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Nacionalismo

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Nacionalismo se tornou uma palavra feia no vocabulário político internacional mais ou menos desde que passou a ser associado ao nazismo. É natural que governantes defendam o interesse de seus respectivos países, mas principalmente no ocidente, falar abertamente sobre isso não costuma render boas nem simpáticas manchetes. Um dos motivos é que o nacionalismo costuma ser visto como uma postura individualista, antiquada e odiosa, defendida por quem busca privilegiar o seu próprio país em detrimento dos outros. Nos dias atuais e segundo a ortodoxia moderna, um político que deseja manter uma boa imagem pessoal deve adotar características opostas: ser aberto a todos, buscar pluralidade, defender fronteiras livres e reger a nação segundo padrões, normas e doutrinas internacionais.

No entanto, é importante apontar que a associação entre nacionalismo e nazismo é altamente questionável. O fascismo se formou a partir de uma doutrina ideológica centralizadora, é verdade, graças à visão de Mussolini de que “tudo está no Estado, e nada humano ou espiritual existe, e menos ainda tem valor, fora do Estado”. Sob o comando de Hitler, no entanto, tal doutrina nunca foi usada para fortalecer o Estado-nação exclusivamente. Ao contrário, as aspirações de Hitler podem ser muito mais facilmente caracterizadas como imperialistas do que como nacionalistas, como aponta o acadêmico israelense Yoram Hazony: “A Alemanha Nazista era, de fato, um Estado imperial em todos os sentidos, buscando pôr um fim, de uma vez por todas, ao princípio de independência nacional e a autodeterminação dos povos”.

De fato, a política de Hitler para os judeus nunca se limitou à geografia. Ao contrário, ele começou por anexar e, mais tarde, invadir outras nações a fim de implementar um programa global de extermínio e de dominação. Além de fortalecer o Estado alemão, seu objetivo era instaurar um Terceiro Reich que, segundo Hazony, se inspirava no “Primeiro Reich” do Sacro Império Romano-Germânico “com seu reinado de mil anos e aspirações universais”. Seguindo, portanto, esta análise, o projeto de Hitler era especialmente baseado na expansão imperial alemã sem respeito por fronteiras, diferentes formas de governo e tradições.

As raízes do nacionalismo

Nada disso tem a ver com os princípios de soberania nacional estabelecidos pelos europeus no século XVII. O nacionalismo surge e se consolida, primeiro na Europa e depois no mundo, como ordenamento internacional onde uma nação respeita a outra, independente de suas diferenças. Como muitas das práticas políticas, esta ordem só foi gerada como reação a uma situação insustentável e desastrosa que precisava ser corrigida: isto é, uma série de conflitos entre nações e impérios europeus que devastaram a Europa Central entre 1618 e 1648.

Mapa que apresenta a situação religiosa da Europa central em 1618. Em azul, é apresentada a predominância do catolicismo. Já nas regiões de domínio Habsburgo, a leste, o protestantismo era majoritário.

A Guerra dos Trinta Anos, como ficou chamada, foi o auge de uma tensão iniciada cem anos antes pelo surgimento e florescimento do protestantismo onde hoje é o norte da Alemanha. Vendo a unidade espiritual católica do Sacro Império Romano-Germânico se desfazer neste período, a dinastia Habsburgo buscou, por décadas, conter os avanços do protestantismo. O que seria um conflito religioso interno entre regiões protestantes e uma dinastia católica acabou por abarcar diversos outros Estados europeus que buscavam defender os seus próprios interesses estratégicos.

A França é o maior exemplo disso. Em tese, era de se esperar que a dinastia Bourbon apoiasse seus vizinhos Habsburgos com quem compartilhavam a fé católica. Como política de Estado, no entanto, era benéfico para a França manter os territórios da Europa Central divididos (a Alemanha só foi unificada dois séculos mais tarde, em 1871). Caso eles fossem unificados pela já dominante dinastia Habsburgo, dariam ao Sacro Império Romano as condições de conquistar o continente europeu e passariam, portanto, a constituir uma ameaça direta à soberania francesa. Após trinta anos de guerra, delegações de diversos países assinaram diferentes tratados que ficaram conhecidos como Paz de Westfália e cujos resultados não foram apenas pôr fim aos conflitos que tomaram conta da Europa, mas criar uma ordem internacional baseada na soberania da nação.

