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Cancelamento

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Uma das obras-primas de Dostoiévski, o livro Os Irmãos Karamázov é repleto de personagens marcantes e memoráveis. O caçula Aliócha é um jovem simples, humilde e inocente; Dmitri, o mais velho dos três, é um homem apaixonado, beberrão e emocionalmente instável; Ivan, o irmão do meio, é um homem da razão, cético e descrente da existência de Deus. Assim, estas personalidades vão se intercalando ao longo de uma trama que possui seus momentos de beleza, mas também é marcada por conflitos e violência.

A visão de heróis infalíveis e vilões fundamentalmente perversos não faz parte das obras do russo. Não se vê, em Dostoiévski, um homem puramente bom ou puramente mau, e sim um homem completo, contraditório e falho, capaz de atos de bondade mas também vulnerável à maldade. Como poucos autores, ele nos apresenta as incontáveis nuances típicas da personalidade humana em cada um de seus personagens.

Ivan tem uma crença que move trama: se Deus não existe, pensa ele, e a imortalidade da alma é apenas ficção, então todos os atos são moralmente permitidos. Há uma lógica por trás do argumento, mas também uma consequência terrível: seu pai, Fiódor, é assassinado pelo criado – e possível filho bastardo – que aprende, justamente com Ivan, que tudo é permitido se Deus de fato não existe.

Em conflito com aquilo que diz sua razão e as consequências das ideias formuladas por ela, Ivan entra em um profundo delírio. Será que pode ter sido o culpado, mesmo que indiretamente, pelo assassinato do pai? Neste estado febril e alucinante, Ivan Karamázov se vê, de repente, sentado no sofá de sua casa conversando com um diabo que lhe diz muitas coisas e também faz uma confissão: está com reumatismo.

– “O diabo com reumatismo?”, questiona Ivan! Que absurdo seria esse?

Ora, e por que não, “se às vezes encarno”, responde o diabo. “Encarno, e então assumo as consequências”. “Satanás sou”, diz por fim, “e nada do que é humano me é estranho”.

Frase poderosa que permite refletir sobre nós mesmos e como nos portamos diante de nossos iguais.

Muito já foi dito sobre a nossa dificuldade de entrar em um diálogo minimamente civilizado com outras pessoas. A própria ideia de “cancelar” pessoas que não subscrevem a uma certa doutrina ideológica é um dos reflexos mais claros das tensões políticas, morais e culturais do presente. Não muitas décadas atrás, a direita conservadora era moralmente inflexível. Atualmente, a imposição de uma ortodoxia moral rígida tem sido característica da esquerda progressista, que observa tantos erros à sua volta, e busca cancelar tudo aquilo que não está em linha com sua pureza doutrinária, que nem mesmo o passado escapa da inquisição moderna.

Vale, portanto, algumas perguntas sobre os atuais grupos políticos: a imposição de uma doutrina moral é coisa da direita ou da esquerda? Indo além, a ambição pelo poder é própria dos conservadores ou dos progressistas? Quem faz a guerra em nome de ideais, os liberais ou os socialistas? A qual destes grupos pertence a ganância e a corrupção?

Dostoiévski deu a resposta: a nenhum deles. O problema da corrupção moral, da ambição, de todas as falhas em geral não pertence a grupo algum, mas sim aos homens como um todo. Nada do que é humano é estranho ao diabo que conversa com Ivan Karamázov, justamente porque ele conhece todas aquelas falhas que nos são comuns.

Assim, qualquer ideia de cancelamento ao oposto é totalmente ilógica e anti-humana. Cancelar quem pensa errado – como se isso fosse fácil definir – só é possível a partir do entendimento de que o cancelador possui e pratica uma moral definitiva e pura, razão pela qual tem a competência de eliminar da vida pública todos aqueles que incorrem em “falhas”.

Por muito tempo, o mundo das artes e da academia se acostumou a abraçar as mais modernas e disruptivas ideias sobre sexo, identidade e valores morais – exigindo que incontáveis pessoas também as aceitassem sem muita reclamação. Isso, por certo, não funcionou tão bem, e explica o alto grau de polarização presente no Brasil e em todo o ocidente.

Se for possível definir o ambiente político e social dos últimos anos em uma única palavra, esta palavra seria “acusatório”. Sem dúvida, não há escassez deste recurso na praça pública atual. Ademais, todo este clima de denúncia e cancelamento é facilitado por uma gama de palavras que surgem com incrível facilidade para mostrar como o seu inimigo é, realmente, um monstro que precisa ser destruído. E ainda assim, todo este clima é frágil, pois tem como base uma ideia de bem e mal que simplesmente não é compatível com o humano.

O jornalismo também foi afetado por esta tensão cultural. Atualmente, é possível encontrar, em muitas matérias publicadas, os mesmos valores e o mesmo tom de acusação típico das militâncias políticas. Este elemento é responsável pela profunda crise de credibilidade dos veículos. Afinal, o absolutismo moral da agenda identitária isola e condena incontáveis leitores. Pior, cria uma onda de pessoas desconfiadas do noticiário como um todo, ainda que não inteiramente sem razão. Em qualquer indústria, o cliente não é culpado quando deixa de comprar um produto que não lhe faz mais sentido. No jornalismo, ele é frequentemente criticado, como se fosse obrigado a consumir o conteúdo cegamente e aceitar as ideias ali disseminadas.

Certamente, esta é uma péssima receita para se engajar com o público. Felizmente, há uma saída que passa pela compreensão do humano em sua totalidade. Os leitores podem estar frequentemente equivocados, mas é preciso entender estes equívocos e sentimentos de revolta ou de indignação, como algo natural. Isso, por sua vez, inclui o reconhecimento de que, como jornalistas, somos tão falhos quanto qualquer outra pessoa. Por mais confortável que seja abraçar todas as bandeiras politicamente corretas – que se tornaram sinônimo simplório do “bem”, como frequentemente temos feito – nossas posturas não necessariamente estão corretas e as matérias que publicamos dificilmente contêm verdades absolutas.

Clássicos se tornam clássicos por falarem sobre questões universais e atemporais. Se obras escritas séculos atrás continuam sendo lidas atualmente, é porque elas dialogam conosco de diferentes formas. Dostoiévski, por exemplo, nos apresenta, como poucos, a personalidade humana – por vezes a beleza, por vezes o horror; nosso lado bom e nossos mais terríveis traços. Algumas destas descrições por vezes chocam, mas também capturam aquilo que o homem é: um ser capaz de fazer o bem, mas também capaz de causar o mal. O risco destas considerações é cair na abstração, transferindo e terceirizando para um ser humano vago, todas estas falhas que são próprias a cada um de nós.

Abraçar causas que julgamos justas pode ser algo louvável. Os próprios jornais também podem assumir posições, de forma honesta e transparente. Entretanto, difamar e jogar em descrédito quem quer que assuma uma posição contrária às ideias políticas e aos valores morais que surgem a cada novo instante, como frequentemente tem sido feito, é ignorar nossas limitações e a possibilidade de estarmos errados. Se jornalistas têm como objetivo se relacionar com o público por meio da informação, eles precisam praticar um mínimo de compreensão. E isso, por si só, exclui a imposição de doutrinas políticas e valores ideológicos diversos que, mesmo em nome do bem, só tirariam risadas sarcásticas do diabo de Ivan.