Semana passada eu conversava com um repórter de veículo online sobre a publicação de releases como notícias. A prática é tão comum quanto antiga e indesejável.
Tomando um caso em particular, eu vi caráter elogioso ao autor do release na publicação da “notícia”. O repórter não viu, afinal, ele só tinha usado as mesmas informações do release. Então – expliquei a ele -, o simples fato de um veículo dar espaço à publicação de um release é um gesto em favor daquela fonte (única).
Ele entendeu, mas sei que boa parte dos jornalistas que são cobrados por produtividade em quantidade de notas por dia não entende. A exigência de publicar oito, dez, quinze notas ao longo de oito horas limita qualquer repórter de produzir entrevistas, checar fatos, buscar outras fontes, fazer jornalismo, enfim. Daí alguns releases chegam como presentes celestiais, onde só o ctrl+C, ctrl+V salva.
Como fugir do mero release
A sugestão que dei ao colega foi a de ouvir um especialista e acrescentar algumas aspas mais neutras às informações trazidas pelo release. Isso daria um tom jornalístico pra coisa – e não tão institucional/promocional.
Nem sempre se trata de “ouvir o outro lado”, porque há pautas que não têm lado: são registros, lançamentos de projetos, publicações, eventos que estão por vir. Então nos resta fazer mídia gratuita ou acrescentar uma segunda fonte que comente ou opine de forma independente sobre o objeto do release.
Não é só o material de release que termina servindo de “fonte única”. Um post no Instagram virou fonte, virou notícia! Não sobra tempo para uma ligadinha ao agente da celebridade que acaba de postar.
Licença para uma historinha
Lembro de um caso que aconteceu enquanto eu trabalhava em um portal, lá em 2011: o cantor Latino havia postado uma foto em seu Twitter abraçado a uma moça coberta por lençol branco. Eles mostravam o colo e os ombros desnudos. O texto que acompanhava a foto era: “Pensa em acordar do lado de uma princesa como essa!! Kkkkkk 😉 Meu verdadeiro amor“.
Dias antes, o cantor havia terminado um namoro. Claro que o repórter de “Diver” (editoria de Diversão) entendeu que Latino não havia perdido tempo para apresentar a nova namorada! A matéria foi ao ar com este teor e, minutos depois, o próprio Latino respondeu ao Twitter do portal: “Vocês estão loucos? Ela é minha filha!“
A obsolescência da segunda fonte
À prática de “ouvir uma segunda fonte”, a Dra. Consuelo Aguirre chama de “contrastación“, o que inclusive se encaixaria melhor no conceito de “ouvir o outro lado”, “contrastar”. Não foi por acaso que ela detectou em sua pesquisa de doutorado, recentemente defendida na Universidad Austral, em Buenos Aires, que a “contrastación” é um dos critérios de noticiabilidade que a Internet reduziu ou tornou obsoleto.
Dra. Aguirre revisou os critérios de noticiabilidade em relação às Leis da Mídia, de Marshall McLuhan, aplicadas a 140 notícias e a partir de entrevistas em profundidade com 30 jornalistas dos jornais El Comercio e El Telegrafo, do Equador.
Quais critérios de noticiabilidade, então, a tecnologia digital vem Aperfeiçoar, Reverter, Recuperar e Obsolescer?
De bate-pronto, Dra. Aguirre diz o seguinte:
APERFEIÇOA (o que na versão em espanhol foi dito como “agranda” ou “aumenta”: IMEDIATISMO
OBSOLESCE ou REDUZ (em espanhol se manteve a nomenclatura): EXCLUSIVIDADE e CONTRASTE
RECUPERA (também mantido em espanhol): SERVIÇO, APROXIMAÇÃO COM LEITOR, VERIFICAÇÃO
REVERTE: INFOTAINMENT
A sistematização da Dra. Aguirre vai bem além dos que resumi acima, que é o foco da discussão que tive com o colega semana passada – sobretudo o segundo item (OBSOLESCE/REDUZ).
“Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador”, pesquisa de doutoramento de Consuelo Aguirre, defendida na Universidad Austral, sob orientação do Prof. Dr. Francisco Albarello.
O furo não garante a exclusividade
Outro apontamento interessante da tese foi a queda da exclusividade como critério para decidir o que será notícia. É sabido que a natureza da informação digital é a replicabilidade infinita sem qualquer prejuízo à precisão do conteúdo. A qualidade de uma música gravada de um LP a uma K-7 era questionável, enquanto arquivos MP3 podem ser compartilhados eternamente sem perder um bit de qualidade.
Na seara do copia-e-cola, a exclusividade se esvai. A informação é exclusiva até se tornar pública – e copiada por outro site dois minutos depois.
Dra. Aguirre esclarece que “O que cai é a exclusividade, não o furo”. Os veículos continuam obcecados em ser os primeiros a noticiar algo, por mais que aquilo só tenha valor entre eles mesmos. O público não costuma ligar e nem nota quem foi o primeiro a noticiar algo. A notícia que vale é aquela que aparece primeiro e casa com as demandas particulares do usuário.
Acho perigoso, inclusive, que muitos veículos digitais abdiquem da precisão para ganhar a corrida pelo furo. O conteúdo sai capenga porque tem que sair. E o tempo em relação à concorrência se torna o maior critério de noticiabilidade(?!).
“Os critérios de noticiabilidade não são mais do que a raiz daquilo que entendemos como jornalismo. É um assunto absolutamente nuclear dentro da atividade jornalística”, comentou um dos avaliadores da banca, o Prof. Dr. Ramón Salaverría. E justamente por tamanha centralidade é que não podemos aceitar de modo passivo que os critérios de noticiabilidade se tornem peões da ansiedade, nem que abdiquem da pluralidade de fontes. Caso contrário, o que sobra são toneladas de conteúdos apressados e imprestáveis, reproduzidos por profissionais que atuam como robôs.
Em 2015, enquanto escrevia a tese, me deparei com a seguinte frase: “se os jovens de hoje não estão interessados nos conteúdos clássicos das notícias, isso não é um problema dos jovens, mas dos veículos”.
O autor é Wolfgang Donsbach, um professor e pesquisador alemão extremamente crítico – e realista destemido – da indústria da mídia. A clareza do raciocínio dele ecoa até hoje na minha cabeça e me ajuda a buscar um caminho para o reposicionamento do jornalismo na sociedade contemporânea, em especial, na rotina de cada indivíduo.
