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Li recentemente um artigo sobre os riscos da personalização no mercado de mídia – isto é, questionando uma opinião frequentemente ventilada de que as pessoas querem consumir aquilo que atende os seus gostos. A dinâmica, os algoritmos e a própria natureza das redes sociais nos acostumaram ao entendimento de que “sim”, que personalização de fato é o que todos buscamos.

Entretanto, uma pesquisa recente conduzida na Dinamarca pela Roskilde University põe um ponto de interrogação nesta opinião – pelo menos quando se trata de personalização em conteúdo jornalístico. O levantamento mostrou um número considerável de pessoas que se disseram preocupadas, acreditando que notícias personalizadas poderiam levá-las a perder informações relevantes. Para outras, o conteúdo personalizado tem um risco adicional: evitar com que se deparem com opiniões desafiadoras – isto é, opiniões com as quais a pessoa não concorda, mas ainda assim a desafia intelectualmente.

É claro que a Dinamarca não é o Brasil e que uma pesquisa como esta poderia apresentar resultados diferentes neste canto do mundo. Além disso, há de se considerar que as pessoas frequentemente afirmam uma coisa, mas agem de maneira completamente oposta – como eu que, em abstrato, digo que uma vida saudável é algo a se buscar, quando na verdade como chocolate ao fim de cada refeição.

Ainda assim, a pesquisa instiga uma boa reflexão – na verdade, a reflexão essencial do jornalismo, isto é: o que devemos fazer e como devemos atuar? A resposta padrão costuma ser bem simples: informar o público de maneira ética e responsável, apresentando fatos relevantes, doa a quem doer. A questão é como fazer isso.

Com alguma regularidade, tenho feito críticas ao princípio de “ouvir os dois lados de uma mesma história”. Em teoria, na verdade, não há nada de errado nesta prática. O problema é que, muitas vezes, o mérito de tal proposta tem dado lugar a uma abordagem burocrática, resultando em publicações rígidas e pouco criativas. Não tiro o mérito do repórter e do seu trabalho árduo e essencial de coleta de informações. A crítica se faz apenas em relação ao texto que é apresentado ao leitor, em especial às poucas aspas que abrimos, dando voz a especialistas escolhidos a dedo que, na verdade, não tem muita chance de compartilhar suas observações, já que sempre selecionamos umas poucas palavras que pouco sintetizam pensamentos e argumentos complexos.

Da pesquisa realizada pela universidade dinamarquesa, me chama a atenção o receio compartilhado pelos entrevistados de perderem acesso a opiniões desafiadoras como consequência do conteúdo personalizado. Como já foi dito anteriormente, as redes sociais, com suas indestrutíveis bolhas, mostram que muita gente gosta do seu nicho. Mas esse não é uma realidade em cima da qual devemos nos balizar – e não apenas pela missão do jornalismo, mas porque as redes têm se tornado um ambiente de enfrentamento. Poucos caracteres não são suficientes para elaborar um argumento complexo, então o que resta às pessoas é sintetizar o que pensam e como enxergam seus oponentes ideológicos. O resultado acaba sendo o clima de briga que tanto conhecemos.

A dinâmica de um produto jornalístico tradicional é muito diferente, mesmo porque, ao consumir certo conteúdo, o público assume uma postura passiva muito diferente do comportamento ativo das redes. Mas o que resta às empresas de mídia se, aqui, estou desencorajando tanto a postura de ouvir os dois lados em uma mesma matéria, quanto a postura de assumir um posicionamento ideológico claro?

Uma resposta – que não é fórmula alguma de sucesso – é permitir que cada conteúdo não seja apenas um relato de fatos recheado por uma ou outra seleção de aspas, mas que reflita as análises e opiniões de quem assina a matéria em conjunto com as informações previamente coletadas. De forma sincera e aberta, profunda e propositiva, opiniões se tornam um excelente recheio para qualquer conteúdo, que passa a ser único por refletir a alma de quem escreve. Pessoas se conectam com pessoas, o que faz desta abordagem uma ótima forma de a audiência perceber que existe um humano, e não uma fórmula, dando vida ao conteúdo. Como coloca Esther Thorpe no Media Voices, “audiências reais querem notícias reais feitas por pessoas reais”.

Lembrando que boa parte do público deseja ser desafiado por opiniões. Mas isso significa que elas sejam muito bem fundamentadas, caso contrário não são desafiadoras. Se for para defender um ponto, é preciso trazer os argumentos mais profundos possíveis. Se for para criticar uma determinada postura, é preciso primeiro entender verdadeiramente os seus fundamentos – caso contrário, criticamos uma caricatura, batemos em um espantalho e, acima de tudo, ofendemos a audiência. Mas uma defesa ou uma crítica sólida, bem fundamentada e interessante será capaz de encontrar um leitor curioso.

Isso significa que todo o público vai admitir, se encantar e consumir este tipo de conteúdo? Não e nunca! Nunca conseguiremos o engajamento de todos, embora lutemos tão fortemente contra qualquer faísca de opinião em uma reportagem tradicional com receio de incomodar certa parcela da audiência. Ao contrário, frequentemente acabamos ocultando estas opiniões, que nem por isso deixam de existir, por detrás de um linguajar de objetividade.

Sem dúvida, ser fiel aos fatos apurados é essencial para que aquilo que publicamos continue merecendo o nome de jornalismo. Mas apresentação de fatos, o desenvolvimento de análises e a emissão de opiniões bem fundamentadas não são excludentes. Aqui no Orbis já apresentamos diversos veículos que trabalham com um conteúdo que mistura a objetividade dos fatos com a subjetividade de quem escreve. Não há problema intrínseco nisso. Diante da atual overdose de informações e de conteúdos compartilhados, talvez este seja um caminho que ofereça um diferencial verdadeiro para o público.

Há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acredita, talvez ingenuamente, que a agitação do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõem a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem que os algoritmos tendem a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório.

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes. É preciso navegar com profissionalismo e seriedade.

A reinvenção do jornalismo, a recuperação do encanto, passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado e das narrativas divorciadas dos fatos. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos, e não para sua audiência.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeças para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política e em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. Esta atitude não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

Jornalismo sem brilho e sem alma é uma perigosa doença que pode contaminar redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro de asfalto. É preciso dar novo vigor à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, ético.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que, se a resposta for negativa, poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção. Chegou a hora do encantamento.