis – Para além do grupo que hoje integra o NPA – e outros participantes que possam vir a somar-se ao projeto – quem deve se beneficiar dos trabalhos a serem desenvolvidos?

LucianaAcreditamos que a criação de uma organização internacional é essencial para nossa missão, pois os profissionais de produtos de notícias em todo o mundo estão enfrentando muitos dos mesmos desafios e se sentem isolados ou sem apoio. É por isso que estamos procurando ativamente por mais profissionais de produtos de notícias internacionais para nos ajudar. Se você estiver interessado em ingressar na diretoria da NPA ou nos ajudar a aconselhar-nos sobre como fazer desta uma comunidade global, informe-nos por e-mail, hello@newsproduct.org

Orbis – O Estadão é o único veículo brasileiro a integrar o NPA. De que forma o projeto se encaixa aos planos do Estadão?

Luciana Desde 2017, o Estadão vem investindo ativamente na Transformação Digital da empresa e, um dos pilares de grande foco é o de Produto. Precisamos cada vez mais entender quem é a nossa audiência, suas necessidades para assim construir produtos que surpreendam o público.

Por esta razão, estamos cada vez mais focados em iniciativas como esta, que inspiram mais e mais organizações a criarem produtos de qualidade. A disciplina de Produto dentro das organizações de notícia ainda é muito nova e, por isso, acreditamos que a troca seja essencial.

Orbis – Pela declaração da Becca Aaronson no release e pelo que diz no próprio site do NPA, existe uma preocupação em atender comunidades tradicionalmente marginalizadas, negros, latinos, indígenas e imigrantes. De que forma a visão de produto nas redações se associa ao discurso de inclusão social?

Luciana Para criar produtos para o público, precisamos que ele esteja representado dentro das redações e em todo o ambiente jornalístico. Por isso, desde o início das conversas do NPA buscamos a diversidade no comitê gestor e também nos participantes. Hoje já temos membros de diversos países com diferentes realidades e necessidades.

Precisamos de mais líderes de produto que estão projetando novos produtos para atender às comunidades marginalizadas. Apoiaremos a transformação da liderança das organizações de notícias e permitiremos que mais pessoas que estão pensando sobre as necessidades dos grupos marginalizados orientem a indústria de notícias.

Qual a sua primeira reação ao ver uma notícia? Isso depende, é claro, do conteúdo. Mas depende, sobretudo, dos seus valores pessoais.

A terceira e nova pesquisa feita pelo Orbis Media Review mapeou como se dá o consumo de notícias nas redes sociais, especialmente sobre política. O levantamento intitulado Consumo de Notícias: uma Escuta das Bolhas se dedicou à reação mais espontânea e imediata que usuários relatam ter ao ler títulos de conteúdos jornalísticos de diferentes veículos, pretensamente neutros e expressamente posicionados.

As reações foram analisadas com base à linha ideológica declarada pelos participantes. Deste modo, foi possível notar que os usuários tendem a compartilhar conteúdos compatíveis às suas ideologias, justamente para grupos ou familiares que pensam da mesma forma (71%). Eles também preferem comentar notícias quando concordam com elas (55%), embora a quantidade de pessoas que dizem comentar notícias da oposição, mesmo antes de lê-las seja considerável (45%).

Bolhas como proteção ao cancelamento

O choque de ideias, porém, aparentemente necessário para a manutenção da democracia, tem extrapolado os limites do bom senso, no que ficou conhecido ultimamente como “cultura do cancelamento”. No ambiente hostil das discussões sobre política nas redes sociais, a bolha se consolida como um refúgio, uma proteção contra a agressividade; causa e consequência da dificuldade humana de ouvir o outro.

Não querer entrar no embate se expande ao ato de ignorar notícias da oposição. Sessenta por cento dos participantes confessaram simplesmente rolar a tela quando aparecem notícias de ideologia contrária à sua, ou enviam a seus pares, quem também se opõe a elas (53%).

Opostos, mas muito semelhantes

O aspecto mais curioso trazido por esta pesquisa foi o fato de que os dois pólos do debate político – direita e esquerda, aqui usados para fins de simplificação – reagem de maneira extremamente semelhante em relação ao conteúdo compatível e às notícias contrárias às suas respectivas posições. Não é possível afirmar, portanto, que determinado grupo político seja mais agressivo ou mais recluso em sua própria bolha, uma vez que as curvas dos gráficos de reações imediatas apresentam praticamente o mesmo desenho e que a amostragem foi composta de modo balanceado entre quem se declarou adepto à esquerda, centro-esquerda, direita ou centro-direita.

A pesquisa foi feita por meio de convite a perfis de redes sociais que atendiam a uma série de requisitos expostos no relatório. Entre julho e setembro, 310 respostas válidas foram coletadas de maneira anônima, via formulário online.

Semana passada eu conversava com um repórter de veículo online sobre a publicação de releases como notícias. A prática é tão comum quanto antiga e indesejável.

Tomando um caso em particular, eu vi caráter elogioso ao autor do release na publicação da “notícia”. O repórter não viu, afinal, ele só tinha usado as mesmas informações do release. Então – expliquei a ele -, o simples fato de um veículo dar espaço à publicação de um release é um gesto em favor daquela fonte (única).

Ele entendeu, mas sei que boa parte dos jornalistas que são cobrados por produtividade em quantidade de notas por dia não entende. A exigência de publicar oito, dez, quinze notas ao longo de oito horas limita qualquer repórter de produzir entrevistas, checar fatos, buscar outras fontes, fazer jornalismo, enfim. Daí alguns releases chegam como presentes celestiais, onde só o ctrl+C, ctrl+V salva.