Mapa de 1884 mostrando a Europa pós-Paz de Westfália.

Este novo ordenamento seguia, em suma, a premissa de igualdade entre os Estados soberanos, independente de eles terem estruturas políticas ou religiosas diferentes. A Paz de Westfália tornou-se, segundo o ex-Secretário de Estado Americano Henry Kissinger, “um ponto de inflexão na história das nações porque (…) o Estado, não o império, a dinastia ou a confissão religiosa, foi consagrado como pedra fundamental da ordem europeia” e gerou, com isso, um conceito que “tomava a multiplicidade como seu ponto de partida e unia uma múltipla variedade de sociedades, cada uma aceita como uma realidade, numa busca comum por ordem”.

É claro que isso não significou a paz universal ou uma ordem inabalável de respeito entre Estados. Como mostra a história, a Europa e, mais tarde, o mundo se veriam frequentemente envoltos em diversos outros conflitos e guerras nos séculos seguintes. Ainda assim, o princípio de nação soberana permaneceu, de forma que, enquanto alguns países utilizavam de seus próprios interesses para avançar e conquistar territórios, outros defendiam a si próprios e uma ordem baseada não em princípios morais (o que permitiria a um Estado alegar legitimidade moral para subjugar o outro) e sim na ideia de soberania e naquilo que viria a ser chamado de autodeterminação (o que passaria a conferir ilegitimidade às conquistas pela força).

Desta forma, as guerras que viriam a ser travadas dentro da mentalidade westfaliana foram circunscritas ao interesse nacional. Na busca por obter vantagens políticas e econômicas, as nações entraram em guerras limitadas em escala, que exigiam o investimento de menos recursos e geravam um menor grau de miséria e de destruição. Os conflitos europeus que provocaram perdas massivas, por sua vez, não estiveram circunscritos à defesa do interesse nacional. Estes, ao contrário, foram baseados na imposição de uma ordem ou ideologia universal a todas as nações, o que fez com que causassem muito mais destruição do que as guerras pragmáticas entre nações que possuíam interesses específicos conflitantes. Este ponto é explicado por Hazony e merece citação:

“As guerras que assombram a Europa – e, com isso, o mundo – não foram (…) guerras entre Estados nacionais buscando ganhar vantagem sobre os seus rivais. Ao contrário, elas foram guerras ideológicas, travadas em nome de alguma doutrina universal que deveria trazer salvação a toda a humanidade. Por causa desta doutrina universal, exércitos foram enviados pelo mundo para tragar uma nação após a outra, com o objetivo de derrubar a ordem estabelecida em cada nação conquistada”.

Além da Guerra dos Trinta Anos, esse foi o caso das Guerras Napoleônicas que buscaram estabelecer uma ordem liberal e imperial francesa em todo o continente e resultaram, efetivamente, na queda de diversas monarquias tradicionais europeias. A Segunda Guerra Mundial, como já foi dito, também é exemplo de conflito ideológico baseado em uma visão de mundo distorcida e uma “teoria universal perversa de como a salvação da humanidade deveria ser alcançada”.

O termo nacionalismo, portanto, contém em si uma complexidade muito maior do que a simples defesa do interesse nacional. Ademais, nacionalismo não implica a busca ilimitada pela expansão territorial. Esta prática bélica sempre esteve mais próxima dos impérios e dos ideólogos racionalistas que, julgando terem descoberto uma ordem política, social ou moral absoluta e universal, nunca se intimidaram em tentar impô-las indiscriminadamente às outras nações.