O que Donsbach e, humildemente, eu tentávamos alertar em meados da década passada era que o conceito de notícia clamava por revisão. Noutras palavras, notícia estava virando uma coisa chata! Mas como algo pode se tornar chato sem ter mudado? Justamente por esta razão – por não ter mudado – é que o noticiário de sempre se perdeu na avalanche de informações novas, sedutoras e abundantes no meio digital.
Pesquisa com news avoiders mexe com as bases do jornalismo
O começo do milênio deu o tom de uma geração hedonista ao extremo, sensível ~demais~ e intolerante às asperezas que fazem parte da vida de qualquer um. Ah, mas quem aceita ser tratado como “qualquer um”?
Daí surgiram os news avoiders, que escolhem, conscientemente, não consumir notícias em função do mal-estar que elas geram em seus humores. No dia 20 de agosto de 2020, a revista científica Journalism Studies publicou uma pesquisa esmiuçando o olhar dos news avoiders sobre o noticiário. Os pesquisadores Ruth Palmer, Benjamin Toff e Rasmus Kleis Nielsen conversaram com 83 pessoas na Espanha e no Reino Unido. Os resultados são, no mínimo, provocativos.
Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista.
O ponto alto do estudo não está nas respostas dos news avoiders, mas na chacoalhada de realidade que os autores dão naqueles que ainda acreditam na imprensa como uma instituição independente de quaisquer interesses políticos ou privados, e que carrega o poder de vigiar as instâncias públicas em prol do bem comum.
A utopia acabou. Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista. A maior parte das pessoas não enxerga assim. Que os veículos estejam cumprindo seu papel de informar decentemente a população é uma coisa. Já a percepção que o público tem dessa cobertura é outra. Ela é o oposto da visão idealizada que muitos de nós ainda temos da imprensa – e já se aninha no imaginário popular.
News avoiders vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante.
O relatório da pesquisa com os news avoiders afirma que eles vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante. Na pior das hipóteses, jornalismo é tido como um cúmplice de sistemas político e econômico, de algum dos lados.
Notícias e política se misturam na cabeça dessas pessoas e formam um monstro gigante de negatividade. Esta é a leitura de Joshua Benton, editor do NiemanLab, faz dos comentários colhidos pelos pesquisadores.
“Política é algo horroroso! Políticos são horrorosos!”
Para simplificar a história, a maioria dos entrevistados diz que política é algo horroroso; políticos são horrorosos. Então por que raios é preciso ler notícias sobre isso? (Lembrem-se do hedonismo, da intolerância à frustração, da falência das instituições sociais… Não é só a mídia que sofre com a falta de credibilidade; o poder público, os sindicatos, os partidos políticos são alvos ainda mais evidentes do desengajamento à organização tradicional da sociedade.)
Mais do que desgastada, a política que pauta a pesada maioria das notícias se mostra muito distante da vida cotidiana destas pessoas: “… a maioria dos entrevistados usa o termo ‘política’ e ‘político’ para descrever o que políticos profissionais fazem, geralmente no nível nacional, distante de suas rotinas”, analisa o relatório.
Ouso dizer: neste ponto, os news avoiders têm toda a razão! São inúmeros os casos em que os títulos começam por “Bolsonaro diz…” ou “Câmara vota…”. Os agentes das notícias sempre são os políticos. É como se o jornalismo se limitasse à órbita daqueles que foram eleitos a cargos públicos – sobre eles e paraeles -, sendo que muita gente nem lembra em quem votou nas últimas eleições.
Se o que realmente impacta na vida da população é a ação praticada por tal político, por que, então, não trazer o grupo impactado para o início do título? Eles é que são os reais agentes da notícia! (Eles não são agentes do fato, mas são protagonistas da notícia.)
Façamos um breve exercício de enfoque:
O fato de o presidente sancionar leis é recorrente e não impacta tanto na rotina de um cidadão quanto o efeito da lei sancionada. O agente da notícia não é o político, mas como o seu ato influencia na vida das pessoas.
Jornalistas e políticos estão em simbiose no imaginário popular
Voltando aos news avoiders, eles – e convenhamos, muitos de nós – associam(os) política à briga entre partidos e à corrupção. A vasta maioria não se identifica com qualquer partido político, não presta atenção à política em geral e ainda se descreve como “apolítica”, alegando estar “farta” do sistema, diz o relatório.
Por mais que a pesquisa de Palmer, Toff e Nielsen alerte para uma leitura inconscientemente preconceituosa da mídia, dizendo que os news avoiders adotam tais opiniões por reproduzirem o senso comum e não tanto a partir de um consumo crítico de notícias, é importante entender qual a imagem que os produtos e profissionais do jornalismo têm em certos grupos.
O desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou.
Fundamentada ou não, a relação entre jornalistas e políticos está no imaginário popular e daí se prolifera o desinteresse e uma profunda desconfiança. Segundo o relatório, as notícias são apenas cartadas políticas para qualquer partido com quem o repórter ou a empresa de comunicação simpatize.
“Alguns [entrevistados] mudaram a expressão de cínicos para conspiratórios, colocando a mídia como conivente a um sistema de ‘forças obscuras [que] deliberadamente escondem ou distorcem informações para manter os cidadãos ignorantes ou distraídos diante daquilo que pessoas poderosas estariam realmente fazendo’.” – frankfurtianos, contenham o entusiasmo!
Os próprios pesquisadores reconhecem o tom populista na fala dos participantes, embora eles próprios não se classifiquem como populistas. Para além de um posicionamento ideológico, a abstenção impera:
“Eu odeio política. Esta é, provavelmente, uma das razões pelas quais eu não leio notícias, para ser sincero”, Ryan (Reino Unido).
Ou seja, o desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou. Já que o jornalismo insiste em fazer notícia sobre si e para as fontes, a lógica diz que o desinteresse pelo jornalismo é o mínimo que se poderia esperar das audiências!
Para o espelho e para as fontes
Essa história de jornalismo escrever para o espelho é grave e já passou da hora de acabar. Nelson Traquina denuncia esta má prática há décadas. “Quando fontes e jornalistas são parte da mesma ‘rotina’ de maneira regular, pode-se estabelecer certa interdependência. O perigo é evidente.” – e cita Walter Lippmann: “O jornalista está, inevitavelmente, em contato pessoal com os líderes políticos e homens de negócio, criando relações de confiança e de simpatia; é muito mais difícil e embaraçoso ignorá-las”.
