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Contextualização

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Com crescente regularidade tenho recorrido a uma ideia que pode ser resumida da seguinte maneira: se uma pessoa se empenhar, ela consegue encontrar justificativa para qualquer coisa.

A meu ver, nada resume tão bem o ambiente das redes sociais e de todo o debate político atual. Seja para defender sua ideologia ou para definir quem é vilão e mocinho na guerra entre Israel e Hamas, haverá sempre alguma informação perdida por aí capaz de confirmar aquilo em que acreditamos. O curioso é observar como todos nós conseguimos pescar algumas poucas notícias ou fatos que corroboram uma opinião prévia enquanto ignoramos todo o resto que joga contra nossa narrativa pré-estabelecida.

Frequentemente percebo isso quando entro em uma rede social ou acesso o site de um jornal. É tanta informação disponível que cada um pode selecionar aquilo que quiser. Se estou pré-disposto a tomar o lado dos palestinos no atual conflito, posso encontrar mil matérias dizendo que Israel bombardeou de forma cruel e desumana um hospital localizado na Faixa de Gaza. Se estou pré-disposto a defender o lado israelense, posso encontrar mil outras notícias dizendo que o hospital foi, na verdade, alvo de um míssil mal direcionado por terroristas palestinos. É claro que existe uma verdade neste e em outros casos, mas o ponto é que o ambiente de notícias hoje parece uma prateleira de supermercado onde cada um pode pegar o produto que melhor satisfaz suas preferências.

Para não ficar relativista demais, reconheço que o conteúdo das empresas de mídia sérias não pode ser comparado com muito daquilo que se vê no Twitter. Mas mesmo nelas, o excesso de informação pode ser um problema, ainda mais quando esta informação é desprovida de contexto. E se o jornalismo acaba por confundir as pessoas mais do que esclarecê-las, não será uma surpresa se elas começarem a evitar o que temos a dizer.

O que podemos fazer de melhor para evitar essa situação?

Arrisco dizer – e falo isso como leitor que acompanha o noticiário publicado dentro e fora do Brasil – que o público (e por consequência as empresas de mídia) se beneficiaria muito se tivesse mais acesso a notícias bem contextualizadas, capazes não apenas de informar sobre acontecimentos recentes, mas também de dar sentido ao cenário mais amplo no qual estamos inseridos.

Uma matéria que li hoje mesmo exemplifica isso. O texto, publicado na revista Spectator, é do professor e historiador Timothy Garton Ash e fala sobre a difícil situação da Ucrânia agora que o foco dos EUA também se volta para Israel. Diz ele:

Eu voltei ao Reino Unido depois de ter estado na Ucrânia fortemente persuadido de que isso é o que nós, na Europa, devemos fazer (aumentar a ajuda no esforço de guerra ucraniano). A alternativa – infelizmente quase tão provável quanto ruim – é que o Ocidente acabe por se contentar com uma ‘paz’ que implique na perda de uma grande parcela do território por parte da Ucrânia. Isso não seria paz, mas um conflito semicongelado – apenas uma pausa antes outra rodada de guerra, tal como temos visto por décadas no Oriente Médio. No meio tempo, isso também permitiria a Putin declarar vitória em casa, podendo ficar no poder por mais tempo, e mandando a mensagem errada para Xi Jinping sobre Taiwan…

Neste caso o autor sequer está apresentando fatos, dando uma nova informação ou replicando aquilo que outros veículos já publicaram. Ao contrário, sua maior preocupação é apresentar os dilemas sociais presentes na Europa e nos EUA (ler artigo completo) e analisar as consequências globais de um processo de paz que implique no fortalecimento da posição Russa e enfraquecimento do campo ocidental.

A análise é perfeita? Certamente não, tal como acontece com muitas previsões sobre geopolítica. Ainda assim, ela faz algo de interessante: aumenta o entendimento do leitor sobre a situação do mundo no atual momento de uma forma que poucas matérias – sobretudo aquelas que apenas informam sobre um novo bombardeio, um novo conflito armado ou ainda uma declaração esdruxula de um político qualquer – conseguem fazer.

Aqui no Orbis, falamos com regularidade que o conceito de “menos é mais” também se aplica ao jornalismo. Esse “menos”, entretanto, se refere ao número de matérias publicadas, jamais à qualidade do conteúdo. Permitir que um repórter publique em um ritmo menor pode dar a ele o tempo necessário para uma bela apuração. Com isso, aumentamos o valor do nosso conteúdo e oferecemos ao público mais do que um amontoado de informações perdidas e descontextualizadas.

Batemos tanto na questão da fake news que ignoramos que a polarização não precisa de falsidades para se estabelecer. Basta uma informação perdida para glorificar um grupo ou demonizar o outro. Não são apenas as redes sociais que contribuem para este fenômeno. Também o jornalismo, quando repercute polêmicas desprovidas de substância ou fatos sem a devida contextualização, colabora para enfraquecer nossa percepção da realidade e reduzir a qualidade da discussão.

Sempre soube que tinha algo errado.

Não fazia muito tempo que eu tinha entrado no mercado de trabalho e já me questionava. Lembro de uma noite, depois de um dia inteiro na redação, ter comentado com meu marido — que não é do ramo — que eu não entendia a importância de escrever e publicar aquilo que estava escrevendo e publicando.

Não tenho certeza se era recém-formada ou não, mas sei que era meu primeiro emprego em um site de notícias superespecializado. Escrevíamos apenas sobre política mato-grossense.

Em geral, as matérias tratavam de decisões políticas. Trocas de partidos, reuniões, aprovações de projetos, brigas, picuinhas, fofocas – quase sempre, situações que não tinham absolutamente qualquer relação com a população que esses políticos “governavam”. Mas eram textos sempre envoltos num manto de suposta importância e seriedade, afinal, é política e as pessoas deveriam se interessar por ela.