Nacionalismo (ou ausência de) nos dias de hoje

No último dia 24 de junho, a Suprema Corte americana entrou no centro dos holofotes mundiais. O motivo? Por 5 votos a 4, os juízes da instituição derrubaram uma decisão datada de 1973, que garantia o direito constitucional ao aborto no país. Como tem acontecido com preocupante frequência, logo após o veredito, os Estados Unidos rapidamente foram pegos por uma onda de militantes enfurecidos e dispostos a se manifestarem violentamente contra o ato. A um oceano de distância, o presidente francês Emmanuel Macron também foi rápido no gatilho, publicando em sua conta no Twitter que “O aborto é um direito fundamental para todas as mulheres. Ele deve ser protegido. Eu gostaria de expressar minha solidariedade às mulheres cujas liberdades estão sendo minadas pela Suprema Corte dos Estados Unidos”.

O comentário pode parecer uma simples tuitada sem maiores consequências. De fato, ninguém espera que tal observação vá colocar a França em pé de conflito com os EUA. Ainda assim, a opinião de Macron não deixa de ser relevante, especialmente por refletir um comportamento que tem se tornado cada vez mais comum entre as lideranças liberais europeias: a proclamação indiscriminada de ideias e princípios da atualidade como se fossem valores eternos e universais. Isso pode ser visto tanto na defesa do aborto quanto em relação a diversas outras pautas que agora fazem parte da ortodoxia progressista ocidental, as principais delas vinculadas às pautas identitárias.

Independentemente das opiniões pessoais sobre estes assuntos, podemos refletir sobre a forma como eles têm sido propagados por lideranças políticas e quais as implicações disso internacionalmente.

A Paz de Westfália, como observado, foi responsável por colocar a nação como elemento central da política doméstica e internacional dos países europeus. O significado disso, na prática, foi o surgimento da ideia de soberania nacional e autodeterminação, onde cada país podia assumir o modelo político e a doutrina religiosa que mais lhe conviesse. Para além de suas fronteiras, a política internacional era formulada a partir do interesse de Estado – o que, por vezes, significava guerra contra outra nação, embora estas fossem limitadas em recursos gastos e na destruição causada justamente por estarem circunscritas aos interesses pontuais da nação.

O ordenamento westfaliano foi quebrado todas as vezes em que o interesse nacional foi substituído por doutrinas ideológicas que, justamente por serem ideológicas, nunca estiveram limitadas a fronteiras. As já citadas Guerras Napoleônicas foram conflitos que abrangeram todo o continente e alteraram o ordenamento político de diversos países pela força. Suas motivações, no entanto, nunca estiveram circunscritas ao interesse nacional. Ao contrário, foram guerras motivadas pela ideologia e produzidas, em grande medida, por um movimento político anterior que também se pretendia universal e não meramente nacional: a Revolução Francesa que “ressuscitou (…) as paixões da Guerra dos Trinta Anos, substituindo o impulso religioso do século XVII por uma cruzada laica”. De acordo com os princípios dessa ideologia, segundo Kissinger, “todas as monarquias eram, por definição, tratadas como inimigas. Como elas não abririam mão do poder sem resistir, a Revolução, para se impor, seria forçada a se voltar para uma cruzada internacional com o objetivo de conquistar a paz mundial pela imposição dos seus princípios”.

Um padrão histórico pode ser observado: quando o interesse nacional é priorizado, os conflitos tendem a ser restritos àquilo que é benéfico à nação. Por uma questão de incompatibilidade, as ambições nacionais dificilmente serão universais. Por sua vez, quando a ideologia e princípios morais tomam conta das políticas de Estado, os conflitos, quando acontecem, buscam sempre se estender o tanto quanto possível.

Na Europa atual, e principalmente, entre os países mais ocidentais, as pautas ideológicas e de valores têm sequestrado a política nacional com crescente regularidade. Países que compõem a própria União Europeia têm sofrido com isso. Os dois principais exemplos são a Polônia e a Hungria, cujos governos têm sido punidos em função de diversas políticas públicas contrárias à orientação ideológica da organização.

