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Democracia

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Aprende-se que, no constante exercício da profissão jornalística, é sempre imprescindível ouvir os dois lados de um fato, e que esta seria [teoricamente] a atitude ideal do bom jornalista! Mas, na prática, sabemos que ouvir os dois lados e garantir a imparcialidade tão sonhada pela grande mídia é tão difícil  – ou praticamente impossível – se levássemos em conta a essência fundamentalmente humana do jornalismo. 

A ideia defendida por Geneva Overholser em “Death to bothsidesism” nos traz à vida real e expõe a tentativa frustrada do mainstream em buscar uma neutralidade utópica na produção de notícias. A jornalista, veterana do The New York Times e do The Washington Post, defende o fim dessa isenção que, no fim das contas, acaba por apresentar uma “realidade a preto-e-branco ao leitor”. Além disso, afirma que a mesma imparcialidade faz com que “as pessoas pensem que não há nada sólido em que possam acreditar”.

Por essas e outras razões, fica difícil aceitar que a regra de ouro – defendida não só pelos publishers brasileiros como no mundo todo, desde o século passado – esteja cada dia mais comprometida.

E você, caro leitor, deve estar se perguntando: se a objetividade não serve ao jornalismo, o que, então, podemos fazer?

Podemos, todas as noites, deitar nossas cabeças no travesseiro com muita tranquilidade, sabendo que nossa sociedade (ainda) suporta a liberdade de defender pontos de vista sem que falemos obrigatoriamente dos dois lados de um fato. “Mas, com isso não estimulamos a bolha?”, podem perguntar. Também. Contudo, o jornalismo não é o grande culpado nessa história. Enquanto os veículos procurarem a verdade – nem que para isso tenham que declarar o fim deste “Doisladismo” – e tiverem a noção de que juntos podem manter a democracia, então grande parte da missão estará cumprida. 

Por isso, considerando o contexto mercadológico em que veículos de diferentes posições podem (e precisam) coexistir, não seria esta uma evolução do modo de se defender a democracia?

Entre tantos papéis atribuídos ao jornalismo, um vem sendo abordado com bastante frequência nos últimos tempos: o de defender a democracia por meio da vigilância ao poder. Mas esta tarefa é, no mínimo, vaga demais. Mesmo porque, democracia envolve uma série de questões divergentes, de forma que a própria tentativa de definir aquilo que a ameaça estará sempre acompanhada de muita subjetividade.

Em artigo publicado na Wired, o escritor Antonio García Martínez argumenta que a democracia norte-americana se sustentou, prosperou e se consolidou nos anos pré e pós independência sem nunca ter uma imprensa objetiva e imparcial. O que eles pareciam ter, ao contrário, era uma imprensa simplesmente muito ativa que não se colocava acima do debate, mas justamente no meio dele

Não é, obviamente, o caso de lutarmos por uma revolução jornalística com o fim de transformar as empresas em veículos partidários ou panfletos militantes. Isso seria absurdo. Mas se nossa democracia precisa ser discutida, não seria a hora de descermos de alguns pedestais e nos envolvermos mais com a população, tanto para nos fazermos compreender quanto para compreendê-la?

Faz parte do senso comum jornalístico dizer que a função da atividade é estar sempre vigilante. Não que a afirmação esteja errada, ao contrário. Mas ela talvez limite a atuação de tantos veículos. Afinal, este posicionamento implica estar sempre em busca de algo a ser denunciado, o que é uma visão pobre da realidade. O olhar exacerbadamente crítico ignora o que há de bom no mundo. Acredita que aquilo que há de positivo é menos relevante e não muito digno de ser divulgado, uma vez que não precisa ser corrigido.

Vale então a pergunta: qual sentimento oferecemos às pessoas quando mostramos apenas o que há de ruim aqui e acolá?

Luciano Pires, um sujeito que tem dois pés no mercado da comunicação, atua como palestrante e podcaster, surgiu com uma sacada interessante para gerar engajamento em suas redes sociais. Com a hashtag #EnquantoIsso, mostra o que está acontecendo de bom no mundo enquanto tudo mais parece pegar fogo. As notícias que compartilha percorrem longas distâncias, desde a alta nos índices em bolsas de valores e projetos políticos interessantes, até um menino desconhecido que fez uma prótese de perna com materiais improvisados.

A crítica jornalística e sua vigilância podem prestar um serviço fundamental à democracia. Mas e quanto ao mundo aqui perto? O que oferecemos de valor ao público, que seja percebido como relevante pelo próprio público, e não apenas pelos jornalistas?