Quando clichês passam a dominar imaginários, fica fácil esquecer porque fazemos o que fazemos e deixar de refletir sobre a forma como atuamos. Afinal, ainda que clichês possam ser verdadeiros, eles também implicam uma ausência de pensamento. Jornalistas não estão imunes a este processo de torpor coletivo causado pela “clichelização” da atividade. Ao afirmar o porquê de a imprensa existir, com frequência pensamos em grandes ideais como a defesa da democracia ou a luta pela liberdade de expressão. Mas e quanto ao público, qual o nosso dever perante ele?
No artigo da semana passada foi falado da importância da literatura no trabalho jornalístico. Aqui dou minha contribuição compartilhando a visão do Camarada Underground – personagem fictício do filósofo Roger Scruton que não se encaixava nem no autoritarismo político da Tchecoslováquia comunista e nem na sociedade materialista norte-americana onde foi morar após a queda do Muro de Berlim. Para ele, o ambiente em que hoje vivemos é instantaneamente preenchido por cada novo acontecimento, de forma que “o agora é uma presença universal”. A consequência disso é uma “inegável falta de entendimento, já que o presente só faz sentido em relação ao passado, que é instantaneamente afogado pela torrente de novas informações”.
Voltando ao tema central, por que trabalhar em busca de fins grandiosos se aquilo que de fato produzimos com frequência serve mais para atordoar o público do que para dar sentido à realidade em que está inserido? Se almejamos grandes ideais, não seria mais próprio, então, que tivéssemos como missão ajudar as pessoas a discernir o presente com conteúdo rico em contexto e dar a elas um norte com publicações abertas a reflexões?
