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Resultado do primeiro turno das eleições

O mês de abril começou agitado na Europa. Além da guerra na Ucrânia, que continua no centro das atenções, houve duas eleições cujas consequências serão continentais. Na Hungria, Viktor Orbán foi reeleito com maioria considerável dos votos sobre a oposição, o que garantirá um próximo mandato tranquilo para o atual Primeiro-Ministro. Se por lá o status quo permaneceu (ainda que seja um status quo que incomoda profundamente a elite política europeia), a França, por outro lado, terá de aguardar mais duas semanas para definir seu próximo presidente em uma eleição cujo resultado trará incertezas no âmbito doméstico e internacional.

Os primeiros indícios do que poderá ser o futuro do país foram apresentados no dia 10 deste mês, quando os franceses foram às urnas para votar no primeiro turno das eleições presidenciais. Com a apuração dos votos terminada, sabemos que o segundo turno será disputado entre os mesmos candidatos que protagonizaram o pleito de 2017: Emmanuel Macron e Marine Le Pen. O atual presidente obteve 27.8% dos votos enquanto Le Pen conseguiu o apoio de 23.2% do eleitorado. O resultado parece um déjà vu, mas apenas na superfície. Por dentro, a situação é completamente diferente. Assim, independentemente do candidato que seja eleito, o futuro político da França dificilmente será similar aos últimos 5 anos.

 

A ambição continental de Macron

No livro “Notes on Nationalism”, George Orwell faz uma importante distinção entre dois conceitos cuja diferença é sutil, mas de grande relevância: patriotismo e nacionalismo. O primeiro conceito, segundo ele, significa devoção a um lugar e um modo de vida específico que certas pessoas acreditam ser os melhores do mundo. Patriotas, no entanto, não desejam impor sua cultura aos outros. Já o propósito do nacionalista é assegurar mais poder e mais prestígio para a nação ou para “a unidade em que ele deseja depositar sua própria individualidade”. Estas unidades não são necessariamente territoriais – e menos ainda envolvem o território de onde tais pessoas proveem. Ao contrário, elas podem ser uma ideologia ou um movimento político mais amplo que, por mais contraditório que possa parecer, não tem vínculos necessários com a nação. A exemplo, comunistas tiveram, ao longo da história, uma lealdade maior com o movimento proletário internacional do que com o desenvolvimento específico de sua nação. Seus adeptos, por sua vez, sentiram-se mais fortemente vinculados à União Soviética no século passado do que aos seus países de origem.

Macron não é um comunista e nem mesmo um nacionalista segundo costumamos entender o termo de forma intuitiva. Sua lealdade, afinal, não parece ser inteiramente destinada à França como unidade territorial. Mas se aceitamos o conceito dado ao termo por Orwell, então podemos enxergar Macron como um outro tipo de nacionalista: aquele cuja lealdade é destinada a uma ideologia e a uma outra unidade política. Assim, o atual presidente pode ser enquadrado como um liberal pouco conectado a valores tradicionais de família, pátria e religião que qualificam a direita conservadora. Igualmente, sua ambição maior, conforme argumentam os jornalistas Gavin Mortimer e Jonathan Miller, parece ser a liderança da Europa como um todo.

Desde que abandonou o cargo em 2021, Angela Merkel abriu um vácuo de poder no continente. Embora Olaf Scholz com seu governo de coalização indeciso, uma vez que une demasiados partidos, tenha reagido à investida russa contra a Ucrânia com uma firmeza maior do que a esperada, Macron é a liderança de maior expressão do continente no atual momento. Mais, esta é uma liderança que ele não parece hesitante em tentar exercer.

Seu projeto para o continente varia. O ex-presidente americano Donald Trump foi muito criticado por suas posições contundentes contrárias à OTAN. Macron, por sua vez, também fez suas críticas à organização, dizendo em 2019 que ela estava sofrendo de “morte cerebral”. Sendo a França a maior potência militar do continente – se excluirmos o Reino Unido da equação –, seu propósito com tal afirmação não era, no entanto, concentrar mais poder militar em seu próprio país. Ao contrário, o objetivo de Macron é a criação de um exército coordenado pela União Europeia. Este projeto garantiria maior relevância internacional e autonomia estratégica à organização, uma vez que tornaria o bloco menos dependente da OTAN. Esta autonomia decorre do fato de que os EUA, cujos objetivos nem sempre estão alinhados com os propósitos europeus, são a maior potência da OTAN e, portanto, influenciam fortemente em suas decisões.

