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A história do jornalismo registra momentos fascinantes. Destaco aqui um deles. Um exemplo de profissionalismo, independência e consciência da essência do nosso papel na sociedade.

O veterano jornalista Carl Bernstein – famoso no mundo inteiro depois da série de reportagens, escrita com Bob Woodward, que revelou o famoso escândalo Watergate e derrubou o presidente Richard Nixon – não forma com o time dos corporativistas de carteirinha. Sua crítica, aberta, sincera e direta, aos eventuais desvios das reportagens representa excelente contribuição ao jornalismo. Suas palavras parece que foram escritas para os dias de hoje.

“O importante”, diz Bernstein, “é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos.”

O comentário é uma estocada nas atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade das marcas.

“Os jornalistas, hoje”, sublinha, “trabalham com um monte de preconceitos. Fazem quatro ou cinco perguntas para provocar alguma polemicazinha de nada, mas evitam iluminar a cena, fazer compreender.” Com a autoridade de quem sabe das coisas, Bernstein dá uma aula de maturidade profissional.

O bom repórter ilumina a cena, o jornalista manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, nem sempre é clara. Escapa, frequentemente, à perspicácia do leitor médio. Tem aparência de informação, mas não é. Daí a gravidade do dolo. Na verdade, a batalha da isenção, forte demanda da sociedade atual, enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência atrevida. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos próprios de certa delinquência editorial transformam um princípio ético irretocável numa grande farsa.

O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir.

A apuração de faz-de-conta representa uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade. É um artifício que transmite um simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade factual culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a reportagem. Cria-se a versão.

A imprensa tem caído nessa armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando sua credibilidade. Ainda não conseguimos de superar a síndrome dos rótulos. Alguns colegas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A reportagem é, ou deveria ser, sempre substantiva. O adjetivo é o enfeite da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.

É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. O leitor quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital. Ficará conosco de soubermos apresentar um produto de qualidade.

Estou convencido de que boa parte da crise que castiga a mídia pode ser explicada pelo isolamento de algumas redações, por sua orgulhosa incapacidade de ouvir suas audiências.

Outro problema: o negativismo e a falta de um jornalismo propositivo. Alguns setores da mídia, em nome da independência, castigam diariamente o fígado dos consumidores. Dominados pelo vírus do negativismo, perdem conexão com a vida real. O jornalismo não existe para elogiar, argumentam os defensores de uma imprensa que se transforma em exercício permanente de contrapoder. Tem uma missão de denúncia, de contraponto. Até aí, estou de acordo. A impunidade, embora resistente, está se enfrentando com o aparecimento de uma profunda mudança cultural: o ocaso do conformismo e o despertar da cidadania. Por isso, a imprensa investigativa, apoiada em denúncias bem apuradas, produz o autêntico jornalismo da boa notícia. Denunciar o mal é um dever ético.

A deformação, portanto, não está apenas no noticiário negativo, mas na miopia, na obsessão pelo underground da vida. O que critico não é o jornalismo de denúncia, mas o culto ao denuncismo e a ausência de um jornalismo propositivo. Estou convencido de que boa parte da crise que castiga a mídia pode ser explicada pelo isolamento de algumas redações, por sua orgulhosa incapacidade de ouvir suas audiências.

O jornalista de talento sabe descobrir a grande matéria que se esconde no aparente lusco-fusco do dia a dia. No fundo, a normalidade é um grande desafio e, sem dúvida, o melhor termômetro da qualidade.

Tem razão Carl Bernstein: não devemos sucumbir à tentação do protagonismo. Nosso ofício, humilde e grandioso, é o de iluminar a história.


Texto publicado originalmente em
https://carlosalbertodifranco.com.br/jornalismo/jornalismo-iluminar-a-historia.html

Quando falamos da constante luta pela informação é fácil imaginar que em um canto do ringue estão os grandes veículos de comunicação, com a paciência, experiência e credibilidade que só o tempo pode conceder. No outro, o adversário jovem e impetuoso das redes sociais, que não quer esperar soar o gongo para nocautear seu oponente com seus longos braços internéticos.

Todavia, é preciso nos questionarmos sobre uma coisa nessa batalha: ela deveria, de fato, estar acontecendo?
A verdade é que ela já começou, e ainda não podemos enxergar quem será o vencedor.

Podemos assisti-la de camarote quando, por exemplo, youtubers famosos, celebridades de todos os tipos começam a pressionar plataformas de produtos online, marcas e veículos importantes de mídia a se dobrarem perante a fúria do que ultimamente chamamos de “cultura do cancelamento”.

