por Michael R. Francher*
“Vida longa ao jornalismo de verdade!”
É assim que minha filha, Beth, encerrou um bilhete onde me felicitava pela aposentadoria do meu cargo de editor executivo no Seattle Times. Isso foi em 2008. Naqueles anos eu gastava uma boa parte do meu tempo explorando “O que é o jornalismo de verdade?”. Ou, mais precisamente, “Qual é a verdadeira natureza, a melhor e mais elevada expressão do jornalismo no século 21?”
Trabalhando com o Journalism That Matters e com o Agora Journalism Center, na escola de comunicação da Universidade do Oregon comecei a acreditar que o jornalismo precisa de uma nova filosofia e de um novo enquadramento ético, baseado na ideia de que a confiança do público vem através do engajamento desse público. Vamos chamar isto de “jornalismo engajado”.
Primeiro, sejamos claros quanto ao que queremos dizer com “jornalismo engajado”. Se trata de como o jornalismo e o público podem estar conectados entre si, e como esta conexão afeta o jornalismo e a confiança do público.
O jornalismo passa a ter poucos propósitos se não for acreditado pela população e isso se consegue servindo ao público. Assim, o engajamento entre as pessoas e a confiança delas são inseparáveis na rede mundial de jornalismo digital. Jornalistas engajados começam a se perguntar:
“Como nós podemos ajudar as pessoas a acreditarem umas nas outras?”
Além de representar os interesses públicos, o jornalismo engajado envolve as pessoas como verdadeiras parceiras, permitindo que o jornalismo se torne completo, mais preciso, mais crível e mais significativo.
O falecido Steve Buttry, um dos primeiros editores de jornal a advogarem em prol do que ele chamava “engajamento comunitário”, descreveu isso como a forma de os veículos de imprensa priorizarem a escuta, a participação, a condução e a permissão de conversas que elevem o jornalismo. Ele dizia, “Engajamento é uma aproximação que pode e deve servir para melhorar nosso jornalismo. Isso pode ter alguns benefícios ao marketing, mas o propósito é um jornalismo melhor.”
Jennifer Brandel, CEO da Hearken, diz que “O engajamento acontece quando membros da população reagem às redações, e as redações, por sua vez, reagem à população.” A Hearken trabalha com redações para desenvolver o engajamento como um processo, ao invés de uma prática. “Isto é como uma sequência infinita de feedbacks”, diz Brandel.
Andrew DeVigal, notável presidente do Inovação em Jornalismo e Engajamento Cívico do Agora Journalism Center, marca a diferença entre o engajamento transacional e o engajamento relacional. O engajamento transacional acontece tipicamente em benefício mais significativo de uma das partes, enquanto o engajamento relacional é recíproco.
“O engajamento é um continuum e o público deveria sempre estar no centro desta rede”, diz DeVigal. “A questão que frequentemente esquecemos de perguntar é: Como podemos motivar mais jornalistas (e estudantes de jornalismo) a colocar a comunidade no centro dos seus trabalhos, como podemos ser ouvintes melhores e como podemos entender as necessidades da população de forma mais precisa? Enquanto entendermos o público limitadamente como “audiências” ou como “consumidores”, ao invés de serem também especialistas e parceiros nas comunidades a quem desejamos servir, não deveríamos esperar qualquer confiança das pessoas.
A confiança do público está no coração do engajamento. A confiança que os norte-americanos têm em jornalistas justos, precisos e não enviesados tem experimentado uma queda consistente nas últimas décadas, assim como a confiança do público na maioria das instituições de nosso país também cai. Eu acredito que a forma como fazemos jornalismo, especialmente com a implacável negatividade e a escassez de uma conexão autêntica com a comunidade, contribui para a erosão da confiança.
As confianças que o público tem no jornalismo e na democracia estão conectadas, e eu acredito que nós chegamos a um ponto em que tanto jornalismo quanto democracia estão em risco. A sobrevivência deles requer ação, imaginação e coragem de parte dos jornalistas e do público para promover a busca compartilhada pela verdade e pelo bem comum.
