Autor

Ana Brambilla

Browsing
Jornalista, Doutora em Comunicação Social. Editora Orbis Media Review. Professora e Pesquisadora do Master Negócios de Mídia.

BuzzFeed, o nativo digital criador de um modelo disruptivo de conteúdo viral, agora recorre a asinhas de frango picantes para não ser expulso da Nasdaq. É que o Hot Ones – programa em que celebridades são entrevistadas enquanto comem hot wings cada vez mais ardidas – se consolida como uma das grandes apostas do conglomerado de mídia não apenas pelos altos índices de audiência, mas também por licenciar a marca para lanches de microondas, os Hot Pockets. Assim se espera que o preço mínimo da ação chegue a US$ 1, valor mínimo para seguir operando na bolsa tecnológica norte-americana.

Variar os modelos de negócio sempre esteve no DNA do BuzzFeed. A empresa dona do HuffPost, da Complex Media, do First We Feast e do Tasty matou no peito as críticas pela criação do “jornalismo de listas” e seguiu seu propósito de explorar o efeito rede. Sob a batuta da publisher Dao Nguyen, o veículo fez inveja a gigantes da mídia legada ao construir conexões entre trending topics, conteúdo produzido pelo usuário, formatos publicitários descolados e hipercustomizados entregues a um inventário que disparava, assim como as redes. Até que as redes começaram a concorrer entre si e não sobrou audiência suficiente para sustentar o esquema.

Segundo a AdWeek, a saída de Nguyen, depois de 11 anos na empresa, marca “o fim simbólico de uma era para o BuzzFeed” em que a força de um portfólio massivo cede lugar à valorização de marcas individuais na busca pela fidelização de uma audiência direta.

A decisão do criador e CEO do BuzzFeed, Jonah Peretti, é de pivotar o foco das operações em tempo de permanência – que caiu 19% (ano sobre ano) no balanço do último trimestre – e na força de cada marca. Daí que a particularidade das hot wings soa tão promissora aos olhos de Peretti! Os vídeos são longos e o nível de interesse aumenta conforme os entrevistados suam para responder as perguntas enquanto comem asinhas de frango cada vez mais picantes. 

Se é tempo de permanência que o mercado quer, é tempo de permanência que o BuzzFeed conquista de usuários que criam uma mistura de tamagotchi com chatbot. O jogo, que roda dentro da plataforma do BuzzFeed, usa IA generativa para desafiar os jogadores a “educarem” um “bebe nepo” – o Nepogotchi – na tentativa de transformá-lo em um robô que represente um “ser humano decente”. Outra proposta, no mínimo, particular – tão específica quanto a forma com que Jonah Peretti quer que o mercado veja cada uma de suas marcas.

Menos vídeos curtos, mais tempo de permanência

Desde que mudanças nos algoritmos das redes sociais derrubaram a tese de que é possível rentabilizar um produto editorial alcançando audiência em escala, Peretti se convenceu de que não adianta embarcar no hype. Durante a conferência com os investidores para apresentar os resultados do terceiro trimestre de 2023, o CEO explicou: “O tráfego gerado pelas principais plataformas diminui à medida em que elas priorizam seus próprios formatos de vídeo verticais, em meio à intensa competição por participação da audiência”.

O BuzzFeed chegou a embarcar na onda de vídeos curtos, mas logo notou que é mais difícil monetizar o mesmo formato usado por TikTok e Meta para reter a atenção do público. O aumento da competição pela liderança entre as redes sociais significa que as duas empresas estão menos dispostas a compartilhar receitas desses vídeos curtos com veículos de mídia. 

Por mais que o BuzzFeed ainda produza short videos e venda – cada vez menos – diretamente a anunciantes, Peretti torce o nariz para este formato: ele relata que os usuários estão cansando do “comportamento de rolagem do tipo TDAH” e buscando um envolvimento mais profundo com mídias longas.

Ok, as mídias longas a que Peretti se refere estão longe de ser reportagens long form ou documentários intelectualizados. São, enfim, hot wings e tamagochis. Mas são produtos próprios e não dependem de empresas terceiras para rentabilizar. Isso explica a estratégia de focar em marcas individualizadas. 

“Nossa estratégia se baseava em reunir a maior rede de marcas e criar a maior rede de conteúdos para essas novas plataformas de distribuição, mas não se surpreendam em escutar-me dizendo que isso não funcionou como esperávamos”, reconheceu Peretti. “Em todas as nossas equipes centralizadas, teremos mais foco nas marcas e priorizaremos áreas que tornam cada marca única. A abordagem centrada na marca será fundamental para estabilizar nossos negócios e retomar o crescimento.”

Menos escala, mais marcas únicas

Para além de investir em jogos de IA e em vídeos longos, a aposta na unicidade das marcas do grupo passa pela reformulação do site BuzzFeed, chamada internamente como “Missão Possível”. O acesso direto à home tem sido um dèja vú interessante aos publishers de modo geral, e ao HuffPost de modo especial. A criação de Ariana Huffington quebrou recordes de tráfego direto em meados de 2023, registrando o melhor trimestre desde que foi adquirido pelo BuzzFeed, em fevereiro de 2021. 

A carência do BuzzFeed é tanta que a melhora pontual do HuffPost foi suficiente para posicioná-lo no rol de apostas de Peretti. Investir em notícias, no entanto, não “orna” com a estratégia de hot wings e tamagotchis. Há sete meses foi descontinuado o BuzzFeed News, braço jornalístico da marca de conteúdo viral. Nada menos que 15% do quadro de funcionários foram dispensados, ou seja, 180 colaboradores. No Brasil, a divisão noticiosa do BuzzFeed fechou em agosto de 2020, na esteira da crise no setor causada pela pandemia. Peretti faz um mea culpa e diz ter tomado a decisão de “investir demais” no BuzzFeed News porque “adorava o trabalho produzido”. Em seguida, agrega que “demorou a aceitar que as plataformas de mídia social não forneceriam o suporte necessário para tornar a área lucrativa”.

Não, senhor. As redes sociais não fornecem suporte para nada ser lucrativo além delas próprias. Qualquer coisa que digam diferente disso é questionável. Se Peretti diz ter demorado a aceitar essa realidade, difícil que haja quem ainda acredite nesse conto da carochinha.

Todo este movimento no BuzzFeed decorre de uma queda de 35% no faturamento em publicidade, apresentado aos investidores no começo de novembro. A dívida acumulada já supera os US$ 157 milhões no último semestre auditado. A crise vinha batendo à porta do veículo no primeiro trimestre, quando Peretti planejava alianças com creators para recuperar a audiência, além de prenunciar os bons resultados que a inteligência artificial traria. Com menos conteúdo e mais mecanismos de entretenimento, com nova publisher e novo CFO, apostando mais em si mesmo do que nas redes sociais, o veículo mais viral de todos os tempos luta pela sobrevivência. A quem assiste, como sempre, cabe aprender.

O programa de demissões voluntárias do Washington Post, anunciado há alguns dias, pegou o mercado com razoável surpresa. A CEO interina, Patty Stonesifer, enviou um memorando aos funcionários oferecendo 240 desligamentos “com incentivos generosos” em diferentes áreas da empresa, cerca de 10% da força de trabalho do veículo. 

Sim, o Post conta hoje com um quadro de funcionários próximo de 2.500 profissionais. Essa equipe tão numerosa quanto qualificada é uma das marcas da era Bezos. Quando o dono da Amazon comprou o WP, a redação contava com 580 funcionários. Oito anos mais tarde, o headcount ultrapassava a marca dos 1.000 profissionais em 26 países, a maior da história da empresa. E esses são números apenas da área editorial, que passou a contar com engenheiros, cientistas de dados, designers de produto e programação responsáveis pela transformação do gigante da mídia em uma empresa de tecnologia.

A virada de chave do Post foi aplaudida pelo mercado editorial e consolidou o veículo como referência internacional na indústria. Em 2018, o WP foi reconhecido pela Fast Company como uma das “empresas mais inovadoras do mundo”, por implementar o padrão Amazon ao ecossistema de notícias. Por “padrão Amazon” se entendeu uma revolução tecnológica de produto que, realmente, se concretizou. Mas enquanto o produto Washington Post se aperfeiçoava brilhantemente, as notícias continuaram trazendo as mesmas pautas, com a mesma linguagem, as mesmas fontes oficiais, ou seja, uma redação pirotécnica fazia o mesmo jornalismo de sempre.

A sintonia entre Jeff Bezos e o publisher, Fred Ryan, funcionou à perfeição e, juntos, se comprometeram com o desenvolvimento de um “mindset digital” na companhia. Eles concordavam em aumentar o alcance do jornalismo feito pelo Post, mas não questionaram se havia demanda de mercado para tal ampliação. Eles estavam dispostos a adotar – e, de fato, adotaram – formatos inovadores de forma pioneira: realidade aumentada, conteúdo em áudio, conteúdo original em vídeo… Foram construídos três estúdios que permitiram ao Post lançar um canal FAST (streaming digital gratuito com anúncios), com programação 24 horas em maio deste ano.

Impossível esquecer do empreendimento com o publicador ArcXP, uma criação que lançou o Post ao circuito de provedor de SaaS (software as a service) e se espalhou por mais de 1.500 sites de inúmeras redações, em 24 países, como o Chicago Tribune, Boston Globe, LA Times, El País, Infobae, Le Parisien e também no Brasil, com o Estadão

A visão de produto finalmente chegava à indústria jornalística. A equipe do Washington Post passou a operar com metodologias ágeis; scrums, sprints e squads entraram para o vocabulário do dia a dia da redação, que fazia jornalismo com um olho no conteúdo e outro nos KPI’s. 

