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Cloroquina mata ou salva? Usar máscara é vital ou mais uma burocracia? A melhor estratégia para o Brasil é o lockdown ou o isolamento vertical? Os números de pessoas mortas pela covid-19 estão corretos ou foram subnotificados?

Tenho certeza de que você já fez algum destes questionamentos ao longo destes últimos meses. Estamos sendo desafiados a tomar decisões importantes sobre a nossa vida diante de um fato novo e desconhecido, enquanto gerenciamos um volume excessivo de informações. 

No dia 31 de março de 2020, o Departamento de Comunicação das Nações Unidas declarou que junto com a covid-19, o mundo deveria enfrentar outro inimigo: a infodemic. O órgão explicou que o excesso de informações falsas, incompletas e/ou rumores, durante uma emergência sanitária, poderia prejudicar as medidas de saúde pública e gerar confusão e desconfiança entre as pessoas. Todos nós vimos casos deste tipo entre as milhares de informações compartilhadas neste período. Tivemos, por exemplo, vários tratamentos sendo sugeridos: do alho ao cultivo de sementes “santas”. Para combater este mal, a ONU criou uma página para desmitificar alguns rumores sobre a doença e sugeriu que as pessoas privilegiassem fatos, ciência, esperança e solidariedade ao invés de desespero e desunião.

Mas são tantas informações científicas, que fica difícil discernir o que é verdade. As professoras Gaeta Menon e Ellie J. Kyung publicaram um artigo em que afirmam que este excesso de informação causa incerteza[; um sentimento antinatural que gera desconforto nas pessoas. Diante de circunstâncias assim, o sistema cognitivo anseia pelo certo e o seguro. As autoras exemplificam seu argumento afirmando que algumas pessoas sentem-se mais calmas e menos agitadas quando sabem que tomarão um choque elétrico do que aquelas que acham que podem receber um choque elétrico.

Quando temos de lidar com a incerteza, ambiguidade e complexidade, nosso processamento da informação entra em colapso. E se não tivermos um mapa bem definido do caminho a ser percorrido? A quem vamos recorrer?

Gostaria de apresentar algumas reflexões sobre este dilema. Precisamos de um tratamento adequado, caso contrário entraremos na “treva branca” de José Saramago.

OS MEDIADORES DA INFORMAÇÃO

A nossa realidade é composta por elementos objetivos e subjetivos. Quando estamos diante do desconhecido, nos sentimos desamparados e perdidos. Para diminuir a tensão, buscamos a segurança dos especialistas e profissionais.

A pesquisa do Orbis Media Review em março apontou que os sites de notícia e a TV foram os principais canais de novidade sobre a Covid-19. Os resultados positivos indicaram que os brasileiros estavam buscando o jornalismo profissional para se municiar de informações sobre a doença. No mesmo período, a Agência Edelman de Comunicação publicou um estudo feito em dez países – África do Sul, Alemanha, Brasil, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido -, apontando a comunicação do empregador como a fonte mais confiável neste período; 18 pontos à frente das empresas em geral e ONGs e 27 pontos à frente do governo e da mídia[.

Já a Professora e Pesquisadora do IFF/Fiocruz, Suely  Deslandes, afirmou que a Internet e as redes sociais foram as fontes que trouxeram mais benefícios para a população por favorecer a conscientização e a conexão entre as pessoas. Mas a Professora também alertou que o uso irrestrito destes meios pode gerar um comportamento compulsivo, que aumenta a percepção de um “medo global”. A 11ª onda da pesquisa da Opinion Box no início de junho confirmou esta tendência ao demonstrar que os entrevistados estão investindo mais tempo na Internet e nas mídias sociais, enquanto sentem mais tédio e medo de sair de casa.

