Trabalhar com verdades é uma tarefa complicada, pois elas nem sempre são fáceis de encontrar, podem ser conflituosas e estão sujeitas às circunstâncias. Muitas vezes, uma informação conhecida não é nem de perto tão relevante quanto aquelas que no momento desconhecemos. Afinal, um dado ignorado ou pouco apurado pode mudar toda a nossa percepção da realidade.
Se verificar fatos, portanto, já é uma tarefa delicada, o que dizer de julgar a intenção daqueles que criam e divulgam conteúdo? Um veículo de fake news, afinal, não é aquele que publica uma mentira ou gafe pontual, mas aquele que age com o intuito de enganar a população, desinformar e manipular. Mas como podemos conhecer a intenção de outros jornalistas ou meros influenciadores? Não seria nossa ideologia falando mais alto?
É verdade que jornalistas devem trabalhar com a verdade, mas quem nos deu a tarefa de ser juiz do trabalho alheio para controlar o conteúdo que circula nos ambientes de debate público de hoje?
Dono do site Stratechery, o analista de mídia Ben Thompson certa vez delineou alguns posicionamentos que nenhum jornal deveria adotar caso queira prosperar em nível local (o que também vale para aqueles que desejam ver crescer um modelo de negócios baseado na assinatura dos usuários). Comportamento errado número 1, diz ele: oferecer “um conteúdo que está amplamente disponível em outros lugares”.
É claro que todo jornal acredita que seu conteúdo é exclusivo, afinal deriva de reportagens próprias. No entanto, aos olhos do público que costuma ter orçamento e disposição para assinar entre um ou dois veículos, nosso conteúdo de fato é e parece tão exclusivo quanto pensamos?
Além de boas reportagens, podemos pensar em nichar o produto, acrescentar contexto ao conteúdo, repensar o modelo de lead, permitir que o jornalista escreva de forma mais direta para o público. Portanto, para além da corrida pelo furo, qual o nosso verdadeiro diferencial?
Entre tantos papéis atribuídos ao jornalismo, um vem sendo abordado com bastante frequência nos últimos tempos: o de defender a democracia por meio da vigilância ao poder. Mas esta tarefa é, no mínimo, vaga demais. Mesmo porque, democracia envolve uma série de questões divergentes, de forma que a própria tentativa de definir aquilo que a ameaça estará sempre acompanhada de muita subjetividade.
Em artigo publicado na Wired, o escritor Antonio García Martínez argumenta que a democracia norte-americana se sustentou, prosperou e se consolidou nos anos pré e pós independência sem nunca ter uma imprensa objetiva e imparcial. O que eles pareciam ter, ao contrário, era uma imprensa simplesmente muito ativa que não se colocava acima do debate, mas justamente no meio dele.
Não é, obviamente, o caso de lutarmos por uma revolução jornalística com o fim de transformar as empresas em veículos partidários ou panfletos militantes. Isso seria absurdo. Mas se nossa democracia precisa ser discutida, não seria a hora de descermos de alguns pedestais e nos envolvermos mais com a população, tanto para nos fazermos compreender quanto para compreendê-la?
Entre as consequências das acaloradas discussões do momento, a percepção de que existem apenas vilões e mocinhos no mundo está entre as mais cansativas. Buscando embasar seu conteúdo em dados e informações objetivas, o jornalismo tenta, ao menos em tese, trazer racionalidade para a discussão. Mas dados são, por si só, infalíveis e inquestionáveis? Segundo um conceito matemático datado, aproximadamente, de dois séculos atrás, “lixo dentro” significa “lixo fora”. A ideia é bem direta: pouco importa o que digam as pesquisas se as informações coletadas forem incertas.
Não faz sentido, portanto, tomar o resultado de estudos como verdades absolutas. Assuntos complexos dificilmente serão enfrentados por meio de soluções simples e generalistas, ao mesmo tempo em que a imprevisibilidade humana é, por definição, um fator incalculável. Certamente, dados, pesquisas e o conhecimento de especialistas podem ser valiosos como orientação. Mas como jornalistas é importante perguntar: até que ponto não nos servimos deles para encerrar debates com conclusões das quais concordamos ao invés de construir boas e valiosas discussões?
Novas iniciativas são extremamente importantes em mercados particularmente carentes de inovação – como é o caso do jornalismo. Se a popularização da Internet forçou e permitiu mudanças significativas em diversos setores da economia, os jornais e revistas não apenas demoraram a acompanhar esta onda digital como ainda encontram significativa dificuldade de inovar em seus negócios e operações.