Como fugir do mero release

A sugestão que dei ao colega foi a de ouvir um especialista e acrescentar algumas aspas mais neutras às informações trazidas pelo release. Isso daria um tom jornalístico pra coisa – e não tão institucional/promocional.

Nem sempre se trata de “ouvir o outro lado”, porque há pautas que não têm lado: são registros, lançamentos de projetos, publicações, eventos que estão por vir. Então nos resta fazer mídia gratuita ou acrescentar uma segunda fonte que comente ou opine de forma independente sobre o objeto do release.

Não é só o material de release que termina servindo de “fonte única”. Um post no Instagram virou fonte, virou notícia! Não sobra tempo para uma ligadinha ao agente da celebridade que acaba de postar.

Licença para uma historinha

Lembro de um caso que aconteceu enquanto eu trabalhava em um portal, lá em 2011: o cantor Latino havia postado uma foto em seu Twitter abraçado a uma moça coberta por lençol branco. Eles mostravam o colo e os ombros desnudos. O texto que acompanhava a foto era: “Pensa em acordar do lado de uma princesa como essa!! Kkkkkk 😉 Meu verdadeiro amor“.

Dias antes, o cantor havia terminado um namoro. Claro que o repórter de “Diver” (editoria de Diversão) entendeu que Latino não havia perdido tempo para apresentar a nova namorada! A matéria foi ao ar com este teor e, minutos depois, o próprio Latino respondeu ao Twitter do portal: “Vocês estão loucos? Ela é minha filha!

A obsolescência da segunda fonte

À prática de “ouvir uma segunda fonte”, a Dra. Consuelo Aguirre chama de “contrastación“, o que inclusive se encaixaria melhor no conceito de “ouvir o outro lado”, “contrastar”. Não foi por acaso que ela detectou em sua pesquisa de doutorado, recentemente defendida na Universidad Austral, em Buenos Aires, que a “contrastación” é um dos critérios de noticiabilidade que a Internet reduziu ou tornou obsoleto.

Dra. Aguirre revisou os critérios de noticiabilidade em relação às Leis da Mídia, de Marshall McLuhan, aplicadas a 140 notícias e a partir de entrevistas em profundidade com 30 jornalistas dos jornais El Comercio e El Telegrafo, do Equador.

A pesquisa intitulada “Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador , orientada pelo Prof. Dr. Francisco Albarello, tem achados interessantes. Mas antes vamos lembrar como são as Leis da Mídia, do “eme-cí Luán”, como já ouvi de um aluno de graduação:

Tétrade das Leis da Mídia, de Marshal McLuhan

Quais critérios de noticiabilidade, então, a tecnologia digital vem Aperfeiçoar, Reverter, Recuperar e Obsolescer?

De bate-pronto, Dra. Aguirre diz o seguinte:

APERFEIÇOA (o que na versão em espanhol foi dito como “agranda” ou “aumenta”: IMEDIATISMO

OBSOLESCE ou REDUZ (em espanhol se manteve a nomenclatura): EXCLUSIVIDADE e CONTRASTE

RECUPERA (também mantido em espanhol): SERVIÇO, APROXIMAÇÃO COM LEITOR, VERIFICAÇÃO

REVERTE: INFOTAINMENT

A sistematização da Dra. Aguirre vai bem além dos que resumi acima, que é o foco da discussão que tive com o colega semana passada – sobretudo o segundo item (OBSOLESCE/REDUZ).

Foi uma grata surpresa, no entanto, ver que o conteúdo como serviço (útil, aplicado) e a aproximação com o leitor (sobretudo com enfoques segmentados) são recuperados dos meios antigos. O mesmo não posso dizer sobre a VERIFICAÇÃO, que se tornou objeto de militância política travestido de jornalismo.


Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador”, pesquisa de doutoramento de Consuelo Aguirre, defendida na Universidad Austral, sob orientação do Prof. Dr. Francisco Albarello.

O furo não garante a exclusividade

Outro apontamento interessante da tese foi a queda da exclusividade como critério para decidir o que será notícia. É sabido que a natureza da informação digital é a replicabilidade infinita sem qualquer prejuízo à precisão do conteúdo. A qualidade de uma música gravada de um LP a uma K-7 era questionável, enquanto arquivos MP3 podem ser compartilhados eternamente sem perder um bit de qualidade.

Na seara do copia-e-cola, a exclusividade se esvai. A informação é exclusiva até se tornar pública – e copiada por outro site dois minutos depois.

Dra. Aguirre esclarece que “O que cai é a exclusividade, não o furo”. Os veículos continuam obcecados em ser os primeiros a noticiar algo, por mais que aquilo só tenha valor entre eles mesmos. O público não costuma ligar e nem nota quem foi o primeiro a noticiar algo. A notícia que vale é aquela que aparece primeiro e casa com as demandas particulares do usuário.

Acho perigoso, inclusive, que muitos veículos digitais abdiquem da precisão para ganhar a corrida pelo furo. O conteúdo sai capenga porque tem que sair. E o tempo em relação à concorrência se torna o maior critério de noticiabilidade(?!).

“Os critérios de noticiabilidade não são mais do que a raiz daquilo que entendemos como jornalismo. É um assunto absolutamente nuclear dentro da atividade jornalística”, comentou um dos avaliadores da banca, o Prof. Dr. Ramón Salaverría. E justamente por tamanha centralidade é que não podemos aceitar de modo passivo que os critérios de noticiabilidade se tornem peões da ansiedade, nem que abdiquem da pluralidade de fontes. Caso contrário, o que sobra são toneladas de conteúdos apressados e imprestáveis, reproduzidos por profissionais que atuam como robôs.