Um bom trabalho – framework para pensar o jornalismo engajado
Uma boa parte dos meus pensamentos sobre o futuro do jornalismo emana do livro “Good Work: When Excellence and Ethics Meet”, escrito por Howard Gardner, Mihaly Csiszentmihalyi e William Damon. Este livro examina o que os profissionais deveriam fazer quando suas indústrias entram em crise, quaisquer que sejam suas profissões. Os autores escolhem o jornalismo como uma profissão a explorar, ainda que o livro tenha sido publicado em 2001, bem antes da crise financeira que o jornalismo vem enfrentando e que se tornou catastrófica em 2008. A definição que eles fazem sobre “crise” é mais ampla do que os imperativos econômicos e incluem preocupações como uma rigidez ortodoxa, necessidades de mudança e expectativas da sociedade, mudanças rápidas e desestabilizantes na tecnologia e perda da fé na viabilidade da profissão.
Os autores dizem, então, que em tempos de incertezas, profissionais conscientes deveriam considerar três questões básicas:
- Missão – definição das características da profissão na qual eles estão engajados;
- Padrões – estabelecimento de “melhores práticas” em suas profissões;
- Identidade – sua integridade e seus valores pessoais
Este ensaio irá explorar como o jornalismo engajado pode encaminhar cada uma destas questões. Ele também traz os “Votos de Engajamento para Jornalistas”, minha própria afirmação pessoal.
Missão do jornalismo engajado – aberto e inclusivo
Historicamente, o serviço público tem sido o imperativo que guia o jornalismo profissional. De acordo com o American Press Institute, a missão do jornalismo tem sido, essencialmente, dividida em:
- Fornecer às pessoas informações de que elas necessitam para serem livres e autônomas;
- Fornecer às pessoas informações verificadas das quais elas necessitam para tomar melhores decisões a respeito de suas vidas, suas comunidades, suas sociedades e seus governos.
Este propósito se mantém vital e necessário hoje em dia, mas ele não é mais suficiente na era digital; ele não é mais adequado para jornalistas nem para o público. A insuficiência reside na palavra “fornecer”, que deriva de uma limitação tecnológica do passado. Se o jornalismo não existisse atualmente, nós não o criaríamos sob a dificuldades destas limitações.
O jornalismo moderno começa a se profissionalizar durante o Progressismo, no começo dos anos 1900, quando a informação era escassa e o acesso a ela era limitado. As faculdades de jornalismo foram fundadas sob a crença de que a profissão não seria respeitada ou acreditada a menos que fosse ensinada e praticada para convergir com certos padrões de prática e conduta. As associações profissionais nasceram e, com elas, códigos de ética foram desenvolvidos para guiar os trabalhos. Jornalistas eram treinados para ser curadores que decidiam o que era melhor para ser servido ao bem público. Eles se tornaram os gatekeepers na maioria das relações de comunicação one-way.
A Internet abriu os portões com força, alterando fundamentalmente as relações entre jornalistas e público. Existe uma mudança crescente no controle de quem apura, edita e apresenta as notícias para aqueles que as leem, as assistem ou as escutam. A informação está amplamente disponível, permitindo que as pessoas exercitem o seu próprio news judgement. Elas agem cada vez mais como repórteres e editores para si mesmas e para outros, contando suas próprias histórias em suas próprias vozes.
A perda da confiança do público no jornalismo está conectada ao que o jornalista faz e como ele faz. Jornalismo e democracia estão entrelaçados e a profunda perda de confiança nas instituições das nossas sociedades democráticas deveria ser uma preocupação vital para qualquer pessoa que se importe com o jornalismo. É possível dizer que o jornalismo está cumprindo sua tradicional missão se as pessoas estão cada vez mais polarizadas e perdendo a confiança em praticamente todas as instituições democráticas?
A questão fundamental para o jornalismo e a democracia é se a pura busca pela verdade e a deliberação coletiva serão elementos importantes para nossa democracia, ou se a fragmentação e a polarização farão erodir o terreno comum.
Estas dinâmicas políticas e o imperativo para o jornalismo mudar não são exclusivas aos Estados Unidos. No livro “Disrupting Journalism Ethics”, o autor Stephen J. A. Ward diz que “a democracia igualitária, a democracia que busca tanto igualdade quanto liberdade, defende a regra da lei, protege os direitos das minorias diante da intolerância das maiorias e promove o debate respeitoso está em perigo. O ideal é desafiado ao redor de todo o mundo.”