No caso da Hungria, as discordâncias se dão, entre outras coisas, pelas diferenças entre o primeiro-ministro Viktor Orbán e as lideranças políticas europeias acerca da pauta identitária de gênero. Estes embates tornaram-se particularmente inflamados em 2021, quando uma legislação proibindo a disseminação de materiais escolares que promovem a homossexualidade e mudança de gênero foi aprovada no país. A União Europeia não gostou e algumas lideranças nacionais também vociferaram contra. O primeiro-ministro holandês Mark Rutte, por exemplo, disse que a Hungria “não tem mais por que estar na UE”. Macron não permaneceu calado e também afirmou que “lutar contra leis homofóbicas significa defender as liberdades individuais e a dignidade humana”. Dezessete outras lideranças europeias assinaram uma carta prometendo “continuar lutando contra a discriminação da comunidade LGBTI, reafirmando nossa defesa de seus direitos fundamentais”.

A briga entre a Polônia e a União Europeia, por sua vez, se dá principalmente pela insistência do governo polonês de lutar contra a supremacia da lei europeia sobre a sua própria constituição. Entretanto, o país também é malvisto pelas lideranças do continente pelo posicionamento não alinhado aos seus próprios valores progressistas. Assim, a UE tem insistido que os Estados-membros mais conservadores merecem ser punidos. Especialmente nos últimos anos, a organização tem ameaçado interferir nos assuntos domésticos destes países usando seu poder econômico.

Tais políticas sociais são legitimamente debatidas no âmbito interno de cada nação. Como referência para a política internacional, no entanto, as pautas de valores (especialmente valores recentes e ainda não consolidados entre a população) causam mais divisões do que consensos.

Ao vincular normas morais e culturais – sobretudo normas que estão longe de se tornarem consensuais – à política externa de seus países, as lideranças liberais do Ocidente têm frequentemente colocado a ideologia acima dos interesses puramente nacionais.

Os valores atuais podem ser considerados pertencentes a todos os seres humanos. No entanto, é preciso lembrar que doutrinas universais foram causa, ao longo da história, dos mais profundos e danosos conflitos que a humanidade já viu. O nacionalismo, por sua vez, restringiu a ação bélica do Estado a interesses palpáveis, concretos e de menor dimensão, enquanto disseminou a ideia de soberania e autodeterminação. Este conceito pode ter se tornado antiquado, mas resgatá-lo é tão necessário quanto lembrar os danos causados pelo absolutismo moral das ideologias.

Desde que a Rússia lançou sua ofensiva contra a Ucrânia no dia 24 de fevereiro, a Europa se viu na curiosa posição de sentir-se, ao mesmo tempo, ameaçada e fortalecida. A invasão, é claro, gerou preocupações de que o conflito pudesse se alastrar para outros países europeus além de causar mais transtornos à economia do continente. Putin deixou a situação ainda pior quando ordenou que as forças nucleares de seu país fossem colocadas em alerta máximo poucos dias após o início do conflito. Embora a situação tenha sido e continue sendo temerária, a guerra parecia trazer ao menos uma boa notícia: a união dos países europeus após alguns anos de desgastes e conflitos internos.

O símbolo máximo deste desgaste interno havia sido a decisão tomada pelo Reino Unido de sair da União Europeia, mas não parou por aí. O futuro da OTAN também foi colocado em questionamento após Donald Trump chegar ao poder nos EUA em 2017. Para o então presidente americano, os EUA deveriam se afastar da agenda de cooperação multilateral e dar prioridade à posição de “America First”. Ao mesmo tempo, Trump também criticava diversos países europeus por não cumprirem a meta de investimento mínimo na organização (2% do PIB). Segundo relatório de 2021, apenas sete dos trinta Estados-membros investem ao menos 2% de seu PIB no orçamento de defesa da OTAN (são eles Grécia, EUA, Polônia, Reino Unido, Croácia, Estônia, Letônia e Lituânia).