Até aí, nada mais adequado à digitalização do consumo e da produção de informação. Ryan chegou a declarar que a mescla necessária entre jornalismo e tecnologia é uma relação ganha-ganha: se o jornalismo não é excelente, não importam os avanços da tecnologia; e se o jornalismo é fantástico, mas a tecnologia não ajuda, então não há vencedores. “Por isso contratamos e expandimos nossa equipe de engenharia”, concluiu. E esse é o ponto onde todo o esforço pode ir por água abaixo.

O Post acreditava que seu jornalismo era fantástico ou excelente. O Post entendeu que o que lhe faltava era tecnologia, então empregou todos os esforços nessa direção. Não questionou o jornalismo que fazia ou – pior – não considerou a hipótese de que a relação das pessoas com o jornalismo estava sob forte transformação

Não se trata de o Post estar fazendo mau jornalismo, mas de fazer o jornalismo de sempre. De entender que a população precisa daquelas informações, de que tem tempo para consumi-las, de que não há outra fonte para obtê-las. E esse é um questionamento que qualquer veículo jornalismo deve fazer a si mesmo.

Sempre que o WP surge em discussão de sala de aula, ouço gestores de empresas de mídia comentando que é fácil para o veículo ser uma referência mundial, afinal, o dono é um bilionário! Certo. Mas Bezos não é apenas um bilionário. Bezos é um empresário e, como tal, se preocupa com o que é feito com seus bilhões, espera que eles rendam outros tantos, até para fazer a roda continuar girando.

Ismael Nafría publicou em sua newsletter, de 15 de outubro: “Jeff Bezos, dono do Post, afirma que ele deveria ser administrado como uma empresa, não como uma instituição de caridade”. Dessa declaração haveria surgido a medida das demissões voluntárias. As projeções, segundo Patty Stonesifer – CEO que assumiu interinamente desde a saída de Ryan, em junho deste ano -, as projeções de venda de assinaturas e de faturamento com publicidade digital haviam se revelado “demasiadamente otimistas”.

Paul Farhi, crítico de mídia que publica no próprio Washington Post, revelou no seu perfil do X-Twitter que, desde 2021, a audiência do jornal de Bezos registrava queda de 28% e as assinaturas diminuíram 15%. O impacto dessa retração no faturamento foi de queda de 10% no impresso e de 30% na publicidade digital. 

O cenário não é exatamente novo; o Post já havia encerrado o último ano no vermelho. Para o final de 2023, a previsão é de um fechamento com perda de US$ 100 milhões. As demissões já haviam começado em janeiro, quando a redação cortou 50 postos de trabalho. Se sabe, infelizmente, que o Post não estava nessa sozinho e que todo o setor de mídia norte-americano sofre com índices de demissão maiores do que o registrado no período da pandemia. Na verdade, a baixa no mercado é recorde desde 2016. CNN não ficou de fora (idem para Brasil), nem a Vox Media ou mesmo a Gannett (que recorre à cobertura especializada em Beyoncé e Taylor Swift para “salvar o jornalismo local”).

Mas o Post estava seguro de que o seu jornalismo era fantástico ou excelente. Nem Bezos questionou. Nas reuniões periódicas que mantinha com a liderança do veículo, ele queria saber dos fluxos de assinatura e do tempo de carregamento do site – aspectos tecnológicos e de business que impactariam no faturamento. Just. Não se envolvia em questões editoriais. 

Era importante que um conteúdo do post fosse carregado rapidamente, afinal, as novas gerações não têm a mesma percepção de tempo do que os leitores tradicionais do Post. E de olho nelas, em 2021 surgiu o NextGeneration, uma iniciativa do WP para renovar seu público. Na ocasião do lançamento, Fred Ryan anunciou: “Nós entregamos o jornalismo do Washington Post ao mais amplo público nacional e global em nossa história, com muitos leitores mais jovens aproveitando o conteúdo do Post em sites e em formatos que não existiam há alguns anos” – perceba a prioridade do formato sobre o conteúdo, da visão quantitativa sobre a qualitativa. Como se bastasse estar no TikTok para que um jovem fosse se interessar por um vídeo de 15 segundos sobre política internacional, por outro jovem falando sobre a guerra na Ucrânia, por uma dancinha explicando a reforma tributária!

Quando Fred Ryan deixou o Washington Post, há três meses, seu discurso de despedida celebrou o fato de o jornal ter investido em suas “áreas de política e reportagem investigativa”, porque talvez ele ainda acredite que novas audiências sejam atraídas pelo mesmo conteúdo que os jornais publicam há mais de um século.

Fred Ryan relembrou como um grande feito a expansão da cobertura de tecnologia e games, porque talvez ele ainda entenda que novas audiências preferem consumir conteúdo sobre algo que gostam, ao invés de usar algo que gostam. (Já publiquei, aqui no Orbis, um artigo em que analiso a diferença brutal entre a estratégia do NYT de adquirir um jogo e do WP, de criar um suplemento sobre jogos).

Fred Ryan pontuou a “conquista” de ter criado um departamento dedicado à cobertura de bem-estar e de ter expandido a cobertura climática do Post, porque talvez ele ainda tenha o próprio veículo onde trabalhava como referência de navegação, ao invés do Google.

Fred Ryan projetou, ainda, que o futuro que espera para o Post é de “ser um pacote único com tudo incluído e sempre tentar torná-lo melhor, em vez de criar vários produtos e vender várias assinaturas”, porque talvez ele não tenha lido A Cauda Longa, de Chris Anderson, explicando a hipersegmentação do mercado digital.

Fred Ryan não parece ser um mau sujeito, ao contrário. Conduziu anos dourados no WP. Só não ponderou as mudanças profundas na relação que as pessoas têm com o jornalismo: mudanças de interesse, de relevância, de tempo, de prioridade, de oferta-e-demanda de informação, de queda de credibilidade, de news avoidance, do desgaste das narrativas, do sobrecarga informativa.

Ryan, como Bezos, investiu tanto em tecnologia que terminou esquecendo do jornalismo e de que jornalismo é ser humano, em tudo o que há de mais contraditório, surpreendente e previsível.

A história recente do Washington Post nos deixa uma lição: não basta que o dono seja bilionário. É preciso pensar em gente.

Tecnologia e estabilidade são variáveis que não costumam andar juntas. No ambiente de redes sociais, tanto menos. Para empresas de mídia que precisam inovar para se manterem relevantes, o caminho traçado frequentemente se limita a replicar o que seus concorrentes já fazem com ferramentas relativamente novas. Tem sido assim com redações que montam equipes inteiras dedicadas ao TikTok, ainda que não tenham certeza do retorno que este esforço trará. O mesmo vale para o Threads, para o X-Twitter e até para X-Hiring primeiro desdobramento prometido por Elon Musk na direção de tornar o antigo Twitter um “aplicativo-para-tudo”. A ansiedade por “estar onde todo mundo está” aconteceu com o ClubHouse, o Tumblr, até com o Koo. Enquanto isso, na contra-corrente da volatilidade, o Linkedin completa 20 anos de serviço ameno e sólido.

Recém neste ano, a rede social que desde 2016 pertence à Microsoft projeta receita de US$ 15 bilhões, menos da metade do que a Meta faturou só no segundo trimestre de 2023. A quantidade de usuários ativos também é modesta: são 930 milhões (no Brasil são 65 milhões) comparados aos 5 bilhões que transitam pelos ambientes da Meta. Mas o Linkedin nunca se propôs a ser uma plataforma massiva, ao contrário. Com um propósito claro e um modelo de negócio que não disputa pela exígua atenção do público, o Linkedin não precisa inventar funcionalidades a cada mês, nem modificar o algoritmo para forçar o sucesso de uma novidade.

É da unicidade da proposta do Linkedin que emerge um modelo de negócios sustentável e independente de publicidade. Usa a plataforma quem procura trabalho e quem recruta – e ambos têm razões de sobra para pagar pelo serviço. Claro, há quem use para discussões profissionais, informação segmentada, auto-prestígio e, ultimamente, para anotações sobre a vida pessoal – o que, aliás, não tem sido muito bem recebido pela comunidade.

Ao contrário da tendência das outras redes, que se consolidam como espaços de entretenimento e consumo, o Linkedin tem espaço para informação jornalística, conteúdo denso e referencial. Fortemente habitado pela Geração Z, traz um recorte orgânico de audiências com maior poder aquisitivo e nível mais alto de escolaridade. Acerta quem vê nesta combinação a fórmula do tal “público qualificado”, tão pretendido por veículos hipersegmentados.

É verdade que usuários demandam uma sensibilidade maior de quem lhes oferta conteúdo e não gostam de ser alvejados por generalidades a todo instante. Embora o engajamento no Linkedin cresça – em abril o compartilhamento de conteúdo aumentou 41% em comparação a 2021 -, a empresa não divulga a duração média das sessões. Será que o povo entra, posta e cai fora? Para motivar a permanência no feed, a rede prioriza publicações de contatos diretos e de publicações cujo tema dialogue com o perfil informado pelo usuário. A esta matéria da Bloomberg, a empresa afirmou que quem usa o Linkedin gosta de ver “conteúdo baseado em conhecimento” e que, em junho deste ano, a quantidade de pessoas que gostariam de ver outro tipo de posts por ali reduziu 80%. Ou seja, há mais acertos do que erros.