Com o acesso da França à presidência do Conselho Europeu no início do ano, o governo de Macron publicou um plano de 76 páginas com objetivos ambiciosos para o futuro da União Europeia. Já em 2019, o atual presidente havia delineado algumas metas para atingir aquilo que chamou de “renascença europeia”. Sua visão para o continente envolve verdadeiras reformas na estrutura da organização. Em relação ao espaço Schengen, por exemplo, que atualmente determina a livre circulação entre cidadãos dos estados-membros da UE, a França pretende, entre outras coisas, reforçar a cooperação e suporte aos países confrontados com desafios específicos em suas fronteiras. Isso inclui o emprego de guardas de fronteiras e fiscalização aérea. No âmbito social, seu governo busca negociar a criação de um salário-mínimo para a União Europeia apropriado às condições de cada país. Além disso, há propostas para ações coletivas no combate às mudanças climáticas, soluções para a crise gerada pela Covid-19 e mais.

Todas estas propostas, aplicáveis ou não, indicam um candidato à reeleição que busca reforçar ainda mais o papel da União Europeia na política do continente. Diferentemente do que ocorre em países como Espanha, Suécia e Holanda, a população francesa se mantém pouco entusiasmada em relação às políticas multilaterais da organização. É assim que surge Marine Le Pen novamente como alternativa política. Considerando o recente resultado eleitoral, ela tem chances reais de ameaçar o segundo mandato de Macron e suas ambições continentais.

 

Le Pen e uma União Europeia enxuta    

A utilização de termos como xenofobia, racismo e populismo tem frequentemente explicado de forma simplista situações de grande complexidade. Assim tem sido com a candidata Marine Le Pen, cujo pai Jean-Marie era um provocador que defendia ideias esdrúxulas sobre o nazismo, imigração e até mesmo o crescimento populacional da África. Suas posições políticas acabaram se tornando um fardo para a própria família, além de deixar uma mancha extremamente negativa sobre o nome Le Pen. Ao longo dos anos, sua filha Marine tentou desintoxicar seu partido e seu próprio sobrenome da herança deixada pelo pai, o que envolveu, inclusive, a expulsão de Jean-Marie do Front National, partido que criara na década de 1970.

Entre boa parte da população francesa, a desintoxicação levada a cabo por Marine funcionou. De 2012 até a eleição atual, sua candidatura tem se tornado cada vez mais consistente e competitiva. Já a mídia francesa e internacional, por sua vez, continuam tratando Le Pen como candidata da extrema-direita. Ao menos em termos econômicos, essa caracterização é estranha. Uma recente análise estatística avaliou o manifesto de campanha da candidata à presidência como sendo majoritariamente de esquerda. A ênfase em questões sociais como assistência médica, redistribuição de renda e proteção ao funcionalismo público responde por 66% de sua plataforma política. Essa é uma mudança que vem se consolidando desde que Le Pen assumiu o controle do partido em 2011 (quando mais de 60% das políticas econômicas eram liberais) e explica, em parte, o sucesso de sua campanha em 2022. A guerra na Ucrânia, afinal, elevou as preocupações dos franceses em relação à economia do país.

Le Pen também amenizou seu discurso para se tornar mais “presidenciável”. Isso envolveu inclusive as pautas migratórias que sempre lhe geraram a alcunha de xenófoba. Por isso, Marine tem sido contundente em dizer que não tem problema com o Islã especificamente, mas apenas com os radicais que não se integram ao país e que tem perturbado seriamente a ordem social francesa com ataques terroristas. Essa agenda continua torcendo o nariz dos bien-pensantes, mas nem por isso deixa de ser uma pauta legítima – sobretudo em um país onde o conflito cultural tem gerado barbaridades como o assassinato do professor Samuel Paty, decapitado por um refugiado da Chechênia em 2020 após ter apresentado uma caricatura do profeta Maomé em uma aula sobre liberdade de expressão.

