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Por Marcelo de Mattos Salgado

Apesar da história do fact checking – ou checagem de fatos – ainda ser disputada, as primeiras tentativas de formalizar a busca por precisão factual máxima nos jornais teriam acontecido por volta de 1920, nos EUA. Muito depois, já na era digital, a ideia de checagem passaria por sites norte-americanos como Snopes, criado em 1994 para, inicialmente, investigar lendas urbanas, além do Factcheck.Org (2003) e do Politifact (2007).

Já no Brasil de hoje, a materialização das incrivelmente autonomeadas agências de checagem de fatos aconteceu em 2015, sobretudo com Aos Fatos e Agência Lupa. A partir de 2016, de forma severamente guiada pela mídia e por outros atores de esferas intelectuais, emergiu a expressão “pós-verdade” — que até virou palavra do ano do dicionário Oxford. Também renasceu o termo fake news, rapidamente conectado às eleições dos EUA de 2016 e, quase que exclusivamente, a Donald Trump e à direita política nas redes digitais.

Outro alvo do suposto apelo às fake news e à pós-verdade foi, também em 2016, a vitória do Brexit — a saída do Reino Unido da União Europeia. O Brexit, assim como a eleição de Trump naquele ano, também fora algo a que as mesmas elites pensantes se opuseram amplamente. O motivo: costumam abraçar o globalismo, o qual muitas vezes chamam “teoria da conspiração” (embora seja cada vez menos razoável) ou confundem com globalização por burrice ou malícia.

As agências de checagem, mais do que um novo gatekeeper, são uma tentativa artificial e arbitrária de conferir, à canetada, um verniz de legitimidade ao jornalismo e tentar recuperar sua confiabilidade

O globalismo, grosso modo, enfraquece as democracias nacionais e reduz os poderes locais ao concedê-los a burocracias internacionais como a ONU (caso da OMS nesta pandemia) e a referida União Europeia, ambas fortemente conectadas a e pressionadas por fundações bilionárias. São estruturas formadas por pessoas que nunca receberam um voto sequer de um cidadão comum, pagador de impostos.

Mecanismo forte

Este foi o contexto em que nasceram e, até agora, prosperaram as agências de fact checking no mundo Ocidental. Mas, com a pandemia, o Ocidente está caminhando a passos largos em suas lições a respeito de hipertrofia estatal, autoritarismo e controle social, cada vez mais em fortes parcerias com as ainda mais agigantadas (e atrevidas) big techs, que são as gigantes digitais como Google (Alphabet) e Facebook.

É precisamente neste mecanismo que molda até mesmo as nossas mais essenciais percepções sobre a realidade que as agências de fact checking têm um papel básico e fundamental: determinar o que é verdade e o que é mentira. Mas há consequências muito mais graves a partir deste ponto inicial. Considere os efeitos cumulativos e automotivados deste tipo de sistema. Em outras palavras: ao longo de meses e anos, mais intensos serão os efeitos cumulativos das “checagens de fatos” a que nossa realidade e nós mesmos somos expostos.

Tudo começa pela simples escolha de quais veículos e notícias checar, o que faz do chamado fact checking muito mais uma luta por poder para escolher quem pode ou não falar e ser ouvido do que um apego honesto à busca pela verdade.

Em 2018, participei de um encontro informal com cerca de 30 colegas para debater o mercado editorial — com exceção de mim, uma elite de jornalistas, publicitários, professores, administradores etc. — em uma faculdade de renome na capital paulista. Tenho o hábito de fazer anotações (e as guardei). Em certo momento, a discussão abordou as agências de fact checking que inspiraram, na maior parte dos participantes, elogios e esperança.

Àquele grupo, eu disse — segundo minhas memórias e anotações — aproximadamente o seguinte: “As agências de checagem, mais do que um novo gatekeeper, são uma tentativa artificial e arbitrária de conferir, à canetada, um verniz de legitimidade ao jornalismo e tentar recuperar sua confiabilidade”. Lembro-me que o silêncio, com poucos sussurros, durou vários segundos até mudarem de assunto.

Desconfiança no jornalismo

Aliás, é bem documentado que a confiança do jornalismo continua em baixa nos EUA e no Brasil, mesmo com as medidas tomadas contra a pandemia forçando as pessoas a ficarem em casa. Segundo o Gallup, a confiança dos americanos na grande mídia vem sofrendo forte queda desde 1976, quando alcançou seu ponto mais alto: 72%. Em 2018, o índice chegou a 45% — após se recuperar de sua baixa histórica em 2016, quando desabou a apenas 32%.