A densidade do “clima” no Linkedin não elimina o aspecto humano que prevalece em qualquer rede social. Isso significa que as marcas não devem estar ali com a expectativa de fazer negócio. Mesmo quem usa muito o Linkedin, o faz na condição de indivíduo e navegar na plataforma não costuma ser parte da jornada laboral de ninguém. Linkedin não é vitrine de vendas e insistir nisso pode resultar em aversão à empresa. A tônica do conteúdo bem-vindo é a utilidade profissional, daí a importância de uma curadoria seletiva, de conteúdo quase atemporal (o algoritmo ainda peca no timing de entrega), de poucas postagens que sirvam a algo mais do que apenas informar.

Enquanto a Meta reitera seu divórcio com veículos editoriais, quem sabe o Linkedin possa ser a rede social onde o jornalismo ainda faz sentido. Para isso, é preciso rever o objetivo de gerar audiência volumosa a partir de incontáveis publicações. O Linkedin é um espaço ameno, talvez silencioso, como uma biblioteca: quem entrar ali falando alto pode acabar sendo expulso. Mas quem souber aliar jornalismo com serenidade e consistência pode colher bons frutos… no longo prazo.

Faz quatro anos que acompanho a estratégia do “menos é mais” na produção de conteúdo por empresas jornalísticas. São vários cases, estudos e aulas que surgiram em função de uma máxima usada noutras áreas, como na corrente da arquitetura que caminha de mãos dadas com o design minimalista. O pai da expressão foi um arquiteto alemão que experimentou o ápice da sua carreira no período entre-guerras, Ludwig Mies van der Rohe. Não por acaso, ele foi diretor da escola germânica Bauhaus, onde nasceu o estilo homônimo, cujo princípio mais conhecido é “forma segue função”.

Não foi para menos. Reconstruir um país destruído pela guerra era uma tarefa complexa, sobretudo pela falta de matéria-prima e pela necessidade de erguer edifícios e redesenhar objetos para uso cotidiano. As ornamentações de prédios deram lugar a linhas retas. O que era belo precisava, agora, ser prioritariamente funcional. Cada material tinha de ser aproveitado inteligentemente; daí a prevalência de elementos versáteis, como a madeira, o aço e o vidro. Além de resistentes e de fácil manipulação, eram materiais baratos em comparação ao mármore, ao bronze e à seda.

Mas o que isso tudo tem a ver com jornalismo? Digamos, talvez, que nossa indústria esteja atravessando um pós-guerra, clamando por reconstrução.

Sou uma das tantas viúvas da Abril e todas as vezes que vejo o NEA, de longe ou pegando a Marginal Pinheiros pela Sumidouro, o nó na garganta denuncia o sentimento de devastação. A imponência do prédio – que não é Bauhaus, mas estilo contemporâneo – é só um dos superlativos que projetou a indústria jornalística na direção do show business, da cultura do entretenimento, de Hollywood. Mas jornalistas não são artistas e nem os veículos podem ser comparados a produtoras cinematográficas. Mesmo assim, o espírito do excesso pode ser uma das causas da crise na indústria – e reconhecê-lo pode ser a solução.

O excesso, infelizmente, não está apenas em infraestruturas e operações caras, como um grande edifício-sede. O exagero aparece na quantidade de conteúdo produzido, atrelado a um modelo de negócios onde “mais é sempre melhor”: a publicidade. 

Desafiando a publicidade

Há alguns dias, o título da newsletter do analista de mídia dinamarquês, Thomas Baekdal, perguntava: “Você quer cliques ou leitores?”. A questão é tão simples quanto cruel. É claro que qualquer um de nós deseja que seu trabalho seja efetivamente consumido (lido, assistido, ouvido) com atenção, do começo ao fim. Mas o que, de fato, perseguimos?

Enquanto tentamos equilibrar os dois pratinhos ao mesmo tempo, perseguindo cliques E leitores, produzimos toneladas de conteúdo para aumentar a extensão da rede que jogamos ao mar. Ora, quanto maior a rede, mais peixes virão! 

Você não clicou na matéria do carro-bomba na Colômbia? Então talvez se interesse pelas eleições na Argentina! Ou preferiria descobrir o que sua posição de dormir diz sobre sua personalidade? Já sei: você quer mesmo é saber que a atriz Aracy Balamanian morreu ouvindo música clássica! Porque você não perderia uma só notícia sobre a sucessão do Lira na Câmara, né?

O problema é que há cada vez mais pescadores jogando redes cada vez maiores e a chance de sobrar algum peixe para cair na sua é cada vez menor. As redes já se cruzam e se embolam e a desinformação traduz o desinteresse crescente pelo jornalismo.

Um dito popular lembra que nem Jesus Cristo conseguiu agradar a todos; mas jornalista segue firme neste propósito, nem que seja a fórceps! Se não agrada de um jeito, tenta agradar de outro. Se uma notícia ou um programa teve pouca audiência, produz outro, publica outra, faz mais! Uma hora, acerta. Afinal, o que conta é o número de audiência.

A publicidade não é um modelo de negócios problemático. Ela tem sua lógica e funciona bem há décadas. Só que ela se orienta pelo volume. E volume de audiência era algo que tínhamos quando a informação era um bem escasso. Por isso a indústria da informação se ergueu e se consolidou: produzíamos um bem escasso. Por isso a Abril tinha até academia com piscina dentro daquele prédio maravilhoso. E por acreditar que não tinha concorrentes, a outrora maior editora da América Latina não está mais lá. 

As revistas da Abril tiveram sucesso monumental, inclusive com publicidade, porque eram únicas, bem acabadas, compostas com planejamento, zelo, tempo e num padrão altíssimo de qualidade. Mas o consumo para esse tipo de produto mudou. A Abril não fez mau jornalismo, não pecou por falta de qualidade. Nem assim a qualidade foi suficiente. Portanto, na indústria jornalística contemporânea que deseja viver de publicidade – ou mesmo de assinaturas -, não basta ser bom, é preciso ser único.

[À parte: li na revista da Gol uma chamada para marcas anunciarem na empresa aérea. O anunciante pode escolher entre mensagens sonoras lidas por comissários de bordo, distribuição de amostras de produtos durante os voos e adesivagem de aeronave. A mídia está em todo lugar e até companhia aérea concorre com veículos de imprensa.]

O volume de audiência é consequência

No fim das contas, o problema não está na publicidade. É sobre ser relevante e fazer sentido a ponto de atrair a atenção de muitas pessoas. A publicidade é consequência disso e ela pode ser viável à medida em que o veículo alcance volume. De qual forma estamos buscando volume? Com mais conteúdo, mesmo que seja commodity, mesmo que haja 489 conteúdos iguais àquele em outros veículos, com quem nadamos em um oceano vermelho.

Para a publicidade funcionar, para atrair um bom número de audiência, o princípio da escassez nunca fez tanto sentido. Quanto menos há, mais valioso é um produto. Se a oferta de todo tipo de informação é infinita, que demanda atendemos? Ou ainda: o que leva alguém a procurar, especificamente, por nós e não por outros? O que fazemos de diferente, de único, de escasso a ponto de atrair a atenção de muita gente?

É realmente difícil ser exclusivo em um ecossistema propício à pirataria, à multiplicação infinita da informação sem perda de qualidade técnica. Então, a equação lógica que vai se desenhando para a indústria jornalística é: 

Se:
ATENÇÃO = EXCLUSIVIDADE
QUANTIDADE < QUALIDADE < EXCLUSIVIDADE
logo:
ATENÇÃO ≠ QUANTIDADE

Procurar por um diferencial real é só um dos pontos que precisam ser pensados em uma estratégia editorial. O medo de fazer algo novo ainda é gigante no setor; daí a eterna e falsa sensação de “garantia” trazida pela fórmula que se repete, pelas pautas que se repetem à exaustão. Mas é na exclusividade, na singularidade de um produto que mora a verdadeira inovação. 

Em tempos de informação excessiva, a inovação pode estar em publicar menos. Se os recursos são escassos, não tenhamos medo de ser simples, funcionais, úteis. Isso não tira nosso brilho; ao contrário, nos faz diferentes, menos iguais que a multidão, mais agradáveis (porque menos prolixos). 

Publicar menos é valorizar cada minuto de atenção da nossa audiência. Experimente!

A decisão do New York Times em eliminar sua editoria de esportes foi arrojada, embora previsível. A aquisição do noticiário esportivo The Athletic em janeiro de 2022, por US$ 550 milhões, foi um dos movimentos mais significativos para antecipar o alcance da meta de 10 milhões de assinantes até 2025. Nada menos que 1,2 milhão de assinantes se somaram à carteira do Times pelas mãos do Athletic.

Um ano depois, entretanto, a jogada de mestre ainda não mostrava resultados financeiros. Apesar de ter registrado um crescimento de 66% na quantidade de usuários pagantes, o Athletic queimou US$ 7,8 milhões das margens de lucro do NYT no primeiro trimestre de 2023. Mesmo antes disso, o esportivo sondou investimento em plataforma de apostas e incorporou publicidade em setembro de 2022, um modelo de negócio até então inédito na publicação.