Especialmente no mercado norte-americano se concentram experimentos promissores que se tornaram tendência para o mundo. Foi de lá, por exemplo, que surgiu o paywall como modelo de negócios – inicialmente com o The Wall Street Journal para, posteriormente, se popularizar com o The New York Times. Mas se o paywall foi uma importante inovação, em termos de negócios, para veículos que migravam seu conteúdo para o ambiente digital, o que dizer da inovação nas outras pontas da atividade, como produção e divulgação do conteúdo, além do material jornalístico em si? Há projetos que nos mostram que isso é possível, e não apenas no outro lado do hemisfério.
Criado em outubro de 2018 pelo jornalista e repórter do Poder360 Maurício Ferro, o Correio Sabiá funciona como uma newsletter de jornalismo político via WhatsApp. A operação é simples: todo dia às 7h, uma lista das questões mais importantes do momento é enviada aos assinantes para que fiquem a par do que está acontecendo. Caso queiram se aprofundar nos assuntos, podem acessar links de sites e jornais como Folha de S. Paulo, G1, O Globo, UOL – apenas para citar alguns exemplos – e ler as matérias completas, que são selecionadas seguindo uma série de critérios, incluindo estarem ou não fechadas por um paywall. Caso estejam abertas, podem ganhar prioridade, pois como conta Maurício, a ideia é divulgar aquele conteúdo acessível a todos para que o leitor não se frustre tentando encontrar mais informações sobre um determinado tema.
Enviada diariamente pelo WhatsApp, a newsletter conta com chamadas das principais notícias do momento e links para se aprofundar nos assuntos
Por si só, o ano de lançamento do Correio oferece pistas sobre a sua proposta de valor. A eleição presidencial de 2018, combinada com os ânimos inflamados do eleitorado e um ambiente online cada vez mais popular, ofereceu estímulos consideráveis para a criação e disseminação de Fake News. No entanto, sem evitar o meio digital, a ideia de Maurício foi justamente de combater a desinformação “no ambiente em que elas eram disseminadas, a partir do conteúdo jornalístico profissional”, justifica. E para isso, é muito claro sobre o que oferece ao seu público: “ser o mais direto possível ao resumir as notícias, sem cair para nenhum lado da disputa política”.
A ideia de utilizar o WhatsApp como meio para divulgação do conteúdo, por sua vez, parte de um princípio extremamente prático. Além de ser uma das redes sociais mais importantes do presente, ela permite, nas palavras do jornalista, que o conteúdo se torne “viral”. “Se as pessoas viralizam mentiras, podem também compartilhar conteúdo sério e profissional”.
Com tantos esforços atuais para limitar ou checar a disseminação de conteúdo enganoso nas redes, a ideia de Maurício, até o momento, se mostra mais positiva: ofertar conteúdo de qualidade onde atualmente há muita informação ruim.
Mas não são apenas as Fake News que tornam as redes um lugar de possível desinformação. “Sempre faço a ressalva que, além das notícias propositalmente falsas, existe hoje um excesso de informações (mesmo verdadeiras) – e isso também desinforma, porque as pessoas ficam perdidas no meio do noticiário”, explica. Sua visão vai de encontro com o que algumas empresas, aos poucos, começam a perceber: o leitor não possui tempo para ler tudo aquilo que os veículos publicam, especialmente no meio digital. Um conteúdo reduzido e bem trabalhado, neste sentido, contribui para reduzir o excesso de informação de baixa qualidade.
Assim, o material que o público recebe do Correio Sabiá segue um processo de curadoria no qual são analisadas as melhores matérias sobre um determinado assunto, quem publicou primeiro e se uma única fonte já foi usada vezes demais – caso tenha sido, outros jornais podem ser utilizados para que o leitor não fique preso à visão de poucos veículos.
Modelos de negócios
Não é de hoje que o jornalismo encontra dificuldades em elaborar modelos de negócios para viabilizar os seus produtos. Após a era de ouro da publicidade, quando as empresas faziam um noticiário generalista para atingir o maior número possível de pessoas e atrair anunciantes dispostos a pagar para ter seus produtos expostos nas páginas dos jornais e revistas, o mercado ainda derrapa tentando encontrar uma nova forma de se sustentar.