O jornalista precisa da fonte para fazer seu trabalho. A fonte precisa do jornalista para difundir suas ideias. (Sim, estou pensando no tapete verde do Congresso.) É um ambiente favorável à formação de um rede de cooperação! Você me ajuda e eu te ajudo. Simples assim. Esta é a percepção que os news avoiders têm da nossa profissão.
O jornalista escreve notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências e perdendo a relevância no cenário midiático.
Soma-se a isso os contatos viciados, o tempo sempre exíguo, as cobranças por audiência e a carência de postos de trabalho em redações. Repórteres se vêem praticamente numa situação de “fazemos qualquer negócio para manter nosso emprego”, mesmo que isso signifique publicar notícias que não fazem a menor diferença na rotina do cidadão.
Diante de cada pauta, pergunte-se: o que o meu leitor fará com esta notícia? Como ela vai influenciar na sua vida? Como vai melhorar sua rotina?
Lá em 2015 eu escrevia: “NelsonTraquina alerta que, aos jornalistas, os benefícios aparecem na eficácia de seu trabalho e na estabilidade do posto que ocupam, uma vez que usam uma autoridade para validar sua notícia. Do outro lado, as fontes oficiais também se beneficiam com a difusão de seus atos de maneira profissional, o que lhes dá relevância e reforça sua legitimidade. É comum, conforme diz o autor, que sob tais condições o jornalista passe a escrever notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências em nome de garantir sua sobrevivência nesta rotina profissional. Raquel San Martín reproduz a fala de um jornalista entrevistado em suas pesquisas: ‘Quando estou escrevendo sobre política, penso nos político, na classe dirigente, que controla o poder’.
O autocentramento da cultura profissional do jornalista reforça o microclima na atividade, fazendo com que o jornalismo seja uma trabalho feito para o espelho, ou seja, por e para o próprio repórter e sua rede imediata de contatos.” [Leia-se: fazemos jornalismo para nós mesmos e para os políticos que nos rodeiam.]
Entendem, agora, por que insisto há 17 anos em aproximar o jornalista do público? Porque é no microcosmos de nossas rotinas e interesses que vivemos, trabalhamos, entendemos o mundo e podemos fazer alguma diferença.
Interesse jornalístico
Falando em interesses, toda essa discussão passa pelos valores-notícia. O “interessante” sempre é para alguém. E não há nenhum ranço nesta observação.
Gosto quando Juan Ramón Muñoz-Torres busca na filosofia o entendimento para o interessante como valor-notícia. INTER-ES: A etimologia da palavra interesse conduz a tudo o que é ou estáentre algo ou alguém. Por seu caráter relacional, o interesse é algo tipicamente pessoal e pertence ao que Aristóteles chamava de “prática” ou práxis, relativo ao conhecimento aplicado, ao “obrar”. O interesse, portanto, é aquilo que leva o indivíduo à ação. Pergunte-se, diante de cada pauta: o que o leitor fará com esta notícia? Qual ação ela pode desencadear em sua vida?
Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência.
Se nos movemos por interesses [no melhor dos sentidos, como motivação], precisamos buscá-lo para sairmos do estado de inércia e, enfim, viver! No entanto, tomar atitudes é o que menos passa na cabeça desse pessoal cansado do noticiário de política…
A justificativa deles é que não podem fazer nada para melhorar a política retratada nas notícias. Mesmo diante da corrupção denunciada por uma reportagem de jornalismo investigativo, eles pensam como a Emily (UK): “Ninguém pode realmente mudar isso. Porque no final do dia não conta o que nós, pequeninos, pensamos. É tudo o que o governo decidir fazer. Isso é o mais importante”.
Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência. “Muitos evitam as notícias sobre política como grande parte da estratégia de gerenciar suas emoções. Ao invés de se engajarem com as notícias, eles se sentem tristes a respeito do estado das coisas e frustrados sobre a própria impotência em mudá-lo. Eles preferem conservar suas energias emocionais para enfocar em seus próprios problemas”, concluem os autores da pesquisa.
Para aproximar política e público
Chame isso de individualismo ou de espírito de sobrevivência, não importa. O fato é que o noticiário político não conversa com a vida das pessoas, não diz como tal fato pode impactar a rotina de cada um – se é que os fatos noticiados realmente têm poder de impacto.
É claro que o público se ocupará de problemas que realmente tocam suas vidas! É a conta de luz que sobe, o remédio que não chega no posto, o perrengue com o banco, a obra no condomínio, a reunião na escola dos filhos… Não sobra tempo nem atenção para que a bancada xpto pressione o relator Fulaninho a incluir o veto do Beltrano na pauta de votação do Senado.
Só que boa parte dos veículos que cobrem política ainda dá isso. E prioritariamente isso! Posso imaginar o repórter tomando o rumo da Esplanada de manhã cedo, condicionado a transformar em notícia todo o espirro que alguém der por ali. Não é assim que o jornalismo funciona. Mas foi nisso que se tornou: um retrato autocentrado de acontecimentos insossos e sem impacto imediato na vida do cidadão.
Critérios de noticiabilidade, para que te quero…
É como se muitas redações tivessem esquecido dos critérios de noticiabilidade. É isso: falta critério na seleção das pautas. Ao menos, falta o uso de bons parâmetros e a noção de que eles existem para agir como critérios de desempate diante de fatos necessariamente relevantes à população. A ideia é de Muñoz-Torres, a quem os valores-notícia não são atributos a serem encaixados nos acontecimentos, sob a obrigação burocrática. Os valores-notícia brotam dos fatos. É como se a realidade acenasse ao repórter e dissesse: eu preciso ser noticiada! Não o contrário.
Quando Boczkowski e Mitchelstein publicaram o livro The News Gap, em 2013, provaram em números o abismo que existe entre aquilo que sai no jornal e o que é de interesse da população. “Ao contrário das principais escolhas dos jornalistas, as preferências do público são marcadas por uma forte predileção por assuntos que não tratem do poder público, além das “notícias-que-você-pode-usar” (o que significa matérias com implicações diretas na vida cotidiana)”, escreve o casal.
O que fazer?
Como conclusão da pesquisa deste ano, com os news avoiders, os autores recomendam que os veículos criem esforços para separar suas atividades de tudo aquilo que tem a ver com a elite do poder público no imaginário popular. Essa seria uma condição para recuperarmos a credibilidade aos olhos de nossas audiências e, só então, voltarmos a ter relevância em suas vidas. Particularmente, vejo que uma das formas de se fazer isso é conectando o noticiário político à rotina da população. E se um fato não trouxer esta conexão, então não se trata de uma notícia. Que venha o próximo.