De jornal generalista a multimarcas:

Mas os planos do Times ao Athletic apontavam para outra direção. Ao suprimir a editoria de esportes e “substituí-la” por um produto vertical, a New York Times Company expande seu portfolio no sentido da ponta da cauda longa. Agora, ao invés de uma empresa jornalística, a marca se estabelece no mercado de games (com o também adquirido Wordle), como referência culinária (pelo aclamado vertical Cooking e sua grife de produtos), como guia de consumo e reviews (o Wirecutter), como produtora de podcasts e na cobertura esportiva de profundidade, pelo Athletic. Tudo isso, é claro, amparado pela credibilidade e força da marca que seguirá associada ao hard news global.

Do ponto de vista dos negócios, o Times parece dar ensinamentos importantes para a indústria. O mais importante deles é o fortalecimento da marca em produtos de nicho e, por vezes, que vão além do conteúdo. Eles entenderam que o consumo digital de informação não é generalista e que o princípio do “tudo em um só lugar” não tem o menor impacto aos usuários da cultura snack (quando a gente consome uma informação de cada site, conforme elas nos interceptam ou aparecem nos resultados de busca).

A coragem de dizer “não” 

Deixar de cobrir esportes ou qualquer outro assunto tão tradicional em veículos generalistas ainda é uma decisão difícil e, por isso, evitada. Quando fundou o espanhol eldiario.es, o jornalista Ignacio Escolar optou por ser um veículo jornalístico sem cobertura esportiva e sem entretenimento. Ao renunciar editorias que sempre atraíram muita audiência, veículos como o eldiario.es e, agora, o NYT estão, na verdade, se fortalecendo nas áreas onde pretendem atuar.

A coragem de dizer não a algo estabelecido ainda é rara na indústria de mídia. Parece mais fácil e melhor aceito pelas lideranças expandir o que já é feito: cria-se suplementos e projetos especiais em assuntos do momento, abre-se perfis em todas as redes sociais – inclusive naquelas que não têm a mínima relação com a essência do veículo -, arma-se equipes especializadas em vídeo na vertical, em vídeo, em redes sociais, em podcast, em tablet (sim, houve várias!)… Atira-se para todos os lados e não se acerta o alvo. Por quê? Talvez o próprio alvo não esteja claro. 

A clareza do alvo está em sua singularidade e precisão. Quanto mais preciso for o propósito de uma empresa jornalística, mais ela se fortalecerá como referência em um mercado saturado de informação. Em paralelo, se seu objetivo é atingir a mais ampla audiência, entenda que seu valor nessas zonas é muito inferior. 

A NYT Company está se erguendo em vários alvos – cada um, com um produto. Mesmo que, para isso, precise amputar uma parte do seu carro-chefe. Não é raro encontrar grandes grupos de comunicação com sobreposição de conteúdo. Mesmo no Brasil há marcas editoriais que se repetem em plataformas distintas (TV, impresso, rádio, digital) e – o que é pior – concorrem entre si. Este é o pior cenário para todas as partes envolvidas: jornalistas, lideranças, anunciantes, audiências.

Sobreposição de coberturas e o clima nas equipes

A sobreposição de coberturas causou, na NYT Company, um mal estar corporativo. Desde a aquisição do Athletic, o editor executivo do Times, Joseph Khan, chegou a declarar que a empresa tinha mais repórteres cobrindo esportes do que qualquer outro assunto e que era preciso haver mais integração. A equipe do Athletic tinha quase 500 jornalistas, enquanto a editoria de esportes não chegava a 10% desse headcount. O clima piorou quando alguns desses 40 a 50 jornalistas esportivos deixavam a empresa e não eram subsituídos. Havia algo estranho no ar.

Quando a extinção da editoria de esportes finalmente foi anunciada, 28 integrantes enviaram uma carta a Khan e ao presidente da companhia, A. G. Suzlberger, relatando ter vivido 18 meses de tensão com o time do Athletic. “Vimos a empresa comprar um concorrente com centenas de escritores esportivos e ponderar decisões sobre o futuro da cobertura esportiva no Times sem fazer uma ligação de cortesia para nós, muito menos solicitar nosso expertise no tema.”

Embora o Times se orgulhe de ter anunciado esta transformação sem fazer demissões, o fortalecimento do Athletic junto ao veículo tende a levar jornalistas da antiga equipe de esportes à nova publicação. A hipótese se encaixa principalmente se considerarmos que, justamente no mês passado, o Athletic anunciou o desligamento de 20 colaboradores, algo próximo de 4% de sua folha. Por mais que essa movimentação dentro da empresa possa significar uma sobrevivência, os membros da antiga equipe se sentem rebaixados por não carregarem mais o status de repórteres e editores do New York Times e desconfiam que podem perder os benefícios trabalhistas negociados pela congregação de jornalistas do veículo.

Só o tempo dirá o quanto a insatisfação da equipe incorporada poderá prejudicar a estratégia da empresa. Enquanto isso, Sulzberger tem um trabalho intenso a fazer para acomodar o clima e garantir que as rotinas produtivas sustentem a grandeza da decisão de mercado.

Você leu este comunicado da Meta? “Testes aleatórios nos ajudarão a criar uma solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias no Canadá.”

Não, ele não foi interpretado ou reescrito. Copiei e colei a partir do site original:  “Conforme nos preparamos para consentir com a legislação, anunciamos hoje que iremos começar testes em ambas as plataformas [Facebook e Instagram] que irão limitar alguns usuários e editores a visualizar e compartilhar alguns conteúdos de notícia no Canadá”.

O comunicado na forma de uma conquista tecnológica tem como contexto a aprovação do Projeto de Lei C-18, que versa sobre o mercado de notícias online. E a Meta não deixa qualquer margem de dúvida quanto ao que está obstinada a concretizar: “Pretendemos encerrar a disponibilização de conteúdo de notícias no Canadá permanentemente após a aprovação do Projeto de Lei C-18.

O que levaria uma empresa no século XXI a erguer um exército em combate a uma instituição basilar da história da democracia? 

O que diz a Lei de Notícias Online?

A Lei de Notícias Online canadense é um desdobramento natural e previsível da regulamentação pela qual as big techs vêm passando em vários países. Mais precisamente, o Canadá segue o caminho aberto pela Austrália que, no começo de 2021, instituiu o News Media Bargaining Code e colocou veículos e plataformas a negociarem um pagamento recorrente aos editores. 

(Se você não é da área, vale contar que a razão disso está no fato de as empresas de redes sociais terem adotado o modelo de negócio da publicidade que, até então, sustentava os meios de comunicação. Isso, sem assumir responsabilidade pelo conteúdo que nelas circula).

Voltando ao Canadá, a Lei C-18 diz que estarão isentos de cobrança os intermediários de notícias digitais que celebrarem acordo com empresas jornalísticas sob os seguintes critérios selecionados:    

  • forneçam compensação justa às organizações de notícia pelo conteúdo disponibilizado;
  • assegurem que uma parte da remuneração seja usada pelas organizações de notícias para apoiar a produção de conteúdo jornalístico local, regional ou nacional;
  • não permitam que a influência corporativa prejudique a liberdade de expressão e a independência jornalística de qualquer meio de comunicação;
  • contribuam para a viabilidade do mercado de notícias canadense;
  • garantam que uma parte significativa das empresas de notícias locais e independentes se beneficie, contribuam para sua viabilidade e incentivem modelos de negócio inovadores;
  • visem uma variedade de meios de comunicação com fins lucrativos e sem fins lucrativos e que sejam firmados com organizações de notícia que prestem serviços a todos os mercados e a várias populações, em particular a mercados locais e regionais.

A história se repete

Diante da provável obrigatoriedade em destinar parte de sua receita às empresas jornalísticas daquele país, a Meta achou melhor investir em uma “solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias”. 

A ameaça de bloqueio e a efetiva proibição do compartilhamento de conteúdo noticioso em todos os produtos da Meta não é novidade. Assim como os legisladores canadenses se inspiraram no modelo australiano, a Meta repete agora exatamente o que fez na Austrália, em 17 de fevereiro de 2021, quando bloqueou todo conteúdo jornalístico até que o texto da lei fosse flexibilizado. 

Na Califórnia a situação não está diferente. Um dia após legisladores democratas e republicanos terem apresentado – e aprovado em primeira instância – o projeto de lei California Journalism Preservation Act, o porta-voz da Meta, Andy Stone publicou em seu perfil de Twitter que seria “forçado a remover as notícias do Facebook e do Instagram”.

As justificativas apresentadas pela Meta

À medida em que a história se repete, o discurso fica mais direto e sem floreios.

A justificativa para tal postura é que os legisladores não entendem como funciona a internet e ignoram a realidade. Veja o que dizem os comunicados oficiais:

Fevereiro/2021 – Austrália

A lei proposta não entende fundamentalmente a relação entre nossa plataforma e os editores que a usam para compartilhar conteúdo de notícias. Isso nos deixou diante de uma escolha difícil: tentar cumprir uma lei que ignora as realidades desse relacionamento ou parar de permitir conteúdo de notícias em nossos serviços na Austrália.

Junho/2023 – Canadá

A Lei de Notícias Online é uma legislação fundamentalmente falha que ignora as realidades de como nossas plataformas funcionam, as preferências das pessoas que as usam e o valor que fornecemos aos editores de notícias.” 

Maio/2023 – Califórnia

“A lei falha por não reconhecer que os publishers e broadcasters colocam seu conteúdo na nossa plataforma por vontade própria.”

Por que as plataformas precisam pagar aos veículos?