O que talvez ainda não esteja claro para muitos profissionais da indústria é que a abertura online causada pela internet não apenas permitiu o surgimento de gigantes da tecnologia que atraíram uma enorme fatia das receitas publicitárias, até então captadas pelas empresas de mídia. Este ambiente digital também influenciou uma significativa mudança nos hábitos e comportamentos dos consumidores de notícias. Com uma quantidade infinitamente maior de conteúdo circulando, minuto a minuto, nas redes, o leitor tem a opção de buscar aquilo que é estritamente de seu interesse. Como coloca o jornalista Bruno Daminello, que escreve para este Orbis, a era em que pagávamos pelo conteúdo de política, economia e entretenimento, mesmo que quiséssemos ler apenas sobre esporte, acabou.
Encontrar um novo modelo de negócios, portanto, só faz sentido se houver um produto de interesse do leitor e atualizado às suas demandas.
Atualmente trabalhando sozinho com o Correio Sabiá e sem ter retorno sobre o negócio, Maurício Ferro conta que já está em fase de testes um programa de financiamento recorrente como forma de monetizar a newsletter. “O objetivo da campanha vai ser, primeiro, arrecadar para manter os custos operacionais. Depois, arrecadar para conseguir ampliar o serviço – ter mais conteúdo, ampliar as plataformas e, quem sabe, contratar alguém”.
Apesar da necessidade de ter retorno financeiro sobre o trabalho, Maurício diz que não pretende fechar a newsletter apenas para assinantes. A proposta, portanto, funcionaria como uma espécie de doação por parte dos leitores que gostam do serviço e desejam dar um estímulo. Como forma de reconhecimento, Maurício pensa em oferecer algumas singelas contrapartidas a estas pessoas, embora ainda não esclareça quais sejam.
Exemplos no Brasil e mundo afora mostram que a receita proveniente do leitor – paywalls, memberships e contribuições voluntárias – funcionam e prosperam quando o veículo possui algo de único a oferecer. E a razão para isso não poderia ser mais lógica: por que, afinal, pagar por um jornal específico quando este publica algo que encontro sem grandes diferenças, e muitas vezes grátis, na concorrência? Se há algo verdadeiramente capaz de motivar o pagamento é a exclusividade do produto.
Não é possível dizer que a atuação de veículos no WhatsApp seja algo inexistente no Brasil, algo que Maurício mesmo reconhece. Apesar disso, garante possuir um produto diferenciado: “Hoje, diversos jornais estão no Telegram e muitos também já criaram seus perfis no WhatsApp, mas todos fazem esse trabalho por listas de transmissão. Já eu prefiro manter grupos. Na maioria das vezes, esses veículos enviam as matérias que publicam – é diferente da minha proposta de resumir o noticiário”.
A intenção de Maurício, portanto, não é competir com as redes sociais ou com os jornais que fazem hard news. “Minha ideia é consolidar tudo o que realmente importa para que a pessoa tenha informações essenciais e bem explicadas logo no início do dia”, explica.
Um pouco mais sobre jornalismo
É curioso pensar em crise no jornalismo em um momento da história de abundante disseminação e consumo de conteúdo. E por mais que as Fake News causem um impacto negativo na percepção pública sobre assuntos diversos, não é possível responsabilizá-las unicamente pela redução da influência jornalística na vida das pessoas. As próprias empresas tradicionais têm parte dessa responsabilidade – ironicamente, algo que pode ser considerado positivo. Caso contrário, haveria pouco a ser feito para reverter a situação.
Ao menos em tese, os princípios morais e mesmo comerciais do jornalismo são bons estimulantes para a criação de um bom conteúdo, afinal, publicar com precisão é o que mantém a credibilidade das empresas e o que permite que se mantenham à frente da concorrência. Mas se em algum momento da história estes fatores foram suficientes para manter o público interessado no noticiário, hoje a situação aparenta ter mudado bastante.
Portanto, três hipóteses podem explicar o momento atual: os princípios orientadores não têm sido aplicados pelos jornalistas; são aplicados porém não percebidos pelo público; ou simplesmente não são mais suficientes para despertar a atenção dos potenciais leitores.
Certamente há verdade nos três casos. Mas Maurício apresenta uma reflexão interessante e necessária para que a imprensa possa aumentar o valor oferecido aos leitores por meio do seu conteúdo: “Acho que o jornalismo precisa de bom senso para dialogar com o público. O que mais vejo é matéria sem contexto. Para mim, não faz sentido dizer o que aconteceu sem dar ao leitor o direito de entender a informação. Por isso, frequentemente, abro um espaço ‘contexto’ na mensagem do Correio Sabiá”.
