Entre as consequências das acaloradas discussões do momento, a percepção de que existem apenas vilões e mocinhos no mundo está entre as mais cansativas. Buscando embasar seu conteúdo em dados e informações objetivas, o jornalismo tenta, ao menos em tese, trazer racionalidade para a discussão. Mas dados são, por si só, infalíveis e inquestionáveis? Segundo um conceito matemático datado, aproximadamente, de dois séculos atrás, “lixo dentro” significa “lixo fora”. A ideia é bem direta: pouco importa o que digam as pesquisas se as informações coletadas forem incertas.
Não faz sentido, portanto, tomar o resultado de estudos como verdades absolutas. Assuntos complexos dificilmente serão enfrentados por meio de soluções simples e generalistas, ao mesmo tempo em que a imprevisibilidade humana é, por definição, um fator incalculável. Certamente, dados, pesquisas e o conhecimento de especialistas podem ser valiosos como orientação. Mas como jornalistas é importante perguntar: até que ponto não nos servimos deles para encerrar debates com conclusões das quais concordamos ao invés de construir boas e valiosas discussões?