Andy Stone tem razão quando diz que os publishers compartilham seu conteúdo na plataforma livre e espontaneamente. Por uma ingenuidade algo oportunista, acreditamos que as redes sociais solucionariam nossos problemas de tráfego em troca de pouco ou quase nenhum esforço. É fato: não solucionaram e ainda prejudicaram o ecossistema de consumo de notícias ao adotar uma dinâmica de distribuição totalmente opaca

Mesmo assim, se um veículo ainda publica seu conteúdo em redes sociais, o faz em busca de algum benefício. Geralmente, o benefício é geração de (cada vez menos) audiência ou consciência de marca. Então parece ilógico usar uma plataforma espontaneamente e esperar que ela ainda pague por isso.

Um dos argumentos que os legisladores estão usando para justificar a cobrança de taxas das big techs em favor dos meios de comunicação é a infringência de direitos de autor, uma tese falha, já que é o próprio veículo quem publica seu conteúdo ali. (Com o Google a história é diferente e o expediente adotado pela empresa também é outro; fica para outro post).

Se o problema das leis, segundo a Meta, é que elas “não entendem a realidade”, vamos a situações indubitavelmente reais, suficientes para embasar a exigência de pagamento das big techs a empresas jornalísticas. 

Ao longo dos últimos 10 anos, fatos reais provocados direta ou indiretamente pelas redes sociais causaram prejuízos históricos aos veículos:

  • verba publicitária migra da imprensa para as redes;
  • plataformas utilizam as audiências segmentada pela presença de veículos e as vendem para anunciantes;
  • redes sociais entregam audiência orgânica, tornam os meios de comunicação dependentes disso e, depois, derrubam arbitrariamente o alcance dos posts, impactando na queda de audiência;
  • os veículos se veem obrigados a alocar mais esforços e a publicar mais conteúdo nas plataformas em busca do tráfego perdido, onerando a operação;
  • para ter algum alcance nas redes, empresas jornalísticas se obrigam a pagar para promover posts e chegar a uma audiência que, antes, era delas.

Programas de apoio ao jornalismo foram criados pelas big techs ao longo desses fatos para amenizar o caos que elas instauravam no setor. O golpe de misericórdia será o impedimento explícito de veiculação de conteúdo jornalístico nestes espaços. Se essa for, de fato, a nova “realidade”, resta esperar que ela seja o marco de uma nova e produtiva etapa da indústria jornalística, mais centrada em seus próprios produtos, com real controle de suas operações. Quem viver verá.

A dependência de uma plataforma externa para geração de tráfego sempre foi uma pedra no sapato de sites jornalísticos. Primeiro, as metas de cliques só eram batidas se houvesse chamada de conteúdo em algum grande portal. Depois foram as redes sociais. Agora, numa espécie de “revival” pré-Twitter, a busca orgânica brilha como a maior fonte de audiência e contratamos especialistas em SEO a peso de ouro. Eles são os profissionais que trarão pão à nossa mesa, afinal. Bom, pode não ser assim.

Mais do que aprender a driblar as artimanhas dos algoritmos, os veículos que contam com buscadores para distribuir seus conteúdos devem estar atentos a uma mudança de ordem do discurso: do institucional ao individual. No último Google I/O – conferência anual que a Alphabet promove com desenvolvedores do mundo todo – foram apresentados novos filtros de pesquisa protagonizados por Inteligência Artificial. Um deles é o Perspectives, que se propõe a encontrar “informações úteis de pessoas em fóruns e sites de mídia social”. Estarão no radar Reddit, Stack, Overflow, YouTube, blogs pessoais e outros sites que “oferecem aos usuários respostas de humanos reais”.

Nas próximas semanas, quando você pesquisar por algo que possa se beneficiar das experiências de outras pessoas, poderá ver um filtro de Perspectivas na parte superior dos resultados da pesquisa. Toque no filtro e você verá exclusivamente vídeos longos e curtos, imagens e postagens escritas que as pessoas compartilharam em fóruns de discussão, sites de perguntas e respostas e plataformas de mídia social. Também mostraremos mais detalhes sobre os criadores desse conteúdo, como nome, foto de perfil ou informações sobre a popularidade de seu conteúdo. – blog do Google

Microjornalismo

Em síntese, é mais visibilidade ao conteúdo do usuário. O Google chama isso de “Joias Escondidas da Internet”. Em 2013 eu chamava isso de microjornalismo na minha tese – informações mais relevantes ao dia a dia de um indivíduo do que aquelas publicadas em veículos. Você teve o seu canal do YouTube hackeado? Um fórum com outras pessoas que passaram pelo mesmo problema irá ajudá-lo mais do que o próprio Google! A transformação é esta: menos discurso institucional, mais discurso pessoal.

Há valores e riscos nesta virada de chave. O maior valor é a micro segmentação dos assuntos, o que tornará a experiência do usuário muito mais precisa e aplicável. Afinal, não há nada melhor do que aprender com a experiência de “outra pessoa como você”. Entre os riscos, o anonimato da procedência da informação é um dos mais evidentes. Só perde em grau de periculosidade para o fato de que os resultados de busca no Perspective ficarão a cargo do Bard, sistema de IA do Google.

Tá tudo ali! Não precisa nem clicar.

O Perspective, portanto, é  um dos desdobramentos da SGE – Search Generative Experience, que representa uma mudança ainda maior no mecanismo de busca. O uso de Inteligência Artificial generativa nas páginas de resultado do Google são uma resposta ao ChatGPT, que é capaz de responder diretamente ao usuário ao invés de indicar-lhe links onde ele poderá encontrar a resposta. Estamos diante de uma busca orgânica que pretende satisfazer o público sem a necessidade de ele clicar em mais nada.

Então quer dizer que todo o tráfego que o Google traz aos sites jornalísticos hoje em dia pode desaparecer? Exatamente. Assim como desapareceu o tráfego gerado por portais e, depois, por redes sociais, a audiência orgânica tende a diminuir à medida que a Inteligência Artificial não mais mostrar – ou mostrar de forma extremamente coadjuvante – links para veículos. Ao invés disso, a SGE trará a informação de vários sites para a página de resultados de busca, compondo um texto que responda precisamente aquilo que o usuário perguntou.

Os responsáveis por esta tendência de não clicar mais em links de busca não são apenas o Google e a IA, mas os próprios usuários. Em um estudo realizado na Suíça, mais da metade do público que participava de um experimento jornalístico se manteve no próprio ambiente do Google ao procurar sobre uma notícia, porque se satisfez com as informações do Discover.

Estes dois anúncios feitos durante o último Google I/O deixaram bem claro que a big tech está olhando para o lado oposto ao dos objetivos dos veículos jornalísticos. Enquanto empresas de mídia querem usar o Google para gerar cliques a seus conteúdos em terceira pessoa, a web cresce na direção do discurso pessoal, personificado e acessível sem a necessidade de um clique.

Jornalismo em Primeira Pessoa e Confiança

Faz pouco tempo que publiquei aqui no Orbis um artigo sobre Jornalismo em Primeira Pessoa. Vai ser ele a salvação da lavoura? Provavelmente, só ele, não. Mas este modelo caminha na direção para onde o futuro se projeta.

Ao contrário da SGE e de suas páginas de resultado com respostas completas e praticamente sem links, a personificação da linguagem editorial é uma evolução que está ao alcance das redações. Não foi o Google que inventou essa história de proximidade ser condição para haver confiança. É do humano confiar em outro humano; uma questão de sintonia, conexão e, quem sabe, até de empatia.

A crise das instituições sociais e a retribalização das relações humanas é real e aparece em uma pesquisa realizada pelo Gallup e pela Knight Foundation, no começo deste ano. O estudo mostra que quase 90% dos americanos seguem ao menos um indivíduo público em quem confiam para obter informações. 

Enquanto a confiança no governo, em veículos de mídia, em empresas e no sistema judiciário despenca, usuários adultos acreditam cada vez mais em outro usuário, seja ele um jornalista, uma celebridade, um especialista acadêmico, um influencer ou um líder empresarial.

O Google está sabendo capitalizar em cima desse traço tão atual do comportamento humano. “Estamos descobrindo que muitas vezes nossos usuários, especialmente alguns de nossos usuários mais jovens, querem ouvir outras pessoas. Eles não querem apenas ouvir instituições ou grandes marcas.”, disse a vice de pesquisas do Google à The Verge, Liz Reid.

O que esperar no médio prazo?

Não serão apenas os sites jornalísticos que sentirão o impacto de uma busca generativa sem a necessidade de cliques. Se boa parte dos anunciantes do Google procuram leads e conversões, é plausível perguntar-nos onde ficará a “jornada do cliente”. A resposta, no entanto, não é tão difícil de especular: o Google se torna o maior marketplace do mundo, nocauteia a Amazon e se consolida como sinônimo de Internet.

Os veículos online podem continuar fornecendo seu conteúdo gratuitamente ao Discover, para alimentar a IA com páginas de resultados completos ao usuário. Ou podem redirecionar toda essa energia de trabalho para fortalecer seus próprios produtos, criando um jornalismo capaz de conviver nessa nova realidade.

Dois fatos ocorreram no primeiro trimestre de 2023 que envolveram o New York Times, o Washington Post e até mesmo a indústria de games – e ambos os casos trazem ensinamentos interessantes.

A situação pode ser resumida da seguinte maneira:

Na ocasião em que o WaPo anunciava o encerramento do seu suplemento de jogos – o Launcher – o NYT comemorava um ano do recorde de uso do Wordle, game adquirido no início de 2022, no auge de sua popularidade. Ao conquistar a atenção de quase a metade da população norte-americana, o Wordle foi jogado 2 bilhões de vezes no ano passado.