No oceano de conteúdo que se tornou o meio digital, oferecer algo diferenciado é fundamental. O jornalismo acostumado a apresentar as informações em formatos padronizados pode encontrar grande dificuldade em cativar a audiência. Já contextualizar as notícias e trabalhá-las com cuidado pode ser uma importante maneira de se destacar. Poucas pessoas, afinal, conseguem acompanhar a avalanche de conteúdo publicado diariamente pela mídia, mas muitos conseguem selecionar algumas poucas matérias de real valor pessoal.
Embora a contextualização tenha o poder de também gerar conhecimento e não apenas informar, há um problema na crença ainda arraigada de que o jornalista sabe o que o leitor deve consumir. Isso poderia funcionar na época dos impressos, mas, com a Internet, o número de opções explodiu. O usuário sabe que deixar de ler um jornal não implica ficar sem conteúdo, pois ali na frente haverá algo de seu interesse.
Para Maurício, “a maioria dos leitores desconhece completamente o ‘fazer jornalístico’, então não tem ideia do motivo de algo ser notícia”; “o leitor precisa de uma explicação ‘por que isso importa?’”. É bem verdade que mostrar a relevância de determinados assuntos pode despertar no público um interesse adicional pela informação. Mas isso nem sempre será verdade ou mesmo suficiente.
Na era da Internet onde muitos gostos estão misturados, nichar o conteúdo tem sido uma solução interessante criada por diversas empresas. A mudança de concepção é clara. Não cabe à mídia tratar dos assuntos e esperar do público a atenção. Ao contrário, os jornais devem atender a uma fração dos leitores e oferecer aquele que seria o melhor conteúdo para eles.
O jornalismo generalista pode estar acabando. Como escreve o jornalista e historiador suíço Markus Somm em artigo para a Harvard Kennedy School, “na era digital, uma pequena minoria dos usuários pode compor a audiência mais atrativa das empresas de mídia digital, caso queiram ser lucrativas”.
O Correio Sabiá, neste sentido, pode servir de inspiração para o restante do jornalismo, que ainda precisa descobrir como dialogar com o seu público e oferecer algo exclusivo, diferenciado e de valor. Só assim para sobreviver a esta nova fase da comunicação.
Valores são importantes para guiar nossas condutas. No jornalismo, temos como princípio a busca pela imparcialidade. Ainda assim, é importante perguntar: por mais que seja capaz de orientar as normas profissionais, até que ponto a imparcialidade é compatível com o que significa ser humano?
Afinal, não fazemos julgamentos de valor? Não observamos e opinamos? Não percebemos o que parece certo e o que se mostra errado?
Como argumentava o escritor, crítico literário e filósofo inglês Chesterton, a chamada imparcialidade pode significar uma mera indiferença, enquanto a parcialidade pode ser uma simples atividade mental – que nos força a pensar e não apenas a repercutir.
Falando concretamente do jornalismo, a opinião é frequente, em maior ou menor grau, no conteúdo veiculado. A busca pela imparcialidade mitiga a sua exposição, mas dados cuidadosamente pinçados e declarações de especialistas muito bem selecionados frequentemente contam aquilo que queremos que seja captado pelo público.
Portanto, sem apresentar claramente nossas opiniões, com que frequência não optamos por uma omissão calculada?
O jornalista enfrenta diversos dilemas, e ser parcial por certo tem seus problemas. Se não há uma conduta perfeita a ser adotada pelo profissional, a exposição transparente de ideias e opiniões ao menos facilita ao público cobra-lo por seus posicionamentos. Por si só, este já não seria um bom estímulo para uma conduta jornalisticamente responsável?
Faz parte do senso comum jornalístico dizer que a função da atividade é estar sempre vigilante. Não que a afirmação esteja errada, ao contrário. Mas ela talvez limite a atuação de tantos veículos. Afinal, este posicionamento implica estar sempre em busca de algo a ser denunciado, o que é uma visão pobre da realidade. O olhar exacerbadamente crítico ignora o que há de bom no mundo. Acredita que aquilo que há de positivo é menos relevante e não muito digno de ser divulgado, uma vez que não precisa ser corrigido.