Neste cenário, porém, enquanto o trabalho do jornalismo deveria trazer novas ideias aos leitores, informar o público sobre as perspectivas e estar acompanhado dos mais recentes questionamentos, o poder influenciador das redes está – como bem disse Bari Weiss em sua carta aberta ao NYT – trabalhando para que o jornalismo encerre os debates e traga uma clareza moral que não é própria de sua natureza.

Enfim, o jornalismo pode ter vencido alguns rounds durante um tempo, mas quantos outros não perdeu nessa luta infame e infinda?

O momento é de rever práticas jornalísticas e de revisitar valores, até então, intocáveis da atividade. Dito dessa forma, o desafio que nossa indústria enfrenta parece simples e até óbvio.

Esta semana estive conversando sobre o tema com um técnico em informática de alguma cidade do Amazonas (o DDD que ele usava no WhatsApp era 92). E me chamou a atenção a tranquilidade e a clareza com que ele enxergava a solução para a crise no jornalismo.

[16:25, 27/07/2020] +55 92 xxxx-xxxx: Então tem YouTube, Instagram, Facebook, etc… Tudo que é rede social paga por visualizações, curtidas, etc…

[16:26, 27/07/2020] +55 92 xxxx-xxxx: É só evoluir

Adorei, especialmente, a parte do “é só evoluir”. Expliquei a ele que veículos não funcionam como influencers e que não podemos condicionar o nosso business a um terceiro (como as redes sociais). Mas realmente a visão sobre o que é “evoluir” para o jornalismo parece não estar suficientemente elucidada – nem mesmo para a própria indústria jornalística.

Por muito tempo, inovar correspondeu a experimentar novos formatos de conteúdo, empacotar as notícias de formas atraentes, compatíveis às múltiplas possibilidades que o meio digital oferece. Quebramos a cabeça em produzir conteúdo para redes sociais. Lembro como se fosse hoje, da estratégia “social first”. Demos nosso sangue e nossa alma para as plataformas de tecnologia porque era “in”, porque era bacana ser o primeiro a explorar tal ferramenta, porque no fim das contas a gente esperava que o público clicasse nos links e fosse para nossos sites.

O problema é que isso não aconteceu. As redes sociais deixaram de trazer todo aquele tráfego que nos seduziu entre 2010 e 2015. Além disso, se posicionou como mídia concorrente e atraiu a verba que os anunciantes investiam nos veículos. A ficha demorou para cair – e na maior parte das empresas, eu diria que ainda não caiu. Mas isso é tema para outro artigo…

Olhar de longe, em perspectiva

Evoluir, inovar, então, não está apenas na produção grátis de conteúdo para redes sociais. Tampouco no uso de novas linguagens e formatos. Fizemos isso e não foi suficiente. As empresas de mídia continuam encolhendo, o faturamento é esquálido e a atividade segue sob ameaça. Então, o que significa evoluir?!

Sempre acreditei que a melhor forma de resolvermos um problema é olhando de fora para ele, em perspectiva. Sim, é preciso ter conhecimento do mercado, mas também é fundamental um certo distanciamento para, inicialmente, entender que o jornalismo é “apenas” uma parte da vida em sociedade e que nossos veículos são um pedaço ainda menor da rotina das pessoas.

[Em tempo: conhecer as audiências, engajar o usuário são outros bordões associados à evolução no jornalismo. Elas têm sua verdade, mas adotá-los isoladamente, sem uma estratégia por trás, de novo, será desperdício de tempo e dinheiro.]

Exercício

Pois bem: nos cabe, antes de mais nada, identificar qual o espaço que ocupamos no mundo e na vida das pessoas. Este exercício pode soar algo “filosófico”, mas nos obrigará a enxergar o nosso produto desde outro ponto de vista, talvez mais próximo do olhar que o público tem em relação ao jornalismo.

Para o exercício funcionar bem, é importante respondermos como indivíduos – não como profissionais de uma empresa. 

  • Quantos conteúdos você consome por dia em um mesmo site jornalístico?
  • Você prefere conteúdos que tentam ser imparciais ou abertamente posicionados?
  • Você prefere conteúdos generalistas, de massa ou aqueles que falam de temas mais específicos aos seus interesses pessoais/profissionais?
  • Você consome jornalismo sempre do mesmo veículo ou prefere ter autonomia para escolher suas fontes de informação?

Fiz algumas destas perguntas a um grupo de jornalistas que participou de uma aula aberta do curso Empreender no Jornalismo, oferecido pelo Master Negócios de Mídia. As respostas me causaram surpresa. Uma boa surpresa! Pois estamos mais próximos de entender o jornalismo pelo ponto de vista da população – e não apenas pelo olhar do jornalista.