Ward diz que nós precisamos “engajar democraticamente o jornalismo”. E explica: “Nós precisamos de um jeito especial de jornalismo engajado que, claramente, entenda as condições para a democracia igualitária, para florescer e estar preparada para usar os melhores métodos de jornalismo para promover este objetivo político.”
A missão do jornalista precisa ser rearticulada para refletir a interatividade da era digital. Esta nova missão deveria seguir os princípios consistentes da histórica missão de serviço público do jornalismo. Ela também deveria ser prática, reconhecendo a mudança nas relações entre jornalistas e público.
Aqueles que escreveriam uma missão assim poderiam perguntar:
- Por que a sociedade deveria valorizar e apoiar esta missão?
- Como o jornalismo pode ser uma rede inclusiva que representa e engaja o público, habilitando jornalistas a agirem como verdadeiros parceiros da população?
- O que seria diferente se o jornalista visse a construção da confiança do público como algo central em sua missão? E se a confiança do público fosse vista não apenas em termos de credibilidade jornalística, mas como confiança nos princípios e práticas democráticos, assim como as pessoas acreditam umas nas outras quando elas têm diferentes crenças?
- Como o jornalismo poderia ajudar as pessoas a acreditarem umas nas outras, inclusive quando elas têm diferentes crenças?
Eu proporia o seguinte como uma possível missão ao jornalismo engajado:
A missão do jornalismo engajado é fazer um jornalismo mais aberto, acessível, colaborativo e participativo ao mesmo tempo em que se mantêm os altos padrões de precisão, justiça, clareza e imparcialidade. O jornalismo engajado é compatível com e promove a missão histórica do jornalismo profissional – o bem público, a autonomia e uma vida melhor para todos.
Padrões de jornalismo engajado – tradição e transformação
A cultura do jornalismo profissional é forte. Muitos jornalistas profissionais consideram a noção de jornalismo engajado como inimaginável, mal-intencionada ou ambas. Eles veem o engajamento como uma militância e não conseguem imaginar o quanto o jornalismo pode engajar o público sem baixar os padrões nem abandonar os princípios centrais de independência e objetividade. Hearken, uma empresa que “ajuda organizações a ouvirem melhor aqueles a quem elas servem e criar relações recíprocas”, estudou 100 adeptos ao jornalismo engajado. Este estudo descobriu que a grande barreira à mudança era “justamente políticas internas e a cultura das redações”.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas, especialmente aquelas que sentem que nunca foram bem servidas pelo jornalismo, duvidam que o ele possa ser mais aberto, responsivo e responsável. Elas percebem o jornalismo independente como elitista ou até mesmo como hostil. Muitas pessoas veem o jornalista como alguém que honra a articulação de seus valores éticos circunstancialmente, especialmente o valor central da minimização de danos em seus trabalhos de reportagem. Aqueles que argumentam que o jornalismo precisa de uma mudança fundamental veem os jornalistas mais como um problema do que como uma solução.
Dadas estas atitudes com respeito à profissão, o momento é este e a necessidade é real para uma total rearticulação de valores e ética para guiar e promover o jornalismo engajado. O momento é este, porque os jornalistas têm uma habilidade única de conectar-se com pessoas, e as pessoas têm uma capacidade singular de se conectar com a informação, além de conectarem-se umas com as outras. A necessidade é real porque a situação atual do jornalismo é insustentável. Jornalistas e pessoas irão caminhar juntos, ou o jornalismo e a democracia irão desmoronar.
Quais valores tradicionais ou padrões de jornalismo precisam ser protegidos ou melhorados para que o jornalismo se diferencie em si mesmo das outras formas de comunicação? Como cada um destes padrões ou valores podem ser melhorados pela mudança de paradigma de um modelo distribuidor, de comunicação de mão única para uma perspectiva de engajamento?
Ter clareza sobre estas questões irá ajudar os jornalistas a enxergarem os benefícios e as possibilidades do jornalismo engajado, enquanto navegam pelos riscos. Esta clareza também irá ajudar o público a avaliar a qualidade do jornalismo que eles recebem e a criar formas significativas de contribuir com ele. Jornalistas e público terão, ambos, uma noção melhorada de responsabilidade jornalística e o jornalismo engajado se manterá em sua nova missão de fazer um jornalismo mais aberto, acessível e participativo.