Acrescento à recomendação deles:
Não copie e cole trechos do Diário Oficial da União. São textos chatos e longos, nada jornalísticos.
Não se “acostume” com o juridiquês da política brasileira. O jornalismo existe para traduzir a realidade, fazer a mediação com o público, lembra? 😉 Você pode saber o que significa “pedir vista” ou “substitutiva”. Mas o público não é obrigado a saber disso e ele não vai procurar no Google para entender sua matéria.
Nem tudo tem que ser noticiado! Lembre-se que há vida além do Congresso, do Planalto, dos gabinetes, palácios e câmaras locais. O público não precisa estar a par de tudo o que você vê. Logo, o que parece ser uma super novidade para você talvez não faça o menor sentido para suas audiências, a menos que você contextualize.
Fuja do jornalismo declaratório. Ele tende a ser pobre e desinteressante.
A tendência do reader revenue se acentua mundo afora, com a crescente adoção de paywalls por veículos digitais. O Digital News Report deste ano, do Reuters Institute, mostrou que a resposta da população também é crescente na hora de pagar por notícias, embora ainda muito tímida. O relatório comemorou o aumento na quantidade de pessoas que assinaram veículos online no último ano. O índice, no entanto, é de 13% na média entre nove países, fortemente içada pelos 20% da população norte-americana que já é assinante. Vale ressaltar que nenhum desses nove países é latino-americano e todos pertencem ao chamado “primeiro mundo”. O Brasil, curiosamente, aparece com 27% da população pagando por notícias e faz com que, pela primeira vez, um dado deste relatório seja questionável. Haveria mais brasileiros do que norte-americanos pagando por notícias. Enfim…
Será que o consumidor tem a mesma percepção de valor sobre ‘o acesso irrestrito a todo o conteúdo do veículo’ do que as empresas de mídia?
No final do governo de Cristina Kirchner, em 2014, a Argentina já vivia este “corto-placismo” tão típico de economias debilitadas. As relações comerciais tinham de ser exploradas naquele instante e não importa que o consumidor saia insatisfeito. Quem disse que a satisfação o trará de volta ao estabelecimento? Ora, não é ele, mas o Estado e uma economia turbulenta que decidem o comportamento de consumo de cada indivíduo.
No limite da sobrevivência, o carpe diem assume ares nada afeitos ao discurso de autoajuda. É preciso viver o dia de hoje porque é só ele mesmo que cabe em nossos bolsos e não porque não queremos nos preocupar com o amanhã. Hoje eu compro um jornal, mas amanhã não sei se amanhã terei dinheiro. A sensação de perda do controle sobre as despesas e hábitos de vida pode ser desesperadora e não é nova. Os donos de celulares pré-pagos que o digam! Eles preferem pagar mais caro pelo minuto ou pelo plano de dados. Mas pagam para ter controle dos gastos, ao contrário da incerteza de quem recebe a conta no fim do mês.
No âmbito das assinaturas de veículos online, o valor pode ser o mesmo todos os meses e pode até ser baixo. O problema é que este valor, provavelmente, não será a única mensalidade a ser debitada no cartão de crédito do usuário. Ou será provável que ele renuncie a Netflix, Spotify, HBO, TV a cabo etc para priorizar a assinatura de um veículo jornalístico? Ainda que renuncie, qualquer assinatura é um compromisso de longo prazo. Lembre-se que vivemos em tempos de carpe diem forçado e diminuição no poder de escolha.
O contra-argumento ideal para este caso é: você pode cancelar a assinatura a qualquer momento, sem multa! – mas cá entre nós, sabemos que não é assim que a coisa acontece! A dificuldade em cancelar assinaturas corresponde à maior parte das reclamações registradas contra veículos no Reclame Aqui. Além disso, uma parte do sucesso do modelo de negócio de assinatura está justamente na invisibilidade do pagamento: ao assinar, o consumidor toma a decisão uma só vez, e o faturamento se repete mensalmente sem que haja novo esforço para conversão. Este é um dos aspectos que diferenciam a assinatura da compra avulsa.
Compra avulsa de conteúdo faz sentido?
Falar em compra avulsa para veículos jornalísticos online não parece algo tão tangível, certo? Errado! O modelo de micropagamentos vem sendo discutido e experimentado – timidamente – há muitos anos na indústria editorial e, neste cenário de crise, volta à pauta dos comitês.
Quando a cauda longa mostra que o meio digital funciona à la carte, os veículos generalistas sofrem. Por essa razão, vender pacotes de conteúdo já não tem mais o mesmo sentido de antes.
A Columbia Journalism Review publicou um artigo no dia 15 de junho intitulado Why micropayments will never be a thing in journalism, onde o autor James Ball lista uma série de justificativas para o modelo fracassar. Cada argumento, no entanto, é facilmente rebatível. Veja só:
1) Muitas publicações são concebidas sob o modelo de “pacote” de conteúdo. O baixo custo de algumas matérias cobre as altas despesas de outras.
A interpretação faz sentido, só que não pode ser aplicada ao meio digital. Um artigo histórico publicado pelo NiemanLab em maio de 2018 explicava que a “era de ouro” dos jornais foi marcada pela ideia do “pacote” de conteúdo, quando muitos leitores compravam o diário apenas para ler a seção de esportes, mas acabavam financiando as matérias de economia e política. Quando a cauda longa mostra que o meio digital funciona à la carte, os veículos generalistas sofrem. Por essa razão, vender pacotes de conteúdo já não tem mais o mesmo sentido de antes. Nem mesmo a compra de uma edição inteira de uma revista, por exemplo, se justifica quando o leitor se interessa apenas pela reportagem de capa.
A indústria fonográfica entendeu isso bem antes de nós, mesmo que não tenha sido a tempo suficiente para evitar o colapso das gravadoras. Mas foi graças à venda de faixas por um valor irrisório que a Apple convenceu milhares de usuários a pagarem por música. Afinal, quem gostava de pagar o preço de um CD inteiro por conta de um ou dois hits?
2) A CJR compara a assinatura de jornais com planos de academia de ginástica e enfatiza que nenhuma academia funciona com micropagamentos. Se o faturamento vem só quando o cliente tem vontade de malhar, como alcançar a estabilidade dos negócios?
No item anterior você deve ter pensado: ok, mas jornalismo não é música, portanto, não segue a mesma lógica. É verdade. E empresas jornalísticas também não são academias, onde os interesses que movem e fidelizam os clientes são absolutamente de outra ordem. Neste caso, o jornalismo fica até mais próximo da indústria fonográfica, embora a compra de faixas tenha cedido lugar à venda de assinaturas(!) de pacotes(!) aparentemente infinitos de conteúdo no Spotify, Deezer etc.