Nada menos que 35% dos colegas admitiram consumir até três conteúdos por dia num mesmo site noticioso. Apenas 17% afirmaram acessar mais de 10 notícias de uma mesmo produto. Diante deste cenário, pergunto: Por que insistimos em publicar conteúdo por toneladas, imaginando que o volume de trabalho se reflita diretamente numa audiência mais numerosa? Percebam que nem entrei no mérito da qualidade desse usuário, nem no valor do conteúdo editorial. Já discutimos, neste Orbis, casos de veículos que cortaram o volume de produção e registraram melhores resultados de audiência e negócio.

Isenção em xeque

Outra premissa centenária do jornalismo que entra em discussão – embora muitos jornalistas custem a admitir – se refere à demanda por conteúdo posicionado, seja politicamente, seja em relação a qualquer outro setor da sociedade.

Mais da metade dos colegas disse que prefere conteúdo posicionado. Se tantos de nós se sentem mais atraídos por veículos que assumem determinados valores, faz sentido sustentar o discurso da isenção?

Objetividade sempre foi um tema delicado – e utópico – no jornalismo. A ambição pela objetividade não é uma garantia de que ela se cumpra. Por muito tempo eu mesma defendi que o jornalista precisaria ao menos tentar sem objetivo, ainda que todos terminássemos relatando a realidade com base em nossos valores individuais ou corporativos, mesmo inconscientemente.

Quando o próprio jornalista escolhe conteúdo posicionado para consumir individualmente, não será o caso de abrirmos o jogo com o usuário e dizermos a ele, de uma vez por todas, qual o nosso lugar de fala? Não será mais honesto declarar nossos valores do que buscar sem sucesso uma pretensa e falida isenção?

Ora, o debate está polarizado. O mundo está polarizado! As bolhas algorítmicas não ajudam que este mindset mude, ao contrário! O veículo que se propuser à objetividade extrema e que consiga convencer os usuários a consumirem tal conteúdo com a mesma dedicação e preferência com que eles já consomem conteúdos posicionados talvez seja o próximo New York Times.

Já não se trata de ser contra ou a favor da objetividade. A evolução, nessa hora, passa por uma necessidade de adequação de certos valores jornalísticos ao espírito de nossos tempos. O mercado é outro, a demanda informativa da população é outra. Podemos insistir na busca pela isenção, mas enfrentaremos o sério risco de ficarmos falando sozinhos…

A informação posicionada já circula, bem ou mal, por mãos idôneas, outras nem tanto. E é para lá que a atenção do público vai. Não se trata de dar apenas aquilo que audiências querem, embora seja fundamental levá-las em conta. O ponto é que o jornalismo não tem poder suficiente para desfazer a polarização no imaginário popular. A cultura dos extremos surgiu e existe numa esfera muito mais profunda daquela onde atua nosso discurso. Poderíamos fazer nossa parte em dar o exemplo e insistir em mostrar os dois lados? Isso é fácil. O difícil é fazer o usuário a consumir essa informação.

A volta do jornalismo posicionado

É importante esclarecer: rever a objetividade não significa, em hipótese alguma, assumir um discurso falso ou militante. A verdade ainda é nossa matéria-prima. O que percebo é um movimento de naturalização do framing, de aceitação do viés no conteúdo editorial. Mais: sinto que as audiências já criaram uma expectativa de posicionamento dos veículos e buscam aqueles que simplesmente fortalecem seus pontos de vista.

É a era da pós-verdade. E por mais que doa ao nosso orgulho, não está nas mãos dos jornalistas, apenas, a reversão desse mindset. É preciso aceitar que os tempos são outros, a mentalidade vigente já não é mais a mesma do começo dos anos 2000. Ou jogamos o jogo com suas novas regras, ou estamos fora do mercado!

Este artigo da Wired e este outro, do NiemanLab, reforçam a tendência de que boa parte dos veículos voltarão a assumir posições, tal como era até meados do século XIX, quando partidos políticos financiavam jornais e incentivavam a venda de assinaturas. Naquela época não havia publicidade bancando a nossa indústria – hoje também não!

Jornalismo e democracia

Um grande amigo me ouve dizer essas coisas e se espanta: “Se não mostrar o outro lado não há debate! E o jornalismo é o lugar para o debate, onde a democracia se sustenta!” – sorry, querido, mas o público não lerá notícias contrárias ao seu ponto de vista com a finalidade de que este gesto os transforme em sustentáculos da democracia.