Embora esta política americana fosse vista com maus olhos e criticada por ser isolacionista e nacionalista, a própria recusa dos europeus de investir o mínimo necessário em defesa demonstrava um desinteresse frente ao futuro da instituição. Emmanuel Macron, que sempre defendera o fortalecimento dos poderes da União Europeia, por sua vez, tampouco parecia muito comprometido com a OTAN, afirmando que ela sofria de “morte cerebral” em 2019. É certo que o presidente francês não criticava a OTAN pelos mesmos motivos que Trump. Seu objetivo, ao contrário, era a criação de um exército europeu que daria mais autonomia estratégica ao continente.

Ainda assim, o protagonismo dado por Macron à União Europeia não mudou o fato de que ela estava dividida internamente. Na Europa ocidental, ainda prevaleciam os políticos favoráveis ao bloco, mas os eurocéticos continuavam deixando os burocratas de Bruxelas – sede da UE – em estado de constante alerta. Se os ditos nacionalistas e populistas da Europa ocidental representavam um potencial de ameaça à coesão do organismo, em parte do Leste Europeu, por sua vez, eles já haviam alcançado o poder. Polônia e, principalmente a Hungria, são exemplos disto.

Tanto a OTAN, quanto a União Europeia continuam existindo, mas conversas sobre “Frexit” e “Polexit” (saída da França e da Polônia, respectivamente, do bloco europeu) certamente não eram bons sinais de vitalidade das organizações. A guerra na Ucrânia, no entanto, pareceu renovar ambas as entidades, sobretudo a OTAN. O motivo para isto, no fundo, é muito simples: a Rússia é um gigante frente aos países europeus. Sua economia pode até ser menor que a da Alemanha, da França, do Reino Unido e mesmo da Itália. Seu poder, porém, reside em como ela utiliza seus ativos. Ao passo que a maior parte dos europeus abandonaram parte considerável do controle sobre o setor energético, tão importante para a soberania nacional, há anos a Rússia utiliza suas reservas de gás natural para abastecer seus vizinhos ocidentais de forma estratégica: permitindo que os países mantenham suas luzes acesas e indústrias funcionando, ao mesmo tempo em que restringe ações vigorosas contra a própria Rússia por medo de que o abastecimento seja cortado. Ademais, a Rússia tem pouco menos que o dobro de habitantes que o maior país europeu (145 milhões de cidadãos frente aos 83 milhões da Alemanha), além de ser uma potência nuclear.

Se a OTAN servia como escudo de proteção contra uma ameaça potencial da Rússia, ela passou a ser vista, principalmente por países do leste e do norte da Europa, como uma necessidade após a invasão à Ucrânia. Finlândia e Suécia são exemplos claros disso. Ambos os países foram militarmente neutros durante a Guerra Fria, mas estão prestes a abandonar sua antiga política de não-alinhamento ao pedir para entrar na OTAN – algo que não deve tardar a acontecer. Como escreve Timothy Marshall, cujo livro já foi resenhado aqui no Orbis, os países do leste europeu conhecem uma verdade geográfica vital: “se você não está na Otan, Moscou está próximo e Washington D.C. está distante”. A atual guerra só deu mais razão a esta frase.

Ao mesmo tempo que a invasão russa deixou toda a Europa em estado de alerta, no entanto, ela também trouxe como consequência algo que Putin talvez não tenha calculado: a revitalização da razão de ser da OTAN. Se antes a Europa estava dividida internamente e o Tratado do Atlântico Norte parecia sem propósito, agora passou a haver um motivo concreto e urgente para os diversos países europeus buscarem políticas comuns a fim de conter o ressurgimento da Rússia como ameaça militar. A questão a ser pensada é a seguinte: essa união é real ou apenas circunstancial? Assim que a guerra terminar, é possível esperar que a Europa permaneça unida ou as velhas rachaduras de antes deverão voltar a aparecer?

