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Entre tantos papéis atribuídos ao jornalismo, um vem sendo abordado com bastante frequência nos últimos tempos: o de defender a democracia por meio da vigilância ao poder. Mas esta tarefa é, no mínimo, vaga demais. Mesmo porque, democracia envolve uma série de questões divergentes, de forma que a própria tentativa de definir aquilo que a ameaça estará sempre acompanhada de muita subjetividade.

Em artigo publicado na Wired, o escritor Antonio García Martínez argumenta que a democracia norte-americana se sustentou, prosperou e se consolidou nos anos pré e pós independência sem nunca ter uma imprensa objetiva e imparcial. O que eles pareciam ter, ao contrário, era uma imprensa simplesmente muito ativa que não se colocava acima do debate, mas justamente no meio dele

Não é, obviamente, o caso de lutarmos por uma revolução jornalística com o fim de transformar as empresas em veículos partidários ou panfletos militantes. Isso seria absurdo. Mas se nossa democracia precisa ser discutida, não seria a hora de descermos de alguns pedestais e nos envolvermos mais com a população, tanto para nos fazermos compreender quanto para compreendê-la?

Entre as consequências das acaloradas discussões do momento, a percepção de que existem apenas vilões e mocinhos no mundo está entre as mais cansativas. Buscando embasar seu conteúdo em dados e informações objetivas, o jornalismo tenta, ao menos em tese, trazer racionalidade para a discussão. Mas dados são, por si só, infalíveis e inquestionáveis? Segundo um conceito matemático datado, aproximadamente, de dois séculos atrás, “lixo dentro” significa “lixo fora”. A ideia é bem direta: pouco importa o que digam as pesquisas se as informações coletadas forem incertas.

Não faz sentido, portanto, tomar o resultado de estudos como verdades absolutas. Assuntos complexos dificilmente serão enfrentados por meio de soluções simples e generalistas, ao mesmo tempo em que a imprevisibilidade humana é, por definição, um fator incalculável. Certamente, dados, pesquisas e o conhecimento de especialistas podem ser valiosos como orientação. Mas como jornalistas é importante perguntar: até que ponto não nos servimos deles para encerrar debates com conclusões das quais concordamos ao invés de construir boas e valiosas discussões?