Pode ser decepcionante notarmos isso, mas a maior parte de quem está disposto a pagar por jornalismo não está preocupado com democracia. Os objetivos são outros, são pessoais e, sobretudo, que ajudem este usuário a se posicionar com mais força no viés em que ele já se enquadra. Essa afirmação não é leitura aleatória minha; está nesta pesquisa da Universidade de Michigan.

Sobre sermos fiéis a um mesmo veículo ou termos autonomia para escolhermos nossas fontes de informação, isso fica para outro artigo, porque este já está longo demais e poucos têm tempo suficiente para uma discussão tão estendida. Obrigada por ter chegado até aqui! Voltaremos! 😉


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.




A reputação está presente em nosso cotidiano, em tudo o que consumimos, de produtos e serviços aos relacionamentos pessoais e profissionais. É o que norteia nossas escolhas com base em valores morais e éticos, em credibilidade, em idoneidade, em qualidade. São elementos que, no conjunto, podem ser resumidos em um estado de confiança, de segurança em relação ao que investimos tempo, atenção ou dinheiro.

Ela é construída em longo prazo em uma base consistente de boas práticas que forja a estrutura que a permeia e cria um legado essencial de sobrevivência, especialmente em momentos de crise.

No que tange ao jornalismo e à imprensa em geral, a reputação tem sido balizadora importante no consumo das notícias nos últimos tempos, tendo a chance de resgatar públicos tragados pela websfera e pelos grupos de WhatsApp voltados à disseminação de fake news. E quando falamos em fake news, entendamos que compreendem não apenas a informação falsa, criada propositalmente para a conversão dos públicos aos interesses de quem a produz, mas também de informações imprecisas, sem fundamentos, sem bases concretas ou analíticas por quem a reproduz.

No efeito cascata que começa pela queda de audiência, caem também anunciantes e empregos nas redações, em um ciclo vicioso em que se entregar às mesmas armadilhas desonestas usadas pelo inimigo para sobreviver é o mesmo e único caminho para submergir.

Entra também neste cenário a pós-verdade, aquela em que as bases podem ser verídicas, mas são descontextualizadas, distorcidas nos mesmos moldes de interesses das fake news.

A verdade é que a oferta de consumo instantâneo de informações cada vez mais rasas pelas mídias digitais e, particularmente, pelas redes sociais, ajudadas por algoritmos viciados e comprados, tem se configurado em uma concorrência desleal na disputa pela atenção e retenção dos públicos pela imprensa.

No efeito cascata que começa pela queda de audiência, caem também anunciantes e empregos nas redações, em um ciclo vicioso em que se entregar às mesmas armadilhas desonestas usadas pelo inimigo para sobreviver é caminho certo para submergir.

O momento da virada para o jornalismo

Mas voltando ao ponto sobre a reputação ser a balizadora do consumo, vemos aumentar as oportunidades para o jornalismo se apresentar na separação do joio do trigo no campo da informação. E ele curiosamente se dá em meio ao aumento da polarização dos públicos sob todas as esferas editoriais, mas especialmente sob a pauta política e o que se desdobra a partir dela pelas pautas de saúde, educação, segurança, economia…, ou seja, tudo o que impacta os fatores de subsistência e desenvolvimento do indivíduo e da sociedade.

No Brasil e no mundo vemos todas essas pautas mais do que entrelaçadas atualmente, em meio ao efeito sistêmico da pandemia pela covid-19 e a propagação de informações em torno delas, nas mídias tradicionais e nas informais. 

A overdose de notícias conflituosas de todos os lados passou a gerar um efeito colateral tóxico, onde o filtro para o indivíduo se manter minimamente informado – e são – tem como base justamente a credibilidade das fontes, ou seja, a reputação de quem produz a notícia.

Se trata de um consumidor paradoxalmente mais crítico, que busca fontes opinativas e a personificação da notícia, para que possa interagir e não apenas digerir a informação.

Assim, o jornalismo que vem se construindo com uma base investigava séria e idônea, apresentando notícias com base nos preceitos da origem da imprensa, consegue resgatar o valor financeiro de seus conteúdos a partir do valor da sua prestação de serviço.

É um momento ainda de descobertas e reformulações de modelos, uma busca do equilíbrio pelo conteúdo crível e informativo agregado às formas dinâmicas do consumo e do consumidor moderno, tecnológico, hiper conectado e condicionado ao ultra processado. 

Se trata de um consumidor paradoxalmente mais crítico, que busca fontes opinativas e a personificação da notícia, para que possa interagir e não apenas digerir a informação.