O aumento contínuo da utilização destas fontes de informação “não convencionais” reascendeu a discussão sobre a necessidade de uma regulamentação específica. Os políticos brasileiros acharam oportuno aproveitar este tempo para desenvolver formas de controlar as mídias sociais. No dia 30/06/2020 o Senado Nacional aprovou o projeto da Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Acredito que esta decisão abre um precedente perigoso. Para justificar sua ação, o Senado divulgou uma pesquisa do Instituto DataSenado em que a maioria dos entrevistados declarou apoiar a criação de uma lei contra fake news. Um levantamento do Datafolha demonstrou um resultado diferente: 75% dos entrevistados acreditam ter o direito de ter uma conversa privada sem serem rastreados. A China, que é o case de controle social em larga escala, verifica as fotos, vídeos e áudios dos smartphones de todos os seus cidadãos em uma central de análise de dados do governo. O deslocamento de casa para o trabalho é acompanhado por câmeras capazes de reconhecer o rosto da pessoa em milésimos de segundos. As fontes oficiais afirmam que: “apesar de soar intrusivo, o uso de reconhecimento facial é aprovado pela maior parte da população chinesa, que associa o uso destas tecnologias à sensação de segurança”[.

Estas aspirações tecnocratas me lembraram os avisos assustadores da distopia de Orwell: “O Grande Irmão está de olho em você”. A decisão do Senado Federal foi seguida por uma série de manifestações. Representantes das empresas de mídia fizeram declarações incisivas: “estamos decepcionados com a decisão do Senado. As notícias falsas são um grande problema social que existe há séculos em toda forma de comunicação. Estamos combatendo a desinformação por meio de mudanças significativas para reduzir mensagens em massa e virais, que geraram uma redução de 70% nas mensagens altamente encaminhadas no WhatsApp. Forçar as empresas a adicionar um carimbo permanente a todas as mensagens privadas enviadas pelas pessoas marcaria o fim das conversas particulares – tudo o que você disser ou encaminhar seria rastreado e poderia ser usado contra você[. A própria ONU apelou aos políticos no período que precedeu a votação. O relator para Liberdade de Expressão do órgão alertou que: “um dos aspectos que é essencial nos direitos humanos é a liberdade de expressão e há um consenso que qualquer restrição a isso é uma potencial barreira aos direitos democráticos básicos”. O jornalista experiente Alexandre Garcia alertou que existem mentiras nas mídias sociais, mas elas não estão somente ali. As redes aprenderam isso com os meios tradicionais de comunicação.                               

Se é fato que as informações tendenciosas e/ou falsas estão presentes em todos os canais, o primeiro dilema que se impõe é: quem define o que é falso, verdadeiro ou útil para mim?  

De fato, há mais de dois mil anos, Aristóteles já alertava para os riscos da falácia: uma linha de raciocínio falsa, com um objetivo torpe ou desonesto, mas convincente, que parecia verdadeira. Acredito que as redes sociais apenas refletem aquilo que é mais humano. Por isso, a liberdade de expressão deve ser prezada ao máximo em um ambiente livre.

Se é fato que as informações tendenciosas e/ou falsas estão presentes em todos os canais, o primeiro dilema que se impõe é: quem define o que é falso, verdadeiro ou útil para mim?  

O jornalista colaborador do Orbis Media Review João Payne fez um questionamento intrigante em seu artigo: “Trabalhar com verdades é uma tarefa complicada, pois elas nem sempre são fáceis de encontrar, podem ser conflituosas e estão sujeitas às circunstâncias (…) Se verificar fatos, portanto, já é uma tarefa delicada, o que dizer de julgar a intenção daqueles que criam e divulgam conteúdo? Um veículo de fake news, afinal, não é aquele que publica uma mentira ou gafe pontual, mas aquele que age com o intuito de enganar a população, desinformar e manipular. Mas como podemos conhecer a intenção de outros jornalistas ou meros influenciadores?”. 

Um dos senadores propositores da PL2630, quando questionado por um jornalista sobre este risco de concentrar a definição do conteúdo das notícias (se elas são falsas ou não) respondeu categoricamente: “Em uma democracia, em última instância quem decide o que é verdade ou não é o judiciário…”.

