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(Este texto é a parte II do artigo Jornalismo para além do conteúdo.)

Por muitos anos o mercado necessitava de filmes mais baratos e lá estava a Fuji, fazendo frente à Kodak. Ela surgiu para cumprir um papel e sanar uma demanda real – ou aquilo que o marketing costuma chamar de “a dor do usuário”. Aí reside o porquê de uma empresa existir e de um produto ser lançado. Você já sabe onde quero chegar: por que o jornalismo surgiu? Qual foi a “dor” que ele veio sanar?

Lancei esta pergunta no Linkedin e provoquei alguns colegas na busca por respostas. Minha expectativa era a de que, se soubermos qual foi a necessidade que levou ao surgimento do jornalismo, talvez pudéssemos identificar habilidades subjacentes em nossa atividade que tomem forma noutros produtos para além de conteúdo.

Três respostas se destacaram por situarem nas pessoas – e não nos veículos – a razão de o jornalismo existir. João Gabriel Lima, que foi editor executivo de vários veículos brasileiros de grande porte e, hoje, é acadêmico da Comunicação, recorreu a Jürgen Habermas e explicou que o jornalismo surgiu “porque as cidades-estado europeias precisavam de informações econômicas no renascimento comercial”. O primeiro tipo de jornalismo, portanto, foi o econômico, para suprir uma demanda bem específica: a “dor” de fazer negócios e não ter informações que orientariam os comerciantes da Idade Média.

Jornal da época da Revolução Americana estampava na capa a frase “join or die” (junte-se ou morra). A indicação da imagem é do jornalista João Payne e evidencia o posicionamento dos jornais da modernidade.

João Arantes Payne, jornalista e mestre em Ciências Políticas, respondeu que o jornalismo surgiu para atender a “necessidade que determinadas pessoas tinham de se posicionarem politicamente e abraçarem causas que julgavam importantes”. O Brasil mesmo teve jornais republicanos e antimonárquicos, que caçoavam do Imperador, lembra João.

Nos Estados Unidos do século XIX, as publicações serviam, explicitamente, como armas ideológicas para a disseminação de ideais políticos durante a guerra contra a Inglaterra. Este uso da imprensa como ringue de intelectuais atuantes no debate público também foi apontado por João Gabriel, ao recordar o jornalismo da era moderna. 

Objetividade jornalística, uma invenção publicitária(?)

O posicionamento explícito dos primeiros veículos jornalísticos cedeu lugar à pretensa objetividade da notícia quando a publicidade começou a financiar a atividade. Para ser efetivo, o anúncio deveria chegar à maior quantidade possível de leitores e não apenas àqueles que se identificavam com a ideologia ou com o segmento de assuntos do jornal. O veículo generalista, portanto, assim como a isonomia do discurso ganham terreno após a Guerra da Secessão americana, quando uma economia danificada precisava estimular o consumo. 

Pois bem, temos duas necessidades concretas que ocasionaram o surgimento do jornalismo: a dos comerciantes europeus da Idade Média e a dos intelectuais políticos em tempos de revolução. Ariel Giusti, especialista em mídia e tecnologia na educação, simplificou a questão ao sinalizar que o jornalismo foi criado “pela necessidade das pessoas de estar informadas e entender a realidade”.

De certa forma, a causa apontada por Giusti engloba as duas anteriores e vai além, possivelmente, contemplando a razão pela qual o jornalismo existe nos dias atuais. Poderíamos problematizar a resposta e perguntar: por que as pessoas têm a necessidade de estar informadas e entender a realidade, mas a discussão tomaria um rumo sociológico denso e não é a pretensão deste artigo. Tomemos esta necessidade, então, apenas como uma verdade instituída. Precisamos nos informar, precisamos entender a realidade. E é compreensível que as sociedades modernas e medievais dependessem de jornais para tanto. Minha inquietação é: em qual medida ainda dependemos de produtos jornalísticos para nos informar e para entender a realidade?

Penso em qualquer pessoa, não apenas nos comerciantes e nos intelectuais. Estes foram os early adopters do jornalismo e continuam servidos por veículos segmentados e por espaços de análise dos veículos. Assim como as sociedades, porém, o jornalismo também evoluiu e passou a desempenhar outros papéis de relevância inquestionável a seu momento.