Particularmente sobre este quesito, ao agregar a humanização na sua construção jornalística, os veículos e os jornalistas precisam estar ainda mais atentos ao desafio de equalizar suas pesquisas pelas fontes opostas de uma mesma pauta e ao espaço e caráter do registro dado a elas. Pois é justamente aí que é percebida e atestada a verdade nua e crua sobre a sua reputação e, consequentemente, todo o resultado que ela proverá.


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

Há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acreditam, ingenuamente, que a balburdia do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõe a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem, talvez involuntariamente, que a Internet tende a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório, um ambiente embalado ao som de Samba de Uma Nota Só.  

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes.

Em tempos de tentativas de censura à liberdade de expressão, precisamos desenvolver um constante exercício de autocrítica. A reinvenção do jornalismo passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos e não para suas audiências. Como disse João Pereira Coutinho, “não são as redes sociais que matam os jornais; são eles próprios que se suicidam quando seguem o exemplo das redes”.

Na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeça para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso?  Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas matérias. Trata-se de um fato percebido nas redes. Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela Internet.

Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais, frequentemente, têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar a seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção.

Ao retomar a ideia do artigo passado, em que falávamos sobre a vocação como um chamado à determinada realidade, podemos dizer que a profissão jornalística nasceu a partir do chamado de se contar histórias. Vide a trajetória da humanidade, que sempre foi marcada e sobreviveu à base de contos dos heróis antigos, deuses e até homens comuns que saíam em suas odisséias. 

Ao pensarmos neste contexto, qualquer semelhança entre jornalismo e literatura não é mera coincidência. Não à toa que os grandes narradores da história também foram grandes jornalistas – ou pelo menos exerciam a profissão que hoje conhecemos como tal. Dostoiévski, Charles Dickens, Daniel Defoe, Balzac, Machado de Assis, Graciliano Ramos… Todos queriam nos mostrar uma coisa: que a realidade não nos passa diante dos olhos como uma natureza morta, mas sim cheia de vida e vida própria. E não seria este o papel do jornalismo?

O jornalista Tomás Eloy Martínez, já no ano de 2002, nos dá um exemplo sobre esta relação: “Quando lemos que um terremoto em Bangladesh causou um número de cem mil vítimas, os dados nos surpreendem, mas não nos comovem. Contudo, se lemos, em vez disso, a tragédia de uma mulher que foi deixada sozinha no mundo após o tsunami e seguimos a história de suas perdas, passo a passo, saberíamos tudo o que há para saber sobre esse tsunami…” 

Destarte, pensar em resumir a atividade jornalística na cobertura de estatísticas, estudos acadêmicos, informações oficiais e até mesmo na opinião de especialistas seria destruir toda a humanidade presente em cada história e afogar a melhor profissão do mundo num mar de simplismo. Mas ainda bem que nossa realidade é bem diferente, não é? 😉

Há duas semanas, falávamos sobre como a literatura pode contribuir para o ressurgimento de uma narrativa jornalística mais real e humana. Hoje vou falar sobre como a mesma literatura nos traz, de forma sensata e real, a noção de tempo e de que modo esta noção pode agregar positivamente ao jornalismo.

Para dar o pontapé inicial, me apoio no artigo do jornalista Allan de Abreu, sobre a relação da literatura e jornalismo. Ele defende: “[…] pensam, os arautos do jornalismo, que o leitor não tem tempo para ler um grande texto, nem tem paciência para ‘decifrar’ uma frase construída além da meia dúzia de técnicas já decoradas pelo repórter e pelo editor e, por conseqüência, introjetadas no público.” Nesse sentido, tendo muito a concordar com ele. 

O ser humano nunca tem – e nunca teve – tempo para nada. As grandes obras literárias, e até mesmo os contos infantis, nos mostram que o ser humano sempre está correndo contra o tempo. No livro Momo e o Senhor do Tempo (1973), por exemplo, as personagens são devoradas – literalmente – pelos Homens Cinzentos, que têm o objetivo de consumir o tempo dos seres humanos. Esta é uma clara analogia ao tempo que perdemos com as tarefas repetitivas, burocráticas e que nos fazem, muitas vezes, perder os sentidos e esquecer de que temos uma vida humana. Mas gostaria de focar na personagem principal da novela de Michael Ende: Momo.

Em um determinado ponto da história, o autor nos conta: 

“O que Momo sabia fazer melhor do que ninguém era ouvir. […] Muito pouca gente sabe ouvir de verdade. E o jeito de Momo ouvir e entender era muito especial. […] fitava as pessoas com seus grandes olhos negros, e nelas surgiam pensamentos que nunca tiveram antes, como se lhes tivessem sido encravados por aquele olhar. Momo ouvia de um jeito que fazia os desesperados ou hesitantes de repente saberem o que queriam.” 

