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O belíssimo resort Costão do Santinho, em Florianópolis, foi o cenário de um produtivo encontro de jornalismo. Tive a honra de fazer a palestra de abertura do seminário sobre o futuro do jornalismo promovido pelo Grupo ND, maior conglomerado de mídia de Santa Catarina. Auditório lotado de jornalistas. Muita gente jovem e entusiasmada com o nosso ofício.

O Grupo ND cresceu muito. Sua filosofia editorial pode ser resumida no mantra que seu fundador Mário Petrelli repetia incansavelmente: “Criticar sem destruir; elogiar sem bajular”. Uma síntese sugestiva de linha editorial. Prestar serviço, apostar na reportagem, denunciar os malfeitos, mas não ter vergonha de mostrar o que dá certo: eis uma fórmula que se mostrou vitoriosa.

O que vi e ouvi suscitou a reflexão que compartilho com você, amigo leitor. O cenário do consumo de informação preocupa. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Perdemos a hegemonia das audiências. Não falamos mais de cima para baixo. O vertical foi substituído pelo horizontal. Impõe-se conversar com a audiência. Vivemos um momento disruptivo e de desintermediação. Todos, sem exceção, percebemos que chegou para o jornalismo a hora da reinvenção.

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização. Trata-se de um fenômeno generalizado.

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais do que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores da política, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais do que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

A imprensa de qualidade, séria e independente, é essencial para a democracia. E tudo isso, tudo mesmo, depende da nossa coragem e humildade para fazer a urgente e necessária autocrítica.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções. Esta quadra, sem dúvida dura e difícil para o nosso setor, também pode abrir uma avenida de oportunidades. Os pessimistas, os que têm os olhos no retrovisor, vivem de saudade. Chegou o momento de olhar para frente.

(Este texto é a parte I do artigo Jornalismo para além do conteúdo.)

A forma como grandes indústrias lidaram com a disrupção digital na história recente condicionou a continuidade ou o encerramento de suas atividades. Uma referência é o conhecido caso da Kodak – que decidiu não apostar na câmera digital desenvolvida em 1975 pelo seu próprio engenheiro, Steven Sasson. A alegação da empresa era de que as fotos digitais canibalizariam o processo de revelação, onde a Kodak realmente fazia dinheiro.

No começo dos anos 2000, ouvi esta mesma palavra – canibalização – ecoar pelos corredores de uma das maiores empresas jornalísticas da América Latina, como uma ameaça iminente: os sites não poderiam “concorrer” com a versão analógica dos veículos. Preferia-se não publicar parte do conteúdo no site do próprio veículo, como forma de induzir o consumo offline. Inevitavelmente, aquele conteúdo dito “premium” aparecia escaneado e disponibilizado gratuitamente em blogs e sites de compartilhamento pirata.

“Imprime e manda pelos correios” – eis a solução [irônica] para devolver uma informação.
A natureza da informação, como bem de consumo, é incompatível com a economia da escassez, regulada pelo princípio da oferta e demanda. Diferentemente das mídias palpáveis (CD, LP e, sobretudo, o papel), a informação é reprodutível ao infinito, sem prejuízo ao formato. Não há informação que possa ser “descompartilhada”; uma vez que ela chegou a você, ela é sua eternamente.

A qualidade mantida pelos formatos digitais permitiu que o som de um arquivo MP3 copiado gratuitamente fosse exatamente igual ao do álbum original e não cheio de ruídos como as fita K7 gravadas a partir de LPs. As páginas fotocopiadas de livros originais sempre traziam manchas ou a curva do exemplar dificultava a reprodução pela máquina. Era difícil de ler! Já a cópia de um PDF mostrará a mesma perfeição que o arquivo original. 

Por vários anos depois da consolidação da Internet como canal de distribuição e de circulação de conteúdo, empresas jornalísticas ainda tentam vender informação em um ambiente saturado por ela. É como se a Kodak insistisse em faturar com a revelação de fotos do Instagram. Simplesmente não faz sentido! O entorno é outro e, uma vez publicada na rede, a foto cumpriu o seu papel de conectar indivíduos. Afinal, este era o propósito das intermináveis sessões dos álbuns de viagem na casa dos parentes.

Como ser Kodak em meio ao Instagram? Como fazer jornalismo na Internet? Ambas perguntas apontam para a mesma necessidade: recuperar a relevância na vida das pessoas.

Em busca da sobrevivência

Nos primeiros meses da pandemia, a Kodak anunciou que entraria na indústria farmacêutica, com a produção de substâncias ativas para a fabricação de medicamentos genéricos que ajudariam no combate ao coronavírus. Mesmo que a companhia consiga driblar as exigências do governo norte-americano para a concessão de um empréstimo de US$ 765 milhões para viabilizar o projeto (o que se estende por quase dois anos), a falência da Kodak já levou a empresa a vender patentes de seus produtos a big techs, encerrando um mercado e um modelo de negócios rentável durante décadas.

Enquanto a Kodak amargava o fracasso de suas operações, a Fujifilm – concorrente japonesa na produção de filmes e câmeras fotográficos – tratava de redirecionar seu know-how químico e tecnológico para outras indústrias. De câmeras, passou a fabricar componentes para telas de TV e para manutenção de aeronaves, turbinas a gás e maquinário de alta precisão. De filmes e substâncias para revelação, hoje atende produtores de plástico e de borracha, além de ter uma unidade de importação de vinhos.

Relevância é isto: servir quem necessita da gente, a partir do que temos de melhor. A Fuji entendeu cedo que precisava olhar para dentro e identificar o que tinha de melhor para oferecer ao mercado. E não eram filmes fotográficos. Era aquilo que os habilitava a fazer filmes fotográficos. Esta é a essência de qualquer empresa: o que há de subjacente em seu produto atual e possibilita que ela sirva aquilo que o mercado necessita. [Esta reflexão sobre indústrias inovadoras foi trazida pelo Prof. Ricardo Engelbert, em sessão do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia de 2022, do Master Negócios de Mídia.]

INÍCIO
PARTE II: Por que o jornalismo surgiu?
PARTE III: O que sabemos fazer?