Princípios para o século XXI
Kelly McBride e Tom Rosentiel identificaram esta necessidade no livro que publicaram em 2014, intitulado “The New Ethics of Journalism”. Eles apontam que “No momento em que qualquer pessoa possa fazer jornalismo, será cada vez mais importante que a sua produção seja ética e que a comunidade esteja habilitada a reconhecer e identificar quando o jornalismo é ético e quando não o é.”
No século passado, os códigos de ética para jornalistas profissionais incluíam quatro ideias-chave:
- Buscar a verdade e noticiá-la
- Minimizar os danos
- Ser independente
- Ser individual e socialmente responsável
McBride e Rosentiel propuseram um novo conjunto de princípios para nortear a atuação dos jornalistas:
- Procurar a verdade e noticiá-la da forma mais completa possível
- Ser transparente
- Ter no engajamento com a comunidade um fim, ao invés de um meio
“A verdade ainda é o maior valor, o primeiro entre tantos”, escreveram McBride e Rosentiel. “Onde antes defendíamos a independência, agora defendemos a transparência. Independência é uma parte do princípio e nós ainda acreditamos que ela é um valor essencial.”
A transparência, escrevem eles, “demanda que o público veja como o jornalismo do futuro é produzido e pede uma abertura que o estimule a uma conversa constante entre jornalistas e cidadãos, redações e comunidades.”
McBride e Rosentiel sugeriram que a ética tradicional de minimização de danos possa ser estendida ao princípio de engajamento com a comunidade. Ao identificar os desafios que vêm pela frente, os autores escrevem: “O jornalismo profissional precisa entender isso mais profundamente: se trata de uma ideia mais complexa de comunidade e da expansão constante do leque de ferramentas que tornam este engajamento possível. Isso requer um novo mindset, novos processos de trabalho e um novo esquema de reportagem”.
Ao argumentar que o jornalismo deve sobreviver para que a democracia sobreviva, eles afirmam: “Se o jornalismo pode realizar esta transformação de ser um serviço que cria e apoia as comunidades ao invés daquele que cria novos produtos, este pode ser nosso melhor investimento para sobreviver.”
O movimento do jornalismo engajado está em bom andamento. Desde a publicação do “The New Ethics of Journalism”, muitos veículos começaram a incorporar o “editor de engajamento” em suas redações e uma nova função tem sido formada ao redor do conceito de engajamento comunitário. Mas o progresso não vem facilmente, em especial quando as organizações ainda questionam o retorno econômico no investimento feito aos esforços para gerar engajamento, e muitos jornalistas questionam se o engajamento enfraquece os valores tradicionais de sua profissão. Isso pode mudar.
O paradoxo da tradição e da transformação
Eu acredito que o progresso demanda a reconciliação de um paradoxo entre a tradição e a transformação. O jornalismo vem sendo testado e desafiado como nunca. Os jornalistas precisam preservar e até mesmo fortalecer suas tradições profissionais de servir o público através de notícias independentes, verdadeiras e informativas, enquanto se transformam radicalmente para serem mais inclusivos, democráticos, interdependentes e autenticamente responsáveis.
Claramente existe uma tensão entre a tradição e a transformação, mas essa tensão sempre existiu nos valores centrais do jornalismo profissional. Por exemplo, jornalistas sempre lutaram contra as tensões entre noticiar histórias em suas totalidades ou ocultar detalhes que poderiam prejudicar alguém sem necessidade, como não publicar a identidade de uma vítima de estupro; ou ainda, ser independente em relação às fontes, ou cooperar com a execução da lei, se o momento da história dificultar uma investigação.
Ao mesmo tempo em que se esforça para ser neutro e objetivo no seu trabalho de reportagem, o jornalista não pode agir como um robô. Sem dúvidas, um dos princípios centrais do jornalismo é um ato de consciência e de caráter. Uma abordagem mais engajada ao jornalismo ajudaria jornalistas a entender melhor e a respeitar o público a enxergar e avaliar estas tensões, enquanto também ajudaria esta audiência a entender porque a avaliação do jornalista valoriza o jeito com que eles fazem a reportagem.