Eu acredito que a definição do verdadeiro e útil depende de um empenho pessoal e de um rico debate em um ambiente propício.

A VERDADE E SUAS VÁRIAS FACETAS

Um importante inquisidor já fez esta pergunta há algum tempo: Quid est veritas? (O que é a verdade?). Encontrar a verdade não é um exercício simples. São muitos fatos e factóides disputando nossa atenção diariamente. Não basta realizar uma simples “checagem das fontes” como nos indicou o Senado Federal (se a fonte é confiável o problema está resolvido), é preciso responder estes questionamentos em primeira pessoa.

Para ajudá-los em sua jornada, acho válido demonstrar que a “batalhas de narrativas” é um processo natural da comunicação social. Cada pessoa emite e processa mensagens a partir do seu sistema de referências. Esta “lente” do mundo é única e irrepetível; formada por uma história de vida, experiências, valores, emoções e aspirações transcendentes. Este conjunto de elementos pessoais influencia a forma como uma pessoa interpreta a realidade. Por isso, nenhuma narração de fatos é plenamente isenta, ela sempre portará um pouco do seu transmissor. O jornalista que narra ininterruptamente o número crescente de mortes por covid-19 ou o profissional que alega que seus argumentos estão baseados estritamente na ciência partem de um pressuposto.

Além das posições individuais, estamos inseridos num contexto social mais amplo, que recebe influência de correntes de pensamento poderosas. Carlos Llano, um dos principais professores da Escola de Negócios do México (IPADE) e um dos grandes teóricos da rede de escolas associados ao IESE, descreveu o tecido social pós-moderno com três forças dominantes[.

Para o autor, o funcionamento da sociedade contemporânea tinha dois pilares centrais: o mercado e o estado. Estas seriam as representações de duas instâncias valiosas da vida: o economicismo transacional mercantil e o racionalismo do plano estatal. Partindo desta perspectiva, a relação destes dois pilares se expressaria numa oscilação de correntes: mais Estado e menos mercado ou menos mercado e mais Estado. Com o passar dos anos o âmbito da comunicação coletiva se converteu num fator persuasivo e determinante na sociedade, tornando-se um poderoso ente. Com este esquema, Llano descrevia muitos comportamentos humanos: executivos obtendo dinheiro para adquirir poder, funcionários públicos adquirindo dinheiro por meio do poder e a imprensa conseguindo dinheiro e poder através de sua influência.

Estas forças presentes em nossa história poderiam causar uma homogeneização de pensamento, dificultando a avaliação pessoal.  Segundo o autor, a sociedade pós-moderna permitiu que o Estado, o Mercado e os Meios de Comunicação invadissem a esfera pessoal de análise e decisão: Jornais e a Televisão ditam formas e modelos, o Estado determina as linhas básicas de educação desde a infância e molda as investigações científicas, e o Mercado comercializa a moda, expondo artefatos de status, realização e felicidade.

O livro “A rebelião das Massas” de Ortega y Gasset faz um retrato magistral deste fenômeno: “Há um fato que, para o bem ou para o mal, é o mais importante na vida atual: a ascensão das massas ao completo poder social (…) A massa atropela tudo que é diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não é como todo o mundo, quem não pensa como todo o mundo corre o risco de ser eliminado”. Observem que este livro começou a ser escrito em 1926! Seu retrato segue atual ainda hoje…  

 O TRATAMENTO ÉTICO

Para Carlos Llano, nenhum destes paradigmas supracitados é suficiente para responder às necessidades da sociedade. A vida humana é mais rica, heterogênea e profunda que qualquer outra realidade. O mundo das relações pessoais não pode traduzir-se exclusivamente em termos de dinheiro, influência ou poder. Para fugir da “bolha” superficial de opiniões, é preciso recorrer ao ethos vital das nossas relações mais íntimas.

