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(Este texto é a parte I do artigo Jornalismo para além do conteúdo.)

A forma como grandes indústrias lidaram com a disrupção digital na história recente condicionou a continuidade ou o encerramento de suas atividades. Uma referência é o conhecido caso da Kodak – que decidiu não apostar na câmera digital desenvolvida em 1975 pelo seu próprio engenheiro, Steven Sasson. A alegação da empresa era de que as fotos digitais canibalizariam o processo de revelação, onde a Kodak realmente fazia dinheiro.

No começo dos anos 2000, ouvi esta mesma palavra – canibalização – ecoar pelos corredores de uma das maiores empresas jornalísticas da América Latina, como uma ameaça iminente: os sites não poderiam “concorrer” com a versão analógica dos veículos. Preferia-se não publicar parte do conteúdo no site do próprio veículo, como forma de induzir o consumo offline. Inevitavelmente, aquele conteúdo dito “premium” aparecia escaneado e disponibilizado gratuitamente em blogs e sites de compartilhamento pirata.

“Imprime e manda pelos correios” – eis a solução [irônica] para devolver uma informação.
A natureza da informação, como bem de consumo, é incompatível com a economia da escassez, regulada pelo princípio da oferta e demanda. Diferentemente das mídias palpáveis (CD, LP e, sobretudo, o papel), a informação é reprodutível ao infinito, sem prejuízo ao formato. Não há informação que possa ser “descompartilhada”; uma vez que ela chegou a você, ela é sua eternamente.

A qualidade mantida pelos formatos digitais permitiu que o som de um arquivo MP3 copiado gratuitamente fosse exatamente igual ao do álbum original e não cheio de ruídos como as fita K7 gravadas a partir de LPs. As páginas fotocopiadas de livros originais sempre traziam manchas ou a curva do exemplar dificultava a reprodução pela máquina. Era difícil de ler! Já a cópia de um PDF mostrará a mesma perfeição que o arquivo original. 

Por vários anos depois da consolidação da Internet como canal de distribuição e de circulação de conteúdo, empresas jornalísticas ainda tentam vender informação em um ambiente saturado por ela. É como se a Kodak insistisse em faturar com a revelação de fotos do Instagram. Simplesmente não faz sentido! O entorno é outro e, uma vez publicada na rede, a foto cumpriu o seu papel de conectar indivíduos. Afinal, este era o propósito das intermináveis sessões dos álbuns de viagem na casa dos parentes.

Como ser Kodak em meio ao Instagram? Como fazer jornalismo na Internet? Ambas perguntas apontam para a mesma necessidade: recuperar a relevância na vida das pessoas.

Em busca da sobrevivência

Nos primeiros meses da pandemia, a Kodak anunciou que entraria na indústria farmacêutica, com a produção de substâncias ativas para a fabricação de medicamentos genéricos que ajudariam no combate ao coronavírus. Mesmo que a companhia consiga driblar as exigências do governo norte-americano para a concessão de um empréstimo de US$ 765 milhões para viabilizar o projeto (o que se estende por quase dois anos), a falência da Kodak já levou a empresa a vender patentes de seus produtos a big techs, encerrando um mercado e um modelo de negócios rentável durante décadas.

Enquanto a Kodak amargava o fracasso de suas operações, a Fujifilm – concorrente japonesa na produção de filmes e câmeras fotográficos – tratava de redirecionar seu know-how químico e tecnológico para outras indústrias. De câmeras, passou a fabricar componentes para telas de TV e para manutenção de aeronaves, turbinas a gás e maquinário de alta precisão. De filmes e substâncias para revelação, hoje atende produtores de plástico e de borracha, além de ter uma unidade de importação de vinhos.

Relevância é isto: servir quem necessita da gente, a partir do que temos de melhor. A Fuji entendeu cedo que precisava olhar para dentro e identificar o que tinha de melhor para oferecer ao mercado. E não eram filmes fotográficos. Era aquilo que os habilitava a fazer filmes fotográficos. Esta é a essência de qualquer empresa: o que há de subjacente em seu produto atual e possibilita que ela sirva aquilo que o mercado necessita. [Esta reflexão sobre indústrias inovadoras foi trazida pelo Prof. Ricardo Engelbert, em sessão do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia de 2022, do Master Negócios de Mídia.]

INÍCIO
PARTE II: Por que o jornalismo surgiu?
PARTE III: O que sabemos fazer?