A única forma de descobrirmos se uma reportagem realmente vale aquilo que pagamos por ela é… lendo! O instante da valorização de um conteúdo é, precisamente, o mesmo da perda do seu valor de mercado.
Ainda assim, o jornalismo guarda peculiaridades que o tornam incomparáveis a qualquer outra indústria, mesmo dentro da seara da informação. O artigo da CJR menciona o mercado de games e o sucesso que dos micropagamentos registram através da venda de vidas, boosters, avatares, etc pelo sistema in-app purchase. Tal como na indústria da música, todos os itens à venda nos jogos são previamente conhecidos. Portanto, o usuário paga por algo sobre o que ele já tem a percepção de valor. A única forma de descobrirmos se uma reportagem realmente vale aquilo que pagamos por ela é… lendo!
Ou seja, o instante da valorização de um conteúdo é, precisamente, o mesmo da perda do seu valor de mercado. Por essa razão é que veículos vendem sua credibilidade, a notoriedade de seus colunistas, a tradição da marca, o retrospecto. Quem faz assinatura, compra uma promessa olhando pro retrovisor. É um voto de fé na qualidade do que virá. E o que virá é tão incerto quanto a conta do telefone pós-pago no fim do mês.
3) Micropagamentos são “o caminho do meio” para os leitores. Atualmente, apenas uma parte das pessoas que se chocam com um paywall, de fato, se torna assinante. A outra parte vai embora. O micropagamento atrairia uma parcela de cada um destes dois grupos. No fim do dia, isso significaria perder assinantes.
Acrescento: também significaria gerar receita por quem jamais assinaria aquela publicação!
É inútil comparar o ticket médio do assinante de suportes offline (impressos e TV a cabo) com o valor das assinaturas digitais. Assim como a mensalidade da Netflix é irrisória perto de um pacote de canais, o preço das assinaturas de veículos online chega a corresponder a módicos 20% do que valia no meio analógico. É assim que empresas jornalísticas do mundo todo registram aumento na venda de assinaturas sem que isso se reflita, necessariamente, em alta no faturamento.
Ou seja, a assinatura segue a lógica da massa. Só faz sentido para a empresa jornalística se for vendida em quantidade, coisa que está longe de ocorrer, sobretudo no Brasil, ainda mais neste momento e nos próximos meses.
Notícia incidental e laços “líquidos”
Há outro elemento mais nesta equação: a infidelidade do usuário. Quando cerca da metade dos brasileiros afirma usar as redes sociais para chegar às notícias, é pouco provável que estes usuários consumam conteúdo sempre dos mesmos sites. Existe uma bolha, mas o algoritmo não deixa de apresentar notícias nos feeds de forma que o consumo seja absolutamente incidental. Convenhamos: quem entra, ativamente, no perfil de algum veículo para ler notícias ali? O comportamento padrão é que os conteúdos sejam lidos (clicados?) quando apareçam fortuitamente no newsfeed de cada indivíduo, em meio a toda sorte de fotos, vídeos e memes.
Faz sentido gastar 10 reais todos os meses para acessar as centenas de matérias de um site que visito esporadicamente? Ou será melhor pagar 5 reais por uma só reportagem que vai ser extremamente útil para mim?
No contexto em que a fidelidade no consumo de informações não ultrapassa os aplicativos de redes sociais, será que o consumidor tem a mesma percepção de valor sobre “o acesso irrestrito a todo o conteúdo do veículo” do que as empresas de mídia?
Faz sentido gastar 10 reais todos os meses para acessar as centenas de matérias de um site que visito esporadicamente? Ou será melhor pagar 5 reais por uma só reportagem que vai ser extremamente útil para mim? Aceito me tornar refém de uma só fonte de conteúdos ou prefiro ter a liberdade de selecionar aquilo que tem mais impacto sobre o meu momento, a minha rotina, os meus interesses, independentemente de onde esteja publicado?
É claro que a liberdade tem um preço – como os minutos mais caros dos celulares pré-pagos – e é provável que, no fim do mês, eu tenha gasto mais dinheiro comprando conteúdos avulsos do que pagando por uma assinatura. Mas este é o comportamento de transição, de alguém que nunca pagou por conteúdo até que a assinatura de um só veículo lhe faça sentido. É o comportamento esperado, também, de um cenário instável economicamente, recém saído de uma depressão histórica, avesso ao estabelecimento de novos compromissos em tempos tão imediatistas.
Passado, Presente…
O ano de 2015 foi próspero para o micropagamento no jornalismo. A holandesa Blendle se firmou como o “iTunes de notícias”, implementando a tecnologia em grandes players mundiais, como New York Times, The Economist, Wall Street Journal, Washington Post, Axel Springer, Mother Jones, Nikkei e outras publicações digitais. Quatro anos mais tarde e ainda sem gerar lucro, a plataforma decide mudar de atuação. Os micropagamentos são descontinuados e dão lugar a sistemas de assinatura premium, conteúdo em áudio e outros serviços para empresas de comunicação.
Em paralelo, o MIT constrói o Tipsy, um sistema de micropagamento que funciona como um taxímetro, com um valor atribuído pelo próprio usuário e distribuído de acordo com o tempo de permanência em cada site. O valor seria compartilhado entre os publishers associados à plataforma. O formato de extensão do Google Chrome facilitava a vida do usuário, mas o backstage do negócio fez da ferramenta algo mais apropriado a publicações sem fins lucrativos do que a empresas comerciais.
Independentemente do gateway de pagamento, a criação do hábito de pagar por conteúdo depende de que boa parte dos players adotem este modelo de negócio. A editora britânica Axate vem apostando no micropagamento em várias de suas publicações, entre elas Popbitch, ExaminerLive e uma série de veículos locais.
Atualmente, Axate usa uma solução própria de “carteira online” que funciona através de todas as publicações cadastradas no sistema. Eles acreditam que os micropagamentos criam a oportunidade de leitores “se apaixonarem” pelos produtos, levando a um estágio de comprometimento maior, que é a assinatura.
O argumento é bastante lógico: na impossibilidade de assinar vários veículos simultaneamente, o usuário vai estabelecer seus “principais”. Para a Axate, todas as empresas de mídia querem ser “as principais”, mas nem todos poderão sê-lo. É como se quiséssemos colocar toda a extensão da cauda (longa) em seu começo. Há um limite natural de hits. Do contrário, todos seríamos The New York Times.
