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Numa cidadezinha sem nome, um dia aparece uma menina chamada Momo. A garota, órfã e carente de um lugar para se abrigar, acaba sendo acolhida pelas pessoas locais, que levam roupas para aquecê-la e comida com a qual possa se alimentar. Um anfiteatro abandonado acaba tornando sua moradia e, também, o local onde as pessoas vão visitá-la.

Nesta fantasia do alemão Michael Ende, a menina Momo acaba se tornando um ponto de encontro para a pequena comunidade local que recorre a ela para ouvir seus problemas, mas também uma adversária para os homens cinzentos – criaturas estranhas de pele acinzentada que representam o banco do tempo. São estes homens que prometem economizar o tempo das pessoas para que elas possam usá-lo futuramente com os devidos juros. É claro que, na obra, este tempo nunca é devolvido, e quanto mais tempo os cidadãos locais economizam, menos tempo têm para atividades consideradas não essenciais.

Obras infantojuvenis, sejam livros ou filmes, tendem a falar de temas complexos no linguajar próprio das crianças. Com Momo não é diferente, e o paralelo com uma sociedade que vive em senso de urgência é clara – e para nós, jornalistas, bastante útil. Afinal, se tudo é correria, podemos realmente esperar que o nosso trabalho seja devidamente acompanhado pelas pessoas? A verdade é que, independentemente da importância do serviço que prestamos, a boa leitura costuma ficar espremida entre o tempo do trabalho e o tempo do lazer. Como fazer para escapar dessa dura circunstância com um conteúdo que seja ativamente procurado pelo público, e não lido acidentalmente como acontece com tanta frequência?

O modelo pelo qual O Antagonista ficou tão conhecido é sempre uma opção. Aos moldes do Twitter, a ideia é publicar muitas matérias de forma extremamente enxuta, permitindo que nos encaixemos mais facilmente na rotina apertada das pessoas. Jornalisticamente falando, entretanto, há um problema. Toda matéria, por mais aprofundada que seja, oferece sempre um recorte da realidade. Quanto mais estreito for este recorte, menor será a capacidade da matéria de oferecer um retrato fiel e contextualizado do assunto em questão. Ademais, fica a dúvida sobre a capacidade deste modelo de engajar os leitores por muito tempo sem ficar constantemente publicando notícias quentes e polêmicas.

Para conseguir atingir os leitores com tempo cada vez mais escasso para a leitura, entretanto, a redução do tamanho das publicações não é a única solução. Ao contrário, há uma outra possibilidade ainda timidamente testada no Brasil em que o veículo aposta em artigos longos, detalhados e muito bem apurados. É certo que se o leitor já não dedica tanto tempo à leitura das publicações tradicionais, menor ainda será sua disposição para um conteúdo consideravelmente mais extenso. Para que este modelo editorial funcione, portanto, é preciso haver uma outra mudança cultural no jornalismo que envolve a quantidade de matérias publicadas diariamente.

Quem faz isso de maneira radical é o The Ken – publicação indiana que cobre notícias sobre negócios da Índia e do sudeste asiático. O diferencial mais chocante para nós é que, além do compromisso de ofertar matérias extensas e visualmente ricas, o veículo publica apenas um artigo por dia. Embora a quantidade de conteúdo seja pequena, a qualidade justifica a assinatura básica de 120 dólares por ano (algo próximo de R$ 50,00 por mês segundo a cotação atual da moeda). O preço é salgado perto do que nos dispomos a cobrar, e a publicação já contava com 30 mil assinantes em 2021.

Com isso, é verdade, o veículo abre mão de abordar inúmeras outras pautas relevantes do cotidiano que costumam ser publicadas por jornais tradicionais. Mas a questão é: o leitor consegue dar conta do tsunami informativo atual? Acredito que nem mesmo nós, jornalistas, conseguimos dedicar tempo de nossa rotina corrida para ler mais do que três ou quatro matérias. Não temos tempo para isso – o que dirá o leitor, que não vive da informação. Neste sentido, o The Ken oferece algo interessante: uma gama sucinta de conteúdo bem produzido para um leitor com pouco tempo à disposição para se dedicar a tudo aquilo que os jornais tradicionais publicam diariamente.

Este modelo possui uma dupla vantagem: da nossa parte, permite que os jornalistas, menos sobrecarregados com a obrigação de publicar muito, possam se dedicar a publicar melhor. Menos tempo empregado na publicação de vários artigos significa que mais tempo pode ser gasto na apuração de uma só matéria. Do lado do leitor, existe a vantagem de não precisar selecionar aquilo que há de mais importante para ler em um oceano de conteúdo oficial e não oficial. Tal tarefa é cansativa e, frequentemente, frustrante, pois gera a sensação de que não estamos conseguindo acompanhar o ritmo dos acontecimentos. Uma consequência habitual é a simples desistência de acompanhar o noticiário para ter em troca um certo nível de conforto e alívio emocional.

Além do escasso tempo que já temos para dedicar à leitura de artigos, o fato é que nosso dia a dia é marcado por incontáveis escolhas de maior e menor importância que temos de fazer. Tudo isso conta para um cotidiano desgastante onde a leitura jornalística acaba se tornando uma tarefa cansativa. Não é de surpreender que muitos se afastem do noticiário: ter que escolher o que ler dentre as incontáveis matérias que publicamos e entre os inúmeros veículos brasileiros existentes em uma rotina exaustiva, se torna simplesmente um esforço que para muitos não é recompensador. Por que não facilitar a vida do leitor? Por que não lhe oferecer uma gama menor, embora melhor, de conteúdo diário?

Realisticamente falando, devemos admitir que uma mudança radical para o modelo editorial e de negócios da publicação indiana seria extremamente complicado para os veículos brasileiros já estabelecidos. Uma matéria por dia, afinal, significaria abrir mão da receita publicitária tradicional – e dificilmente uma empresa de mídia teria fôlego financeiro o suficiente para bancar tão drástica mudança. Igualmente, a aposta em tal modelo editorial exigiria também uma atuação de nicho, o que também foge do padrão jornalístico com o qual estamos familiarizados. Infelizmente, a margem de manobra para novas iniciativas editoriais e financeiras é baixa. Mas, também, ninguém precisa girar 180º para começar um processo de mudança. Por essas e outras, mais do que um modelo definitivo, o The Ken oferece uma inspiração.

A máxima de que o cliente tem sempre razão é certamente questionável, mas que suas necessidades devem ser sempre altamente consideradas é um pressuposto que não devemos perder de vista. O caos informativo, por si só, já afasta incontáveis pessoas do jornalismo. Este fator, aliado à rotina conturbada que todos temos, produz um cenário ainda mais complicado para as empresas de mídia. Não podendo vencer os homens cinzentos com a ajuda de criaturas místicas, resta a nós adequar o conteúdo que vendemos a este cenário em que o tempo é um recurso cada vez mais escasso na rotina das pessoas.