Em 2020, a ausência de credibilidade já caiu de novo para 40%. No Brasil, o cenário não é diferente: o PoderData registrou queda da confiabilidade no jornalismo profissional em 2020. Apenas 18% consideram o jornalismo “muito confiável”, contra 30% que o classificam como “pouco” ou “nem um pouco” confiável e 50% que acham a imprensa brasileira “mais ou menos” confiável.

As agências de fact checking influenciam parcerias nacionais e internacionais entre checadores e big techs, os algoritmos das grandes redes e sites de pesquisa e, assim, a (in)visibilidade de conteúdo neles.

Retomo minhas palavras naquele encontro de 2018 e pergunto: seria o caminho da redenção tentar, por canetada, de maneira artificial, criar mais uma camada de burocracia jornalística com a intenção de determinar verdade e mentira?

Um dos elementos mais importantes — e raramente analisados — da checagem de fatos é quando ela alcança um resultado gelatinoso como “mostly true/false” (“na maior parte, verdadeiro/falso”), “subestimado” ou “verdadeiro, mas”. Tais termos mais dependem de manipulação seletiva da argila linguística e semântica pelo checador dos fatos do que, necessariamente, por aderência à realidade. E tudo começa pela simples escolha de quais veículos e notícias checar, o que faz do chamado fact checking muito mais uma luta por poder de quem segura o porrete verificador para escolher quem pode ou não falar e ser ouvido do que um apego honesto à busca pela verdade.

Ainda sobre “mostly true”, “subestimado” e afins: digo há mais de uma década que vagueza é poder. Quanto mais vaga e subjetiva a expressão usada — palavra, etiqueta, classificação e até lei — mais poder têm aqueles que as definem e, atenção, redefinem. No contexto atual, isto é particularmente verdadeiro não apenas para a checagem de notícias, mas para expressões incendiárias e emocionalmente carregadas como racismo, fascismo, genocídio e discurso de ódio. A própria fake news ainda não tem designação jurídica específica — não é crime definido em código algum no Brasil — mas já é usada em processos e até prisões.

Os autodefinidos checadores de fatos, que também são, em maioria, jornalistas de histórico e formação, cada vez mais decidem quem e o que aparece e some nas redes e buscadores, como Facebook e Google.

No fim das contas, os resultados do trabalho de fact checking — isto é muitíssimo importante — influenciam, desde parcerias nacionais e internacionais entre checadores e big techs, os algoritmos das grandes redes e sites de pesquisa e, assim, a (in)visibilidade de conteúdo neles. Em outras palavras, os autodefinidos checadores de fatos, que também são, em maioria, jornalistas de histórico e formação, cada vez mais decidem quem e o que aparece e some nas redes e buscadores, como Facebook e Google. O risco de censura, como vem acontecendo até com líderes de países, é muito real. Ficamos à mercê dos novos donos da verdade — mas, agora, com a etiqueta de grife de checagem de fatos. Que beleza.

Censura do bem

Sobre as parcerias entre agências de fact checking, big techs e fundações bilionárias: a expressão “follow the money” (“siga o dinheiro”) é um bom começo. Ela foi popularizada pelo filme “Todos os homens do presidente” (1976), em que trabalho jornalístico sério do Washington Post ajudou a derrubar o presidente Richard Nixon no escândalo de Watergate. Aliás, ironia adicional: é o mesmo Washington Post que apoiou oficialmente Joe Biden em 2020 e, poucos dias atrás, informou que não manterá, para além dos cem primeiros dias, nenhuma base de dados das checagens de fatos sobre o presidente Biden. No entanto, o jornal manterá a ácida e imensa base de dados de quatro anos que fez sobre a Presidência de Donald Trump (2016–2020). Significa que, a depender do Washington Post, a história terá vastos registros dos horrores do fascista laranja, mas pouca coisa sobre Biden, tratado pela mesma mídia já com tanta generosidade.

No dia de hoje, porém, recupero o “follow the money” para tão somente sugerir que o leitor pesquise as fontes de renda e os laços das principais agências de fact checking nacionais e internacionais com big techs como Facebook e Google, além de fundações internacionais das mais poderosas. Você ficará surpreso como certos nomes se repetem.

O Poynter Institute, por exemplo, opera o PolitiFact e criou a maior entidade internacional de checagem de fatos, à qual algumas agências brasileiras também são filiadas: a IFCN (International Fact-Checking Network). Entre os doadores do Poynter e, portanto, do IFCN, estão Pierre Omidyar (Omidyar Network) e George Soros (Foundation to Promote Open Society), além de — imagine só — Google e Facebook. Por fim, quem tiver curiosidade de conhecer o histórico bastante tendencioso de doações eleitorais de jornalistas (20162020), empresas e funcionários das big techs (20162020) nos EUA poderá fazer uma avaliação mais completa da situação. Pior disso tudo: mais e mais poder tende a ficar concentrado nas mãos de poucos.