No fundo, caro leitor, Momo tinha esse “superpoder” porque, simplesmente, tinha tempo disponível e queria doá-lo para quem realmente interessava: as pessoas.

Por isso, o discurso de que o leitor não tem tempo para ler, frente à quantidade de informação que fica à sua disposição, me parece pouco razoável. Sobretudo em tempos que diretores e lideranças dos veículos classificam suas audiências com adjetivos como “atenta”, “exigente”, “bem informada” e “respeitosa”. O fato é que os seres humanos têm tempo para consumir as matérias de um jornal. Mas esse tempo só será dedicado àquilo que os interessa. Sempre estarão dispostos a escutar e a ler uma boa história que só os verdadeiros vocacionados – sim, os que são verdadeiramente chamados no sentido etimológico da palavra – ao jornalismo podem oferecer.

E assim, a literatura nos dá sua 2ª aula. Mas também deixa uma lição de casa. Afinal, vale a pena nos rendermos aos Homens Cinzentos e nos deixarmos devorar pelo tempo e pela correria das publicações jornalísticas em nome da informação de todos os fatos?  Ou melhor seria confiar que as verdadeiras histórias humanas – ainda que difíceis de serem encontradas, mais extensas, porém bem contadas – podem contribuir além de tudo para que o leitor enxergue a sua humanidade e a realidade como ela é?

O mercado de mídia tradicional para os jornalistas encolhe ano a ano. É um fenômeno mundial que assombra os profissionais. A boa notícia é que, do outro lado da balança, cresce exponencialmente a demanda por profissionais da comunicação especializados em Marketing Digital. É uma tendência que há mais de uma década vem se desenhando. E, entendam, de uma vez por todas, que veio para ficar. Tem muito espaço para os jornalistas se reinventarem nesse nicho de mercado, mesmo estando nos veículos de mídia tradicionais.

Os grupos de comunicação estão ávidos por profissionais capazes de propor projetos e soluções que ajudem a dar relevância aos produtos. Na disputa pelas verbas de mídia, os veículos sistematicamente precisam inovar para se manter interessantes para o público. E o diferencial, além da credibilidade, é a produção de conteúdo. 

Repensar os modelos de negócio e os produtos para atrair audiência e leitores já deixou de ser tarefa para a Alta Direção há tempos. Cabe a todos nós, jornalistas que somos, ocupar esse espaço e propor novos modelos de negócio e produtos. Mas aí vem uma questão: o que vamos fazer? Não há fórmula mágica e nem um único caminho! Cada um pode olhar as suas habilidades, seus interesses e propor soluções. 

Mergulhados na rotina diária da redação, reconheço que as urgências e demandas dominam. Mas não deixem para se qualificar quando o mundo desabar na sua cabeça…

Hoje, em pleno distanciamento social – e incertezas no mercado -, observa-se o crescimento de oportunidades de trabalho para jornalistas nos anúncios do LinkedIn, grupos de Facebook e WhatsApp. As habilidades mais requisitadas são funções de social media: especialista de SEO, gestor de mídias digitais, criação de anúncios, monitoramento de redes, gestor de comunidade e a produção de conteúdo, expertise que a maioria dos jornalistas é craque e tira de letra.

O conteúdo de qualidade é capaz de engajar a audiência, dar credibilidade e fazer a diferença numa estratégia cuidadosamente desenhada para decolar no mundo digital. Vivenciamos o crescimento exponencial dos podcasts e o surgimento de startups que fazem curadoria de conteúdo. Além disto, está cada dia mais sólido o conceito de desintermediação de marcas: empresas investindo na criação de plataformas próprias e na produção de conteúdo customizado.

Neste “novo” mercado estão as vagas mais interessantes. Mas centenas de jornalistas enfrentam a barreira inicial para ocupar e concorrer a essas vagas: a qualificação nas ferramentas indispensáveis para trabalhar a comunicação no ambiente digital. E todos nós precisamos urgentemente desenvolver essas habilidades. Mergulhados na rotina diária da redação, reconheço que as urgências e demandas dominam. Mas não deixem para se qualificar quando o mundo desabar na sua cabeça…

Me fiz essa pergunta várias vezes: qual é a dificuldade? E parte do problema, penso eu, é que a dificuldade vem de bloqueios que carregamos ao longo da existência. Mudar hábitos e conceitos não é fácil. Exige um esforço e ter tempo livre para repensar e reaprender.