Tradição e transformação podem ser contraditórias entre si, mas o jornalismo engajado pode defender ambas de uma só vez. O conceito vem do livro “Built to Last”, escrito por Jim Collins, que afirma rejeitar a tirania do “ou” e aceitar a genialidade do “e”. Collins diz que uma empresa verdadeiramente visionária considera ambos ao mesmo tempo. Ela preserva uma ideologia ou um objetivo central apaixonado e estimula o progresso ou a transformação de todo o resto:
- “Continuidade e mudança
- Conservadorismo e progresso,
- Estabilidade e revolução,
- Prevenção e caos,
- Legado e renovação,
- Fundamentos e loucura,
- E, e, e.”
A escolha do jornalismo não pode ser entre a defesa de princípios tradicionais OU a construção de credibilidade pública; também não podemos escolher entre um jornalismo e uma democracia através do engajamento com o público. Para “salvar” o jornalismo, seus praticantes precisam criar radicalmente novas formas de se conectar a ele, aprender e noticiar sobre todas as pessoas. Eles precisam abrir seus corações e mentes às ideias de transformação. Criar o “e”.
Uma forma de defender a tradição e a transformação simultaneamente é explorar os princípios estabelecidos de uma perspectiva mais engajada ou interativa. Os exemplos emergem de várias convenções do Journalism That Matters e do Agora Journalism Center:
Ser Independente E Ser Interdependente
O jornalismo precisa ser independente de qualquer outro interesse que não seja o interesse público de proteger sua integridade de pressões ou influências coercitivas. A interdependência é um valor ético do jornalismo engajado que habilita a abertura, a conexão honesta entre os jornalistas e o público ao qual eles servem. Isso significa reconhecer que a habilidade jornalística de florescer [publicar] está diretamente vinculada ao florescimento de comunidades e da sociedade civil. Isto também significa reconhecer que o jornalismo de qualidade não pode mais ser pensado como aquilo que os jornalistas podem/devem produzir a despeito do público. Reconciliar estes valores de independência e de interdependência demanda um salto de fé, com esperança, coragem e convicção. O benefício potencial é o aprendizado coletivo com o aumento do diálogo e das ponderações.
Criar jornalismo para as pessoas E criar jornalismo com as pessoas
O jornalismo engajado é feito por pessoas; isso também significa que é feito com pessoas. Ele considera o público como parceiro ativo na investigação mútua que apoia os propósitos democráticos da atividade. Esse tipo de jornalismo participativo vai além da mera transparência e dá ao público oportunidades significativas para se envolver em todos os aspectos do processo editorial. As pessoas que são motivadas e têm a oportunidade de ser parte da produção jornalística são mais propensas a acreditar nele.
Dizer a verdade ao poder E dizer a verdade para empoderar
O jornalismo engajado carrega a responsabilidade do poder. Ele também traz o potencial de ajudar a empoderar as pessoas, individual e coletivamente, para entender e realizar os seus maiores desejos e aspirações. Ele “dá voz a quem não tem voz”, enquanto ajuda pessoas a encontrarem e usarem suas próprias vozes. O jornalismo engajado valoriza a neutralidade jornalística, a transparência e a responsabilidade como partes constituintes de sua verdadeira disciplina, mas também defende os princípios e as práticas democráticos.
Revelar o que está errado E iluminar o que é possível
O jornalismo engajado é mais crível quando noticia possibilidades, ao invés de apenas falar sobre problemas. A negatividade implacável das notícias e a forma como elas se enfocam pontualmente nos conflitos e no confronto distorcem a realidade e acabam não inspirando honestidade, compreensão e nem uma perspectiva útil. Jornalistas engajados deveriam sempre perguntar ao seu trabalho: “Que bem isto pode fazer?”.
Encontrando o “E”
Finalmente, uma observação sobre o cuidado a respeito dos valores estabelecidos, dos padrões e da ética do jornalismo engajado. A forma como você os aplica pode fazer a diferença.
Stephen Ward alerta que o público deveria participar no desenvolvimento do que ele chama “ética aberta” ou “ética pública-participativa”. Ward diz cautelosamente, “Uma abordagem próxima (por e para jornalistas) apenas confirma o ceticismo do público de que o jornalista não está disposto a ser transparente sobre sua ética e, consequentemente, não será confiável.” Uma aproximação de abertura “constrói uma alfabetização ética ao mesmo tempo em que aumenta a confiança do público em um jornalismo de qualidade. Isso incentiva a transparência e a responsabilidade da mídia.”
