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Desde que o primeiro turno das eleições presidenciais foi concluído, os erros dos institutos de pesquisa se tornaram assunto de amplo debate. Mesmo agora, que o pleito de 2022 terminou, o tema dificilmente se esvairá tão cedo – e não sem razão. Tanto ao cargo de presidente, quanto nas disputas pelos governos estaduais e vagas ao Senado, a verdade é que a maior parte dos institutos erraram drasticamente. Não é de hoje que eleitores buscam dar um voto útil e estratégico a um ou outro candidato – favorecendo-o não por uma preferência em si, mas por uma rejeição maior ao seu opositor. Neste sentido, pesquisas eleitorais sempre interferem na realidade. No caso mais recente, no entanto, esta interferência é ainda mais grave, uma vez que as eleições não foram influenciadas por uma leitura correta da realidade, e sim distorcidas em função dos erros graves cometidos pelos institutos de pesquisa.

Entender como determinadas ações impactam no mundo real é uma discussão fundamental para jornalistas, e há quem diga que a missão de ser imparcial existe justamente para que os profissionais da área apenas reportem os acontecimentos e influenciem o mínimo possível na realidade.

Entretanto, o fato é que não há um consenso sobre a função do jornalismo. Para alguns, este mercado existe para prover a população com informações relevantes, mas também para investigar temas de interesse público. De um outro lado mais filosófico, argumenta-se que o jornalismo exerce a função de situar as pessoas na realidade. Essa é a hipótese lançada por Robert Park, para quem “a função da notícia é orientar o homem e a sociedade em um mundo real”.

Em concreto, isso significa que nossa realidade é limitada a um âmbito curto, protagonizado por familiares e amigos, localizado em ambientes como trabalho, a escola, a faculdade… Desta forma, sem a existência das notícias, dificilmente daríamos conta do que acontece fora do nosso círculo de convívio cotidiano. O noticiário, assim, nos joga em outras realidades, que frequentemente envolve aquilo que é inusitado tanto negativamente quanto positivamente.

Uma das conclusões é que publicar aquilo que foge da normalidade é, por assim dizer, o normal do jornalismo. Não falamos que o fulano foi trabalhar normalmente na segunda-feira de manhã, mas podemos publicar que, a caminho do trabalho, o ciclano sofreu um determinado acidente ou foi vítima de violência. Este é um comportamento padrão da profissão, e faz sentido. O problema é quando tratamos de alguns fatos atípicos com tanta regularidade que o excepcional passa a ser interpretado como algo corriqueiro.

Exemplo: se os jornais reportam exaustivamente casos de violência à mão armada – como sequestros e homicídios -, boa parte dos leitores pode começar a superdimensionar, com o tempo, a própria existência e o uso das armas de fogo na sociedade. Este exemplo é mais presente nos Estados Unidos, onde armamentos são comercializados com mais facilidade e o debate público sobre o uso delas é corriqueiro. Em termos de percepção, a consequência é que o público acredita que o número de americanos que possuem uma arma de fogo é muito maior que na realidade. Este fenômeno foi observado pelo instituto de pesquisa YouGov. Segundo ele, 32% da população possui uma arma de fogo, mas o público, quando questionado sobre o assunto, respondeu em média que 54% dos americanos possuem uma.

Ou seja, o que o YouGov percebeu é que existe um abismo entre a percepção que os americanos têm da realidade e a realidade em si. O caso das armas de fogo é apenas um dos objetos apresentados pela pesquisa, mas há ainda muitos outros grupos da sociedade que são superdimensionados ou subestimados pela população. Pessoas filiadas a sindicatos, por exemplo, compõem 4% da população, enquanto as pessoas entrevistadas pela pesquisa estimaram, em média, que o número real é de 36%.

Esta discrepância também é perceptível em relação a grupos étnicos e identitários. Na opinião daqueles que participaram da pesquisa, 41% da população é negra e 39% têm origem hispânica. Os números reais, entretanto, são de 12% e 17% respectivamente. Os entrevistados também estimaram que transexuais respondem por 21% da população, enquanto muçulmanos e indígenas correspondem, individualmente, a 27% da sociedade. A realidade é que cada um deles equivale a apenas 1% da população. Gays e lésbicas, por sua vez, constituem 3% do país, mas os americanos acreditam que são 30%. Já ateus respondem por 3% da sociedade – número muito inferior aos 33% que os americanos acreditam existir.

Da mesma forma como existe uma super-representação em relação a tais grupos, o contrário acontece com outras parcelas da sociedade. Setenta por cento da população se declara cristã, por exemplo, enquanto os americanos acreditam que o número correto é 58%. Há outros dados em relação à renda, escolaridade e hábitos gerais que revelam uma grande discrepância entre o que os americanos enxergam como a realidade social do país e como ela é de fato.

