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Parcialidade

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Aprende-se que, no constante exercício da profissão jornalística, é sempre imprescindível ouvir os dois lados de um fato, e que esta seria [teoricamente] a atitude ideal do bom jornalista! Mas, na prática, sabemos que ouvir os dois lados e garantir a imparcialidade tão sonhada pela grande mídia é tão difícil  – ou praticamente impossível – se levássemos em conta a essência fundamentalmente humana do jornalismo. 

A ideia defendida por Geneva Overholser em “Death to bothsidesism” nos traz à vida real e expõe a tentativa frustrada do mainstream em buscar uma neutralidade utópica na produção de notícias. A jornalista, veterana do The New York Times e do The Washington Post, defende o fim dessa isenção que, no fim das contas, acaba por apresentar uma “realidade a preto-e-branco ao leitor”. Além disso, afirma que a mesma imparcialidade faz com que “as pessoas pensem que não há nada sólido em que possam acreditar”.

Por essas e outras razões, fica difícil aceitar que a regra de ouro – defendida não só pelos publishers brasileiros como no mundo todo, desde o século passado – esteja cada dia mais comprometida.

E você, caro leitor, deve estar se perguntando: se a objetividade não serve ao jornalismo, o que, então, podemos fazer?

Podemos, todas as noites, deitar nossas cabeças no travesseiro com muita tranquilidade, sabendo que nossa sociedade (ainda) suporta a liberdade de defender pontos de vista sem que falemos obrigatoriamente dos dois lados de um fato. “Mas, com isso não estimulamos a bolha?”, podem perguntar. Também. Contudo, o jornalismo não é o grande culpado nessa história. Enquanto os veículos procurarem a verdade – nem que para isso tenham que declarar o fim deste “Doisladismo” – e tiverem a noção de que juntos podem manter a democracia, então grande parte da missão estará cumprida. 

Por isso, considerando o contexto mercadológico em que veículos de diferentes posições podem (e precisam) coexistir, não seria esta uma evolução do modo de se defender a democracia?

Valores são importantes para guiar nossas condutas. No jornalismo, temos como princípio a busca pela imparcialidade. Ainda assim, é importante perguntar: por mais que seja capaz de orientar as normas profissionais, até que ponto a imparcialidade é compatível com o que significa ser humano?

Afinal, não fazemos julgamentos de valor? Não observamos e opinamos? Não percebemos o que parece certo e o que se mostra errado?

Como argumentava o escritor, crítico literário e filósofo inglês Chesterton, a chamada imparcialidade pode significar uma mera indiferença, enquanto a parcialidade pode ser uma simples atividade mental – que nos força a pensar e não apenas a repercutir.

Falando concretamente do jornalismo, a opinião é frequente, em maior ou menor grau, no conteúdo veiculado. A busca pela imparcialidade mitiga a sua exposição, mas dados cuidadosamente pinçados e declarações de especialistas muito bem selecionados frequentemente contam aquilo que queremos que seja captado pelo público.

Portanto, sem apresentar claramente nossas opiniões, com que frequência não optamos por uma omissão calculada? 

O jornalista enfrenta diversos dilemas, e ser parcial por certo tem seus problemas. Se não há uma conduta perfeita a ser adotada pelo profissional, a exposição transparente de ideias e opiniões ao menos facilita ao público cobra-lo por seus posicionamentos. Por si só, este já não seria um bom estímulo para uma conduta jornalisticamente responsável?