Na esteira de antecessores de sucesso, como Sudoku, Spelling Bee e palavras cruzadas, o Wordle trouxe e atraiu novos assinantes ao ambiente do Times, que também engordava sua carteira por meio de outra aquisição que vem se revelando minimamente duvidosa, o The Athletic. Mas essa é outra história. Fato é que o jornalão americano chegou a anunciar que havia atingido sua meta de 10 milhões de assinantes antes do prazo e parecia acenar com uma tendência a todo o mercado editorial. 

Hoje, isoladamente, a área de games do NYT tem cerca de 1 milhão de assinantes – sem contar aqueles que assinam pacotes de games com outros produtos. Mais do que uma solução poderosa para o funil de vendas para todos os produtos da casa – incluindo as notícias -, os jogos ativam respostas psíquicas diferentes daquelas que o ser humano usualmente tem ao consumir jornalismo, e esta variável não pode ser ignorada.


Lição #1

“Jogar” não pode estar no mesmo balaio do que “ler sobre jogos”. Daí a necessidade de entendermos que nem toda aposta no assunto “games” é garantia de êxito. E foi essa a lição que o Washington Post aprendeu ao descontinuar um produto de conteúdo sobre jogos e ao criar, semanas depois, o seu próprio jogo, On The Record.

Mark Hume, editor de produtos emergentes do WaPo – e um dos criadores do novo jogo, descreveu a motivação do veículo ao criar, 5 anos atrás, o vertical sobre jogos:

Quando começamos a construir o Launcher em 2017, o objetivo era focar a atenção em um setor que se tornou o principal fornecedor de entretenimento do planeta. Para um número cada vez maior de jovens, os jogos têm mais influência do que a TV ou o cinema, e as estrelas online do YouTube, Twitch e TikTok comandam audiências que rivalizam com as de Hollywood ou do mundo dos esportes. E, no entanto, os jogos costumam ser considerados triviais, um nicho, um hobby infantil … mesmo que 3,2 bilhões de pessoas em todo o mundo se envolvam regularmente com jogos em PCs, consoles e telefones celulares.

Está fora de questionamento que a indústria de jogos seja um fenômeno global sem precedentes – e isso não é de hoje. O que move estas pessoas, porém, não é saber mais sobre o assunto, mas vivenciá-lo, experimentá-lo, ser parte daquele universo. É importante e atrativo estar informado sobre algo que nos interessa, mas ler sobre emergência climática não é o suficiente para quem quer salvar o planeta. Consumir conteúdo sobre IA nunca será tão instigante quanto usá-la. O mesmo vale para música, turismo, gastronomia, carros, moda, esporte e – pasme – também para pautas hard news, como segurança, política e economia. 

Assistir a uma reportagem sobre as enchentes do litoral paulista é uma experiência que ganha outra dimensão quando, junto, aparecem formas de fazer doações. Matérias sobre demissões em massa somariam muito se mostrassem caminhos para contratar aqueles profissionais. Com estes detalhes de enquadramento, o jornalismo não se encerra em negatividade e faz alguma diferença na sociedade – para melhor.

Portanto, não se contente em produzir conteúdo sobre um assunto em tendência. Seja a tendência. Faça a tendência. E deixe que o público seja parte dela.


Lição #2

De volta ao mágico mundo dos jogos, é inegável que a movimentação do Washington Post em criar seu jogo está inspirada no lance de mestre do NYT com o Wordle. Por mais que os criadores do On The Record digam que o jogo não foi desenvolvido para concorrer com o Wordle, há, digamos, coincidências demais: 

  • o NYT adquiriu o Wordle em janeiro/22 e o On The Record foi concebido poucos meses depois;
  • ambos trazem um desafio diário;
  • ambos são jogos de lógica;
  • ambos são facilmente compartilháveis com amigos;
  • ambos vinculam-se, em maior ou menor medida, ao noticiário do dia

Mas há uma diferença abismal que é suficiente para situar os dois jogos em patamares bem diferentes: o Times comprou o Wordle quando este já era um sucesso. Enquanto isso, o On The Record nasce debaixo da asa do WaPo, carregando o peso de conquistar adeptos, fidelizá-los para só então representar alguma coisa à carteira de assinantes do veículo. Sem dúvida, é um investimento de longo prazo. E bastante incerto.

(Lembrei agora de grandes empresas jornalĺisticas que, lá por 2007, 2008 se aventuravam a desenvolver suas próprias plataformas de blogs, de fotos do usuário e até redes sociais, gastavam boladas de dinheiro, enquanto os líderes de mercado seguiam tranquilos na preferência popular.)

Pode ser que o quiz jornalístico On The Record seja um sucesso, mas até chegar neste ponto, o esforço que o time do Bezos terá de fazer será muito maior – e custará muito mais caro – do que a compra do Wordle pelo NYT. Como a urgência do mercado de mídia não tem deixado muito espaço para resultados de longo prazo, parece altamente arriscado criar um jogo do zero, caso você esteja pensando em fazer isso no seu veículo.

O fôlego que o Wordle trouxe ao NYT não tem a ver apenas com a associação do lúdico ao universo cinza das notícias. Tem a ver com um produto estabelecido, aclamado e original. Veículos apostando em jogos, daqui para frente, pode até se tornar lugar comum e o resultado pode não ser o mesmo que no Times.

No fim, é muito mais do que jogo. Essa jogada é sobre inovação.

O Orbis Media Review acaba de lançar mais uma pesquisa sobre consumo de mídia no Brasil. O estudo Consumo de Notícias por Universitários Brasileiros mostra a relação que estudantes do ensino superior, de instituições públicas e privadas, localizadas nas cinco regiões do país, tiveram com o noticiário.

A coleta dos dados foi feita entre 6 de setembro e 21 de novembro de 2022, período em que aconteceram os dois turnos das eleições presidenciais, além de outros fatos de grande projeção, como a morte da Rainha Elizabeth II, o Rock’n Rio, a morte do ator Guilherme de Pádua, os debates eleitorais e as manifestações com o bloqueio de estradas pós-segundo turno, além dos preparativos para a Copa do Mundo no Qatar.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Notícias sobre estes e outros temas, publicadas em sete grandes veículos generalistas, foram alvo da análise dos 1.030 participantes. Mais do que classificar o impacto de tais relatos em suas vidas, os estudantes disseram o que os leva a procurar por notícias e quais suas expectativas em relação às publicações.

Conteúdo útil, curioso e que “contribua com o meu desenvolvimento”

A curiosidade aparece como principal motivação e, também, como o maior efeito que o noticiário exerce sobre cada indivíduo. Em segundo lugar, os estudantes querem notícias que os ajudem no cotidiano, mas apenas 2% das chamadas que eles analisaram foram classificadas como sendo capazes de “ajudar no meu dia a dia“.

Um grupo de 62% de universitários mencionou que se sente atraído pelo noticiário que contribui com o seu desenvolvimento. Por outro lado, um quarto das análises que eles fizeram sobre as notícias reportou que tal conteúdo “é indiferente para mim“.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Ainda assim, cerca de um terço da amostra informou acessar, assistir ou procurar ativamente algum veículo jornalístico, pelo menos, uma vez por dia. Já um quarto dos universitários admitiu não ter o hábito de consumir notícias.

Estes jovens adultos, em sua maioria matriculados em universidades públicas, lembram que a última notícia que viram foi em alguma rede social (36,6%) ou em um veículo jornalístico (34,5%). Whatsapp ou Telegram somaram apenas 2,5% das respostas quanto à fonte da informação.

Baixo impacto do noticiário

Poucos souberam contar com algum detalhe sobre a última notícia que haviam visto. Em um campo aberto para resposta, muitos pareceram lembrar vagamente sobre o relato mais recente com que tiveram contato, em sua maioria, no mesmo dia em que participaram da pesquisa. Quase 4% dos participantes admitiram não saber ou não lembrar da última notícia a que foram expostos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Embora rejeitem a negatividade do noticiário, foi notável a quantidade de graduandos que mencionaram alguma notícia sobre violência como a última que viram. Mas um destaque maior fica por conta de acontecimentos locais ou referentes ao universo da profissão à qual se preparam. Alguns exemplos são:

[Pergunta] Qual foi a última notícia que você viu?

  • Cachorro na França é o primeiro animal suspeito de varíola de macaco” (estudante de Zootecnia)
  • Repórter que foi atingido por uma pedra por um bolsonarista” (estudante de Jornalismo)
  • Sobre a interpretação jurídica” (estudante de Direito)
  • Raio atinge e mata metade das cabeças de gado do local” (estudante de Engenharia Agrônoma)
  • Informações esportivas” (estudante de Educação Física)
  • Crítica ao imposto de renda” (estudante de Ciências Econômicas)
  • Da chuva de granizo em Minas Gerais” (estudante de Geografia)

É natural que o noticiário generalista não contemple, rotineiramente, pautas específicas de uma ou outra área e para isso está a mídia segmentada. Mas quando se fala em “notícias” ou mesmo em “mídia”, de modo geral, a política domina a agenda e aí se cria uma repulsa que os números confirmam.

O grupo mais representativo de jovens que se identificam com a esquerda (39%) dizem que a mídia é de direita. Por sua vez, 42% dos estudantes de direita percebem a cobertura da maior parte dos veículos generalistas enviesada à esquerda. A imparcialidade – tão necessária, segundo as respostas dos próprios participantes – é um atributo que apenas um quinto da amostra percebe.