Vale então a pergunta: qual sentimento oferecemos às pessoas quando mostramos apenas o que há de ruim aqui e acolá?
Luciano Pires, um sujeito que tem dois pés no mercado da comunicação, atua como palestrante e podcaster, surgiu com uma sacada interessante para gerar engajamento em suas redes sociais. Com a hashtag #EnquantoIsso, mostra o que está acontecendo de bom no mundo enquanto tudo mais parece pegar fogo. As notícias que compartilha percorrem longas distâncias, desde a alta nos índices em bolsas de valores e projetos políticos interessantes, até um menino desconhecido que fez uma prótese de perna com materiais improvisados.
A crítica jornalística e sua vigilância podem prestar um serviço fundamental à democracia. Mas e quanto ao mundo aqui perto? O que oferecemos de valor ao público, que seja percebido como relevante pelo próprio público, e não apenas pelos jornalistas?
Entre tantos assuntos que rondam o cotidiano jornalístico, as fakes news surgem com frequência entre os mais debatidos. No meio, há uma preocupação lógica com os problemas que as informações falsas causam à sociedade. Afinal, se é função da mídia deixar o público bem informado, a disseminação de mentiras é claramente um obstáculo a este propósito final.
Ao entrar de cabeça na luta contra a desinformação, no entanto, é possível esquecer de analisar a questão em si, suas implicações, a gravidade do problema e, principalmente, o papel que o jornalista pode exercer. A solução do fact-checking” parece beirar a unanimidade entre profissionais da comunicação, podendo realmente ser boa para expor uma mentira evidente antes que tome grandes proporções. Mas há considerações importantes a serem feitas relativas a esta prática, inclusive ao olhar para a sociedade, com quem o jornalista deve dialogar e perceber como boa parte dela enxerga a questão.
Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades.
Dado que no amplo e inflamado debate público dos anos recentes encontramos não apenas informações deliberadamente mentirosas, mas também distorções de fatos verdadeiros e dados descontextualizados, aplicar uma medida única e definitiva para o problema não é algo muito fácil, para não dizer impossível.
A atuação dos fact-checkers oferece uma alternativa à exposição de notícias falsas. O problema, no entanto, está muitas vezes em definir o que é verdadeiro. Certamente há questões objetivas facilmente identificáveis, mas em muitos outros casos a fronteira entre verdade e mentira não será tão clara. Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades. O falso consenso ou mera opinião também podem oferecer uma interpretação parcial do mundo ao nosso redor, permitindo que enquadremos como mentira algo que talvez não esteja fechado para o debate.
É certo que, em um mercado aberto, a checagem de fatos tem seu lugar e um público consumidor. Mas institucionalizar grupos de checadores de notícias como controladores oficiais da verdade pode ser um risco para a livre circulação de informações.
Ao se colocar em uma posição de infalibilidade, muitas empresas de mídia se fecham para a autorreflexão e passam a ver na sociedade um obstáculo à realização de seu propósito maior. Parte do descrédito midiático resulta da desconexão com o público, o que é reforçado por seu posicionamento de detentora oficial da verdade. Uma vez que as redes sociais amplificaram as vozes da crítica e do questionamento, o jornalismo oficial simplesmente perdeu o monopólio da comunicação.
É preciso, portanto, questionar sobre o valor gerado pela checagem de notícias, dado que no atual momento há ampla circulação de informações, opiniões e conteúdo de entretenimento. Ao atuar apenas de forma reativa, revisando e corrigindo aquilo que é divulgado por tantos outros, o jornalismo gera pouco valor para si mesmo.
É curioso pensar em crise no jornalismo em um momento de tanta difusão de conteúdo. Mesmo empresas cujo produto nada tem a ver com informação oferecem conteúdo que agrega conhecimento ao seu público e gera engajamento com a marca. Diversas pessoas qualificadas trespassam o cada vez mais frágil filtro jornalístico para difundir nas redes suas opiniões e visões de mundo. Há valor sendo criado em todo canto para pessoas que buscam se distrair, se informar, conhecer novas ideias e ouvir histórias cativantes. Como competir com isso apenas checando um limitado número de notícias que correm nos meios mais diversos?
O funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria.
A discussão que deveria rondar o jornalismo acerca do fenômeno das fake news está limitada. Não se trata apenas de mostrar a verdade e a mentira que rondam a comunicação de massa que hoje existe e, portanto, de controlar e regular o que está chegando aos ouvidos do público. Este posicionamento ignora o potencial do jornalismo, cujo poder reside não apenas em dar informação ao público, mas em ajudá-lo a compreender o mundo a sua volta.