Wards também sugere que a ética do jornalismo democraticamente engajado deveria guiar todos aqueles que se comunicam em uma esfera pública. “Se você está se comunicando com o público, você – não importa quem você seja – deve atuar com base a métodos de responsabilidade concreta e efetiva com a sua audiência”, diz.
Algumas das questões que Ward propõe são: Como uma aproximação “aberta” poderia desenvolver novos padrões a serem adotados pelo jornalismo? Quais novas práticas e normas apoiariam o público? Se o público publica, contribui ou compartilha conteúdos, é uma responsabilidade dele ser honesto e confiável?
O alerta de Ward me faz lembrar de um encontro que o Agora Journalism Center e o Journalism That Matters promoveram em Portland, Oregon. Este encontro foi chamado “Experience Engagement: How communities and journalism can thrive together.” Os não-jornalistas presentes no encontro trouxeram suas advertências aos jornalistas: “Nada sobre nós sem nós.” Essa é uma frase que tem uma longa história na comunidade internacional de pessoas com deficiência como expressão de luta contra a impotência.
No contexto jornalístico, esta frase fala sobre a realidade daquelas pessoas que nunca tiveram controle sobre o uso que elas mesmas fazem da mídia. O engajamento é essencial ao jornalismo para que ele tenha valor na vida delas e isso será melhor se a atividade for inclusiva e tocar o conhecimento coletivo de uma comunidade. As pessoas, agora, têm uma oportunidade genuína de ajudar a formatar o futuro do jornalismo, além de terem a responsabilidade por fazê-lo.
A identidade do jornalismo engajado: os criadores de pontes
Os autores de “Good Work” descrevem identidade como “um senso holístico do background de uma pessoa, seus traços e valores (…) um sentimento profundamente convicto sobre quem essa pessoa é e o que importa na maior parte de sua existência como trabalhadora, cidadã e como ser humano.”
“Um elemento central da identidade é a moral – as pessoas devem determinar para si mesmas quais limites elas não irão cruzar e quais irão. Porém, um senso de identidade também inclui traços de personalidade, motivação, forças e fraquezas intelectuais, gostos e desgostos pessoais… A identidade de cada pessoa é formada por um amálgama de forças, incluindo a história familiar, religiões e crenças ideológicas, associações comunitárias e experiências individualmente idiossincráticas.”
Walter Williams viu a importância da identidade quando fundou a primeira escola de jornalismo, em 1908. Ele instigou seus estudantes a pensar fortemente sobre os padrões e os comportamentos do jornalismo e exigiu que eles escrevessem uma declaração pessoal da qual eles se tornariam responsáveis. Em 1914, ele escreveu seus próprios votos, intitulados “The Journalist’s Creed” (Os votos do jornalista). Eles começam assim:
“Eu acredito no profissional de jornalismo. Eu acredito que o jornal público é uma verdade pública; que todos que estão conectados através dela possam medir o total de suas responsabilidades como curadores para o público; que a aceitação de um serviço inferior àquele serviço que o público espera é uma traição à sua confiança (…) O teste supremo do bom jornalismo é a medida do seu serviço público.”
Já passou mais de um século que Williams escreveu os seus votos, em 1914. Algumas partes de seu linguajar ficaram antiquadas, mas a primazia do serviço público tem se mantido no coração do jornalismo. Os princípios centrais que os votos têm amparado são: clareza, precisão, justiça, verdade e independência. Por muitas décadas, isto guiou gerações de jornalistas, publishers e outros profissionais associados ao jornalismo. Isto também serviu como uma declaração de como o público poderia entender o papel da imprensa para avaliar sua performance.
As suas palavras me guiaram por mais de 40 anos, desde a primeira vez que as li, em um jornal da minha turma do ensino médio, até minha aposentadoria no The Seattle Times, onde atuei por 20 anos como editor executivo. Muitas vezes citei estes votos nas minhas colunas e nos meus discursos, mas fui entendendo o documento de uma forma diferente, sobretudo depois que me aposentei e o li novamente, agora como pesquisador do Reynolds Journalism Institute na University of Missouri School of Journalism.
