“Hoje, novamente, eu julgo necessário retornar aos trágicos eventos que estão ocorrendo na região de Donbass e às questões-chave para garantir a segurança da própria Rússia”. Foi com estas palavras que o presidente russo Vladimir Putin lançou, no dia 24 de fevereiro deste ano, sua “operação militar especial” contra a Ucrânia – eufemismo difícil para aquilo que deveria simplesmente ser chamado de guerra.

A região de Donbass, localizada no leste ucraniano, faz fronteira com a Rússia e compreende as Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk – ambas reconhecidas como independentes por Moscou apenas três dias antes do início do conflito. De acordo com Putin, o objetivo da “operação especial” era proteger as pessoas desta região que estavam sendo submetidas “a bullying e genocídio pelo regime de Kiev” desde que o governo pró-Rússia da Ucrânia foi derrubado em 2014.

Para entender as disputas que levaram ao atual conflito entre os dois países, é fundamental levar em conta que a Ucrânia possui uma quantidade significativa de russos étnicos concentrados na porção leste do seu território. Em regiões como Donetsk e Luhansk, a língua ucraniana sequer é majoritária. Ao contrário, o russo é falado por 74% e 68% da população respectivamente segundo censo de 2001 – o último realizado no país. Desde 2014, o governo Putin tem apoiado separatistas pró-Rússia que já controlam boa parte da região. Desta forma, Donetsk e Luhansk são uma complicação para o governo ucraniano, que precisa despender esforços e recursos para lutar pelo território que é uma das suas principais zonas industriais. Esta complicação, que resulta de grupos étnicos russos utilizados politicamente por Moscou, não apenas compromete a unidade territorial da Ucrânia, como atravanca a política interna de todo o país.

Embora a Ucrânia compartilhe uma longa fronteira e uma longa história com a Rússia, ela não é o único país a abrigar parcelas significativas de minorias russas em seu território. Ao contrário, tais grupos étnicos são parte do legado deixado pela União Soviética em todo o leste europeu e hoje consistem em um elemento estratégico da geopolítica russa para toda a região.

Situação similar é observada na Crimeia – uma península estrategicamente localizada no Mar Negro que abriga, assim como Donetsk e Luhansk, uma população majoritariamente russa. Quando as manifestações nacionalistas e pró-europeias tomaram conta da Ucrânia em 2013 e 2014, resultando na deposição do então presidente aliado de Moscou Viktor Yanukovych, a Crimeia acabou por se separar do restante do país. Este movimento também foi feito sob comando e incentivo do Kremlin, que não apenas deu apoio aos separatistas como enviou tropas disfarçadas para ocupar a península. Atualmente a Crimeia é considerada um território ucraniano sob ocupação russa, e o governo de Kiev continua a reivindicar a região. No entanto, mesmo que ela mude novamente de mãos, a quantidade de russos étnicos que lá residem continuará sendo um problema de difícil resolução e fonte de problemas para a Ucrânia.

Todos estes elementos podem parecer inteiramente circunstanciais e serem reflexo de uma situação particular da Ucrânia. Esta interpretação, no entanto, esconde um fato importante: embora a Ucrânia compartilhe uma longa fronteira e uma longa história com a Rússia, ela não é o único país a abrigar parcelas significativas de minorias russas em seu território. Ao contrário, tais grupos étnicos são parte do legado deixado pela União Soviética em todo o leste europeu e hoje consistem em um elemento estratégico da geopolítica russa para toda a região.

 

Conflitos Congelados – uma realidade e uma estratégia

A Guerra Fria terminou com a inquestionável derrota da União Soviética no início da década de 1990 causada, sobretudo, pela falência completa do modelo político e econômico comunista. A riqueza produzida pelo capitalismo ocidental, por sua vez, se confirmava como um grande sucesso que levou até mesmo regimes fechados como o da China a abrir seu mercado para o resto do mundo naquele período. O contraste entre o fracasso político e econômico do polo soviético e o sucesso do Ocidente era tão grande que cientistas políticos como Francis Fukuyama declaravam “o fim da história” – isto é, o fim da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal como forma final de governo. Trinta anos mais tarde, no entanto, é possível ver que a vitória do Ocidente não significa que o comunismo e os problemas causados por décadas de controle russo sobre o leste europeu tenham morrido com a URSS.

Em nenhum lugar isso é mais claro do que em algumas das antigas repúblicas soviéticas, especialmente a Ucrânia, a Georgia e a Moldávia. Atualmente, a política interna e externa destes países é gravemente afetada por algo que se convencionou chamar de frozen conflicts, ou conflitos congelados. Estes surgem quando hostilidades entre grupos que dividem um mesmo território terminam com acordos de cessar-fogo, mas sem que os motivos responsáveis pelas hostilidades sejam endereçados. Desta forma, tais conflitos podem voltar a acontecer a qualquer momento uma vez que eles nunca foram verdadeiramente solucionados.

