Já foi escrito anteriormente, neste Orbis, sobre o livro The Uncensored War, onde o autor Daniel C. Hallin trata da cobertura da Guerra do Vietnã pela mídia norte-americana. Aqui, novamente, tomo de empréstimo algumas de suas palavras sobre a história do jornalismo no país. Segundo ele, a profissionalização da atividade no séc. XX tem um aspecto ambíguo: se em parte serviu para dar aos jornalistas uma maior autonomia, eles, em troca, “se submeteram à autoridade de um conjunto de regras que exigiam que abandonassem o direito de usar sua recém conquistada autonomia e prestígio em busca de valores políticos próprios”. Entre estes conjuntos de regra, talvez as mais importantes sejam a objetividade e isenção.

Antes do século XX, no entanto, os jornalistas atuavam de forma diferente e, especialmente as empresas de mídia, possuíam muito mais liberdade para defender suas próprias agendas. Diz Hallin que “No séc. XIX, quando os jornais eram pequenos e numerosos, eles conseguiam defender seu papel político ao apelar para a Primeira Emenda da Constituição (que defende a liberdade de expressão) e o conceito de um livre mercado de ideias”. 

Pelos argumentos do autor, podemos entender que a atuação da mídia, ao longo da história, esteve muito ligada ao contexto do mercado: o fato de existirem muitos jornais de pequena expressão significa que o partidarismo tem efeitos mitigados. Por outro lado, abandonar a objetividade e a isenção quando o mercado é dominado por poucas empresas pode representar uma ameaça à imaginação popular.

A questão é: em qual contexto mercadológico estamos inseridos atualmente? Um que é detido por poucas empresas de mídia ou um cenário fragmentado por muitas e pequenas vozes?

Autor

Jornalista, Mestre em Ciência Política. Editor do Orbis Media Review e Professor do Master: Núcleo de Negócios de Mídia.