Ainda que em termos gerais, o funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria. O mercado midiático possui suas particularidades e, muitas vezes, a desinformação conta com forte apelo humano. Ainda assim, investigar, descobrir informações relevantes e produzir conteúdo de qualidade, de verdadeira qualidade – o que é o trabalho do jornalista -, pode contribuir mais para o esclarecimento do que se passa ao nosso entorno no atual e confuso cenário de debate público, do que simplesmente caçar mentiras produzidas.
O problema da desinformação não é novo; ao contrário, existe desde que o mundo é mundo e continuará existindo enquanto o ser humano for humano. A novidade são as novas tecnologias, que permitem uma disseminação maior e mais veloz da informação. Mas esta é uma via de mão dupla, pois se a mentira pode ser compartilhada com grande facilidade, velocidade e alcance, o mesmo serve para a verdade, para o conteúdo de qualidade.
A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo.
Colocar o jornalismo de volta a sua posição de destaque por meio do aprimoramento do conteúdo que distribui não é solução definitiva para o problema da desinformação. Não é possível dissipar e ordenar o caos informativo dos tempos atuais, mas permitir que o público se guie neste cenário é algo que está nas mãos do jornalista, desde que ele esteja disposto a criar e oferecer um tipo de conteúdo de real valor.
A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo. A realidade é que a internet quebrou o intermédio da mídia, dando à população um poder sem precedente de buscar diversas fontes de informação e de expressar aquilo que pensa. O jornalismo precisa dos ouvidos tanto quanto precisa da boca. E ser checado pela opinião pública é essencial para que não se perca em sua própria bolha.
Mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar.
É possível acreditar que a circulação de informações incorretas e inverídicas levam a um empobrecimento das crenças populares, ou ainda a um risco à democracia. A verdade é que o aumento da circulação de notícias e opiniões também provoca um amadurecimento da população em sua busca por compreender a realidade. Certo conflito, como acontece no próprio processo dialético do discurso, estimula o raciocínio ao contrapor, com argumentos, qualquer tese desenvolvida, filtrando o conhecimento e o aproximando da verdade.
Portanto, mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar. Não se trata de achar que regulações e controles não são necessários em sociedade. A mentira descarada, quando criada para difamar, enganar e manipular, precisa ser exposta como tal. Mas a luta contra a desinformação pode também ser positiva ao ofertar conteúdo de alta relevância e grande profundidade intelectual. No fundo, tal discussão diz respeito às pessoas, que formam suas opiniões com base nas informações que circulam por todos os canais. Se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor.
O meio digital é marcado por um verdadeiro oceano de conteúdo criado e distribuído tanto por empresas, quanto por pessoas independentes. Diariamente são incontáveis postagens tratando dos temas mais diversos e imagináveis em tantos formatos quanto possível. E por mais que o jornalismo seja uma profissão de alto valor ideal por levar ao público informação importante e relevante, nas circunstâncias atuais ele também precisa competir pela atenção das pessoas.
Faz parte do senso comum jornalístico acreditar que aquilo que produz tem valor por si só. Mas será que o público enxerga isso? Um ideal assim de pouco vale se não for compartilhado.
A questão essencial para reflexão é: como o jornalismo pode capturar e manter a atenção de certa parte do público nas matérias que produz? A resposta costuma girar em torno dos valores e modelos jornalísticos: matérias com leads, imparcialidade acima de tudo, aspas comprovando algo que foi dito e mais aspas refletindo opiniões de especialistas.
Mas se o ambiente online onde o público se encontra é marcado por tanto conteúdo disseminado, como concorrer pela atenção fazendo algo que pouco se difere daquilo que a concorrência igualmente faz? O conteúdo de massa servia muito bem para os bons tempos da publicidade. Mas na era em que o leitor define o que irá consumir, publicar um conteúdo corriqueiro não seria uma estratégia insuficiente? Posto de outra forma, não faz mais sentido apresentar algo único ao consumidor como forma de se destacar na multidão?
Caso a última alternativa pareça uma saída mais adequada, será então preciso que o jornalismo olhe para si mesmo e pergunte se não está enclausurado pelas próprias fórmulas e modelos que criou como forma de demonstrar uma imparcialidade atualmente pouco atrativa.