Conflitos congelados podem acontecer em qualquer parte do mundo, mas são vistos com mais frequência e de forma mais clara em países que compunham a antiga URRS e resultam, justamente, de conflitos étnicos. Por este motivo, as comunidades russas na Ucrânia, na Moldávia e na Geórgia são tão importantes, uma vez que permitem que a Rússia mantenha forte influência no leste europeu mesmo após estes países terem deixado de ser repúblicas soviéticas. Dito de outra forma, estas minorias acabam se tornando ativos explorados por Moscou para assegurar suas ambições geopolíticas.

Ao dar apoio direto ou indireto a separatistas, a Rússia não apenas compromete a integridade territorial, mas também o próprio desenvolvimento político e econômico de nações próximas ou vizinhas. O motivo é que tais países encontram sérias dificuldades em lidar com as disputas internas e com os sentimentos nacionalistas que surgem entre sua própria população. A raiva gerada contra a Rússia não apenas mantém estes conflitos vivos, como empurra as lideranças políticas para um imbróglio interminável.

Um exemplo é o Batalhão Azov, formado em 2014 por militantes nacionalistas ucranianos e torcidas organizadas de futebol que se voluntariaram como milícias paramilitares. O objetivo era lutar no leste do país contra separatistas apoiados por Moscou. Isso se deve ao fato de que o governo estava militarmente despreparado para fazer frente à Rússia. Assim, o Batalhão conseguiu atender uma demanda com a qual o Estado não conseguia lidar e não tardou a ser incorporado à Guarda Nacional da Ucrânia. Ainda em 2014 o Batalhão Azov obteve relevantes conquistas lutando na região de Donbass – a principal delas sendo a retomada da importante cidade costeira de Mariupol que já estava sob controle de forças russas naquele momento. Tudo isto, no entanto, tem tido um alto custo, uma vez que o esforço para combater os separatistas acaba por tirar do governo ucraniano o foco naquilo que realmente importa: a realização de reformas políticas e econômicas que possam modernizar o país. O confronto contra separatistas simplesmente drena muito do foco e dos recursos do Estado e acaba por dificultar os esforços por reformas.

Assim como a Ucrânia, a Moldávia também enfrenta dificuldades com um de seus territórios: a Transnístria. Localizada ao leste do país, a Transnístria é internacionalmente reconhecida como parte da Moldávia, embora na prática tenha seu próprio governo e parlamento. A região, atualmente, conta com tropas russas que foram instaladas por Moscou como forças de mediação e manutenção da paz. A situação no local é complicada, uma vez que a Transnístria lutou por sua independência e hoje conta com três línguas oficiais e uma população composta por russos, moldávios e ucranianos. Para o Kremlin, no entanto, a região oferece benefícios, uma vez que sua presença militar na região torna o governo altamente suscetível a intimidações. O motivo é que Moscou pode usar suas forças para ações diretas contra os interesses nacionais da Moldávia ou dar apoio aos separatistas, ocasionando ainda mais fragmentação territorial.

Todos estes elementos beneficiam a política regional da Rússia, que perdeu o controle que tinha sobre a porção leste e central da Europa quando a União Soviética se desfez. Por mais que não haja nenhuma perspectiva do país retomar a influência que um dia possuiu na região, o Kremlin ainda assim consegue utilizar as minorias russas de forma estratégica para evitar, ao menos, que determinados países se aproximem do Ocidente.

Segundo artigo da Revista de Relações Internacionais da Columbia University, “A OTAN não admitirá membros com problemas territoriais não resolvidos por receio de que eles possam levar a aliança a um conflito militar. Tanto para a União Europeia como para a OTAN, os conflitos congelados têm o efeito indireto de gerar uma imagem pouco atraente dos países neles envolvidos, ao mesmo tempo em que os impede de atingir um nível de desenvolvimento que permitiria abordar seus problemas territoriais e os tornar parceiros internacionais legítimos”.

Após as manifestações de 2013 e 2014, a Ucrânia passou anos sem ter destaque no noticiário internacional – situação que somente foi mudar após a recente invasão promovida por Putin. Isto, por sua vez, pode gerar a sensação de que houve um hiato sem conflitos entre os dois países. Tal interpretação, no entanto, é incorreta. Por mais que não tenha havido embates diretos neste período, os anos que seguiram os protestos em Kiev e a anexação da Crimeia não foram nada tranquilos devido à disputa territorial envolvendo ucranianos e minorias russas. Mais importante ainda é que estes conflitos devem continuar acontecendo independentemente de qual seja o resultado da guerra.

Manter a instabilidade em países vizinhos é algo que beneficia a política externa de Moscou. Por meio desta estratégia, a Rússia tem conseguido manter um mínimo de influência em uma região que se voltou rapidamente para o Ocidente ao fim da Guerra Fria. No atual momento, os olhos estão voltados para a Ucrânia, mas é importante ter em vista a forma como a Rússia se utiliza das tensões sociais existentes no leste europeu para legitimar intervenções de maior ou menor grau na soberania dos Estados que faziam parte da antiga Cortina de Ferro, mas que, em sua maioria, continuam buscando maior integração com a Europa ocidental.

Autor

Jornalista, Mestre em Ciência Política. Editor do Orbis Media Review e Professor do Master: Núcleo de Negócios de Mídia.