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O último vendaval que varreu São Paulo deixou o bairro onde moro sem energia elétrica. No meio do apagão, cheguei do trabalho, ainda sem saber quanto tempo levaríamos sem luz. Esperei uns minutos na portaria, dei uma volta nas redondezas, mas duas horas se passaram e a vizinhança continuava às escuras. Não teve jeito. Encarei 18 andares de escada. Neste tempo, procurei o noticiário; precisava saber o que houve, em quanto tempo voltaria a luz, já que a concessionária não sabia dizer. No entanto, tudo o que encontrei foram notícias de três dias, uma semana atrás sobre corte de energia em São Paulo.

Na manhã seguinte li uma chamada dizendo “Ventania deixa vários bairros de São Paulo sem luz“. De fato, a matéria contava quantos bairros, moradores sofreram corte de energia, quantas árvores tinham caído, quantos acidentes de trânsito foram registrados naquela noite, um horror. Então me perguntei: de que me serve toda esta informação? E de que serve chegar agora?

Veículos norte-americanos dedicams-se ao conteúdo prático

Lembrei do Thomas Baekdel, analista de mídia dinamarquês, que ironiza a relação entre veículos locais e suas audiências como uma situação bizarra em que você pergunta a um amigo:
– Como se faz arroz?
E seu amigo responde:
– Sim, tem muita gente fazendo arroz!

É exatamente isso que acontece em tantas reportagens que contam o sofrimento de passageiros que tiveram seus voos cancelados e passaram dias sem tomar banho, dormindo no chão de algum aeroporto. Ou nas denúncias de falta de saneamento básico, com a imagem tão cliché quanto triste de crianças brincando ao lado de um esgoto a céu aberto. O que os personagens destas pautas poderão fazer com a informação destas matérias? Quais caminhos lhe sugerimos?

É verdade que as denúncias estão na essência da reportagem e ali devem estar. Mas somente denúncias já não sustentam a relevância que o jornalismo precisa voltar a ter na rotina da população. Mais do que contar histórias, precisamos ajudar quem recorre aos nossos veículos. Por isso celebro um movimento de jornais, sites e emissoras de rádio de jornalismo local dos Estados Unidos que estão reorientando suas propostas editoriais à produção de conteúdo prático para auxiliar os cidadãos em situações concretas, até mesmo urgentes.

As pautas e ações vão desde “como se preparar para um furacão“, trabalhada via WhatsApp e SMS pela rádio NuestroEstado.org, na Carolina do Sul, até um ebook preparado pelo Wall Street Journal sobre “como lidar com a dívida estudantil”. Mas chegar a estes temas requer uma comunicação direta e constante com os moradores da região onde o veículo circula. E por comunicação digo, sobretudo, escuta.

Para poder ajudar, é preciso ouvir

O fundador da rádio NuestroEstado, Fernando Soto comentou em um painel promovido pelo American Press Institute, em junho deste ano, que fazer um jornalismo prático, de informações úteis e aplicáveis exige que o jornalista vá além das suposições de assuntos que ele acha importante tal comunidade saber, apenas com base na experiência e na intuição profissional.

Imaginar quem são as pessoas a quem dirigimos nossos trabalhos é uma prática antiga e, lamentavelmente, ainda comum em muitas redações. O jornalista Jacob Nelson comenta, no livro Imagined Audiences (2021):

“Os jornalistas normalmente conceituam o público como pessoas sem nome, uma massa sem rosto, limitada apenas por sua decisão compartilhada de ler, assistir ou ouvir notícias. (…) Ao imaginar o público como ‘um público indiferenciado e bolha amorfa’, os jornalistas ficaram livres para recorrer ao que consideravam sua própria experiência profissional, ao decidir o que escrever e como escrever.”

(Jacob Nelson)

Como ser relevante para estas pessoas sem conhecê-las? E como conhecê-las sem ouvi-las? Dados do Google Analytics não contam as dores das audiências, não dão pistas sobre como podemos ser úteis a elas. Nelson também alerta: “se as organizações de notícias ouvirem o público mais explicitamente, os veículos ganharão mais confiança das pessoas e, então, se tornarão mais interessantes a elas, já que estas pessoas irão compreender melhor os conteúdos publicados.”

