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Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade e no equilíbrio da sua opinião. A credibilidade não é fruto de um momento. É o somatório de uma longa e transparente coerência. É daí que nasce a credibilidade.

A sociedade está cansada do clima de radicalização que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo militante. Um denominador comum marca a superficialidade que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: a politização.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas.

Em tempos de ansiedade digital, a reinvenção do jornalismo reclama revisitar alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas. Os desvios não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é, ou deveria ser, determinada por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blablablá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

Artigo publicado em 16/05/22, na Gazeta do Povo.

Empurrado pela tecnologia, o mundo transforma-se em um ritmo frenético. As mudanças no jornalismo, ao contrário, vêm a conta-gotas. Nas redações somos diariamente submergidos pela enganosa ideia de que para acompanhar o compasso das novidades que surgem do lado de fora é preciso, antes de mais nada, um poderoso suporte financeiro. Não discordo que o dinheiro seja necessário. No entanto, algumas medidas capazes de reacender esse potente, mas sonolento motor da mídia tradicional, independem de grandes fortunas.

Comecemos por derrubar os padrões culturais que há décadas ditam o trabalho nas redações. Na prática, dentre outras coisas, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. Nessa lógica, a audiência deixa de ser simples destinatária da informação para ser também sua proponente. Um processo fácil de ser descrito, mas, como em toda mudança de paradigma, altamente complexo em sua execução.

Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão.

Nós, profissionais da imprensa, por mais absurdo e contraditório que isso possa parecer, nos acostumamos a trabalhar de costas para a audiência. Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão. Será que, de fato, por vezes não temos esquecido nossa função social para buscar a admiração de colegas que, seguramente, terão acesso ao material que publicamos?

O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.

No jornalismo abalado pela avalanche digital e que aos poucos se reergue, não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial. Precisamos descobrir quem são, suas demandas reais, suas circunstâncias, seus interesses. Precisamos confessar a nós mesmos, ruborizados, que desconhecemos seus rostos.

Por muito tempo, enquanto a publicidade ainda pagava as contas dos veículos, ter acesso ao perfil médio do leitor servia unicamente como suporte para a venda de anúncios. O levantamento ficava normalmente sob a responsabilidade das áreas comerciais e raras vezes chegava às redações a ponto de impactar o conteúdo. Com a queda da receita publicitária, o caminho da monetização mudou: os leitores deixaram de ser vistos como meros consumidores de produtos anunciados e passaram a ser considerados potenciais assinantes, futuros adeptos dos modelos de associação que se começam a vislumbrar pelas redações do mundo. O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.

Na prática, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. No jornalismo não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial.

Abrir canais de diálogo é outra forma simples e barata de fortalecer os vínculos com a audiência. A barreira para que isso seja feito é, uma vez mais, puramente cultural. A pesquisa Potencial de membership e de relacionamento com o público nas redações brasileiras, encabeçada pelo Orbis Media Review, revela que nem todos os profissionais da mídia estão completamente abertos ao contato com o público. Dentre os entrevistados, 11% afirmaram não ter o hábito de ler os comentários feitos pelos leitores às suas matérias. Outros 14% afirmaram que nunca responderam tais comentários e 17% não se lembravam de quando havia sido a última vez que o fizeram. A boa notícia é que porcentagem relativamente alta já demonstra ter incorporado o hábito: 14% haviam se comunicado com a audiência no mesmo dia em que estava respondendo à entrevista e outros 21% afirmaram que naquela semana haviam entrado em contato com os leitores. O dado mais preocupante talvez seja o tempo que afirmam estar dispostos a dedicar a essa tarefa: 51% disseram que reservariam uma hora por semana.

Fortalecer os laços entre redação e audiência não deve ser entendida como uma estratégia utilitarista. Ações de motivação meramente financeira nesse campo nascem com os dias contados. Os veículos não necessitam apenas de assinantes que nos paguem as contas. Desejamos o relacionamento porque nele encontramos a razão de ser de nossa profissão. Não existem jornalistas sem leitores. Simples assim.

Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.

Demoramos muito para entender que o digital não era um concorrente em nosso setor. Ficamos mais preocupados em defender a sobrevivência dos meios tradicionais e, trancados em nossas convicções, não percebemos que todo o entorno passava por uma profunda transformação. Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.

Impõe-se colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisamos os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. Interagir com eles. Captar suas sugestões. Aceitar suas críticas. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real.

Conversar com o leitor não é uma carga. É uma necessidade. E deve ser um prazer. Precisamos correr. Do contrário, corremos o risco de perder o bonde da história.


Publicado originalmente em https://carlosalbertodifranco.com.br/jornalismo/leitor-conversa-necessaria.html

Quando clichês passam a dominar imaginários, fica fácil esquecer porque fazemos o que fazemos e deixar de refletir sobre a forma como atuamos. Afinal, ainda que clichês possam ser verdadeiros, eles também implicam uma ausência de pensamento. Jornalistas não estão imunes a este processo de torpor coletivo causado pela “clichelização” da atividade. Ao afirmar o porquê de a imprensa existir, com frequência pensamos em grandes ideais como a defesa da democracia ou a luta pela liberdade de expressão. Mas e quanto ao público, qual o nosso dever perante ele?

No artigo da semana passada foi falado da importância da literatura no trabalho jornalístico. Aqui dou minha contribuição compartilhando a visão do Camarada Underground – personagem fictício do filósofo Roger Scruton que não se encaixava nem no autoritarismo político da Tchecoslováquia comunista e nem na sociedade materialista norte-americana onde foi morar após a queda do Muro de Berlim. Para ele, o ambiente em que hoje vivemos é instantaneamente preenchido por cada novo acontecimento, de forma que “o agora é uma presença universal”. A consequência disso é uma “inegável falta de entendimento, já que o presente só faz sentido em relação ao passado, que é instantaneamente afogado pela torrente de novas informações”.

Voltando ao tema central, por que trabalhar em busca de fins grandiosos se aquilo que de fato produzimos com frequência serve mais para atordoar o público do que para dar sentido à realidade em que está inserido? Se almejamos grandes ideais, não seria mais próprio, então, que tivéssemos como missão ajudar as pessoas a discernir o presente com conteúdo rico em contexto e dar a elas um norte com publicações abertas a reflexões?