No final do ano passado a Fundação Mozilla, em colaboração com Creative Commons, ofereceu incentivo a startups dedicadas ao desenvolvimento de plataformas de micropagamento. O assunto virou uma “causa digital”, uma vez que as instituições apoiadoras não confiam em sites que sobrevivem da coleta de dados dos usuários nem em anunciantes. Como estas instituições estão ligadas à cultura do software livre, elas defendem a livre circulação da informação, sem se opor à sustentabilidade comercial dos negócios digitais.
Entre as soluções disponíveis no mercado estão a Transact, que funciona como um cartão de débito para publishers. Outro modelo é apresentado pela Scroll, cujos investidores incluem gigantes como Gannett, News Corp, New York Times e Axel Springer. Por este sistema, o micropagamento é fixo e distribuído pelos vários players que vendem acesso pela plataforma. A divisão dos valores é guiada por métricas como taxa de retorno e tempo de permanência do usuário.
Você já fez algum experimento com micropagamento em seu veículo? Conhece outros casos e tecnologias ligados a este modelo de negócio? Conte pra nós!
Qual o impacto que os veículos jornalísticos podem ter na economia local? Em Minas Gerais, a TV Integração responde esta pergunta de uma forma simples e eficiente. Não é apenas através da produção de conteúdo que o jornalismo cumpre com sua função social. Um serviço que mistura traços das antigas páginas amarelas dos guias telefônicos com o bom e velho “classificados” dá visibilidade ao comércio de bairro.
O MegaDelivery nasce da necessidade impulsionada pela pandemia. De portas fechadas, mas com as contas em aberto, pequenos negócios locais encontram na plataforma um jeito gratuito de chegar aos consumidores. “Analisamos os cadastros que estão sendo feitos e a grande maioria não tem condições de ser anunciante da TV”, pondera Wladmir Virote, gerente de negócios e administração da afiliada da TV Globo em Juiz de Fora e um dos responsáveis pelo projeto
Ao lado de Paulo Vieira, diretor de jornalismo da TV Integração e masteriano de 2013, Wladmir vê no MegaDelivery um potencial de conscientização dos comerciantes a respeito do quão benéfica pode ser a propaganda e os resultados que ela traz. “Estamos vivendo um momento de dificuldade para todos os pequenos negócios e eles precisam dar vazão a seus produtos e serviços, precisam comunicar à população o que funciona e como”, analisa.
Do Marquinhos Serralheiro aos Bolos da Tia Pati
São salões de beleza, doceiras, escritórios de contabilidade, floriculturas, serviços de lavagem de carro, motoboy, eletricistas, assistências técnicas autorizadas, professores de inglês e uma série de outros tipos de estabelecimentos de pequeno e médio porte. Nos primeiros cinco dias, o MegaDelivery cadastrou 667 negócios das 500 cidades com cobertura da TV Integração.
Amostra de estabelecimentos cadastrados no MegaDelivery
Na verdade, é o próprio estabelecimento quem faz o registro na plataforma. Após uma checagem automatizada de links de redes sociais, profissionais da emissora fazem a validação do cadastro antes que o negócio apareça no site. Nesta etapa inicial o desafio é povoar a plataforma. Para isso a TV criou campanhas em espaços editoriais e de publicidade. A próxima etapa será desenvolver o hábito dos consumidores mineiros usarem os filtros do site para localizarem profissionais e produtos acessíveis, mesmo em tempos de isolamento.
A volta do MegaMinas
Tornar o site uma referência para o comércio local da região não deve ser uma tarefa difícil, já que o MegaDelivery reativa a marca Megaminas, uma velha conhecida do internauta mineiro. O MegaDelivery deve ser um braço do Megaminas, portal de conteúdo da TV Integração que existiu entre 2001 e 2013, quando todos os sites locais das afiliadas da TV Globo passaram a operar sobre a marca G1.
“A ideia do MegaMinas é de ter outros módulos que estão em planejamento, como balcão de empregos, previsão do tempo, cotações financeiras e entretenimento local”, anuncia Wladmir. Apesar de resgatar algumas de suas funcionalidades, o MegaMinas não irá competir com a operação digital de notícias da emissora, que seguirá no G1.
Jornalismo para criar pontes
No livro “A armadilha do conteúdo”, o autor Bharat Anand fala de uma relevância dos veículos de outrora em criar conexões entre pessoas com interesses semelhantes. No fundo, estes jornais não ganhavam dinheiro vendendo conteúdo, mas conectando compradores e vendedores, empregados e empregadores em espaços amplamente frequentados.
Qualquer semelhança com Uber, Airbnb ou mesmo com as redes sociais não é mera coincidência. O negócio da mídia funciona, historicamente, através da relevância das conexões sociais que promove. O conteúdo atrai, incentiva o trânsito pela plataforma; mas o que realmente envolve – e noutros tempos, dava dinheiro – é o encontro de quem tem interesses complementares em comum.
A situação atual das empresas jornalísticas – especialmente das provenientes da mídia impressa – mostra que Bharat tinha razão. Por mais que o MegaDelivery seja de uso gratuito tanto para os donos dos estabelecimentos quanto para os clientes, a aproximação da TV Integração com as comunidades locais deve se aprofundar e, quem sabe, recuperar ao veículo a função de alto impacto social na criação de pontes que fortalecem a economia e as relações locais.
Como os diversos públicos online consomem conteúdo? Foi com este ponto de vista das audiências – e não apenas do veículo – que O Povo, de Fortaleza, se lançou a um caminho de inovação que promete fazer história, com o recém lançado O Povo+. A propósito, se fala “mais” e não “plus”. O detalhe reflete a valorização que o projeto dá ao jornalismo local, cheio de identidade para gerar identificação entre as audiências do Ceará e do Nordeste brasileiro.
O lançamento de uma plataforma premium acontece em plena expansão dos negócios digitais do grupo de mídia. Ao longo do último ano, O Povo registrou um aumento de 5% para 35% na base de assinantes online. A expectativa é de que este número chegue aos 50% dentro de um ano. A empresa parece estar na direção certa, uma vez que 70% dos novas assinaturas vendidas nos últimos quatro meses foram para o veículo digital.
Mais que jornalismo
Apesar de trazer a marca do veículo jornalístico, O Povo+ não é feito só de reportagens. Livros, palestras, cursos online e séries documentais compõem o portfólio de mais de 400 produtos oferecidos aos assinantes da plataforma. Tamanha variedade nos tipos de conteúdo procura responder a pergunta que abriu este texto.