É importante dizer que estes dados dizem respeito aos EUA apenas e que, em momento algum, o YouGov aponta o jornalismo como responsável pela desconexão entre realidade e percepção da realidade. Na verdade, muitos fatores podem explicar este fenômeno, incluindo a própria política, que também acaba por pautar a discussão pública através dos temas que traz para debate. Portanto, a regularidade com que determinados assuntos são abordados influencia na percepção que temos do mundo ao nosso redor. É justamente neste sentido que o jornalismo também pode estar contribuindo para o agravamento do fenômeno.

 

Moldando a realidade com fatos e como isto influencia o leitor

Nos últimos anos, poucos temas foram mais discutidos pelos jornais do que as fake news. O quase consenso que se formou entre profissionais da área é que notícias enganosas ou simplesmente falsas têm de ser combatidas – embora a forma de combatê-las ainda seja discutida. Entretanto, mesmo que informações propositalmente falsas sejam um problema evidente, é preciso reconhecer que há mais de uma forma de gerar uma percepção distorcida da realidade. Neste sentido, até fatos podem se tornar enganosos quando não são tratados na devida proporção ou sem o contexto necessário.

Inúmeros fatos noticiosos ocorrem todos os dias, e cabe aos jornalistas decidir quais deles realmente serão veiculados. Aquilo que resolvemos destacar, desta forma, se torna a realidade visível, o que é muito diferente da realidade em si ou em sua totalidade. Isso ocorre e influencia a percepção que o público tem do seu ambiente de convívio mesmo que o jornalista dê destaque a determinados acontecimentos sem um alto grau de enviesamento ideológico. Quem controla a linguagem e aquilo que é dito é capaz de moldar não apenas a opinião pública, mas talvez ainda mais fundamental, a percepção que temos do mundo a nossa volta.

Se assumirmos que os dados americanos sobre realidade e percepção de realidade podem se estender a outros países, então fica muito claro que a sociedade – ou parte dela – não está sendo adequadamente informada.

O desengajamento do público com as empresas de mídia tradicionais já é uma dura realidade. Portanto, para além de ser um dever ético da profissão buscar sempre um alto grau de isenção e um compromisso total com a verdade, a própria moderação na escolha de pautas e abordagem das matérias é, também, uma questão de sobrevivência dos jornais tal qual os conhecemos. É verdade que a perda de receitas provenientes da publicidade foi um duro golpe para as empresas. Outros modelos de negócios, no entanto, existem – mas só podem ser implementados com sucesso se os leitores continuarem engajados com os veículos. Para que isso aconteça, é necessário produzir um conteúdo que dialogue com os valores, ideias e necessidades da população. Igualmente, é preciso que as pessoas consigam relacionar as informações publicadas com a realidade na qual estão inseridas. Caso contrário, corremos um sério risco de perder relevância ao falar de temas e assuntos com os quais poucos conseguem se identificar, além de permitir que a tendência de migração da audiência para outras fontes de informação continue em crescimento.

Quando Ana Brambilla escreveu no Linkedin a respeito de escolher o que publicar, de dar atenção a uma coisa ou outra, me lembrei das palavras do premiado fotojornalista Damir Sagolj quando ele fala a respeito da interferência na realidade (no caso dele, das fotos) quando se tira da bolsa uma câmera.

Escolher é essencial. Edição é escolha. Mas se nossa presença altera a cena, já não estamos mais falando de realidade.

Damir Sagolj diz: seja invisível.

“Eu entro em cena tentando ser o mais invisível possível. Eu não sou aquele que vai entrar com a câmera e começar a dar zoom in e zoom out para cima e para baixo”.

“Entro literalmente com as mãos no bolso e depois pego minha câmera e faço um ou dois cliques”.

“Você não quer ser um fotógrafo que entra no espaço privado de alguém tentando capturar a realidade porque, então, já não é realidade”.

Outros documentaristas e fotógrafos dizem mais ou menos a mesma coisa.

E eu, que venho do mundo texto mas costumo olhar também pelas lentes das câmeras, experimento isso toda vez que fotografo.

Basta apontar uma lente que a cena muda. Seja num baile, num show, nas ruas de uma cidade – a mentalidade selfie está por toda parte.

Por isso, muitos profissionais estão optando por usar celulares ou pequenas câmeras para registrar histórias, a fim de ter a menor interferência possível na cena.

Vejo que o mesmo pensamento vale quando estamos diante da observação para um texto. Observar nossas escolhas, graduar nosso olhar e, assim, buscar chegar o mais perto da realidade de uma situação sem interferir nela.

Obviamente, a não interferência é uma situação utópica. Mas é uma realidade que, se chegamos num lugar e observamos primeiro antes de tirar uma câmera, um gravador ou um bloco de notas da bolsa, conseguimos perceber melhor, captar de forma mais próxima da realidade sem interferir – muito – nela. Se não invisível, ao menos discreto o suficiente para não alterar o que se está vendo.

E investigar na base, ouvir mais.

Faço essa reflexão porque eu mesmo venho percebendo que essa volta pra base – o estar na rua – é a essência que precisamos ver no jornalismo em um mundo superlotado de opiniões, achismos, histórias plantadas e desinformação.

Na minha troca de mensagens com Ana Brambilla, ela me fez algumas observações.