Parar para seguir

O tema é a minha, a sua, a nossa transformação digital, que todos falam, todos sabem que precisam, mas que não conseguem enfrentar o desafio e transpor as barreiras.  Me fiz essa pergunta várias vezes: qual é a dificuldade? E parte do problema, penso eu, é que a dificuldade vem de bloqueios que carregamos ao longo da existência. Para citar alguns: bloqueio da tradição, do ocupado, do especialista e até bloqueio da geração. Mudar hábitos e conceitos não é fácil. Exige um esforço e ter tempo livre para repensar e reaprender. Digo que o “momento da pausa”, necessário pelo distanciamento social, é propício à abertura de novas frentes de aprendizado. Muitos jornalistas podem e devem aproveitar! E mesmo estando em veículos de mídia tradicionais, é possível manter o emprego vencendo o preconceito e se qualificar para atuar como um jornalista digital. 

A minha intenção, ao organizar as ideias que apresento aqui, é compartilhar um pouco da minha vivência e da jornada que embarquei pra abandonar os hábitos arraigados, processos e rotinas que me acompanharam por três décadas na imprensa tradicional e que hoje me permitem manter ativa, interessada, necessária, criativa e ainda estar no mercado de trabalho. Como acredito que conhecimento é para ser compartilhado, trago alguns dos insights e experiências da jornada que me deu um norte e ganhou força no início de 2016, depois de ser demitida da empresa onde tive contrato formal de trabalho por 25 anos, jornadas extensas e exaustivas de trabalho. Tempo bom, de muito idealismo e com toda a estrutura para realizar o que a minha criatividade permitia. Mas se tudo mudou, não adianta ficar parado. É hora de agir!

Reaprendizagem Criativa

A minha jornada de conhecimento tem várias âncoras. Reaprendizagem Criativa é uma delas. Para reaprender, é necessário abandonar o que não nos representa mais e entrar, de cabeça, no processo de conhecer as tendências. Estamos neste momento: o que está posto já não nos representa. E o novo ainda está sendo desenhado, está em construção e quero fazer parte dele!

Há quatro anos optei por ser uma profissional liberal. Desde então fiz diversos cursos rápidos no Brasil e fora do país. Nessa altura da minha existência não adianta mestrados e doutorados. Há um mundo de oportunidades, muitas gratuitas, para ajudar o jornalista a entender o momento de transformação e muitas técnicas a serem aprendidas. E a cada novo evento me vem a frase de Sócrates, o filósofo grego “só sei que nada sei”… Meus interesses vão da comunicação a assuntos de Inteligência Artificial, decoração, mindfulness, o que se passa no Vale do Silício, nos grandes players do mercado da comunicação, no Tik Tok e outras plataformas que estão emergindo. 

Quando não alimentamos pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos aprender alguma coisa nova, de fato.

Recentemente descobri que, intuitivamente, adotei no meu processo de requalificação e de reinvenção o shoshin, que é um conceito presente nas religiões e filosofias orientais, sendo um dos pilares do zen-budismo japonês. É também o título de um famoso livro da década de 70, de Shunryu Suzuki, “Mente Zen, mente de principiante”. Na prática, shoshin significa manter-se sempre aberto ao aprendizado. Isso inclui todas as formas de absorver conhecimento e habilidades

Transportei o conceito para o meu desafio de mudança na Era da Informação. Incorporei no meu mindset que a transformação digital estava trazendo um grande impacto para a profissão que adotei por vocação e paixão. O jornalismo não estava morrendo, mas se reinventado, abrindo novas possibilidades de modelos de negócios e de empresas, de desintermediação dos veículos de comunicação como publisher e o surgimento de startups focadas em curadoria de conteúdo e publicações digitais de nicho.

Um marco no meu processo de reaprendizagem foi a decisão de fazer, em 2016, o curso Gestão de Empresas de Mídia do ISE, Instituição associada à Universidade de Navarra, na Espanha, um centro de estudo da Comunicação e da Transformação Digital. Vibrei! No ano seguinte, lá estava eu na turma do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia. Conheci jornalistas que também estavam nessa jornada, interessados em abraçar o novo momento da profissão.

Muita discussão de casos e principalmente insights para pensar novos negócios. Contato com narrativas transmídia, projetos nativos digitais. Experiências no Brasil e noutros países. E a oportunidade de estar lado a lado com quem está pensando e fazendo o novo momento da mídia no Brasil. Uma troca muito rica que extrapola o aprendizado em sala de aula. Foi o início de um círculo virtuoso da minha reaprendizagem criativa. E uma ideia criativa é a soma de inputs que estão na sua cabeça. Daí vem a inspiração para você também fazer a transição para a comunicação na era digital. 