Acredito que a vida corrente e ordinária é a saída mais prática para deixarmos o labirinto em que estamos. Muitas vezes nos perdemos em discussões abstratas, teóricas e/ou influenciadas por correntes de pensamento que não correspondem àquilo que vivemos. Neste mundo pessoal, que Edmund Husserl denominou como Lebenswelt (família e amizade), não estamos submetidos ao cálculo transacional ou à ação despersonalizante. Somos acolhidos com a nossa forma de ser, e o debate se torna mais honesto e enriquecedor, porque ali impera a confiança, a alegria e o perdão.

Acredito que neste momento turbulento que estamos vivendo, não podemos renunciar às nossas relações pessoais. Se estamos navegando sem um mapa bem definido do caminho que devemos percorrer, só nos resta “olhar para dentro”. Devemos reavaliar a forma como estamos incidindo sobre esta comunidade silenciosa da família, dos amigos e do trabalho.

Comungo da visão de Carlos Llano de que o que necessitamos não é uma grande mudança estratégica. O “novo normal” logo mais se tornará a antiga vida imprevisível de sempre. O que precisamos é de uma influência maior da vida ordinária em nossas decisões. As escolhas substanciais não dependem dos modelos, mas de uma transformação interna e pessoal.

A verdade não é uma resposta definitiva sobre os desafios da covid-19, ela é uma jornada pessoal! Tenham audácia de avaliar estes dilemas a partir daquilo que mais nos aproxima do real. Não precisamos apenas vencer este vírus, devemos melhorar nossa capacidade de avaliar a realidade e tomar decisões mais prudentes nos espaços em que incidimos hoje.

Coragem!


Trabalhar com verdades é uma tarefa complicada, pois elas nem sempre são fáceis de encontrar, podem ser conflituosas e estão sujeitas às circunstâncias. Muitas vezes, uma informação conhecida não é nem de perto tão relevante quanto aquelas que no momento desconhecemos. Afinal, um dado ignorado ou pouco apurado pode mudar toda a nossa percepção da realidade.

Se verificar fatos, portanto, já é uma tarefa delicada, o que dizer de julgar a intenção daqueles que criam e divulgam conteúdo? Um veículo de fake news, afinal, não é aquele que publica uma mentira ou gafe pontual, mas aquele que age com o intuito de enganar a população, desinformar e manipular. Mas como podemos conhecer a intenção de outros jornalistas ou meros influenciadores? Não seria nossa ideologia falando mais alto?

É verdade que jornalistas devem trabalhar com a verdade, mas quem nos deu a tarefa de ser juiz do trabalho alheio para controlar o conteúdo que circula nos ambientes de debate público de hoje?

Por Cido Coelho

Desinformação, manipulação, fake news, ou apenas mentiras são utilizadas para promover a fuga da realidade, distorcer a verdade e deslegitimar quem detém o pleno saber sobre determinados assuntos ratificados pela ciência e por décadas de estudos. 

No jornalismo aprendemos que os fatos não mudam; os fatos devem ser informados de forma íntegra e reta para o público. Em tempos de desinformação, a mentira toma conta de forma sorrateira e galopante com o objetivo de soterrar o lugar da verdade. George Orwell relembra sua participação na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) no ensaio “Recordando a Guerra Civil”, dentro da obra Lutando na Espanha. Ele ressalta o sucesso e a eficiência da propaganda fascista durante combate espanhol em apenas uma frase: 

“Esse tipo de coisa me assusta, pois muitas vezes me proporciona o sentimento de que o próprio conceito da verdade objetiva está acabando em nosso mundo.”

Em alguns momentos de crises agudas, a manipulação da informação é combinada com uma dissimulação sistemática, truculência e com excesso de poder. O jornalismo torna-se um dos primeiros inimigos, em que a tática de desinformar e confundir busca trazer a deslegitimação do ofício nestes momentos de confusão ou ruído. 