“Não poderia concordar mais quando tu falas: ‘se a gente chega num lugar e observa primeiro, consegue perceber melhor, captar melhor’.  

E pergunta:

“Vejo que este ‘perceber melhor’ é um perceber ‘mais fiel’ à verdade. Faz sentido? Será que é disso que estamos carecendo, como humanidade? Temos tanta versão sobre tanta coisa… Está nos faltando verdade na vida? Nas relações? Na mídia, at all?”

Grandes questões.

Um perceber mais fiel à verdade? Prefiro não dizer a verdade porque a verdade pode incitar a discussão do que é verdadeiro ou não.

Minha opção é usar a palavra precisão, como aconselha Aidan White, fundador e presidente de honra da Ethical Journalism Network.

Na visão dele, com a qual concordo, existem cinco valores centrais do jornalismo e o primeiro deles é a precisão – os outros são a independência, a imparcialidade, a humanidade e, por fim, a responsabilidade pelo que se publica.

“Precisão é muito importante. Portanto”, diz White, “o primeiro princípio é a precisão. Não fazer o manuseio enganoso dos fatos. Trabalhamos com fatos. Informações baseadas em fatos”.

O fotógrafo documental Dan Milnor, atualmente, prefere usar equipamentos discretos, justamente para que sua simples presença como fotógrafo não altere a realidade que ele quer retratar.

“Mais equipamento, menos acesso. Fica muito claro: esse aí é um fotógrafo profissional”, constata.

“Hoje as pessoas não querem estar perto de uma pessoa que carrega uma tonelada de equipamentos”.

O mesmo acontece com o fotojornalista Hélio Campos Mello. Quando foi preso no Iraque, durante a Guerra do Golfo, em 1991, ele levava na bagagem 38 quilos de equipamentos fotográficos.

Nos dias de hoje, ele trabalha em um projeto que busca mostrar, com humanidade, a vida e história da população em situação de rua de São Paulo, fotografando com uma câmera simples. Seu objetivo, em primeiro lugar, é a conexão pela empatia, percebendo as pessoas e seus sentimentos.

“Eu procuro chegar de leve. Conversar, saber quem são, de onde vieram, suas razões. Enfim, olhar o humano em primeiro lugar. Depois as fotos”, explica Campos Mello.

Obviamente, são situações diferentes e objetivos distintos, mas anoto aqui para registrar a comparação entre os dois momentos e reforçar a ideia da não interferência.

Gosto de pensar como os fotojornalistas, pois a foto resume. É foco no que importa, na simplicidade, no essencial.

Dan Milnor explica:

“Você tem que pensar no que está acontecendo à sua frente. Especialmente se você é um fotógrafo documentarista baseado na realidade”.

“Eu não orquestro as coisas em campo (…) Não arranjo as coisas. Se você arranja imagens você não é mais um fotógrafo documentarista”.

Mas, voltando às perguntas de Ana Brambilla: Temos tanta versão sobre tanta coisa… Está nos faltando verdade na vida? Nas relações? Na mídia, at all?”

Do jeito que vejo está faltando precisão no relato e foco no que estamos vendo. É preciso, de um lado, tempo de observação para evitar avaliações precipitadas ou enviesadas e, de outro, essa não interferência de que estamos falando.

E falta também outro dos cinco valores centrais do jornalismo: humanidade.

O fotojornalista Farn, de Singapura, é mais um que optou por usar apenas uma câmera e uma só lente para documentar seus trabalhos e buscou refinar seu olhar a fim de enxergar de forma mais humana.

“A fotografia é um meio poderoso de contar histórias. E há histórias importantes que precisam ser contadas e não aparecem na mídia tradicional”.

Ele conta que a primeira vez que foi a um campo de refugiados, não sabia nada a respeito. Foram muitas e muitas visitas, conversas, convivências, até o dia em que, ao ampliar uma foto, foi tocado pelo olhar de uma criança.

“Quando ampliei a foto, olhei nos olhos dela e me vi através dos olhos dela”.

E assim surgiu a exposição The Boat That Moves Forward, em parceria com o também fotógrafo Amirnorashid Bin Amari (conhecido como Am), mostrando a vida e as pessoas do Campo de Refugiados de Rohingya.

“Conte uma história que realmente importe. Uma narrativa”, diz Farn.

Portanto, talvez seja justamente isso que esteja faltando na nossa forma de mostrar a realidade: refinar nossa forma de olhar e contar histórias que realmente importam.

Foi o que fizeram Farm & Am no campo de refugiados. Observaram e sentiram o que observavam.

E sentir é muito importante, pois no mundo hiperconectado de hoje, é fácil se deixar levar por versões superficiais ou nem sempre verdadeiras dos fatos.

Cabe a nós, jornalistas, acredito eu, conseguir tempo, calma, precisão e humanidade suficiente para nos permitir um olhar mais profundo nos olhos das pessoas, a exemplo do que fez Farn, e assim captar com algum grau de verdade o que está muito além das lentes.