Esta escuta pode não ser simples, tampouco agradável no começo, sobretudo porque passamos as últimas décadas distantes da população. Mas em algum momento essa conversa precisa começar para tornar-se sistemática. “A abordagem de um jornalismo público à produção de notícias inclui ouvir histórias e ideias dos cidadãos, dando visibilidade a seus problemas no sentido de ajudá-los a resolvê-los“, explica Nelson.

Talvez nos anos 90 a justificativa de “dar visibilidade” a algo que está errado ainda fosse suficiente para garantir a relevância do jornalismo. No entanto, no mundo coberto por telas, há visibilidade demais e atenção de menos. É preciso ir além e ajudar os indivíduos de uma forma que eles sintam o impacto de nossa ajuda em sua realidade.

O professor Jeff Jarvis, da Universidade de Nova York (CUNY), fez a seguinte proposta, lá em 2016, para toda a indústria jornalística:

“Ao invés de continuar mantendo nossa fábrica de conteúdo, cujo business é vender audiências por toneladas, imagine se as notícias fossem um serviço que almeja ajudar as pessoas a melhorarem suas vidas e suas comunidades através da conexão não apenas entre elas e a informação, mas também entre elas próprias, com um modelo comercial construído sobre o valor, no lugar de volume.”

(Jeff Jarvis)

Um caso que se tornou exemplar aconteceu entre 2018 e 2019,  no Condado de Amador, na região de Sacramento, Califórnia. Uma emissora de rádio regional, a CapRadio, descobriu que a localidade tinha um dos maiores índices de suicídio do país. Boa parte dos 37 mil habitantes era de idosos e isso levou a equipe da rádio a ouvir aquela comunidade mais de perto. A carência de profissionais de saúde mental na região contribuía com o problema e resolver isso estava fora do alcance dos jornalistas. Mas falar sobre o tema e – mais do que isso – fazer os habitantes conversarem sobre suicídio foi uma tarefa abraçada com gosto por aqueles jornalistas. Reuniões, corrida de prevenção, podcasts com entrevistas e um “Kit Conversação” (guia com perguntas e roteiro para falar sobre suicídio) compunham um pacote de ações em uma situação, literalmente, de vida ou morte.

Outro exemplo a ser seguido foi protagonizado pelo Texas Tribune. Em fevereiro de 2021, o Estado foi atingido por uma nevasca que provocou corte de energia elétrica, de fornecimento de água e a conexão de internet ficou instável durante vários dias. O veículo, então, abriu um canal de comunicação via SMS com a população, primeiramente, para receber mensagens com dúvidas e relatos de problemas pontuais. Os usuários se registravam no serviço de SMS e recebiam as respostas pelo mesmo canal. O mais genial, porém, fica por conta do tom da resposta (ao lado), que mostra a informação oficial junto a uma sugestão vinda de outras pessoas. Não tem água? Tem gente fervendo neve.

Nada disso é novidade ao jornalismo. Mas provavelmente, nunca foi tão necessário. Rotulemos como “jornalismo utilitário” ou “jornalismo de serviços”, a missão é ajudar o público a lidar com problemas ou incertezas que acontecem no cotidiano ou que estão no centro das nossas vidas.

Jornalismo formativo + Jornalismo de serviços

A pesquisadora espanhola María Pilar Diezhandino identificou em 1994 dois tipos de jornalismo: o formativo e o de serviços. Enquanto o jornalismo formativo tem como missão a formação de uma consciência crítica da sociedade civil, o jornalismo de serviços ajuda as pessoas a viverem. Não há jornalismo melhor ou pior; eles apenas cumprem objetivos diferentes. Cabe a nós entender do que as pessoas mais precisam e como podemos ser mais relevante a elas. Ouso estimar que 90% do noticiário é formativo, com denúncias envolvendo políticos, relatos de injustiça e alertas sobre um futuro, quase sempre, sombrio. Quem sabe, se equilibrarmos este jornalismo formativo com informações e ações práticas, aplicáveis e efetivamente conectadas à realidade de nossas audiências, recuperamos a relevância no olhar da população?

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P.S.: Há 15 dias, o Washington Post contratou uma editora de jornalismo de serviço. Megan Griffith-Greene atuará com toda a redação na identificação e na execução de pautas focadas em utilidades, “que aprofundem o relacionamento dos leitores com o The Post”. Fica a dica! 😉