Bom, foi nisso que eu decidi acreditar.

Os anos passaram e eu “cresci” no ofício de jornalista. Passei de estagiária a repórter e de repórter a editora. Troquei de emprego algumas vezes; parte delas voltando para empresas e cargos que eu mesma havia decidido deixar, e sempre fazendo a mesma coisa: escrevendo sobre estes “fatos” políticos que não pareciam ter qualquer relevância na “vida real”.

Embora aquele questionamento, lá do início da carreira, ainda rondasse minha mente, eu estava em uma situação cômoda, profissionalmente falando. Trabalhava muito, é verdade, mas sabia exatamente o que fazer, o que facilitava minha vida. Ganhava relativamente bem e, de quebra, ocupava um espaço com um certo status. Era reconhecida entre outros jornalistas e entre os políticos.

Hoje, cerca de 10 anos mais tarde, entendi que aquele primeiro site, o superespecializado, tinha um público específico. Mas ainda acho que meus questionamentos não eram sem sentido. Aqueles “fatos” não importavam para ninguém, além das próprias pessoas que eram retratadas nos textos. E o restante da sociedade não estava errada em não se interessar por “política”.

Não sei exatamente o que me fez enxergar isso com clareza, mas me senti isolada entre os colegas de profissão. Com raras exceções (sobrariam vários dedos de uma mão), eles pareciam não estar vendo o que eu via. Considerei mero comodismo. Mas, afinal, quem era eu para criticar?!

O que seria o certo então?

Não sou das jornalistas mais antigas no mercado, mas com o passar dos anos acompanhando (e vivendo) a profissão, fui, cada vez mais, sentido falta de contexto.  

Colher os dois lados de uma história e reproduzir o que cada um deles disse; relatar que determinado projeto de lei foi aprovado ou manchetar obras que custaram ou custarão X milhões de reais não me parece fazer sentido. Não o suficiente. 

É preciso deixar claro para o leitor o que muda (ou não) na vida dele depois desses fatos.   

É necessário mostrar, com clareza, qual o impacto disso – em termos práticos – na vida daquele cidadão médio, que dedicou parte do seu tempo para ler aquela informação.

Convenhamos, a maioria das pessoas sequer consegue imaginar a quantia de X milhões de reais que foi gasta nas obras que retratamos. Você consegue?

O contexto é o que faz o jornalismo, e é exatamente o que nós, jornalistas, estamos deixando de lado há anos.

À medida em que a tecnologia avança, as sugestões de pautas se transformam em “textos prontos para publicação”; as entrevistas, em conversas por telefone e, agora, em perguntas respondidas pelo WhatsApp.

Temos feito cada vez menos e, no lugar de informar, “empobrecemos” nossos leitores.

Vou dar um exemplo prático.

Era 2021. Um release chegou na redação em que eu trabalho mostrando dados sobre a abertura de novas empresas em Mato Grosso ao longo de 2020. À primeira vista, eram dados animadores. Só no segundo quadrimestre daquele ano, 22 mil novos negócios criados no Estado. Um crescimento de 10% na quantidade de empresas abertas.

Mas “algo de errado não estava certo”. O contexto era a pandemia e a crise econômica que veio junto com ela, causando desemprego e falências.

O mesmo release afirmava que, entre as atividades desses novos “empreendedores”, as que mais se destacavam eram vendas, seguida do ramo de estética. Ou seja, mais de 11 mil pessoas que “viraram empresárias” eram vendedores, cabelereiros, manicures, maquiadores.

De volta ao contexto, o setor de serviço — e os salões de beleza estão nesse nicho de mercado — estava na lista dos mais afetados pelas medidas de isolamento social, a ponto de virar polêmica se o ofício de cabelereiro poderia ou não ser considerado um serviço essencial.

Logo, não seria estranho supor que esses cabelereiros, manicures e maquiadores não eram realmente empresários. Estavam mais para pessoas desempregadas que se viram obrigadas a empreender para tentar manter alguma renda.

Até o mais acomodado dos jornalistas deveria perceber isso. Seria preciso ser um extraterrestre e ter caído na Terra há poucos dias para não estranhar os dados. Mas poucos não se limitaram a simplesmente reproduzir o release.

E nossa rotina nas redações está repleta de outros casos não tão óbvios assim.

Nós desistimos do jornalismo?

Uma pergunta que não me sai da cabeça é: por que paramos de questionar? Por que paramos de indagar se aquilo que está diante dos nossos olhos faz sentido, se aquilo que foi dito é mesmo a verdade? Por que continuamos nesse “piloto automático”, se está tão claro que estamos no caminho errado?

Quando iniciei a carreira, não tinha a experiência necessária para entender porque certas coisas pareciam não ter sentido. Além disso, precisava me enquadrar em um mercado de trabalho que, na minha avaliação, exigia aquele “padrão” de jornalismo. Hoje, tenho convicção de que aquilo que eu sempre achei errado, estava errado de fato. E, infelizmente, parece que só piora.

Uma mudança é mais necessária, mas sinto que, a cada dia que passa, fica mais difícil praticá-la. É um sentimento que me fez pensar em largar a redação e até o jornalismo. Mas, enquanto esse dia não chega, acredito que o mínimo que posso fazer é ser uma voz (hoje sei que não estou tão sozinha quanto eu imaginava) que clama por boas práticas na profissão.

O mercado, de fato, impõe um ritmo desumano e industrial. Mas nós PRECISAMOS fazer diferente. Estar inconformado é o começo.