Um quarto da amostra se diz neutro, ideologicamente. Isso pode ser um indicativo de que há um grupo importante de jovens adultos que se abstêm do debate polarizado. Entre eles, 44% declararam não saber avaliar se a cobertura de 11 veículos brasileiros de abrangência nacional estaria enviesada ou não. Vale sublinhar que isso não significa que eles notem isonomia no noticiário, mas provavelmente preferem ficar à margem da pauta predominante e se concentrar em assuntos de interesse e impacto imediatos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

 

O ano começou com o burburinho do ChatGPT e nas redações não foi diferente. Enquanto alguns colegas perguntavam como explorar a nova tecnologia de Inteligência Artificial da OpenAI no jornalismo, outros questionavam se ela seria a tão temida substituta da mão de obra editorial. Se a escrita de textos noticiosos por robôs já é uma realidade usada, inclusive, em grandes portais brasileiros, o diferencial do jornalista pode estar em vivenciar experiências como um ser único, coisa que contraria a lógica de programação e padronização dos robôs.

Matt MacVey, líder de um projeto de IA e notícias locais no NYC Media Lab, da Universidade de Nova York, disse recentemente ao Washington Post:

“Estas ferramentas não podem sair e relatar ou fazer perguntas.”

Pensemos juntos: qual o sentido de competir com a IA, quando o assunto é agilidade, baixo custo e precisão de informações? Se você for um crítico do movimento, já tem engatilhado “n” argumentos antropocêntricos – a meu ver, muito justos! – a começar pela ética. De que serve a precisão de dados se o método de coleta for nocivo? – seria como admitir que “os fins justificam os meios”. O argumento cabal é que, em última instância, quem configura qualquer IA ainda é um ser humano, mas isso não basta para ser um diferencial do jornalista.

Por muito tempo acreditei e ainda acredito que a capacidade de dialogar seja um atributo de excelência do ser humano; em especial, do profissional que trabalha em veículo. Mas até nisso o ChatGPT vem nos desafiar e fica conhecido como “o robô dialogante”. O tão desejado diálogo com a audiência pode ter sido robotizado antes mesmo de ser adotado como rotina das redações. Então, busquemos outro diferencial.

Minha aposta: a personificação

Faz cerca de quatro anos que observo, de longe e com parcimônia, o uso da primeira pessoa no jornalismo. Eu sei, é polêmico. Fomos criados na linguagem objetiva, primeiro manifesto da isenção e condição elementar à credibilidade. “Um repórter deve trabalhar atrás das câmeras” foi repetido como um mantra e “não se tornar notícia” virou missão. Como projetar, então, um jornalismo personificado sem colocar em xeque valores tão caros à profissão?

Antes de mais nada, cabe aqui esclarecer a diferença entre personificação personalização.

Durante todo o ano de 2022 (talvez há mais tempo), ouvi colegas falarem sobre a importância da oferta personalizada de conteúdo. Coleta de dados, desenvolvimento de algoritmos, entregas sob medida na hora certa, para cada segmento de usuários. Independentemente do valor que isso pode ter, a intenção aqui é entender “personalização” só para efeitos de contraste.

Em qualquer processo de personalização – de uma caneca ao conteúdo de um veículo – o diferencial é a adequação do produto ao consumidor. Na personificação, o produto (no nosso caso, a mensagem, o conteúdo) assume as vestes de uma pessoa: o jornalista.

Embora o dicionário dê ênfase ao conceito clássico de “personificação” como o ato de trazer ao concreto uma ideia abstrata (exemplo: “Um filho é a mais nobre personificação do amor“), minha proposta é que, no jornalismo, usemos “personificação” para identificar uma abordagem pessoal do noticiário, honesta e capaz de gerar empatia nas audiências.

Um jornalismo personificado é aquele em que o leitor/usuário/espectador percebe a presença do ser humano jornalista naquele conteúdo, em toda a sua riqueza e limitação. O jornalista não precisa ser protagonista da história – talvez ele nem deva sê-lo! Mas conta, de forma transparente, o que ele viu quando chegou, o que ele perguntou, o que as fontes disseram a ele, o que ele notou na situação, o cheiro, a temperatura, os sabores que ele sentiu como pessoa, como se o fosse o próprio leitor.

jornalismo em primeira pessoa

Não se trata de um conteúdo behind the scene. Aliás, enquanto escrevia este artigo me deparei com uma crítica pesada à página A2 do New York Times, onde os editores publicam uma “autoglorificada” versão interna das matérias veiculadas no jornal. A seção, chamada The Story Behind the Story, tem a pretensão de contar os bastidores de como o jornalismo do NYT funciona. Só que isso, convenhamos, pode ser chato e não interessar a ninguém!

A personificação do jornalismo é bem entendida como a humanização da notícia. Sem jargões políticos, jurídicos nem econômicos. É a notícia como a história de um ocorrido contada de uma pessoa para outra, como, de fato, é. A profissionalização do jornalismo ao longo do último século desumanizou o profissional através da pasteurização do discurso. Adotamos estruturas frasais endurecidas e impessoais na esperança de que uma linguagem padronizada e burocrática garantisse a isonomia do repórter.

Já temos tempo suficiente de jornalismo na história da humanidade para entender que o enviesamento da mensagem excede os limites de uma escrita normatizada. Assumir a voz da primeira pessoa, porém, não significa renunciar à pretensa objetividade do relato, mas dá a ele uma transparência capaz de tornar a notícia ainda mais próxima do real.

Validação do “eu”: técnicas de jornalismo e de autoconhecimento

Lembro de quando eu nem sonhava em ser jornalista e ouvia o Alexandre Garcia dizer “Mais cedo conversei com o ministro X e ele me disse que…” – UAU!, pensava. Ele mesmo falou com o ministro. E foi hoje, há poucas horas! O grau de realismo de uma construção textual assim impacta até quem é criança e pode ser usado em relatos factuais, não apenas analíticos ou opinativos. Esta é a proposta para um Jornalismo em Primeira Pessoa.

Martha Nichols, jornalista e professora na Escola de Extensão da Universidade de Harvard, publicou no ano passado o livro First-Person JournalismNão por acaso, Martha tem afinidades com tópicos ligados à psicologia e saúde mental; é dela o prefácio de outro livro intitulado INTO SANITY – Essays About Mental Health, Mental Illness, and Living in Between. É que a prática do jornalismo em primeira pessoa, segundo a autora, mescla técnicas de jornalismo com autoconhecimento. Em bom português: é preciso um exame detalhado de si mesmo antes de se lançar a este estilo.

first-person journalism

Transformar vivências próprias em conteúdo jornalístico passa por uma validação prévia do eu: tenho permissão para usar o “eu”? Isso extrapola qualquer regra de veículo ou acordo com o editor; trata-se de reconhecer-se como a pessoa certa, no lugar certo e na hora certa. Mais do que o alto valor-notícia de certo acontecimento, eu sou a melhor pessoa para relatá-lo ou há outras pessoas mais capacitadas, a quem eu deveria ouvir no mais tradicional estilo de reportagem? Se a segunda opção for a melhor, não hesite em dar voz a fontes.

(IMPORTANTE: Mesmo que a reportagem seja o relato de uma experiência própria, fontes terceiras sempre são bem-vindas. Se uma delas refutar o ponto de vista do repórter-narrador, tanto melhor! Narrar não é o mesmo que defender.)

Quando menciono “validação” – e a Martha Nichols detalha como “permissão para usar o eu” – considero que este aval precise ser coletivo, especialmente quando se trata de veículos (e não de blogs pessoais). A narrativa pode ser em primeira pessoa, mas a chancela, não. Tudo começa com um autoexame – inclusive autocrítico -, mas não para por aí. A validação coletiva deve contemplar, pelo menos, os seguintes pontos:

  • A experiência do jornalista [pauta] é interessante / relevante às audiências?
  • O ponto de vista do jornalista é representativo (capaz de gerar empatia entre as audiências)?
  • O jornalista será excessivamente exposto e pode tornar-se  vulnerável?
  • Qual a posição que o jornalista ocupou ao experienciar tal fato?

Perceba que, embora o relato seja pessoal, a validação é atravessada por preocupações com a audiência, com valores-notícia, com a propriedade do lugar de fala e, sobretudo, com a honestidade e a transparência do contexto. A diferença é que, em primeira pessoa, estes detalhes são contados ao leitor. E é aí que mora o diferencial que buscamos ao jornalista. Somente seres humanos vivem experiências e podem contá-las segundo suas próprias percepções; robôs não. A proximidade estabelecida com o leitor se assemelha à de um amigo que lhe conta uma história. Nada mais humano, exclusivamente humano.

Deixa eu te contar o que vi outro dia…

Nos meios de apelo da retórica aristotélica, contar histórias reais aparece de forma recorrente como técnica de persuasão. Noutras palavras, histórias atraem ouvintes. Mas por que histórias pessoais atraem mais? O Peter Burke tem uma frase icônica no livro Uma História Social do Conhecimento (Zahar, 2003):

“A informação é como água: quanto mais próxima da fonte, mais pura ela será.”