Minha parceira fez a seguinte pergunta: “O que são os votos do jornalismo para o Século XXI?” Ao explorar esta questão, eu passei a entender que os votos eram muito mais sobre a identidade do que sobre os padrões de produção do jornalista. Muitos dos aspectos ali identificados falam sobre os modelos de conduta através do uso de palavras como útil, tolerante, construtivo, autocontrolado, paciente, respeitoso, destemido e humano.
Os votos do jornalista falavam muito menos sobre o “como” do jornalismo e bem mais sobre o “quem”. Ou seja, era sobre identidade.
Os autores de Good Word dizem que o bom trabalho acontece quando a excelência e a ética se encontram, mesmo em tempos difíceis. Eles explicam que isso “não é necessariamente difícil, em termos de criar uma rotina agradável, mas difícil em termos das habilidades das pessoas em conhecerem a coisa certa a ser feita e que se mantenham nesta profissão.”
Claramente, estes são tempos difíceis para jornalistas veteranos assim como para jornalistas em potencial. A profissão está em risco e sob ataque como nunca esteve antes. Apesar disso, quando eu falo com estudantes de jornalismo e com aqueles que já atuam na área, encontro um novo sentido de determinação. A crise é cada vez mais percebida como uma nova realidade para que novas possibilidades floresçam. Existe uma nova urgência a respeito da necessidade de diversificar as vozes dentro do jornalismo e, somente assim, a profissão refletirá todas as pessoas.
Assim como os primeiros jornalistas profissionais de mais de um século atrás, os profissionais de hoje e de amanhã têm a oportunidade de criar um novo tipo de jornalismo. Para serem bem-sucedidos, esses jornalistas precisam de um senso de identidade muito claro, além de uma compreensão daquilo que os leva a fazer este trabalho. Mais especificamente: o que leva alguém a fazer jornalismo engajado?
Acho que ouvi a resposta a esta pergunta recentemente, numa convenção no Agora Center, sobre a ética do engajamento. Os participantes formulavam as características de um engajamento de sucesso, muitas das quais se encaixavam perfeitamente na categoria de “identidade”. Sob a característica do “Ser Humano”, “eles incluíam coisas como autenticidade, partilha, consciência, respeito, reconhecimento mútuo de humanidade, interconexão, reciprocidade e vulnerabilidade.
Talvez o sentido que melhor retratasse a identidade do jornalismo engajado era “Nós somos criadores de pontes”.
Jornalismo engajado: um compromisso pessoal
No melhor espírito Walter Williams, e com profunda humildade, eu ofereço uma declaração sobre o meu compromisso pessoal com o jornalismo engajado. Um “work-in-progress”: isso resume o que eu tenho aprendido com aqueles que trabalharam no The Seattle Times e no Reynolds Journalism Institute, Journalism that Matters, na University of Oregon School of Journalism and Communication e no Agora Journalism Center.
Agradeço nominalmente a Frank Blethen, publisher do Seattle Times; à Peggy Holman, co-fundadora do Journalism That Matters; ao Andrew DeVigal, do Agora Center. Agradeço a todos eles pelo suporte, pela sabedoria e pela inspiração que me deram.
Vida longa ao jornalismo de verdade!
*Michael R. Fancher se aposentou do Seattle Times em 2008, depois de trabalhar por 20 anos como editor executivo e por quase 40 anos como jornalista profissional.
Desde a sua aposentadoria, ele tem mantido suas atividades como professor e em funções administrativas ligadas ao ensino do jornalismo, prioritariamente dedicado à ética no jornalismo e à democracia.
Ele foi colaborador da Missouri School of Journalism entre 2008 e 2009 e ministrou a disciplina de Ética na University of Nevada entre 2011 e 2012. Ele ainda foi diretor interino da University of Oregon’s Turnbull Portland Center e do Agora Center for Journalism Innovation and Civic Engagement, durante 2015 e 2016. Atualmente ele é presidente do board da Washington Coalition for Open Government.
Fancher é graduado em jornalismo pela University of Oregon, possui mestrado em comunicação pela Kansas State University e MBA pela University of Washington.
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“A ética do jornalismo engajado”, de Michael R. Francher, publicada pela Fourth Estate está licenciado sob a Licença Internacional Creative Commons com Atribuição Não-Comercial e Share Alike 4.0.
Publicado originalmente em: https://www.ethicsofengagedjournalism.org/