Além disso, a União Europeia sempre foi outro assunto de importância para Le Pen. Ainda em 2017, quando perdeu as eleições para Macron, ela defendia que a França saísse da organização. Já em 2022, seu discurso mais ameno passou a defender apenas que o bloco volte às suas origens como uma entidade limitada ao comércio e cooperação econômica. Mesmo adotando uma agenda mais suave sobre o tema, ela ainda se distingue consideravelmente da política de Macron focada no aprofundamento da intervenção europeia na política dos países-membros.

Le Pen é uma nacionalista no sentido mais comum do termo – ou ainda uma patriota seguindo a concepção de Orwell, dado que não há indicações de que ela pretenda ou deseje impor a cultura francesa aos outros. Ainda assim, ela tem enfrentado acusações de ser fascista todas as vezes que se lançou candidata à presidência. Além da acusação ser absurda e insensata, há ainda o perigoso erro de banalizar o fascismo. Caso a ideologia fundada por Mussolini e levada às últimas consequências por Hitler pudesse ser resumida ao nacionalismo, o fascismo seria permanente na história da humanidade e não um movimento político excepcional que deixou sua mancha no século passado. Le Pen não tem ambições territoriais, não busca a tomada ou consolidação do poder pela força, e nem a formação de um braço paramilitar que garanta seu monopólio de poder.

Não há dúvidas, no entanto, que ela seja uma defensora do conceito de nação com uma cultura a ser preservada e defendida. Le Pen também foi acusada de ser simpatizante de Vladimir Putin – acusação ainda mais pertinente no atual momento político da Europa. De fato, sua campanha em 2017 foi irrigada com investimentos de bancos russos. Neste ano, por sua vez, o dinheiro tem originado da Hungria – país cujo governo de Viktor Orbán também se mostra simpático à Rússia. Isso resulta, em grande parte, do fato de que Le Pen não tem conseguido investimentos de bancos franceses que preferem não associar sua imagem à candidata.

Sua identificação com Putin, no entanto, deriva do fato de que ele defende os interesses de seu país, e não necessariamente por ser um autocrata disposto a sacrificar inúmeras vidas em função de suas ambições territoriais. Quando a Ucrânia teve sua autonomia comprometida pela invasão russa, portanto, Le Pen foi coerente ao condenar o ataque, argumentando que “a soberania das nações não é negociável, a liberdade das nações não é discutível”. Além disso, se mostrou aberta a receber refugiados ucranianos – aqueles que, segundo ela, são refugiados de verdade ao contrário de jovens africanos em busca de melhores condições econômicas.

Para Le Pen, a atual disputa eleitoral não é entre direita e esquerda, e sim entre nacionalistas e pós-nacionalistas. Nisto reside a maior diferença entre os dois candidatos que disputarão o segundo turno das eleições no dia 24 de abril. De acordo com Le Pen, Macron considera a nação um velho conceito que precisa ser eliminado. Seja isso um exagero ou não, o fato é que o atual presidente demonstra ter mais interesse em liderar um projeto europeu ambicioso do que comandar o seu próprio país. Já Le Pen adota um discurso mais ponderado sobre diversas das pautas que defendia anteriormente, mantendo, ainda assim, seu projeto político local em que o interesse da França é colocado em primeiro lugar.

 

Consequências da eleição

Dizer que Macron é pouco amado em seu país provavelmente seria um eufemismo. A situação real é que grande parte dos franceses tem uma verdadeira ojeriza ao atual presidente, especialmente no interior do país. Macron, afinal, é visto por muitos como representante da elite bancária, da grande mídia e de um projeto europeu posto acima das necessidades da França. No momento, ele ainda é tido como favorito para conseguir a reeleição, mas não de forma acachapante como em 2017 quando bateu Le Pen no segundo turno por uma diferença de mais de 30% dos votos. Desta forma, caso se consolide, seu segundo mandato tende a ser ainda mais turbulento que o primeiro.