É do humano buscar a verdade, a pureza, o estado original. No ensaio Faith in Fakeness, Umberto Eco constatou uma “fixação pelo real thing“, a coisa real perdida em uma sociedade saturada pelo falso e pela ficção. Usei esta frase dele em uma aula que dei em 2018, para uma turma de RTVI de uma faculdade aqui de São Paulo. A turma havia lido o livro O Show do Eu: Intimidade do Espetáculo (Contraponto, 2016), da Paula Sibilia, que recomendo. É uma crítica destemida ao comportamento humano nas redes sociais, à luz de distorcidos valores contemporâneos. Na obra, a Paula observa que realidadeverdade são noções que se estremeceram seriamente nas últimas décadas. Quando tudo é passível de questionamento e problematização, surge um efeito colateral: o real já não é mais auto evidente. Então é preciso intensificar a realidade para que ela seja percebida como real.

O mercado de influencers, youtubers, twitchers, blogueiros, de produtores de reality shows se beneficiou enormemente deste movimento. Surge uma zona intermediária, entre a realidade e a ficção. No livro, a Paula aponta para a saturação do relato do autor que se mostra, se narra. Mas desde a publicação da obra, só o que se vê é esta linguagem personificada crescer, despertando e retendo a atenção das audiências.

Reforço da credibilidade

Mais do que ser um artifício para captação de público, o uso da primeira pessoa no jornalismo contribui para diminuir o cenário de desinformação. Matérias assinadas já trazem uma camada extra de credibilidade. O Center for Media Engagement realizou pesquisa em 2020 comprovando que, quanto mais informações [pessoais] o veículo mostra sobre o autor de uma matéria, maior é a confiança do público ao consumir aquele conteúdo.

Quando os leitores viram uma biografia que continha uma foto pessoal e detalhes pessoais sobre o repórter, eles sentiram que o conheciam melhor do que aqueles que viram qualquer outro tipo de biografia.

A Trusting News, entidade voltada ao reestabelecimento da confiança do público no jornalismo mostrou o exemplo do Virginian-Pilot (infelizmente indisponível no Brasil), onde jornalistas foram convidados a atualizar suas mini-bios com informações sobre sua experiência profissional, além de curiosidades pessoais, “mostrando um lado mais humano e relacionável“.

[Digno de nota: adepta à transparência como acesso à credibilidade, a Trusting News tem uma seção de nome bastante sugestivo – Journalists Are People Too]

A “transparência realista” do jornalismo em primeira pessoa, claro, ultrapassa a mera “assinatura de matéria” se estende por todo o relato. Martha Nichols, do livro First-Person Journalism, confessa em sua apresentação:

Há muito tempo acredito no poder das histórias pessoais. Mas com o surgimento da falsificação digital, lutar pela honestidade agora parece um ato radical. É por isso que me dedico ao jornalismo em primeira pessoa: contar histórias que conectam uma voz pessoal com uma abordagem rigorosa dos fatos.”

São fatos, não opinião. O compromisso do jornalista com a realidade segue inalterado. Naturalmente, o relato pessoal traz uma perspectiva sobre a realidade. Mas… não é isso que uma reportagem em linguagem objetiva também traz? Desde a escolha das fontes até a última edição, relatos jornalísticos são a perspectiva daqueles profissionais sobre um fato. O narrador é orientado a se omitir para que a narrativa seja vista “em si”, como se tivesse vida própria e, assim, fosse apenas capaz de refletir a verdade (no singular).

Casos de jornalismo em primeira pessoa

O uso de primeira pessoa no jornalismo ganhou bastante evidência por volta de 2014. Naquele ano, a American Journalism Review publicou um artigo contando como o estilo ganhava destaque na Vice e se tornava tendência em veículos globais, como o BuzzFeed e New York Times. No mesmo ano, o Washington Post também destacava a escalada do uso do “eu” em conteúdos jornalísticos pós-crise de 2008. O artigo da escritora Eve Fairbanks explicava o fenômeno:

“… o boom do ensaio em primeira pessoa é algo notável. Ele canaliza nossa profunda desconfiança nas elites após a catástrofe do Iraque e a crise financeira, ambas forjadas por especialistas distantes que tinham pouca experiência direta nas coisas – ditadura, hipotecas subprime – que eles diziam entender tão bem. Agora queremos o contrário: ouvir as pessoas no solo, obter pontos de vista que imaginamos estarem tão ancorados na experiência pessoal que devem ser verdadeiros.”

Os exemplos que caracterizavam a tendência naquela época tinham a forma de ensaios, colunas de perguntas e respostas e blogs coletivos, com textos produzidos pelo staff da redação ou por usuários dos veículos. Os assuntos variavam dos “resultados em usar Reiki no cachorro” ao “cotidiano de uma pessoa com transtorno alimentar”, da “experiência de passar por um aborto espontâneo” ao “tratamento contra a depressão”.

boechat confessa sofrer de depressãoEis um registro mais do que necessário: quem lembra de quando o Ricardo Boechat assumiu publicamente sofrer de depressão? É importante dizer que o relato não teve a intenção de ser uma notícia, mas a função social que cumpriu superou a de muitas pautas.

Boechat não foi o único a compartilhar problemas de saúde. Em 2021, André Tal, repórter da Record, revelou sofrer de Parkinson e, no ano passado, a jornalista Renata Capucci contou que foi diagnosticada com a mesma doença. Tornar público o diagnóstico de uma doença vem carregado de uma mensagem de conscientização e com estes jornalistas não foi diferente.

Em um tom mais leve – embora ainda crítico e reflexivo – a jornalista Whitney Miller, do canal WCPO 9 News, de Cincinnati, relata sua transição de visual ao adotar tranças, um penteado tão incomum para âncoras de TV quanto significativo do ponto de vista da identidade racial.

Jornalistas serão influencers?

A pergunta espinhosa é proposital. Há quem defenda a ideia dizendo que jornalistas sempre foram influenciadores da opinião pública. Outros dizem que, na acepção atual do termo, jornalista precisa mesmo é se diferenciar da superficialidade dos influencers de social media. Haverá uma justa medida?

É inegável que os influencers – ou creators – são hábeis em recrutar audiências numerosas, tudo o que jornalistas tanto desejam para seus veículos. As artimanhas que estas estrelas da Internet usam variam da nefasta compra de seguidores a uma abordagem incrivelmente próxima às audiências. Influencers são tudo o que mais podemos chamar de personificação do conteúdo.

Uma das diferenças para o jornalista é que o influencer busca, geralmente, colocar seu nome na frente do conteúdo que produz. O objetivo final é projetar a própria identidade e os relatos personificados são o meio para alcançar esta meta. O jornalista, ao contrário, não precisa evidenciar-se como indivíduo para relatar o que viveu. A identidade do narrador faz diferença para a história contada? E muita! Mas ela pode ser trabalhada de forma sutil, de modo a priorizar o fato e não o contador.

Digo isso porque conheço um bom número de colegas avessos à ideia de explorar sua “imagem pessoal”. Novamente: muitos de nós fomos criados assim, desde a faculdade. Nos acostumamos à ideia de que tornar-se conhecido é coisa para colunistas e jornalistas de TV. Afinal, eles têm destaque visual na mídia. Há tempo já não é mais assim. Quando qualquer usuário de redes sociais ganha tanto ou mais visibilidade midiática do que jornalistas do audiovisual, deixar-se conhecer pela audiência já não traz mais tanto impacto pessoal quanto antes. Os jovens apresentadores do G1 em 1 minuto que o digam. Usar a primeira pessoa para contar uma notícia que você apurou não faz de você um novo Pedro Bial, mas desperta empatia e atrai a audiência.

Atenção aos riscos

  • O repórter tornar-se maior do que o fato: lembre-se que a intenção de um relato em primeira pessoa é gerar empatia com as audiências. Se o jornalista der mais ênfase à sua identidade e às suas subjetividades, ele será visto como um ser único, especial, sem correspondência com a realidade de cada leitor/espectador. Por acaso, foi aquele jornalista que viveu tal experiência, mas poderia ter sido qualquer indivíduo.
  • Nem vítima, nem herói: o foco não é o jornalista, mas suas experiências.
  • Militância: narração não é defesa de um ponto de vista.
  • Forjar experiências para gerar pautas: [desnecessário detalhar]
  • Irrelevância: tudo o que acontece conosco parece ter uma importância gigantesca – e, de fato, tem. Mas isso não significa que a situação retrate o interesse das audiências. Portanto, em momento algum se desconecte das necessidades informativas do público.

E o profissional, não fica exposto?

Nos últimos cinco ou seis anos tem sido crescente o número de colegas que se sente exposto à agressividade das audiências, mesmo sem assinar relatos em primeira pessoa. Ou seja: mesmo seguindo o protocolo de apuração e usando linguagem impessoal, jornalistas são atacados com comentários e ameaças nas redes. O uso da primeira pessoa não pode agravar esta situação?

Não, ao contrário. Explico.

Ao estabelecer um lugar de fala semelhante ao de qualquer leitor/espectador, o jornalista se torna tão humano quanto ele. Pelo que há de mais primitivo no comportamento da humanidade, é muito mais difícil atacar um semelhante do que um desconhecido. Já vivi interações com usuários que apaziguaram o tom da crítica quando eu ou alguém da minha equipe se mostrava ser… uma pessoa! Até mesmo no meio de um protesto em frente ao MASP, na Avenida Paulista, em 2013, vi a postura de um manifestante mudar quando expliquei a ele o que eu estava fazendo ali.

IMPORTANTE: essas foram reflexões bem incipientes a respeito do tema. Se você conhece algo ou tem alguma opinião formada sobre jornalismo em primeira pessoa, por favor, compartilhe nos comentários e vamos amadurecer esta ideia juntos.