Um Continente Dividido entre Globalismo e Nacionalismo

A União Europeia, em muitos sentidos, é uma organização contraditória. Ao mesmo tempo que ela busca manter o continente unido e em paz, suas políticas cada vez mais centralizadas tem resultado, na prática, em um crescente conflito entre nações que buscam manter um maior grau de soberania e outras – incluindo a própria UE – que desejam concentrar mais poder no âmbito supranacional (uniões políticas multinacionais cujo poder é delegado pelos Estados-membros)

Esta queda de braço entre o poder local e o poder supranacional, por sua vez, permitiu que partidos políticos contrários à União Europeia tenham ganhado relevância por dar voz a um sentimento negligenciado – e até mesmo atacado – pelos partidos tradicionais. O caso mais claro de sucesso foi o UKIP (UK Independence Party, ou Partido de Independência do Reino Unido), que conseguiu pressionar o então Primeiro-Ministro britânico David Cameron a levar adiante o referendo que resultou no Brexit. Embora a saída da União Europeia tenha sido aprovada por voto direto da população, não faltaram acusações ao UKIP de ser radical, nacionalista, populista e até mesmo xenófobo.

Antes que isso acontecesse, entretanto, o acadêmico português João Carlos Espada já alertava para o crescente apelo dos movimentos políticos e populares eurocéticos. Em edição de 2014 do Journal of Democracy, ele chegou a concordar que muitos destes partidos eram de fato radicais, mas seu apelo crescia entre os eleitores não por causa do radicalismo, mas por serem os únicos que davam voz a um sentimento popular latente e legítimo:

O motivo para o seu sucesso (partidos eurocéticos) reside menos na radicalização dos eleitores europeus do que naquilo que todos estes partidos têm em comum: darem voz a uma reinvindicação ignorada pelos partidos liberais-democráticos. Esta reinvindicação consiste no apelo para descentralizar mais poderes ao nível ‘local’ (o que significa, no contexto da União Europeia, ao nível nacional), e para devolver poderes para as mãos dos parlamentos nacionais.

Por trás deste fenômeno está o fato de que a descentralização da política europeia é considerada um assunto ilegítimo por grande parte da classe política do continente. É comum que partidos políticos concordem a defendam as normas constitucionais de seus respectivos países (ou mesmo de uma organização supranacional como acontece na Europa). Mas respeitando este ordenamento jurídico, muitas discordâncias podem existir entre os representantes democraticamente eleitos. Desta forma, é legítimo e até benéfico que haja debate sobre questões como gastos públicos, privatização de empresas, políticas migratórias, desde que elas não interfiram no arranjo constitucional de determinada nação.

O problema na Europa é que a discussão sobre a descentralização dos poderes adquiridos pela União Europeia não é aceita como parte do debate legítimo da política. Ao contrário, tal assunto é frequentemente rejeitado de forma dogmática, como se fosse assunto constitucional inviolável e indiscutível. Assim, praticamente todos os partidos tradicionais da política europeia tem se ausentado e mesmo lutado para impedir este debate de acontecer, gerando um vácuo de representação que vem sendo preenchido apenas por partidos e políticos “outsiders” rapidamente acusados de ameaçar a estabilidade democrática do continente com seu populismo, radicalismo e nacionalismo. Ora, a marginalização de um debate legítimo e democrático em nome da própria democracia não é apenas uma incoerência, mas também uma violação aos princípios que tornam qualquer país livre. Ademais, este posicionamento também é perigoso como bem aponta Espada:

Entregar a tais partidos políticos (eurocéticos) um assunto poderoso ao tratar a posição de ‘mais Europa’ (em contrapartida à defesa de mais autonomia aos estados-nação) como um princípio sacrossanto é um erro múltiplo: faz destes partidos mais fortes; semeia confusão ao permitir que preferências normais pela descentralização sejam identificadas com uma agenda iliberal; expõe qualquer um que exprima ligeiras tendências pela descentralização a suspeitas de ‘extremista’.

