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A decisão do New York Times em eliminar sua editoria de esportes foi arrojada, embora previsível. A aquisição do noticiário esportivo The Athletic em janeiro de 2022, por US$ 550 milhões, foi um dos movimentos mais significativos para antecipar o alcance da meta de 10 milhões de assinantes até 2025. Nada menos que 1,2 milhão de assinantes se somaram à carteira do Times pelas mãos do Athletic.

Um ano depois, entretanto, a jogada de mestre ainda não mostrava resultados financeiros. Apesar de ter registrado um crescimento de 66% na quantidade de usuários pagantes, o Athletic queimou US$ 7,8 milhões das margens de lucro do NYT no primeiro trimestre de 2023. Mesmo antes disso, o esportivo sondou investimento em plataforma de apostas e incorporou publicidade em setembro de 2022, um modelo de negócio até então inédito na publicação.

De jornal generalista a multimarcas:

Mas os planos do Times ao Athletic apontavam para outra direção. Ao suprimir a editoria de esportes e “substituí-la” por um produto vertical, a New York Times Company expande seu portfolio no sentido da ponta da cauda longa. Agora, ao invés de uma empresa jornalística, a marca se estabelece no mercado de games (com o também adquirido Wordle), como referência culinária (pelo aclamado vertical Cooking e sua grife de produtos), como guia de consumo e reviews (o Wirecutter), como produtora de podcasts e na cobertura esportiva de profundidade, pelo Athletic. Tudo isso, é claro, amparado pela credibilidade e força da marca que seguirá associada ao hard news global.

Do ponto de vista dos negócios, o Times parece dar ensinamentos importantes para a indústria. O mais importante deles é o fortalecimento da marca em produtos de nicho e, por vezes, que vão além do conteúdo. Eles entenderam que o consumo digital de informação não é generalista e que o princípio do “tudo em um só lugar” não tem o menor impacto aos usuários da cultura snack (quando a gente consome uma informação de cada site, conforme elas nos interceptam ou aparecem nos resultados de busca).

A coragem de dizer “não” 

Deixar de cobrir esportes ou qualquer outro assunto tão tradicional em veículos generalistas ainda é uma decisão difícil e, por isso, evitada. Quando fundou o espanhol eldiario.es, o jornalista Ignacio Escolar optou por ser um veículo jornalístico sem cobertura esportiva e sem entretenimento. Ao renunciar editorias que sempre atraíram muita audiência, veículos como o eldiario.es e, agora, o NYT estão, na verdade, se fortalecendo nas áreas onde pretendem atuar.

A coragem de dizer não a algo estabelecido ainda é rara na indústria de mídia. Parece mais fácil e melhor aceito pelas lideranças expandir o que já é feito: cria-se suplementos e projetos especiais em assuntos do momento, abre-se perfis em todas as redes sociais – inclusive naquelas que não têm a mínima relação com a essência do veículo -, arma-se equipes especializadas em vídeo na vertical, em vídeo, em redes sociais, em podcast, em tablet (sim, houve várias!)… Atira-se para todos os lados e não se acerta o alvo. Por quê? Talvez o próprio alvo não esteja claro. 

A clareza do alvo está em sua singularidade e precisão. Quanto mais preciso for o propósito de uma empresa jornalística, mais ela se fortalecerá como referência em um mercado saturado de informação. Em paralelo, se seu objetivo é atingir a mais ampla audiência, entenda que seu valor nessas zonas é muito inferior. 

A NYT Company está se erguendo em vários alvos – cada um, com um produto. Mesmo que, para isso, precise amputar uma parte do seu carro-chefe. Não é raro encontrar grandes grupos de comunicação com sobreposição de conteúdo. Mesmo no Brasil há marcas editoriais que se repetem em plataformas distintas (TV, impresso, rádio, digital) e – o que é pior – concorrem entre si. Este é o pior cenário para todas as partes envolvidas: jornalistas, lideranças, anunciantes, audiências.

Sobreposição de coberturas e o clima nas equipes

A sobreposição de coberturas causou, na NYT Company, um mal estar corporativo. Desde a aquisição do Athletic, o editor executivo do Times, Joseph Khan, chegou a declarar que a empresa tinha mais repórteres cobrindo esportes do que qualquer outro assunto e que era preciso haver mais integração. A equipe do Athletic tinha quase 500 jornalistas, enquanto a editoria de esportes não chegava a 10% desse headcount. O clima piorou quando alguns desses 40 a 50 jornalistas esportivos deixavam a empresa e não eram subsituídos. Havia algo estranho no ar.

Quando a extinção da editoria de esportes finalmente foi anunciada, 28 integrantes enviaram uma carta a Khan e ao presidente da companhia, A. G. Suzlberger, relatando ter vivido 18 meses de tensão com o time do Athletic. “Vimos a empresa comprar um concorrente com centenas de escritores esportivos e ponderar decisões sobre o futuro da cobertura esportiva no Times sem fazer uma ligação de cortesia para nós, muito menos solicitar nosso expertise no tema.”

Embora o Times se orgulhe de ter anunciado esta transformação sem fazer demissões, o fortalecimento do Athletic junto ao veículo tende a levar jornalistas da antiga equipe de esportes à nova publicação. A hipótese se encaixa principalmente se considerarmos que, justamente no mês passado, o Athletic anunciou o desligamento de 20 colaboradores, algo próximo de 4% de sua folha. Por mais que essa movimentação dentro da empresa possa significar uma sobrevivência, os membros da antiga equipe se sentem rebaixados por não carregarem mais o status de repórteres e editores do New York Times e desconfiam que podem perder os benefícios trabalhistas negociados pela congregação de jornalistas do veículo.