A mente de principiante

Voltando ao conceito do “shoshin”. Nossa “mente original” é sempre rica e autossuficiente. É uma mente vazia e aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante. Mas poucas na mente do expert que eu acreditava ser como veterana do jornalismo. Suzuki Sensei explica o conceito: “na mente do principiante há muitas possibilidades. Na mente do perito há poucas”. Ou seja, se você acha que já aprendeu o suficiente sobre um determinado assunto, no nosso caso, jornalismo, bloqueia sua mente e perde a oportunidade de aprender cada vez mais. Quando não alimentamos pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos aprender alguma coisa nova, de fato.

Um jornalista com mente de perito deixa de tentar aprender novas habilidades porque acha que já tem conhecimento suficiente. E, especialmente no novo momento do jornalista, isso é mortal! Novidades aparecem o tempo todo. Ideias sólidas são derrubadas de repente. Abordagens novas sempre jogam luz sobre velhos problemas mal resolvidos. Assim, o mais importante é manter a sua mente de principiante.

E onde vou chegar com todo esse processo de Reaprendizagem Criativa? Eu não sei… E como a resposta para o futuro do jornalismo também não é simples, essa também não é uma resposta simples para os profissionais jornalistas. Tenho muitos webinares pela frente….

Hoje faço consultoria em Gestão de Empresas de Mídia, Planejamento e Desenvolvimento de Estratégias de Comunicação e Gestão de equipes, projetos de produção de conteúdo, formato de produção audiovisual e recentemente, projetos de Inbound marketing e Brand Publishing. Aprendo a cada novo desafio. O home office, compartilhado com afazeres domésticos, demandas da família e um equilíbrio melhor entre a vida profissional e pessoal entraram no meu dia a dia. Sou mais calma, mais serena, mais feliz!

Há muito tempo, os grandes clássicos da literatura mundial nos mostram o quanto a linguagem literária e as histórias bem contadas podem afetar positivamente a vida do ser humano. Não à toa, contos e histórias como as de Cervantes, Dickens, Dostoiévski e Machado de Assis seguem atuais ainda hoje. Apesar de se tratar de um mundo diferente do jornalismo, a literatura tem muito a ensinar aos seus profissionais. 

Ainda que a “overdose” de informação seja um modelo constantemente adotado pelos veículos com o argumento de informar bem o leitor (e aqui deixo um relevante artigo para refletir sobre o assunto), a entrega dessa informação tem atingido níveis de qualidade cada vez mais preocupantes. Notas informativas com um “lide” engessado e que não informam nada além do óbvio, aspas que tomam conta de praticamente todo o texto e notícias que mais se parecem artigos científicos – de tantos especialistas que nelas falam – têm sido cada vez mais comuns nos conteúdos dos veículos.

Quando alguém é testemunha de um acidente na estrada ou de um histórico jogo de futebol, por exemplo, poucas coisas lhe interessaram tanto quanto o relato daquilo que presenciou pessoalmente. Pensando nisso, podemos dizer que as palavras das notícias não são simplesmente uma mera prestação de contas do que acontece na realidade. É muito mais que isso. As palavras são confirmações de que tudo o que vimos e tudo o que acontece pelo mundo aconteceu de verdade e com uma imensidão de detalhes que nossos sentidos não foram capazes de captar. Esse é o grandioso papel do jornalista! 

E é aí que a literatura dá a sua primeira lição. Afinal, é tão necessário gastar força, tempo e até mesmo capital, informando sobre tantos assuntos que, em sua maioria não afetarão a vida das pessoas, ou as poucas histórias humanas – tão bem contadas como as da literatura – podem fazer muito mais do que imaginamos?

Um dia desses, um grupo de jornalistas conversava sobre uma situação hipotética, em que as empresas jornalísticas não cobriam mais os pronunciamentos do atual presidente em razão de suas últimas decisões. Num determinado momento da conversa, alguém disse: “A imprensa do Brasil, de forma geral, é muito desunida. Iria se combinar de não cobrir os acontecimentos de Brasília, mas aposto como alguém iria quebrar a regra, só para garantir o furo.”

Apesar de o furo jornalístico ter perdido bastante valor com a chegada e o avanço da informação nos meios digitais, ele ainda pode ter um valor fundamental para que os veículos possam tornar seus conteúdos exclusivos. Contudo, e não de forma geral, atitudes como essa fazem com que as questões sobre o fim último de nossa profissão mereçam ser discutidas.

Afinal, em quem estamos pensando no momento de cobrir e descobrir os fatos? No público e, especialmente, nas questões que fazem sentido para suas realidades, ou em nossa própria vontade de sair na frente pela busca de uma novidade que, daqui a pouco, já se tornará antiga?