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Toda a vez que surge um novo veículo de jornalismo, dois fenômenos acompanham o lançamento:

  • a promessa de que este veículo vai revolucionar o mercado de mídia;
  • a sensação de que isso não passa de mais um embuste.

Com a recém-lançada “Semafor” – que iniciou as operações hoje –  não é diferente. Em março deste ano li na Axios sobre uma nova publicação em gestação por dois grandes nomes da mídia norte-americana: Justin Smith (ex-chefe da Bloomberg Media) e Ben Smith (ex-colunista de mídia do New York Times e ex-editor-chefe do Buzzfeed News). Alguns investidores achavam o projeto “muito vago” e fugiam dele. No entanto, foram necessários apenas quatro meses para a história mudar.

O então chamado Project Coda prometia ser um produto jornalístico de elite, disposto a preparar o terreno para uma cobertura intensiva das eleições presidenciais de 2024, além de ter verticais de tecnologia, finanças, clima, segurança internacional e mídia. Mas o carro-chefe já estava decidido e seria mesmo a política norte-americana.

A movimentação dos Smith chamou a atenção do mercado não apenas pela audácia – e astúcia – de criar um veículo jornalístico em meio à profunda crise que o setor enfrenta. A dupla andava passando o chapéu entre milionários do setor, como Jessica Lessin, fundadora do icônico The Information, David Bradley, presidente emérito da The Atlantic, John Thornton, cofundador do Texas Tribune e do bilionário de criptomoedas Sam Bankman-Fried. E não é que deu certo?

Em pouco tempo, os fundadores da Semafor levantaram US$ 25 milhões para dar vida à publicação. A escolha por investidores particulares ao invés de empresas de capitais de risco foi proposital, para garantir mais segurança ao novo veículo, que não sofrerá tanta pressão para dar retorno imediato. As fontes de receita da Semafor, por enquanto, estão previstas para repetir os velhos modelos de publicidade, assinaturas (no futuro) e eventos presenciais.

Por outro lado, a Semafor surpreende por detalhes inovadores de sua proposta editorial.

Jornalistas na linha de frente

O nome do autor de cada matéria aparecerá quase com o mesmo destaque visual do que o título do conteúdo. A proposta enfrenta um tabu na indústria da mídia, em que profissionais têm uma opinião dividida entre preservar suas identidades e brilharem mais do que o veículo a ponto de concorrerem com ele nas redes sociais.

Na Semafor, a intenção é estimular que o público mantenha contato com o jornalista, que será incentivado a atuar em redes sociais e construir comunidades. Para o lançamento, a publicação conta com 30 jornalistas alocados em Londres, Nova York, Washington, com planos de expansão para a África ou o Oriente Médio.

Dependendo dos talentos editoriais que a Semafor conseguir fisgar do mercado, novos verticais poderão surgir, respeitando as especialidades de dedicação de cada jornalista.

Remuneração diferenciada

O protagonismo da redação promete ser um diferencial significativo da publicação. A empresa declarou que garantirá aos jornalistas o recebimento de “toda ou da maior parte” da receita proveniente de suas propriedades intelectuais, como contratos de livros ou direitos de filmes.

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Notícia de um lado, opinião do outro

O design do site colocará ênfase na divisão clara entre seções de relatos factuais e espaços opinativos. A meta é que não haja qualquer traço de opinião fora da seção de opinião (ou de análises dos repórteres). Noutro espaço estarão as informações factuais. A iniciativa é uma forma de reagir à mistura de informação e opinião que os Smith dizem ser praticada sem constrangimento por muitos veículos da atualidade.

O que esperar da Semafor?

Como uma startup de notícias nativa digital, a Semafor quer conquistar o mundo – ao menos a parte anglófona. A exemplo de Buzzfeed, Quartz, Vice e do moribundo Huffington Post, a Semafor pretende alcançar uma audiência global. E a escolha do nome reflete esta ambição: a palavra é uma variação de “semaphore” que, no inglês, significa um sistema de sinalização náutica. Sim, ela é um falso cognato ao português: semáforo, em inglês, é traffic lights. Mas o campo semântico é o mesmo.

E o que “semaphore” tem a ver com audiência global. É que a palavra tem uma grafia, uma sonoridade e uma denotação semelhantes em cerca de 30 idiomas, segundo Justin Smith.

Por enquanto, o domínio ainda está ocupado com um warm up convidando o público a deixar o e-mail. Mas um evento reunindo os fundadores e alguns jornalistas da redação e de outros veículos já aconteceu neste dia 7 de julho, para marcar o lançamento da publicação. Houve transmissão ao vivo e ficou gravado no YouTube. O tema é providencial: Sinais e Ruídos – Polarização e Confiança nas Notícias.