Isso pode ser observado no mundo da política em que muitos casos, a aparência e valores se impõem para cumprir um objetivo ou atender algum interesse. Como diz Matthew D’Ancona, escritor de “Pós-Verdade: A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, 

“… as mentiras, as manipulações e as falsidades políticas enfaticamente não são o mesmo que a pós-verdade. A novidade não é a desonestidade dos políticos, mas a resposta do público a isso”. Por isso, a desinformação e a mentira, combinadas com o sistêmico comportamento desonesto de alguns políticos, ou de quem faz política, gera a indiferença e, posteriormente, a conivência entre o seu público que aceita esta ‘verdade’ sem inquietações.” 

Por isso, na obra “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel (1469-1527), a política é a arte das aparências e, trazendo aos dias atuais, qualquer um que tenha posse da narrativa tem a chance estabelecer um novo fato, usando sua fortuna (o acaso) muitas vezes para conquistar o virtu (a astúcia) diante de seus seguidores. Assim, joga uma camada de confusão na informação trazida pelos profissionais de imprensa.

Dessa forma, muitos consumidores de informação deixam de lado a verdade dos fatos e passam a se confortar com sua versão da realidade, criando e acessando sites, canais de vídeos e produtos alternativos que têm embasado em suas ‘linhas editoriais’ suas teorias da conspiração, subvertendo o verdadeiro contexto do fato exposto.

Como profissionais, já enfrentamos uma crise significativa com o avanço do desemprego, por causa da transformação dos meios de comunicação, da queda de publicidade e da forte mudança de hábitos de consumo das pessoas. A prática do jornalismo foi impactada pela disrupção digital, que mudou de forma irreversível os comportamentos de consumo da informação. Isso gerou a inclusão de novos processos de trabalho, a unificação de práticas que eram realizadas com equipes e, agora, torna-se um ofício mais solitário. 

O agenda setting ou a teoria do agendamento, onde os assuntos do dia são escolhidos pela mídia, perdeu força. Pois, antes, a mídia e os jornalistas eram o principal elo entre os acontecimentos pelo mundo. Isso se alterou profundamente com o desenvolvimento de novas tecnologias de informação.  Pois com a ascendência e a popularização da Internet, praticamente todos têm acesso a vários tipos de conteúdo e meios de distribuição, para formar uma opinião e até mesmo gerar uma realidade a partir do que foi exposto.  

Por isso, para se diferenciar e subir o patamar da produção e distribuição de informações, a curadoria emerge como uma opção relevante ao protagonismo de levar os fatos para a sociedade. Exemplos não faltam, como a formação do Projeto Comprova, onde jornalistas de várias regiões brasileiras, com características técnicas e culturais distintas, se unem para levantar, investigar e apontar o conteúdo falacioso que deturpa o caminho correto da verdade. 

Neste exemplo, o trabalho coletivo de curadoria de informações que retirar e desmontar o efeito de conteúdo malicioso traz a clareza ao fato. Sendo assim, se desconstrói a distorção, anulando o interesse escondido por trás desse conteúdo malicioso.

A desinformação pode ferir pessoas, destruir reputações, causar pânico e até matar em alguns casos. Como em maio de 2014, um boato na rede social, publicado na página do Facebook ‘Guarujá Alerta’, apontou que uma dona de casa seria uma sequestradora de crianças que praticava rituais de magia negra. Alguns moradores que tiveram conhecimento deste boato agrediram a mulher por cerca de duas horas até a morte.

Em março deste ano, com o início da quarentena do coronavírus (Covid-19), uma notícia antiga do portal G1 Santos causou pânico na população. Com o título “Mercados e lojas foram saqueados em São Vicente”, o material viralizou como um factual. As postagens alarmistas relacionavam o crime ao isolamento social, que é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, a notícia foi publicada em 2013, e o grupo de mídia responsável pelo conteúdo repudiou dos usuários na internet.