Jornalismo amigo

Os anos 80 assistiram a apoteose do jornalismo de serviço, especialmente protagonizado pelas revistas. A jornalista e pesquisadora espanhola María Pilar Diezhandino registra que, naquela época, a indústria jornalística lutava para reconquistar sua credibilidade em um cenário de crise econômica generalizada. O caminho encontrado foi aproximar o veículo de seus leitores, oferecendo um jornalismo amigo, parceiro, capaz de ensinar o público a lidar com situações reais da vida.

O conteúdo lifestyle e voltado a grupos de interesse procura antecipar e dissecar temas que, invariavelmente, bateriam à porta das audiências. Programas de variedade, revistas de meninas adolescentes a aficcionados por carros serviram de bálsamo para um retorno gradual à liberdade de imprensa pós-regime militar no Brasil e respeitaram o espaço das investigações ancoradas por veículos hard news.

Jornalismo curador

Embora o termo tenha ganhado evidência na última década, a curadoria está na raiz da atividade jornalística. Emílio Moreno, jornalista e editor do projeto Firma Preta, se apega ao conceito de gatekeeper como uma figura imprescindível à sociedade. “Alguém precisa separar, filtrar e organizar aquilo que define o que será informado para as pessoas”, aponta como razão para o surgimento do jornalismo. “E olha que lá atrás a gente nem tinha tanta informação assim”, completa.

Jornalismo porto seguro

Em uma função complementar à curadoria, o jornalismo surgiu para “servir de porto seguro em relação à confiança das informações”, pontua Geraldo Nascimento, jornalista e chefe de redação da Rede Gazeta (ES). A segurança inspirada por um veículo jornalístico foi um dos principais ativos, uma daquelas habilidades subjacentes que nos autorizavam a produzir conteúdo. Lamentavelmente, como se sabe, a credibilidade se tornou um dos pontos mais frágeis de nossa atividade.

O Digital Media Reports deste ano, publicado pelo Reuters Institute, identificou que a confiança nas notícias caiu na metade dos 46 países pesquisados e subiu apenas em sete. A média global é de que 42% das audiências dizem confiar em produtos jornalísticos na maior parte do tempo. No Brasil, este índice é de 48%, mas ainda corresponde a menos da metade dos participantes. É preciso reconhecer que não somos mais percebidos como um porto tão seguro assim.

CREDIBILIDADE DO JORNALISMO NO BRASIL, SEGUNDO O DIGITAL NEWS REPORT, DA REUTERS, (2021 x 2022):

2021

2022

Depois de a pandemia ter levado o público de volta ao consumo de jornalismo profissional em 2021, justamente em busca de informação crível, a credibilidade da imprensa voltou a cair no Brasil.

Jornalismo cão de guarda

A reportagem investigativa e o noticiário de denúncia elevaram a relevância dos veículos a um patamar superior àqueles que justificaram a criação do jornalismo. Autoproclamada como o quarto poder de um regime democrático, a imprensa derrubou políticos e expôs ilegalidades de toda ordem – do sistema de saúde a instituições educativas e religiosas, de máfias urbanas a redes de prostituição -, frustrando os planos dos detratores da lei e da dignidade humana. Reportagens históricas como o escândalo do Watergate ou a força-tarefa Spotlight são expoentes de uma frente de esforços tão invisíveis quanto o rosto de Giovani Grizotti, e tão marcantes quanto a morte de Tim Lopes. Mas são eventuais. Claro, tomam tempo, exigem uma dedicação fora do comum. O maior problema do jornalismo cão de guarda, porém, acontece em duas ocasiões: 1) quando o jornalista confunde seu papel com o de justiceiro social, militante e atuante em causas não consensuais; 2) quando a queda de um político denunciado pelo veículo se torna o auge da carreira do repórter, que o celebra como uma legítima conquista profissional. Enquanto o objetivo, o êxito de qualquer atividade estiver concentrado na ruína de terceiros imbuídos de autoridade e poder, a vaidade se traveste de “missão social” nada de bom se constrói.

INÍCIO
PARTE I: Mercado saturado e mercado decadente: a natureza infinitamente reprodutível da informação
PARTE III: O que sabemos fazer?