Outra questão para reforçar o problema do enviesamento: empresas como Facebook, Twitter e YouTube (que pertence ao Google) aproveitam amplamente as vantagens comerciais e jurídicas de serem (supostamente) “plataformas neutras” — isto significa que, em teoria, não criam nem interferem em conteúdo. No entanto, todas têm forte inclinação política ou, mais precisamente, nas palavras do próprio Mark Zuckerberg em 2018, ao Congresso dos EUA, o Vale do Silício é “um lugar de viés extremamente esquerdista”.

A ideia de “censura do bem”, aliás, tomou forma em um documento do Google pouquíssimo conhecido, mas vazado em 2018, de 85 páginas. Seu nome já se mostrava auspicioso: “The good censor”, ou “O bom censor”. Este briefing confidencial admite abertamente uma “mudança na direção da censura”, mas para, entre outras coisas, “criar espaços bem ordenados de segurança e civilidade” (p. 70), que eles próprios determinam, obviamente. Tudo isto seria necessário porque, como informam na página 2, “a liberdade de expressão se tornou uma arma social, econômica e política”. É medonho assim.

A burocracia da verdade

A articulação de todos esses atores permite a criação e, em tempo, consolidação de um sistema em que as notícias feitas por jornalistas podem receber o carimbo de seus colegas checadores de fatos; em seguida, essas notícias se tornam ainda mais visíveis e relevantes nas redes das big techs, já que foram validadas antes. O processo passa por várias esferas culturais, inclusive pela propagação e adicional autenticação intelectual de grupos acadêmicos para, por fim, alcançar e integrar o discurso de políticos e juízes, inclusive os de cortes mais elevadas. Tais juristas passam a usar aquelas matérias jornalísticas como parte de um conjunto de provas e/ou argumentação jurídica. E tudo ganha uma circularidade “autolegitimadora”, uma capa de moralidade e legalidade difícil de ser atravessada: no lugar da lavagem de dinheiro, bem-vindo à lavagem de notícias ou, de forma mais geral, à lavagem de ideias. Deu para compreender a gravidade deste mecanismo?

A intenção afirmada abertamente por boa parte dessa burocracia da verdade (além das menos óbvias: ganhar muito dinheiro, poder e influência política) que reúne agências de fact checking, jornalistas em outras posições, big techs, políticos, juristas e outros membros da elite intelectual é bela — ou assim muitos pensam. Querem higienizar o debate público (algo com precedentes históricos catastróficos) de discurso de ódio, robôs e fake news, que aqueles iluminados e seus apoiadores definem — e redefinem — conforme sua vontade. Quem sabe, ainda teremos um Ministério da Verdade?

Não seria uma ideia original, mas muitos abraçariam sua concretização com gosto — sob um nome eufemístico, bem menos óbvio e muito mais palatável, provavelmente.

Este texto foi escrito a partir de alguns trechos de outro artigo do autor.

Entre tantos assuntos que rondam o cotidiano jornalístico, as fakes news surgem com frequência entre os mais debatidos. No meio, há uma preocupação lógica com os problemas que as informações falsas causam à sociedade. Afinal, se é função da mídia deixar o público bem informado, a disseminação de mentiras é claramente um obstáculo a este propósito final.

Ao entrar de cabeça na luta contra a desinformação, no entanto, é possível esquecer de analisar a questão em si, suas implicações, a gravidade do problema e, principalmente, o papel que o jornalista pode exercer. A solução do fact-checking” parece beirar a unanimidade entre profissionais da comunicação, podendo realmente ser boa para expor uma mentira evidente antes que tome grandes proporções. Mas há considerações importantes a serem feitas relativas a esta prática, inclusive ao olhar para a sociedade, com quem o jornalista deve dialogar e perceber como boa parte dela enxerga a questão.


Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades.

Dado que no amplo e inflamado debate público dos anos recentes encontramos não apenas informações deliberadamente mentirosas, mas também distorções de fatos verdadeiros e dados descontextualizados, aplicar uma medida única e definitiva para o problema não é algo muito fácil, para não dizer impossível.

A atuação dos fact-checkers oferece uma alternativa à exposição de notícias falsas. O problema, no entanto, está muitas vezes em definir o que é verdadeiro. Certamente há questões objetivas facilmente identificáveis, mas em muitos outros casos a fronteira entre verdade e mentira não será tão clara. Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades. O falso consenso ou mera opinião também podem oferecer uma interpretação parcial do mundo ao nosso redor, permitindo que enquadremos como mentira algo que talvez não esteja fechado para o debate.