André Filipe Dummar, Head de Estratégia Digital do grupo O Povo e masteriano de 2019, mapeou três grupos de audiência para atender:
Os youngsters, que já não consomem conteúdo transposto de outras mídias mas aceitam e até procuram narrativas próprias do mundo digital, geralmente identificadas por aliar entretenimento à informação.
Os bookworms, que mais do que conteúdo buscam conhecimento. Partindo da premissa de que o jornalismo também educa, O Povo+ reuniu materiais produzidos por diferentes divisões de negócio do grupo, entre elas a Editora Dummar, a empresa de desenvolvimento profissional Jobest e o estúdio de branded content Labeta, sob a consultoria pedagógica da Universidade Aberta do Nordeste.
Por último, mas com uma relevância atípica, os final adopters, ou seja, pessoas de 40 anos ou mais que possuem um relacionamento intenso com plataformas analógicas sem dispensar o consumo digital. Falando em consumo, não é à toa que uma iniciativa 100% online dê tanta ênfase a esta faixa etária. “Quem é 40+ costuma ter maior poder de consumo, ocupa os principais cargos das empresas e está muito conectado”, analisa André, provocando o senso comum de que projetos digitais enfocam jovens em detrimento de um público mais maduro.
Conexão, Entretenimento e Informação
Para atender a perfis tão diferentes, O Povo+ compôs sua carta de produtos com base em três grandes eixos que sintetizam o mercado da atenção das audiências. Noutras palavras, em quais circunstâncias e por quais razões consumimos conteúdo digital?
André lista, em primeiro lugar, a conexão, que é o contato com a mídia para fins de trabalho, relacionamento, produtividade e utilidade. Em seguida, consumimos entretenimento em busca de uma ressignificação para nosso tempo livre. Por fim, a informação que, apesar de também estar presente nos outros dois eixos, nessa hora se aproxima de tudo o que é editorial.
“Na América Latina ainda não tivemos o shift-point de pagar por notícia. Nosso approach é muito mais europeu, baseado nos modelos freemium e de membership, do que norte-americano.”
André Filipe Dummar, Head de Estratégia Digital de O Povo – CE
Ainda que O Povo+ seja um produto da marca do jornal O Povo, o caráter híbrido do projeto esteve presente desde o princípio, quando a redação trabalhou em parceria com as áreas de estratégia digital e de marketing. No começo, conta André, o comitê reunia 10 pessoas. No dia do lançamento, em 15 de maio, já eram cerca de 40 profissionais dessas três áreas envolvidos.
Jornalismo, um produto bem resolvido
Isso mostra o quanto o jornalismo não pode mais caminhar isoladamente das outras áreas de uma empresa de mídia. “Quando se enxerga o conteúdo como produto na indústria jornalística, isso é muito transformador”, comemora André. Para ele, os jornalistas da redação de O Povo alcançaram a percepção de valor de mercado em suas produções. Prova disso é que a interface que mostra à área de vendas a conversão de assinantes ao longo do dia é a mesma que a redação acompanha. Assim, repórteres e editores conseguem identificar conteúdos que possam ser melhor explorados para conversão.
Por mais que a sustentabilidade do produto esteja desenhada segundo o modelo de assinaturas, a conversão de novos assinantes é tão importante quanto a retenção de quem já assinou. É o que André entende por orientar o negócio segundo uma “lógica positiva”, que enfoca mais o controle da retenção do assinante do que a prevenção do cancelamento (churn).
Ainda que o ticket médio do assinante de O Povo+ seja baixo (os planos começam com R$ 9,90 ao mês, após três meses de R$ 1,99), o importante é começar e criar, aos poucos, uma cultura de subscription no Brasil. “Na América Latina ainda não tivemos o shift-point de pagar por notícia. Nosso approach é muito mais europeu, baseado nos modelos freemium e de membership, do que norte-americano”, analisa André. Ou seja, é preciso acolher muito mais gente na boca do funil de vendas para alcançar um volume adequado de conversões.
Inspiração nos streamings
O caminho encontrado por O Povo+, de diversificar os conteúdos para atender a vários públicos com materiais de nicho, está inspirado na lógica dos streamings. Serviços como Amazon Prime, Spotify e Netflix apostam num mix de licenciamentos com produção própria para compor um catálogo suficientemente extenso para gerar uma relação de custo-benefício na manutenção das assinaturas. A facilidade na distribuição e no consumo do conteúdo é outro elemento que faz de O Povo+ um case para ser acompanhado.
Enquanto crescem os debates sobre o futuro do jornalismo, três correntes da atividade se fortalecem no cenário internacional. São elas: Constructive Journalism, Listening Journalisme Dialogue Journalism. Todas têm em comum a centralidade do público no processo editorial e não apenas no fim da cadeia, como receptor, aos moldes do que a maioria dos veículos ainda trabalha.
O protagonismo do usuário na produção de notícias e reportagens não é algo novo, nem mesmo no ambiente digital. Em fevereiro de 2000, o noticiário sul-coreano OhmyNews estremecia setores tradicionais da mídia internacional ao afirmar que every citizen is a reporter. O slogan convidava cidadãos do mundo todo a uma versão do site em inglês — além da original, em alfabeto hangul –, onde se publicava conteúdo enviado por não-jornalistas, mas discutido, selecionado e editado por profissionais baseados numa redação em Seul. A onda se espalhou e diversos veículos — muitos deles, brasileiros como Estadão, G1, O Globo, Terra e iG — criaram suas editorias colaborativas. O fenômeno ficou conhecido como jornalismo cidadão, jornalismo colaborativo ou jornalismo open source.
Constructive Journalism (ou Jornalismo de Soluções)
Quinze anos depois de cada cidadão poder tornar-se um repórter, se usaria pela primeira vez o termo Constructive Journalism, que nada tem a ver com a Teoria Construtivista do jornalismo. Internacionalmente projetada pelos estudos de newsmaking de Gaye Tuchman, o jornalismo construtivista entende que a notícia é sempre uma construção e não um espelho da realidade. Já o Constructive Journalism ficou conhecido como o “jornalismo de soluções”, ou seja, aquele que repudia a negatividade e o sensacionalismo como valores centrais para decidir o que é notícia e prioriza um olhar positivo.