A curadoria ganha força para dar corpo ao jornalismo, com apoio de uso de ferramentas digitais integradas às redações, para que o jornalista possa trabalhar com agilidade, tecnicidade e cuidado para trazer à tona o que é verdadeiro e distinguir do que é falso. Esta prática ratifica o ofício e a importância de ser testemunha da história, levando os fatos corretos conforme eles são. O jornalista é o profissional que vai continuar contando histórias e seguirá trazendo os fatos que são importantes para que as pessoas possam tê-los consigo para governar suas vidas. 

Usando a metáfora do cozinheiro, que vai preparar uma refeição completa: ele utiliza técnicas especiais para garantir que o alimento terá o ponto certo de cozimento, temperatura ideal, acidez e combinação de sabores alinhadas ao paladar de quem consome. Com o jornalista, o processo é semelhante. O profissional da comunicação terá de usar técnicas novas para trazer o melhor conteúdo; terá que mergulhar no grande volume de informações, do dado ao big data, consultando as fontes necessárias, atores e especialistas de determinados assuntos relevantes para a condução da história. Com o uso de técnicas e tecnologias, o jornalista deverá extrair informação relevante, garantindo que o conteúdo elaborado tem todos os elementos necessários para elucidar o desenvolvimento de um fato que tenha relevância e até mesmo possa modificar os rumos da história em momentos cruciais. 

O jornalista tem a obrigação de construir uma história que seja objetiva para o entendimento de quem vai consumir determinada informação ou fato, independentemente do tipo de mídia, ou formato. Lembrando o especialista canadense Marshall McLuhan, “o meio é mensagem”, ou seja, a mídia que será utilizada fará parte da forma que será conduzida a informação, cujo destinatário final é o consumidor da notícia. Isso torna-se singular na distinção do papel do jornalista e de quem anseia apenas a gerar confusão.

Entre tantos assuntos que rondam o cotidiano jornalístico, as fakes news surgem com frequência entre os mais debatidos. No meio, há uma preocupação lógica com os problemas que as informações falsas causam à sociedade. Afinal, se é função da mídia deixar o público bem informado, a disseminação de mentiras é claramente um obstáculo a este propósito final.

Ao entrar de cabeça na luta contra a desinformação, no entanto, é possível esquecer de analisar a questão em si, suas implicações, a gravidade do problema e, principalmente, o papel que o jornalista pode exercer. A solução do fact-checking” parece beirar a unanimidade entre profissionais da comunicação, podendo realmente ser boa para expor uma mentira evidente antes que tome grandes proporções. Mas há considerações importantes a serem feitas relativas a esta prática, inclusive ao olhar para a sociedade, com quem o jornalista deve dialogar e perceber como boa parte dela enxerga a questão.


Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades.

Dado que no amplo e inflamado debate público dos anos recentes encontramos não apenas informações deliberadamente mentirosas, mas também distorções de fatos verdadeiros e dados descontextualizados, aplicar uma medida única e definitiva para o problema não é algo muito fácil, para não dizer impossível.

A atuação dos fact-checkers oferece uma alternativa à exposição de notícias falsas. O problema, no entanto, está muitas vezes em definir o que é verdadeiro. Certamente há questões objetivas facilmente identificáveis, mas em muitos outros casos a fronteira entre verdade e mentira não será tão clara. Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades. O falso consenso ou mera opinião também podem oferecer uma interpretação parcial do mundo ao nosso redor, permitindo que enquadremos como mentira algo que talvez não esteja fechado para o debate.

É certo que, em um mercado aberto, a checagem de fatos tem seu lugar e um público consumidor. Mas institucionalizar grupos de checadores de notícias como controladores oficiais da verdade pode ser um risco para a livre circulação de informações.

Ao se colocar em uma posição de infalibilidade, muitas empresas de mídia se fecham para a autorreflexão e passam a ver na sociedade um obstáculo à realização de seu propósito maior. Parte do descrédito midiático resulta da desconexão com o público, o que é reforçado por seu posicionamento de detentora oficial da verdade. Uma vez que as redes sociais amplificaram as vozes da crítica e do questionamento, o jornalismo oficial simplesmente perdeu o monopólio da comunicação.