É certo que, em um mercado aberto, a checagem de fatos tem seu lugar e um público consumidor. Mas institucionalizar grupos de checadores de notícias como controladores oficiais da verdade pode ser um risco para a livre circulação de informações.

Ao se colocar em uma posição de infalibilidade, muitas empresas de mídia se fecham para a autorreflexão e passam a ver na sociedade um obstáculo à realização de seu propósito maior. Parte do descrédito midiático resulta da desconexão com o público, o que é reforçado por seu posicionamento de detentora oficial da verdade. Uma vez que as redes sociais amplificaram as vozes da crítica e do questionamento, o jornalismo oficial simplesmente perdeu o monopólio da comunicação.

É preciso, portanto, questionar sobre o valor gerado pela checagem de notícias, dado que no atual momento há ampla circulação de informações, opiniões e conteúdo de entretenimento. Ao atuar apenas de forma reativa, revisando e corrigindo aquilo que é divulgado por tantos outros, o jornalismo gera pouco valor para si mesmo.

É curioso pensar em crise no jornalismo em um momento de tanta difusão de conteúdo. Mesmo empresas cujo produto nada tem a ver com informação oferecem conteúdo que agrega conhecimento ao seu público e gera engajamento com a marca. Diversas pessoas qualificadas trespassam o cada vez mais frágil filtro jornalístico para difundir nas redes suas opiniões e visões de mundo. Há valor sendo criado em todo canto para pessoas que buscam se distrair, se informar, conhecer novas ideias e ouvir histórias cativantes. Como competir com isso apenas checando um limitado número de notícias que correm nos meios mais diversos?

O funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria.

A discussão que deveria rondar o jornalismo acerca do fenômeno das fake news está limitada. Não se trata apenas de mostrar a verdade e a mentira que rondam a comunicação de massa que hoje existe e, portanto, de controlar e regular o que está chegando aos ouvidos do público. Este posicionamento ignora o potencial do jornalismo, cujo poder reside não apenas em dar informação ao público, mas em ajudá-lo a compreender o mundo a sua volta.

Ainda que em termos gerais, o funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria. O mercado midiático possui suas particularidades e, muitas vezes, a desinformação conta com forte apelo humano. Ainda assim, investigar, descobrir informações relevantes e produzir conteúdo de qualidade, de verdadeira qualidade – o que é o trabalho do jornalista -, pode contribuir mais para o esclarecimento do que se passa ao nosso entorno no atual e confuso cenário de debate público, do que simplesmente caçar mentiras produzidas.

O problema da desinformação não é novo; ao contrário, existe desde que o mundo é mundo e continuará existindo enquanto o ser humano for humano. A novidade são as novas tecnologias, que permitem uma disseminação maior e mais veloz da informação. Mas esta é uma via de mão dupla, pois se a mentira pode ser compartilhada com grande facilidade, velocidade e alcance, o mesmo serve para a verdade, para o conteúdo de qualidade.


A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo.

Colocar o jornalismo de volta a sua posição de destaque por meio do aprimoramento do conteúdo que distribui não é solução definitiva para o problema da desinformação. Não é possível dissipar e ordenar o caos informativo dos tempos atuais, mas permitir que o público se guie neste cenário é algo que está nas mãos do jornalista, desde que ele esteja disposto a criar e oferecer um tipo de conteúdo de real valor.

A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo. A realidade é que a internet quebrou o intermédio da mídia, dando à população um poder sem precedente de buscar diversas fontes de informação e de expressar aquilo que pensa. O jornalismo precisa dos ouvidos tanto quanto precisa da boca. E ser checado pela opinião pública é essencial para que não se perca em sua própria bolha.

Mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar.

É possível acreditar que a circulação de informações incorretas e inverídicas levam a um empobrecimento das crenças populares, ou ainda a um risco à democracia. A verdade é que o aumento da circulação de notícias e opiniões também provoca um amadurecimento da população em sua busca por compreender a realidade. Certo conflito, como acontece no próprio processo dialético do discurso, estimula o raciocínio ao contrapor, com argumentos, qualquer tese desenvolvida, filtrando o conhecimento e o aproximando da verdade.

Portanto, mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar. Não se trata de achar que regulações e controles não são necessários em sociedade. A mentira descarada, quando criada para difamar, enganar e manipular, precisa ser exposta como tal. Mas a luta contra a desinformação pode também ser positiva ao ofertar conteúdo de alta relevância e grande profundidade intelectual. No fundo, tal discussão diz respeito às pessoas, que formam suas opiniões com base nas informações que circulam por todos os canais. Se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor.