Há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acredita, talvez ingenuamente, que a agitação do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõem a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem que os algoritmos tendem a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório.
Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes. É preciso navegar com profissionalismo e seriedade.
A reinvenção do jornalismo, a recuperação do encanto, passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.
A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado e das narrativas divorciadas dos fatos. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos, e não para sua audiência.
É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeças para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.
Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.
Alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política e em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. Esta atitude não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.
Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.
Jornalismo sem brilho e sem alma é uma perigosa doença que pode contaminar redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro de asfalto. É preciso dar novo vigor à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, ético.
É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que, se a resposta for negativa, poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.
Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção. Chegou a hora do encantamento.
Há uma certa tendência no jornalismo de evitar escrever em primeira pessoa, o que se dá, em parte, pela necessidade de separar a história da opinião de quem a conta. Aqui no Orbis, entretanto, já argumentamos algumas vezes que há motivos interessantes para revisitar esta ideia. Portanto, começo este artigo fazendo uma confissão pessoal: fiquei extremamente impactado com uma recente leitura que fiz sobre o número de crianças que abandonaram as escolas nos últimos dois anos.
A matéria em questão figurava na edição semanal da revista inglesa Spectator, a qual assino e leio com regularidade – e a qual já analisamos por aqui. Entretanto, o fato de que a evasão escolar narrada esteja acontecendo no Reino Unido pode gerar uma dúvida sobre a relevância da situação, uma vez que não diz respeito ao Brasil. Reconheço a legitimidade do questionamento, mas a verdade é que todo este relato é muito mais importante como contextualização do que pelo fato em si. Explico melhor:
Embora a matéria em questão tenha me provocado um belo de um impacto, o que realmente importa é que, de início, tive pouquíssimo interesse em gastar com ela o meu tempo diário de leitura – na verdade, o fiz quase por falta de alternativa melhor. É claro, o tema é interessante, mas minha preferência, em geral, é por artigos sobre política, questões internacionais importantes e por aí vai. Mas o fato é que, após ignorar a publicação por vários dias, ela eventualmente me venceu e obteve o meu clique.
E aqui está uma questão realmente interessante no que diz respeito ao jornalismo: teria eu lido a matéria caso ela não tivesse passado a semana toda estampada no site? Certamente não. Caso este fosse mais um artigo que nasce hoje para ser ocultado amanhã após uma nova leva de publicações, ao invés de passar uma semana inteira insistindo para ser lido, ele certamente teria fugido do radar de muitos leitores como eu. Coisas assim são sempre uma pena, especialmente quando se trata de matérias bem apuradas que trazem novos insights e perspectivas sobre a realidade – e não aquelas que simplesmente apresentam polêmicas que nada são além de espuma.
Imagem da edição semanal da revista Spectator, destacando a matéria “As crianças fantasmas – os estudantes que nunca voltaram após o lockdown”
Em comparação com o que acontecia nas revistas, as matérias de jornais sempre tiveram um pequeno ciclo de vida. Ao passo que os textos das revistas deveriam se manter vivos por cerca de uma semana, o dos jornais passavam por uma reciclagem diária. Entretanto, o que era natural do jornal impresso, talvez esteja se tornando um problema no ambiente digital. As matérias não apenas continuam com sua alta rotatividade, mas agora isso acontece em um meio em que tudo parece superficial e efêmero. Como gerar a percepção de que o conteúdo que publicamos, o trabalho que fazemos, tem realmente um valor que justifique o tempo investido em leitura?
Ainda temos o hábito de argumentar que o noticiário é importante para que as pessoas se mantenham informadas ou, de forma mais grandiosa, para que a democracia se mantenha viva. Estar antenado, realmente, costuma ser uma motivação forte, uma vez que isso pode sempre render frutos profissionais. Atualmente, no entanto, é possível se manter informado acessando diversas publicações online ou mesmo via rede social. Nada disso garante que o leitor irá acessar o NOSSO veículo.
E neste sentido, a alta rotatividade de matérias pouco acrescenta para o apelo de um jornal em específico, uma vez que esta prática não acrescenta valor ao conteúdo publicado, mas ao contrário, faz com que ele se pareça efêmero. Olhando pela ótica do leitor, o grande volume de publicações e o pouco tempo que elas permanecem em destaque nos sites não gera a percepção de que é preciso estar acompanhando o noticiário com regularidade, pois há uma probabilidade real de que o público acabe por enxergar o conteúdo como tendo pouca substância.
Fitas cassetes no mundo do streaming
Recentemente foi noticiado que o Spotify iria lançar uma fita cassete comemorativa da banda Metallica. Iniciativa estranha para uma empresa de streaming? Talvez não. Tudo aquilo que não é tátil possui uma longevidade inferior ao que é material – pois se não tocamos, logo não parece real; se não parece real, logo se torna descartável.
Obviamente, o Spotify não deixará de ser uma plataforma de streaming, mas com essa iniciativa, lança ao mercado algo que, por ser palpável, possui um maior valor perceptível. As consequências são várias: a fita pode apelar a colecionadores, fãs da música e aos nostálgicos, dando ao Spotify um status superior de marca que realmente valoriza a música.
A solução para todas as empresas de mídia que migraram para o digital é retornar ao físico? Certamente não. Mas é importante entender que se nos propomos a aumentar a percepção de valor das publicações, então estamos fazendo isso em um ambiente que não joga a nosso favor.
O que fazer para que nossos produtos conquistem maior perenidade?
Algumas propostas que podem ser do interesse das empresas de mídia que buscam encontrar um diferencial e fortalecer o financiamento direto pelo leitor já são bastante discutidas e repercutidas aqui no Orbis. Argumentar sobre a importância da busca pela qualidade do conteúdo pode até parecer uma obviedade. Qual jornal não tem como meta publicar matérias bem apuradas e com credibilidade, afinal de contas? Entretanto, quando falamos na busca pela qualidade e diferencial do conteúdo, não nos referimos apenas a isso. Tratamos, especificamente, de quebrar com alguns padrões, exigir dos repórteres uma apuração profunda (mesmo que isso tome tempo), que escrevam de forma clara, mas também criativa, que não publiquem aquilo que todos os demais veículos estão publicando (ou ao menos, não da mesma forma). Fazer isso não é tão óbvio e menos ainda fácil. Exige uma formação excepcional da equipe de reportagem – e com isso, investimento de recurso e tempo. Exige, também, uma mudança de postura. Não é possível colocar tal plano em prática exigindo que cada repórter publique algo novo todo dia (ou várias vezes ao dia). Para este modelo funcionar, é preciso seguir a lógica do “menos é mais”.
Mas não é bem disso que estamos tratando neste artigo. O ponto aqui é buscar uma maior perenidade para o nosso conteúdo. Para isso, a qualidade e o diferencial são o ponto de partida, são o elemento sem o qual a perenidade jamais será possível, mas não o objetivo em si. A verdade é que de pouco adianta publicar uma matéria bem apurada e bem escrita para que ela seja ocultada por novas publicações feitas no dia seguinte – ainda mais se forem publicações que pouco agregam na vida do leitor.
Neste sentido, algo que as empresas de mídia poderiam tentar é de fato insistir nas matérias publicadas. Sim, renovar constantemente o conteúdo é uma prática seguida essencialmente por todos os jornais e revistas que migraram para o digital – mas esta prática não precisa ser uma cláusula pétrea do jornalismo. Por que não manter a rotatividade de parte do conteúdo, investindo complementarmente em matérias especiais, bem apuradas, propositivas, redigidas de forma criativa e visualmente interessantes? E como são trabalhosas, por que não deixar este conteúdo em destaque por alguns dias ou uma semana inteira, como faziam as antigas revistas?
Certamente, isso também exige que as empresas passem a alocar parte de seus esforços a procurar pautas frias (ou mornas) que consigam se manter relevantes por um período maior de tempo. E qual é o problema disso? Talvez haja mais vantagens do que desvantagens em tentar algo assim. Se, por um lado, as publicações acabem deixando de apelar ao instinto mais primitivo do homem de reagir àquilo que é polêmico e escandaloso, por outro podemos não apenas contribuir para a construção de uma sociedade mais saudável, como também podemos garantir um diferencial maior em relação aos concorrentes.
Polêmicas são como tempestades: elas até despertam uma curiosidade inicial, até que se tornam banais quando percebemos que nada mais são do que simples barulho. Assim, pouco conseguimos do público além de uma atenção momentânea. Ademais, este tipo de conteúdo é facilmente replicado por outros veículos. A verdade dura é que pouco ganhamos com a reverberação de escândalos além de cliques acidentais. Já artigos substantivos podem engajar fortemente o leitor e, quem sabe, com a publicação constante de matérias assim, garantir a sua fidelidade com o veículo.
Agradecem aqueles que, como eu, nunca leriam certas matérias – e certamente se arrependeriam caso não o tivessem feito.
O jornalismo está fustigado não apenas por uma crise grave. Vive uma mudança cultural vertiginosa, mas fascinante. A revolução digital é um processo disruptivo. Quebra todos os moldes e exige uma baita reinvenção corporativa e pessoal. Quem não tiver disposição de mudar a própria cabeça, rápida e efetivamente, deve tirar o time de campo. A aceleração da mudança não admite demora nas tomadas de decisão. No nosso mundo informativo, o desafio não admite olhar de retrovisor.
O jornalismo vai morrer? Não. Nunca se consumiu tanta informação como na atualidade. Mas o modelo de negócios está na UTI. A publicidade tradicional evaporou. E não voltará. Além disso, perdemos o domínio da narrativa.
O modo de produzir informação e o diálogo com o consumidor rompeu o esquema a que estávamos confortavelmente acostumados. As pessoas rejeitam intermediações – dos partidos, das igrejas, das corporações, dos veículos de comunicação.
O que fazer? Olhar para trás? Tentar fazer mudanças cosméticas? Fazer o papel ridículo das velhas de minissaia? Não. Precisamos olhar para frente e descobrir incríveis oportunidades.
Mas é preciso, previamente, fazer uma autocrítica corajosa a respeito do modo com vemos o mundo e da maneira como dialogamos com ele.
Na prática, entre outras coisas, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. Nessa lógica, a audiência deixa de ser simples destinatária da informação para ser também sua proponente. Um processo fácil de ser descrito, mas, como em toda mudança de paradigma, altamente complexo em sua execução.
Nós, os profissionais da imprensa, por mais absurdo e contraditório que isso possa parecer, nos acostumamos a trabalhar de costas para a audiência. Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão. Será que, de fato, por vezes não temos esquecido nossa função social para buscar a admiração e sintonia de valores de colegas que, seguramente, terão acesso ao material que publicamos e postamos?
No jornalismo, abalado pela avalanche digital e que aos poucos e sofridamente se reergue, não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial. Precisamos descobrir quem são, suas demandas reais, suas circunstâncias, seus interesses. Precisamos confessar a nós mesmos, envergonhados, que desconhecemos o rosto deles.
Abrir canais de diálogo, com sinceridade e verdadeiro interesse, é uma forma simples e barata de fortalecer os vínculos com a audiência. Passamos décadas certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, parece-me que somos. Mas precisamos abrir-nos para o público, para que ele também reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.
Impõe-se colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. Interagir com eles. Captar suas sugestões. Aceitar suas críticas. Abrir nossos espaços. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real.
Conversar com o leitor não é uma carga. É uma necessidade. E deve ser um prazer. Precisamos correr. Do contrário, corremos o risco de perder o momento da virada.
Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre.
Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma perigosa doença que contamina redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. É preciso dar novo brilho à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, isento.
É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história.
Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias, algemadas por chavões inconsistentes que há muito deveriam ter sido banidos das redações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro capital de um veículo, se esvai pelo ralo dos preconceitos.
É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os consumidores estão cansados do baixo-astral da imprensa. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende o produto. O cidadão que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.
O papel da informação no conturbado momento nacional mostra uma coisa: o jornalismo está mais vivo que nunca.
Empurrado pela tecnologia, o mundo transforma-se em um ritmo frenético. As mudanças no jornalismo, ao contrário, vêm a conta-gotas. Nas redações somos diariamente submergidos pela enganosa ideia de que para acompanhar o compasso das novidades que surgem do lado de fora é preciso, antes de mais nada, um poderoso suporte financeiro. Não discordo que o dinheiro seja necessário. No entanto, algumas medidas capazes de reacender esse potente, mas sonolento motor da mídia tradicional, independem de grandes fortunas.
Comecemos por derrubar os padrões culturais que há décadas ditam o trabalho nas redações. Na prática, dentre outras coisas, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. Nessa lógica, a audiência deixa de ser simples destinatária da informação para ser também sua proponente. Um processo fácil de ser descrito, mas, como em toda mudança de paradigma, altamente complexo em sua execução.
Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão.
Nós, profissionais da imprensa, por mais absurdo e contraditório que isso possa parecer, nos acostumamos a trabalhar de costas para a audiência. Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão. Será que, de fato, por vezes não temos esquecido nossa função social para buscar a admiração de colegas que, seguramente, terão acesso ao material que publicamos?
O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.
No jornalismo abalado pela avalanche digital e que aos poucos se reergue, não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial. Precisamos descobrir quem são, suas demandas reais, suas circunstâncias, seus interesses. Precisamos confessar a nós mesmos, ruborizados, que desconhecemos seus rostos.
Por muito tempo, enquanto a publicidade ainda pagava as contas dos veículos, ter acesso ao perfil médio do leitor servia unicamente como suporte para a venda de anúncios. O levantamento ficava normalmente sob a responsabilidade das áreas comerciais e raras vezes chegava às redações a ponto de impactar o conteúdo. Com a queda da receita publicitária, o caminho da monetização mudou: os leitores deixaram de ser vistos como meros consumidores de produtos anunciados e passaram a ser considerados potenciais assinantes, futuros adeptos dos modelos de associação que se começam a vislumbrar pelas redações do mundo. O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.
Na prática, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. No jornalismo não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial.
Abrir canais de diálogo é outra forma simples e barata de fortalecer os vínculos com a audiência. A barreira para que isso seja feito é, uma vez mais, puramente cultural. A pesquisa Potencial de membership e de relacionamento com o público nas redações brasileiras, encabeçada pelo Orbis Media Review, revela que nem todos os profissionais da mídia estão completamente abertos ao contato com o público. Dentre os entrevistados, 11% afirmaram não ter o hábito de ler os comentários feitos pelos leitores às suas matérias. Outros 14% afirmaram que nunca responderam tais comentários e 17% não se lembravam de quando havia sido a última vez que o fizeram. A boa notícia é que porcentagem relativamente alta já demonstra ter incorporado o hábito: 14% haviam se comunicado com a audiência no mesmo dia em que estava respondendo à entrevista e outros 21% afirmaram que naquela semana haviam entrado em contato com os leitores. O dado mais preocupante talvez seja o tempo que afirmam estar dispostos a dedicar a essa tarefa: 51% disseram que reservariam uma hora por semana.
Fortalecer os laços entre redação e audiência não deve ser entendida como uma estratégia utilitarista. Ações de motivação meramente financeira nesse campo nascem com os dias contados. Os veículos não necessitam apenas de assinantes que nos paguem as contas. Desejamos o relacionamento porque nele encontramos a razão de ser de nossa profissão. Não existem jornalistas sem leitores. Simples assim.
Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.
Demoramos muito para entender que o digital não era um concorrente em nosso setor. Ficamos mais preocupados em defender a sobrevivência dos meios tradicionais e, trancados em nossas convicções, não percebemos que todo o entorno passava por uma profunda transformação. Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.
Impõe-se colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisamos os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. Interagir com eles. Captar suas sugestões. Aceitar suas críticas. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real.
Conversar com o leitor não é uma carga. É uma necessidade. E deve ser um prazer. Precisamos correr. Do contrário, corremos o risco de perder o bonde da história.
Empurrado pela tecnologia, o mundo se transforma em um ritmo frenético. As mudanças no jornalismo, pelo contrário, vêm a conta-gotas. Nas redações, somos diariamente submergidos pela enganosa ideia de que, para acompanhar o compasso das novidades que surgem do lado de fora, é preciso, antes de mais nada, de um poderoso suporte financeiro. Não discordo que o dinheiro seja necessário. No entanto, algumas medidas capazes de reacender este potente, mas sonolento motor da mídia, independem de grandes fortunas.
Comecemos por derrubar os padrões culturais que, há décadas, ditam o trabalho nas redações. Na prática, dentre outras coisas, se trata de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. Nesta lógica, a audiência deixa de ser um simples destinatário da informação para ser também sua proponente. Um processo fácil de ser descrito, mas, como em toda mudança de paradigma, altamente complexo em sua execução.
Nós, profissionais da imprensa, por mais absurdo e contraditório que isso possa parecer, nos acostumamos a trabalhar de costas dadas à audiência. Uma frase que circula entre a classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão. Será que, de fato, por vezes, não temos esquecido nossa função social para buscar a admiração de colegas que, seguramente, terão acesso ao material que publicamos?
No Jornalismo abalado pela avalanche digital e que aos poucos se reergue, não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial. Precisamos descobrir quem são, suas demandas reais, suas circunstâncias, seus interesses. Precisamos confessar a nós mesmos, ruborizados, que desconhecemos seus rostos.
Por muito tempo, enquanto a publicidade ainda pagava as contas dos veículos, ter acesso ao perfil médio do leitor servia unicamente como suporte para a venda de anúncios. O levantamento ficava, normalmente, sob a responsabilidade das áreas comerciais e raras vezes chegava às redações a ponto de impactar o conteúdo. Com a queda da receita publicitária, o caminho da monetização mudou: os leitores deixaram de ser vistos como meros consumidores de produtos anunciados e passaram a ser considerados potenciais assinantes, futuros adeptos dos modelos de associação que se começam a vislumbrar pelas redações do mundo. O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.
Abrir canais de diálogo é outra forma simples e barata de fortalecer os vínculos com a audiência. A barreira para que isso aconteça é, uma vez mais, puramente cultural. A pesquisaPotencial de membership e de relacionamento com o público nas redações brasileiras, encabeçada pelo Orbis Media Review, revela que nem todos os profissionais da mídia estão completamente abertos ao contato com o público. Dentre os entrevistados, 11% afirmaram não ter o hábito de ler os comentários feitos pelos leitores às suas matérias. Outros 14% afirmaram que nunca responderam tais comentários e 17% não se lembravam quando havia sido a última vez que o fizeram. A boa notícia é que uma porcentagem relativamente alta já demonstra ter incorporado o hábito: 14% haviam se comunicado com a audiência no mesmo dia em que estava respondendo à entrevista e outros 21% afirmaram que naquela semana haviam entrado em contato com os leitores. O dado mais preocupante talvez seja o tempo que afirmam estar dispostos a dedicar a esta tarefa: 51% disseram que reservariam uma hora por semana. Muito pouco para quem tem agora uma necessidade vital de cativar o público. Os resultados completos serão divulgados no webinário realizado pelo Orbis Media Review, um hub de produção de conhecimento e análise de tendências do Master em Jornalismo,em parceria com a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e agendado para o próximo dia 9.
Fortalecer os laços entre redação e audiência não deve ser entendida como uma estratégia utilitarista. Ações de motivação meramente financeira neste campo nascem com os dias contados. Os veículos não necessitam apenas de assinantes que nos paguem as contas. Desejamos o relacionamento porque nele encontramos a razão de ser de nossa profissão. Não existem jornalistas sem leitores. Simples assim.Demoramos muito para entender que o digital não era um concorrente em nosso setor. Ficamos mais preocupados em defender a sobrevivência dos meios tradicionais e, trancados em nossas convicções, não percebemos que todo o entorno passava por uma profunda transformação. Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em suas vidas. Desta vez, a solução parece depender apenas de nós. Precisamos correr. Do contrário, corremos o risco de perder o bonde da história.