Desta forma, o que se vê no continente europeu não é, necessariamente, uma radicalização de partidos e eleitores céticos quanto à União Europeia, mas a acusação de radicalismo por parte de grupos políticos que se negam a aceitar a discussão sobre mais autonomia ao estado-nação como algo legítimo. Na falta, portanto, de meios para debater este assunto sem sofrer rapidamente a pecha de radical, e sem que haja maneiras efetivas de reduzir o poder adquirido nas últimas décadas pela UE, resta à parcela considerável do eleitorado abraçar a marginalização imposta justamente pelos partidos tradicionais. Quanto mais assuntos são retirados da esfera do debate legítimo, mais limitada se torna a democracia, uma vez que as demandas outrora razoáveis passam a ser acusadas, com cada vez mais frequência, de serem radicais.

A União Europeia continua sendo defendida pela maior parte dos europeus. A sua taxa de aceitação permanece alta em países como Espanha, Portugal, Alemanha, Itália e mesmo algumas nações do leste europeu como a Polônia. Não há razão, portanto, em negar que as vozes eurocéticas sejam ouvidas, já que elas sequer constituem a maioria do eleitorado nos principais países do bloco. No entanto, ao adotar esta postura, os partidos tradicionais acabam, eles próprios, gerando um radicalismo que não tinha razão para existir e que corrói a Europa internamente.

União Substancial ou Circunstancial?

É preciso reconhecer que o propósito da OTAN e da União Europeia são diferentes. Enquanto a primeira organização é essencialmente militar, a segunda existe para fins de cooperação econômica e política. Os motivos que fazem uma prosperar ou naufragar, portanto, não necessariamente afetam a outra. Ainda assim, ambas só existem enquanto houver unidade entre os países que as compõe. Desta forma, uma maior união em torno da OTAN, causada neste momento pela guerra à Ucrânia, pode representar uma maior união entre todas as nações. Mesmo que a UE não forneça benefícios militares tão urgentes neste momento, ela representa um ponto de unidade entre países que não se viam tão claramente ameaçados desde o fim da Guerra Fria.

O problema para a Europa é que toda esta união é circunstancial. Passada a guerra, as mesmas rachaduras que vinham crescendo nos últimos anos devem voltar a aparecer. A guerra na Ucrânia, afinal, não resolveu nenhum dos problemas existentes no seio do continente, isto é, o conflito entre aqueles que desejam delegar mais poderes à União Europeia e entre os que preferem resgatar a autonomia de suas nações, bem como os atritos frequentes entre as constituições de cada país e as decisões supranacionais vindas de Bruxelas.

Se a falta de unidade europeia é, essencialmente, um problema interno, não há por que esperar que um elemento externo vá solucionar tal questão. A disputa entre o poder supranacional e o poder local existe no mundo todo. Na Europa, esta problemática é ainda mais presente, uma vez que a União Europeia exerce sua autoridade diretamente em cada um dos Estados-membros. Enquanto os governos locais e as entidades supranacionais não interferem uma na outra, os conflitos permanecem adormecidos. Conforme a poder internacional cresce, entrando em rota de colisão com a soberania nacional, no entanto, mais estes conflitos se fazem presentes.

A guerra aberta contra a Ucrânia mostrou ao Ocidente, de forma franca, que ainda existem adversários dispostos a confrontar a ordem liberal por eles promovida. Embora este seja um desafio urgente para os europeus, é preciso lembrar que as feridas que dividem o continente não deixaram de existir e devem voltar a ficar aparentes assim que a guerra terminar. Quando isto acontecer, será necessária uma análise interna profunda. O Reino Unido já decidiu sua posição: entre delegar poderes à União Europeia ou resgatar sua soberania nacional, optou pela segunda. A Europa continental eventualmente terá de fazer o mesmo questionamento acerca do âmbito onde o poder político deve ser depositado. A guerra promovida pela Rússia pode influenciar os países europeus a adotar uma posição ou outra, mas no final, o futuro do continente deve ser decidido principalmente pelo resultado desta tensão entre os governos locais e o poder supranacional.