Só o tempo dirá o quanto a insatisfação da equipe incorporada poderá prejudicar a estratégia da empresa. Enquanto isso, Sulzberger tem um trabalho intenso a fazer para acomodar o clima e garantir que as rotinas produtivas sustentem a grandeza da decisão de mercado.

Conceber uma proposta de valor para produtos jornalísticos não é tarefa simples. Não faltam métodos que nos ajudem a chegar naquilo que dará sentido ao meu produto. Do business model canvas ao Osborn’s Checklist, os frameworks usados pelo marketing parecem perfeitos para encontrar a inovação e desenhar a estratégia de qualquer produto ou serviço: das máquinas de Nespresso ao aplicativo de contratação de pedreiros. Mas produto jornalístico é difícil…

A dificuldade, no entanto, não está no framework e nem no jornalismo, mas na forma como nos apropriamos dessas ferramentas. Ou melhor: nossa dificuldade reside na perspectiva com que costumamos olhar para produtos editoriais. 

Dois passos para ampliar a perspectiva

E qual perspectiva é essa? “É a do conteúdo, é claro!” Afinal, nosso core business ainda é a produção de conteúdo, certo? Sim e não. Ao passo em que, de fato, o conteúdo esteja no cerne de nossas operações, ele já não sustenta o luxo de corresponder à totalidade da geração de receitas necessárias para manter a operação.

Portanto, o passo número um é abrir a possibilidade de que a proposta de valor de nossos veículos – aqui caberia mencioná-los como nossas “marcas” – está em algo além do conteúdo de qualidade: serviços, selos, tecnologias, licenciamentos de marca entre outras “atividades paralelas” irrompem nosso campo de visão de negócios.

O segundo passo é mudar a nossa perspectiva na hora de montar a proposta de valor deste produto editorial com algo mais. Ainda que estejamos falando de um veículo puro e simples, cuja operação se concentre 100% na produção e venda de conteúdo, o lugar de onde olhamos para ele faz toda a diferença.

Outro dia, durante uma sessão de mentoria, um colega apresentava a ideia de um veículo de notícias sobre educação para jovens brasileiros. Quando eu perguntei sobre qual seria o diferencial do produto, ele mencionou uma atualização mais frequente que a concorrência e o uso de dados atualizados. Nossa conversa continuou comigo dizendo:

Colega, eu peço que tu feches os olhos agora e te imagines dentro do quarto de um adolescente de 17 anos, que passa dez horas por dia jogando videogame, que tem uma namorada e briga com a mãe porque não quer arrumar o seu quarto. Agora me diz qual o diferencial do teu produto para atrair este jovem – e não apenas para te diferenciares da concorrência.” – Educadamente, ele riu, embora eu imagine que a vontade dele fosse de arrancar meus cabelos. Mas mesmo insuficiente, até imaginar-se nos sapatos do outro é um exercício difícil de fazer.

Rompendo a bolha do nosso olhar

A endogenia no jornalismo é tão grave que limitamos nosso olhar ao que está no espelho e ao lado, para dentro do próprio produto e para a concorrência imediata. Entender que youtubers também concorrem com nossos veículos tem sido um avanço na compreensão de mercado. Mas a coisa não para por aí. Enquanto nosso produto não tiver uma proposta de valor clara para o público, a conta nunca vai fechar.

Um método cruel – mas extremamente eficaz – que nos ajuda a definir a proposta de valor de um produto jornalístico é perguntar-nos: “E se nosso veículo deixa de existir, que impacto isso causará na vida das pessoas?” Enquanto a resposta for “pouco” ou “nenhum”, é sinal de que temos um longo caminho a percorrer.

Mapear as necessidades (ou as dores) do público não é algo que se faça de modo solitário, nem através de conversas com amigos ou mesmo olhando para analytics. Não se trata de “achar que o público precisa disso ou daquilo”. O investimento – seja como tempo, esforço, seja como dinheiro, nosso ou de outros – é sempre alto para se lançar ao achismo. Nesta hora, nada substitui a pesquisa. Façamos enquetes, focus groups, convidemos usuários para tomar um café conosco. Mergulhemos, sem medo nem ideias pré-concebidas, no incrível e desconhecido mundo real!

Lembro da inquietação de uma colega com os baixos resultados da operação, perguntando retoricamente “onde estava o leitor” da publicação dela? Seu veículo era uma joint venture brasileira de uma revista internacional. Me perguntei, em silêncio: “Quem disse que o seu leitor existe no Brasil?”

Até que ponto imaginamos audiências, presumimos demandas, idealizamos propostas editoriais para só então tentar encaixá-las no mercado?

Não percamos de vista a super oferta informativa e a diversidade de conteúdos de toda espécie, inclusive de qualidade, inclusive gratuito, a que as pessoas estão expostas 24 horas por dia. Por que elas deixarão de consumir esses conteúdos e virão a nós?

São perguntas incômodas que devem estar na raiz de qualquer proposta de valor de um produto editorial. Nos toca enfrentá-las ou pagar o preço de ser apenas “mais um”.