O dinamarquês Ulrik Haagerup, fundador do Constructive Institute e um dos criadores do modelo, explicou no congresso mundial da WAN-IFRA de 2018, em Portugal, que o Constructive Journalismnão busca pintar o mundo de cor-de-rosa. Ao contrário, o conteúdo enfoca os graves problemas mundiais como a contaminação dos oceanos pelo plástico, o trabalho escravo, o combustível fóssil, o desflorestamento, as epidemias, a miséria. Mas o trabalho editorial não para na investigação das mazelas. O diferencial do Constructive Journalism é perguntar: E agora?Que soluções estão funcionando noutros lugares e podem ser replicadas aqui?O que podemos fazer para mudar essa triste realidade?
O último relatório do Reuters Institute sobre jornalismo digital, publicado em junho de 2019, chama a atenção para os crescentes índices de fadiga noticiosa. Já são 32% dos participantes que admitem evitar o consumo de notícias. A principal razão é o impacto negativo que elas exercem no estado de ânimo do indivíduo. Se notícia ruim sempre existiu, o que mudou foi o olhar da população diante do noticiário e da vida em sociedade.
A reconstituição das tribos por meio das redes sociais provocou o ressurgimento de uma solidariedade sem fronteiras. O imperativo do hedonismo e a “obrigação em ser feliz” tornaram insuportável o sentimento de impotência que um leitor tem ao saber de uma desgraça pelo jornal. É justamente esse gap que o Jornalismo Construtivo vem preencher, munindo o usuário de caminhos para melhorar o mundo. Como exemplos podemos citar o Upside, do Guardian, o People Fixing the World, da BBC, o Fixes, do New York Times e o Impact, do HuffPost.
Listening Journalism
A segunda corrente de jornalismo que promete evoluir está inserida em uma “cultura da escuta”. Mas não será óbvio dizer que qualquer jornalismo é feito a partir do que o profissional escute de suas fontes, de autoridades e da própria comunidade? O compromisso doListening Journalismé ouvir ativamente as necessidades de informação que o público tem, assim como o feedback sobre trabalhos já publicados. A escuta, portanto, não acontece apenas durante a produção das reportagens, mas principalmente antes da definição da pauta e depois da publicação.
Entre as técnicas já experimentadas, a bola de neve ajuda a expandir o conhecimento do jornalista sobre e entre uma comunidade. Dennis Anderson, editor executivo do Journal Star, de Illinois, começou conversando com uma pessoa sobre o que ela gostaria de ver no jornal. Ao fim do diálogo, ele pediu que a “entrevistada” indicasse cinco pessoas com quem ele pudesse continuar a conversa. Essas cinco pessoas indicariam, cada uma, outras cinco para serem ouvidas. Assim, a rede cresce exponencialmente, aproximando o jornalista e o veículo de áreas da sociedade que não tinham o menor contato ou interesse pela imprensa até então.
A bola de neve é uma ferramenta metodológica utilizada na pesquisa científica. No diagrama acima, desenhei a aplicação da técnica na minha tese de doutorado, quando usei o snowball para compor minha amostragem, a partir de redes sociais.
Humildade e empatia estão no topo da lista de atributos que o praticante do Listening Journalism precisa ter. Deixar que os indivíduos contem suas histórias é o modo mais simples e verdadeiro de recriar essa ponte entre o jornalismo e a sociedade. O maior desafio, no entanto, está em ouvir os críticos da imprensa, os ex-assinantes e descrentes no veículo para onde o profissional trabalha. Mas é justamente aí que o Listening Journalism pode fazer a diferença.
Além de contribuir para o aumento da geração de receita às empresas de comunicação, o Listening Journalism ajuda a reconstruir a confiança do público no veículo e detecta o real impacto que as publicações têm no dia a dia da população. A análise é de Cole Goins, do American Press Institute, responsável por ancorar uma série de estudos no jornalismo de escuta.
Seja nutrindo um grupo fechado de Facebook, seja promovendo eventos presenciais para a escuta focalizada, o Listening Journalism deve estar presente na rotina das comunidades. Assim funciona em Ohio, no YourVoice, em Nova Jersey, na Carolina do Norte e em Filadélfia por meio do News Voices.
Dialogue Journalism
Além de olhar pro mundo buscando soluções (Construtive Journalism) e de exercitar a escuta como parte da atividade da redação (Listening Journalism), o jornalismo assume uma nova função social: facilitar o diálogo entre a população.
No contexto de uma forte polarização de ideias no cenário político mundial, Eve Pearlman e Jeremy Hay lançaram em 2017, na Califórnia, um serviço de conversas sustentadas por conteúdo jornalístico e mediadas por jornalistas. O Spaceship Media já reuniu grupos de posições frontalmente antagônicas sobre aborto, posse de armas, disputa por terras, imigração e, claro, sobre o governo Trump.
O roteiro de ação do Dialogue Journalism começa em grupos online, fechados, que em alguns casos se expandem para encontros presenciais. A dinâmica consiste na aplicação de 4 perguntas que todos os integrantes devem responder:
O que você pensa sobre o grupo oponente?
O que você acha que que eles pensam sobre você?
O que você gostaria que eles soubessem a seu respeito?
O que você gostaria de saber sobre eles?
As respostas dos participantes são mediadas por jornalistas que seguem o debate agregando informações apuradas previamente sobre o tema em questão. As sessões são acompanhadas por profissionais de veículos parceiros, que transformam o conteúdo dos diálogos em material jornalístico e sugestões de pauta.
O Dialogue Journalism segue sete princípios:
Construção: mapeamento de temáticas e comunidades em conflito.
Integração: descoberta do que um grupo pensa a respeito do grupo oponente.
Acolhida: organização de eventos ou momentos de conversa entre os dois grupos.
Experiência: criação de oportunidades para jornalistas e patrocinadores encontrarem um público altamente engajado e participativo.
Continuidade: as conversas seguem após os eventos e, nelas, os praticantes do Dialogue Journalism ajudam a manter o respeito entre os debatedores e a fazer com que a interação seja produtiva.
Alimentação: os jornalistas proveem pesquisa e informações apuradas que sustentam as discussões.
Compartilhamento: o Dialogue Journalism funciona em parceria com outros veículos de mídia, que usam o conteúdo das conversas para entender a relevância de certas pautas entre a população.
Como técnica central ou dispositivo auxiliar no processo tradicional de fazer jornalismo, as três modalidades reafirmam o público como a razão principal da existência de qualquer veículo de comunicação. Mais do que reaproximar jornalistas e leitores, ouvintes, usuários, telespectadores, o desafio parece estar na busca por um novo e relevante papel do jornalismo no dia a dia dos indivíduos.