É verdade que no primeiro turno das atuais eleições, Macron foi o candidato mais votado. Ao mesmo tempo, é fácil esquecer que aproximadamente 72% do eleitorado o rejeitou – um dado tornado pior quando se considera que o atual presidente conta com pouca militância ao seu redor. Muitos dos que votaram em Macron em 2017 o fizeram por rejeitar uma candidata que era vista como demasiadamente radical. Com uma guerra em andamento e a mesma candidata como alternativa para o segundo turno, Macron pode novamente ter o voto daqueles que preferem uma opção segura em cenário de incerteza. No entanto, ainda que isso lhe garanta um novo mandato, este voto não lhe dá cinco anos de governo tranquilo.

Como bem aponta o historiador e pesquisador John Keiger, o ciclo eleitoral na França realmente tem três etapas, sendo duas delas formais: as eleições para presidente e para o parlamento que ocorre nos dias 12 e 19 e junho. Já o terceiro ciclo é de cunho puramente social e ocorre quando os cidadãos saem às ruas para dar vazão às suas frustrações em protestos contra o governo.

De partida, as eleições parlamentares tendem a ser negativas para Macron. O surgimento de Jean-Luc Mélenchon ainda mais à esquerda do tradicional Partido Socialista – cuja candidata Anne Hidalgo obteve o resultado pífio de menos de 2% dos votos – deverá ser uma dor de cabeça no parlamento. No primeiro turno das eleições, Mélenchon ficou em terceiro lugar com 22% dos votos. Caso o resultado se repita nas eleições de junho, o país terá um parlamento mais radicalizado e pouco aberto a negociações. Do lado da direita algo similar deve acontecer. O partido de centro-direita Les Républicains se desmantelou com os 4.8% de votos obtidos por Valérie Pécresse. Seus políticos mais aguerridos devem se juntar ao grupo de Marine Le Pen ou Éric Zemmour, que ficou em quarto lugar nas eleições presidenciáveis com 7.1% dos votos. Com um parlamento dividido entre estes dois grupos, Macron terá de buscar alianças com o pouco que deverá restar dos partidos Socialista e Republicano a fim de assegurar sua governança, o que dificilmente acontecerá.

É no “terceiro ciclo” eleitoral, no entanto, que a situação política da França se torna ainda mais incerta. Já durante seu mandato, Macron encontrou forte oposição das ruas ao seu governo. O ponto mais crítico foram os protestos dos gilets jaunes (coletes amarelos) que tiveram início em 2018 e duram até hoje, embora a pandemia causada pela Covid-19 tenha arrefecido as manifestações. É verdade que a França tem uma constante tendência de inquietação social. No atual momento, no entanto, este cenário parece ainda mais delicado. Uma eventual vitória de Macron se dará pela relutância de boa parte do eleitorado à presidência de Le Pen, e não por uma convicção na qualidade de seu governo. Portanto, é de se esperar que o ressentimento da população com a situação política do país continue vivo. A vitória de Le Pen, por sua vez, pode suscitar perigosa e violenta desordem nos banlieus – subúrbios que abrigam grande parte dos imigrantes do país. Este terceiro ciclo das eleições é o mais perigoso pelo seu alto grau de incerteza. Ninguém é capaz de prever que tipo de protestos podem surgir, o grau de revolta e suas consequências no curto, médio e longo prazo.

Ao olhar de forma mais ampla para este cenário de incerteza local é possível perceber como ele também repercute em todo o continente. Bruxelas, onde fica a sede da União Europeia, certamente está atenta ao que acontece na França. Sua torcida é para que Macron vença e mantenha a política de fortalecimento da instituição. No entanto, é justamente este fortalecimento do bloco que tem causados cada vez mais disputas com determinados países-membros. O Reino Unido foi o caso mais emblemático, mas o leste europeu também tem se tornado uma pedra no sapato dos burocratas europeus. Conforme a organização angaria mais poderes, sua autoridade entra em conflito com a autonomia e soberania dos estados-membros. Os burocratas de Bruxelas certamente não são fãs de Le Pen, mas talvez a aspiração da francesa de que o bloco volte a ser destinado à cooperação econômica poderia ser precisamente a salvação para as disputas internas que corroem a União Europeia de dentro para fora.