É preciso, portanto, questionar sobre o valor gerado pela checagem de notícias, dado que no atual momento há ampla circulação de informações, opiniões e conteúdo de entretenimento. Ao atuar apenas de forma reativa, revisando e corrigindo aquilo que é divulgado por tantos outros, o jornalismo gera pouco valor para si mesmo.

É curioso pensar em crise no jornalismo em um momento de tanta difusão de conteúdo. Mesmo empresas cujo produto nada tem a ver com informação oferecem conteúdo que agrega conhecimento ao seu público e gera engajamento com a marca. Diversas pessoas qualificadas trespassam o cada vez mais frágil filtro jornalístico para difundir nas redes suas opiniões e visões de mundo. Há valor sendo criado em todo canto para pessoas que buscam se distrair, se informar, conhecer novas ideias e ouvir histórias cativantes. Como competir com isso apenas checando um limitado número de notícias que correm nos meios mais diversos?

O funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria.

A discussão que deveria rondar o jornalismo acerca do fenômeno das fake news está limitada. Não se trata apenas de mostrar a verdade e a mentira que rondam a comunicação de massa que hoje existe e, portanto, de controlar e regular o que está chegando aos ouvidos do público. Este posicionamento ignora o potencial do jornalismo, cujo poder reside não apenas em dar informação ao público, mas em ajudá-lo a compreender o mundo a sua volta.

Ainda que em termos gerais, o funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria. O mercado midiático possui suas particularidades e, muitas vezes, a desinformação conta com forte apelo humano. Ainda assim, investigar, descobrir informações relevantes e produzir conteúdo de qualidade, de verdadeira qualidade – o que é o trabalho do jornalista -, pode contribuir mais para o esclarecimento do que se passa ao nosso entorno no atual e confuso cenário de debate público, do que simplesmente caçar mentiras produzidas.

O problema da desinformação não é novo; ao contrário, existe desde que o mundo é mundo e continuará existindo enquanto o ser humano for humano. A novidade são as novas tecnologias, que permitem uma disseminação maior e mais veloz da informação. Mas esta é uma via de mão dupla, pois se a mentira pode ser compartilhada com grande facilidade, velocidade e alcance, o mesmo serve para a verdade, para o conteúdo de qualidade.


A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo.

Colocar o jornalismo de volta a sua posição de destaque por meio do aprimoramento do conteúdo que distribui não é solução definitiva para o problema da desinformação. Não é possível dissipar e ordenar o caos informativo dos tempos atuais, mas permitir que o público se guie neste cenário é algo que está nas mãos do jornalista, desde que ele esteja disposto a criar e oferecer um tipo de conteúdo de real valor.

A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo. A realidade é que a internet quebrou o intermédio da mídia, dando à população um poder sem precedente de buscar diversas fontes de informação e de expressar aquilo que pensa. O jornalismo precisa dos ouvidos tanto quanto precisa da boca. E ser checado pela opinião pública é essencial para que não se perca em sua própria bolha.

Mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar.

É possível acreditar que a circulação de informações incorretas e inverídicas levam a um empobrecimento das crenças populares, ou ainda a um risco à democracia. A verdade é que o aumento da circulação de notícias e opiniões também provoca um amadurecimento da população em sua busca por compreender a realidade. Certo conflito, como acontece no próprio processo dialético do discurso, estimula o raciocínio ao contrapor, com argumentos, qualquer tese desenvolvida, filtrando o conhecimento e o aproximando da verdade.

Portanto, mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar. Não se trata de achar que regulações e controles não são necessários em sociedade. A mentira descarada, quando criada para difamar, enganar e manipular, precisa ser exposta como tal. Mas a luta contra a desinformação pode também ser positiva ao ofertar conteúdo de alta relevância e grande profundidade intelectual. No fundo, tal discussão diz respeito às pessoas, que formam suas opiniões com base nas informações que circulam por todos os canais. Se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor.