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Uma das teorias que explicam a crise que o jornalismo vive nos dias de hoje é a do jornalismo declaratório. A fuga de anunciantes causada pela transformação digital estaria empobrecendo os meios de comunicação e comprometendo, por consequência, as redações e a qualidade do conteúdo produzido pelos veículos.

Num ambiente onde os recursos humanos são escassos, também falta tempo para fazer o básico, ou seja,  checar as informações. Seguindo esta lógica, a escassez acaba preenchida com declarações que não são  confrontadas com dados, fatos ou até mesmo versões diferentes da mesma história, o que em tese deveria ser a essência do jornalismo.

Àqueles que acreditam nesta teoria, a cada dia faltam mais recursos e sobram mais declarações alimentando um círculo vicioso que deixa o conteúdo ainda mais pobre de informação, portanto, menos interessante para o público.

No entanto, uma outra versão é possível para explicar o surgimento do jornalismo declaratório. E parte do problema teria origem no processo de desintermediação da mídia. À medida que os meios de comunicação foram perdendo o monopólio da informação, muitas autoridades e personalidades – as fontes da notícia de uma forma geral – passaram a usar outras mídias para chegar ao público.

Num primeiro momento esta tendência parece inofensiva, algo que faz parte de um novo modelo de consumo da informação no qual todos são potenciais produtores de conteúdo. Mas a situação se agrava quando estas mesmas fontes passam a evitar os meios de comunicação, priorizando apenas outras mídias para garantir o direito de não serem confrontados por suas declarações e fazendo com que prevaleça uma narrativa que lhes é favorável.

Neste cenário, o prefeito já não precisa da imprensa para anunciar uma nova obra, mas também não será questionado se o dinheiro deveria ir para outra área. O jogador de futebol pode comentar a vitória do seu time em uma live do seu Instagram, mas se esquiva de dar declarações quando a equipe perde. A celebridade consegue dar spoilers do seu novo papel na novela com vídeos curtos no TikTok, mas evita que alguém aborde suas polêmicas pessoais.

Talvez por isso, surge um movimento quase espontâneo, nos meios de comunicação, de evitar o mal-estar natural que surge quando se é obrigado a  confrontar as fontes com fatos e dados. O jornalista, então, se limita a captar as declarações e, com isso, mantém uma relação amigável entre fonte e o veículo.

Nesta dinâmica, após colher a declaração com perguntas de conexão e não de questionamento, a análise do que foi dito acontece em um segundo momento, dentro do processo de construção da notícia. É neste contexto que ganha relevância o fact checking de entrevistas que confrontam as declarações aos fatos, comparando o que é verdade ou não. A mesma lógica se aplica aos comentaristas políticos que, distantes fisicamente das autoridades, conseguem analisar as declarações de forma mais crítica e contextualizada

O caminho mais óbvio para os críticos dos meios de comunicação é apontar que a crise do modelo de negócios estaria justamente na omissão do jornalismo em sua responsabilidade de questionar os entrevistados. Mas isso não leva em conta que o risco de perder o acesso à fonte da informação pode ser ainda mais prejudicial, favorecendo a prática do jornalismo declaratório. 

Uma vez que o veículo perde o acesso à fonte, ela certamente buscará outro canal – seja de notícia ou mídia social – para fazer tal declaração. Isso agrava o processo de desintermediação da imprensa e terceiriza a responsabilidade de trazer à público aquela versão ainda que, num primeiro momento, esteja descontextualizada de outros fatos ou versões.

Soma-se a isso o tom inquisitório com que muitas entrevistas e sabatinas assumiram, como se para confrontar declarações com fatos ou dados fosse obrigatório submeter a fonte a um constrangimento público para livrá-la moralmente da culpa de ter divulgado uma informação de forma imprecisa do ponto de vista jornalístico. O público manifesta aversão a este modelo de entrevistas e tem por instinto a tendência de ficar do lado que se mostra acuado, na posição de vítima (ainda que circunstancial). 

Por fim, vale lembrar que existe ainda um terceiro caminho possível para o excesso de declarações nos meios de comunicação. Justificados pela necessidade de trazer os muitos lados de uma história, no lugar de ampliar e contextualizar a informação, muitos meios acabam se limitando a expor versões declaradas deixando ao público o julgamento opinativo. 

A proposta deste artigo não é defender o jornalismo declaratório, mas entender os possíveis cenários que fazem deste modelo um fenômeno crescente. Está claro que, em todos estes cenários, a qualidade da informação é prejudicada, reduzindo a relevância do jornalismo em geral. Mas como reverter esta onda que parece a cada dia ganhar mais força?

Parte da resposta reside em voltar a fazer o básico e revisitar os bons e velhos pilares do jornalismo. Porém, ao mesmo tempo é necessário inovar e repensar a forma como abordamos estas fontes, extraindo delas informação que não seja meramente declaratória, mas que tampouco precise soar com uma acordo de delação premiada.

O fato é que mesmo que os veículos optem por não dar mais espaço ao jornalismo declaratório, este conteúdo terá cada vez mais lugar na sociedade através das redes sociais e, de uma forma ou de outra, acabará repercutindo na imprensa. São muitos os casos recentes de lives, podcasts ou vídeos amadores que pautam debates importantes.

Por que, então, estamos terceirizando esta responsabilidade, ainda que a origem seja uma declaração? Nossos colunistas não farão comentários acerca do tema de qualquer maneira num segundo momento? Não vamos suitar o assunto com enfoque em contexto de qualquer forma? Somos tão superiores ao ponto de que só vale ter acesso a uma fonte se pudermos extrair dela o que quisermos, no formato que melhor nos convém?

Precisamos ter a humildade de reconhecer que já não detemos o monopólio da informação e tampouco somos os únicos caminhos para se revelar a verdade. Talvez seja a hora de aposentar, de uma vez por todas, a capa de super-homem, assumindo que é o disfarce de Clark Kent o que mais condiz com a nossa realidade – e que nem por isso deixamos de ser bons jornalistas.

Isto é do ser humano: como é difícil falar da própria humildade!

O mero fato de considerar-nos uma pessoa humilde parece se auto invalidar. Mas na era em que tudo é mensurável, vamos tentar medir nossa Humildade Intelectual.

Preparamos este teste com base em um artigo científico publicado pela Journal of Personality Assessment e adaptamos a situações tipicamente vividas na rotina de um jornalista.

Baixe o teste gratuitamente. Sugerimos que você o imprima ou tome nota de suas respostas e pontuações numa folha de papel.  Você precisará somá-las. O documento traz todas as instruções.

Ao invés de uma sentença, este teste pretende ser uma ferramenta de autoconhecimento que pode ajudar-nos a melhorar não apenas como jornalistas, mas como seres humanos.

BAIXAR TESTE (pdf)

O desejo de dar notícias é tão antigo quanto o próprio jornalismo. E a oportunidade de ser o primeiro a reportar um fato de forma rápida só reforça uma falsa impressão de que esse feito é essencial para o exercício da profissão. Já produzimos uma pequena #Fagulha sobre o assunto neste Orbis, e vimos que a corrida incessante por estar no topo do podium incentiva ainda mais os corredores a buscarem atalhos que, por outro lado, ameaçam a credibilidade da mídia.

Ao seguirmos a linha de pensamento do jornalista canadense John Macfarlane, a ideia de que notícias rápidas se assemelham, em analogia, a comidas de fast food – enquanto notícias mais aprofundadas e detalhadas se parecem com as de slow food – pode ser totalmente verossímil. Fato é que este segundo movimento gastronômico incentiva uma maior atenção com aquilo que comemos e uma busca por consumir aquilo que fará bem ao nosso corpo. 

Ao reproduzir a fala do editor do The Walrus, podemos medir como consumidores

“…se quero avaliar o valor nutricional [da comida] antes de colocá-la na boca, não seria também uma precaução sensata quando se trata de notícias? […] Se, como seres físicos, somos o que comemos, como cidadãos somos tão sólidos quanto as notícias e informações que consumimos. Uma dieta de notícias rápidas é tão prejudicial à saúde quanto uma dieta de fast food.”

No entanto, como bons chefs de cozinha que buscamos ser, nós (jornalistas) não poderíamos almejar uma Estrela Michelin e iniciar um ritmo mais saudável na produção e publicação do nosso conteúdo? Oferecer pratos consagrados que fogem ao movimento do “aqueça três minutos no microondas” não poderia ser um caminho para chegar à qualidade que há muito tempo buscamos e contribuir com uma dieta mais balanceada aos leitores?

O presidente Jair Bolsonaro e os jornalistas vivem em clima de guerra. Os embates, tóxicos e intransigentes, não têm a cara do Brasil. A perspectiva de quase dois anos de governo permite ensaiar um balanço das perdas e ganhos de um conflito desagradável e nada produtivo.

As últimas pesquisas mostram que o presidente da República, armado de seu estilo agressivo e tom de conversa em mesa de bar, está levando vantagem nas bolas divididas e fazendo mais gols.  Bolsonaro ataca muito. Mas também apanha para valer. A percepção da sociedade refletida nas pesquisas é a de que Jair Bolsonaro, mesmo com o desgaste da “rachadinha”, está mais para vítima do que para vilão.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir certa postura de militância. Os eventuais desvios do governo não se combatem com o enviesamento das coberturas, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

Vamos a alguns exemplos. Eles ajudam a iluminar a argumentação deste artigo.

Não faz muito tempo, uma apresentadora de televisão afirmou, no ar, ao noticiar um evento do governo chamado “Vencendo a covid-19”, que “nem Bolsonaro nem as autoridades presentes prestaram solidariedade às vítimas”. Mas o distinto público pôde ver e ouvir que a médica Raissa Oliveira Azevedo de Melo Soares, uma das participantes da cerimônia, pediu um minuto de silêncio em homenagem aos 115 mil mortos na epidemia – e que todos os presentes atenderam ao seu apelo. Negar um fato comprovado com o som e a imagem é um tiro no pé, um absurdo.

É óbvio que nós, jornalistas, temos o dever ético de iluminar o lado escuro do governo. Mas denúncias, necessárias e pertinentes, precisam estar apoiadas na objetividade dos fatos e no verdadeiro interesse público.

Reproduzo recente manchete de jornal: “Bolsonaro monta roteiro para entregar obras de Lula e Dilma”. Pois bem, amigo leitor, a descontinuidade das obras de infraestrutura dos antecessores, com imensas consequências econômicas e perda de eficiência, tem sido objeto de recorrente crítica da imprensa e da sociedade. As inaugurações de Bolsonaro, independentemente do eventual ganho eleitoral, deveriam ser evitadas? É óbvio que não. Na verdade, o presidente está fazendo o que nós sempre cobramos: dar continuidade às obras de administrações anteriores.

O erro da imprensa, que a afasta das suas audiências, está em atribuir ao presidente coisas que ele não fez. É óbvio que nós, jornalistas, temos o dever ético de iluminar o lado escuro do governo. Mas denúncias, necessárias e pertinentes, precisam estar apoiadas na objetividade dos fatos e no verdadeiro interesse público.

Governo e imprensa não podem ter uma relação promíscua. É salutar certa tensão entre as instituições. Mas precisam conversar. São peças essenciais da estrutura democrática. Aguardo – já o disse outras vezes – que Bolsonaro desça do palanque e assuma o papel de presidente de todos os brasileiros. Espero também que nós, jornalistas, deponhamos as armas do engajamento e façamos jornalismo.

O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na ideologia, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na ideologia, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião.

Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, na cobertura de política e do governo, e em nome de suposta independência, têm enveredado pelo que eu chamaria de jornalismo militante. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda crescentemente seus próprios leitores. Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas pautas. Trata-se de um fato percebido nas redes sociais.

Na verdade, à semelhança do que aconteceu no segundo semestre de 2018, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e aquilo que se consolida paulatinamente como fatos e/ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas próprias reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

Sobra fofoca e falta notícia. No entanto, muitas pautas estão quicando na nossa frente. Precisamos fugir da espuma política e fazer a opção pela informação que realmente conta.

Ao agirem dessa forma, correm o risco de comprometer a viabilidade de seus próprios veículos, pois somarão às já conhecidas perdas de verbas publicitárias dos últimos muitos anos uma diminuição das audiências. Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais, frequentemente, têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar aos seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público e com a própria realidade.

É necessário reconhecer, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se, por óbvio, um jornalismo menos anti e mais propositivo. O que não significa, nem de longe, perder a necessária independência e senso crítico. A fiscalização dos governos e das instituições é parte essencial da atividade jornalística. A democracia se fortalece com uma imprensa isenta, mas crítica.

O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Sobra fofoca e falta notícia. No entanto, muitas pautas estão quicando na nossa frente. Precisamos fugir da espuma política e fazer a opção pela informação que realmente conta. É preciso investir em matérias profundas e capazes de despertar um debate consistente.

Chegou a hora do jornalismo propositivo.


Artigo originalmente publicado no site do autor.

Semana passada eu conversava com um repórter de veículo online sobre a publicação de releases como notícias. A prática é tão comum quanto antiga e indesejável.

Tomando um caso em particular, eu vi caráter elogioso ao autor do release na publicação da “notícia”. O repórter não viu, afinal, ele só tinha usado as mesmas informações do release. Então – expliquei a ele -, o simples fato de um veículo dar espaço à publicação de um release é um gesto em favor daquela fonte (única).

Ele entendeu, mas sei que boa parte dos jornalistas que são cobrados por produtividade em quantidade de notas por dia não entende. A exigência de publicar oito, dez, quinze notas ao longo de oito horas limita qualquer repórter de produzir entrevistas, checar fatos, buscar outras fontes, fazer jornalismo, enfim. Daí alguns releases chegam como presentes celestiais, onde só o ctrl+C, ctrl+V salva.

Como fugir do mero release

A sugestão que dei ao colega foi a de ouvir um especialista e acrescentar algumas aspas mais neutras às informações trazidas pelo release. Isso daria um tom jornalístico pra coisa – e não tão institucional/promocional.

Nem sempre se trata de “ouvir o outro lado”, porque há pautas que não têm lado: são registros, lançamentos de projetos, publicações, eventos que estão por vir. Então nos resta fazer mídia gratuita ou acrescentar uma segunda fonte que comente ou opine de forma independente sobre o objeto do release.

Não é só o material de release que termina servindo de “fonte única”. Um post no Instagram virou fonte, virou notícia! Não sobra tempo para uma ligadinha ao agente da celebridade que acaba de postar.

Licença para uma historinha

Lembro de um caso que aconteceu enquanto eu trabalhava em um portal, lá em 2011: o cantor Latino havia postado uma foto em seu Twitter abraçado a uma moça coberta por lençol branco. Eles mostravam o colo e os ombros desnudos. O texto que acompanhava a foto era: “Pensa em acordar do lado de uma princesa como essa!! Kkkkkk 😉 Meu verdadeiro amor“.

Dias antes, o cantor havia terminado um namoro. Claro que o repórter de “Diver” (editoria de Diversão) entendeu que Latino não havia perdido tempo para apresentar a nova namorada! A matéria foi ao ar com este teor e, minutos depois, o próprio Latino respondeu ao Twitter do portal: “Vocês estão loucos? Ela é minha filha!

A obsolescência da segunda fonte

À prática de “ouvir uma segunda fonte”, a Dra. Consuelo Aguirre chama de “contrastación“, o que inclusive se encaixaria melhor no conceito de “ouvir o outro lado”, “contrastar”. Não foi por acaso que ela detectou em sua pesquisa de doutorado, recentemente defendida na Universidad Austral, em Buenos Aires, que a “contrastación” é um dos critérios de noticiabilidade que a Internet reduziu ou tornou obsoleto.

Dra. Aguirre revisou os critérios de noticiabilidade em relação às Leis da Mídia, de Marshall McLuhan, aplicadas a 140 notícias e a partir de entrevistas em profundidade com 30 jornalistas dos jornais El Comercio e El Telegrafo, do Equador.

A pesquisa intitulada “Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador , orientada pelo Prof. Dr. Francisco Albarello, tem achados interessantes. Mas antes vamos lembrar como são as Leis da Mídia, do “eme-cí Luán”, como já ouvi de um aluno de graduação:

Tétrade das Leis da Mídia, de Marshal McLuhan

Quais critérios de noticiabilidade, então, a tecnologia digital vem Aperfeiçoar, Reverter, Recuperar e Obsolescer?

De bate-pronto, Dra. Aguirre diz o seguinte:

APERFEIÇOA (o que na versão em espanhol foi dito como “agranda” ou “aumenta”: IMEDIATISMO

OBSOLESCE ou REDUZ (em espanhol se manteve a nomenclatura): EXCLUSIVIDADE e CONTRASTE

RECUPERA (também mantido em espanhol): SERVIÇO, APROXIMAÇÃO COM LEITOR, VERIFICAÇÃO

REVERTE: INFOTAINMENT

A sistematização da Dra. Aguirre vai bem além dos que resumi acima, que é o foco da discussão que tive com o colega semana passada – sobretudo o segundo item (OBSOLESCE/REDUZ).

Foi uma grata surpresa, no entanto, ver que o conteúdo como serviço (útil, aplicado) e a aproximação com o leitor (sobretudo com enfoques segmentados) são recuperados dos meios antigos. O mesmo não posso dizer sobre a VERIFICAÇÃO, que se tornou objeto de militância política travestido de jornalismo.


Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador”, pesquisa de doutoramento de Consuelo Aguirre, defendida na Universidad Austral, sob orientação do Prof. Dr. Francisco Albarello.

O furo não garante a exclusividade

Outro apontamento interessante da tese foi a queda da exclusividade como critério para decidir o que será notícia. É sabido que a natureza da informação digital é a replicabilidade infinita sem qualquer prejuízo à precisão do conteúdo. A qualidade de uma música gravada de um LP a uma K-7 era questionável, enquanto arquivos MP3 podem ser compartilhados eternamente sem perder um bit de qualidade.

Na seara do copia-e-cola, a exclusividade se esvai. A informação é exclusiva até se tornar pública – e copiada por outro site dois minutos depois.

Dra. Aguirre esclarece que “O que cai é a exclusividade, não o furo”. Os veículos continuam obcecados em ser os primeiros a noticiar algo, por mais que aquilo só tenha valor entre eles mesmos. O público não costuma ligar e nem nota quem foi o primeiro a noticiar algo. A notícia que vale é aquela que aparece primeiro e casa com as demandas particulares do usuário.

Acho perigoso, inclusive, que muitos veículos digitais abdiquem da precisão para ganhar a corrida pelo furo. O conteúdo sai capenga porque tem que sair. E o tempo em relação à concorrência se torna o maior critério de noticiabilidade(?!).

“Os critérios de noticiabilidade não são mais do que a raiz daquilo que entendemos como jornalismo. É um assunto absolutamente nuclear dentro da atividade jornalística”, comentou um dos avaliadores da banca, o Prof. Dr. Ramón Salaverría. E justamente por tamanha centralidade é que não podemos aceitar de modo passivo que os critérios de noticiabilidade se tornem peões da ansiedade, nem que abdiquem da pluralidade de fontes. Caso contrário, o que sobra são toneladas de conteúdos apressados e imprestáveis, reproduzidos por profissionais que atuam como robôs.

Em 2015, enquanto escrevia a tese, me deparei com a seguinte frase: “se os jovens de hoje não estão interessados nos conteúdos clássicos das notícias, isso não é um problema dos jovens, mas dos veículos”.

O autor é Wolfgang Donsbach, um professor e pesquisador alemão extremamente crítico – e realista destemido – da indústria da mídia. A clareza do raciocínio dele ecoa até hoje na minha cabeça e me ajuda a buscar um caminho para o reposicionamento do jornalismo na sociedade contemporânea, em especial, na rotina de cada indivíduo.

O que Donsbach e, humildemente, eu tentávamos alertar em meados da década passada era que o conceito de notícia clamava por revisão. Noutras palavras, notícia estava virando uma coisa chata! Mas como algo pode se tornar chato sem ter mudado? Justamente por esta razão – por não ter mudado – é que o noticiário de sempre se perdeu na avalanche de informações novas, sedutoras e abundantes no meio digital.

Pesquisa com news avoiders mexe com as bases do jornalismo

O começo do milênio deu o tom de uma geração hedonista ao extremo, sensível ~demais~ e intolerante às asperezas que fazem parte da vida de qualquer um. Ah, mas quem aceita ser tratado como “qualquer um”? 

Daí surgiram os news avoiders, que escolhem, conscientemente, não consumir notícias em função do mal-estar que elas geram em seus humores. No dia 20 de agosto de 2020, a revista científica Journalism Studies publicou uma pesquisa esmiuçando o olhar dos news avoiders sobre o noticiário. Os pesquisadores Ruth Palmer, Benjamin Toff e Rasmus Kleis Nielsen conversaram com 83 pessoas na Espanha e no Reino Unido. Os resultados são, no mínimo, provocativos.

Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista.

O ponto alto do estudo não está nas respostas dos news avoiders, mas na chacoalhada de realidade que os autores dão naqueles que ainda acreditam na imprensa como uma instituição independente de quaisquer interesses políticos ou privados, e que carrega o poder de vigiar as instâncias públicas em prol do bem comum. 

A utopia acabou. Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista. A maior parte das pessoas não enxerga assim. Que os veículos estejam cumprindo seu papel de informar decentemente a população é uma coisa. Já a percepção que o público tem dessa cobertura é outra. Ela é o oposto da visão idealizada que muitos de nós ainda temos da imprensa – e já se aninha no imaginário popular.

News avoiders vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante.

O relatório da pesquisa com os news avoiders afirma que eles vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante. Na pior das hipóteses, jornalismo é tido como um cúmplice de sistemas político e econômico, de algum dos lados.

Notícias e política se misturam na cabeça dessas pessoas e formam um monstro gigante de negatividade. Esta é a leitura de Joshua Benton, editor do NiemanLab, faz dos comentários colhidos pelos pesquisadores.

“Política é algo horroroso! Políticos são horrorosos!”

Para simplificar a história, a maioria dos entrevistados diz que política é algo horroroso; políticos são horrorosos. Então por que raios é preciso ler notícias sobre isso? (Lembrem-se do hedonismo, da intolerância à frustração, da falência das instituições sociais… Não é só a mídia que sofre com a falta de credibilidade; o poder público, os sindicatos, os partidos políticos são alvos ainda mais evidentes do desengajamento à organização tradicional da sociedade.)

Mais do que desgastada, a política que pauta a pesada maioria das notícias se mostra muito distante da vida cotidiana destas pessoas:  “… a maioria dos entrevistados usa o termo ‘política’ e ‘político’ para descrever o que políticos profissionais fazem, geralmente no nível nacional, distante de suas rotinas”, analisa o relatório.

Ouso dizer: neste ponto, os news avoiders têm toda a razão! São inúmeros os casos em que os títulos começam por “Bolsonaro diz…” ou “Câmara vota…”. Os agentes das notícias sempre são os políticos. É como se o jornalismo se limitasse à órbita daqueles que foram eleitos a cargos públicos – sobre eles e para eles -, sendo que muita gente nem lembra em quem votou nas últimas eleições.

Se o que realmente impacta na vida da população é a ação praticada por tal político, por que, então, não trazer o grupo impactado para o início do título? Eles é que são os reais agentes da notícia! (Eles não são agentes do fato, mas são protagonistas da notícia.)

Façamos um breve exercício de enfoque:

O fato de o presidente sancionar leis é recorrente e não impacta tanto na rotina de um cidadão quanto o efeito da lei sancionada. O agente da notícia não é o político, mas como o seu ato influencia na vida das pessoas.

Jornalistas e políticos estão em simbiose no imaginário popular

Voltando aos news avoiders, eles – e convenhamos, muitos de nós – associam(os) política à briga entre partidos e à corrupção. A vasta maioria não se identifica com qualquer partido político, não presta atenção à política em geral e ainda se descreve como “apolítica”, alegando estar “farta” do sistema, diz o relatório.

Por mais que a pesquisa de Palmer, Toff e Nielsen alerte para uma leitura inconscientemente preconceituosa da mídia, dizendo que os news avoiders adotam tais opiniões por reproduzirem o senso comum e não tanto a partir de um consumo crítico de notícias, é importante entender qual a imagem que os produtos e profissionais do jornalismo têm em certos grupos.

O desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou.

Fundamentada ou não, a relação entre jornalistas e políticos está no imaginário popular e daí se prolifera o desinteresse e uma profunda desconfiança. Segundo o relatório, as notícias são apenas cartadas políticas para qualquer partido com quem o repórter ou a empresa de comunicação simpatize.

Alguns [entrevistados] mudaram a expressão de cínicos para conspiratórios, colocando a mídia como conivente a um sistema de ‘forças obscuras [que] deliberadamente escondem ou distorcem informações para manter os cidadãos ignorantes ou distraídos diante daquilo que pessoas poderosas estariam realmente fazendo’.” – frankfurtianos, contenham o entusiasmo!

Os próprios pesquisadores reconhecem o tom populista na fala dos participantes, embora eles próprios não se classifiquem como populistas. Para além de um posicionamento ideológico, a abstenção impera:

“Eu odeio política. Esta é, provavelmente, uma das razões pelas quais eu não leio notícias, para ser sincero”, Ryan (Reino Unido).

Ou seja, o desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou. Já que o jornalismo insiste em fazer notícia sobre si e para as fontes, a lógica diz que o desinteresse pelo jornalismo é o mínimo que se poderia esperar das audiências!

Para o espelho e para as fontes

Essa história de jornalismo escrever para o espelho é grave e já passou da hora de acabar. Nelson Traquina denuncia esta má prática há décadas. “Quando fontes e jornalistas são parte da mesma ‘rotina’ de maneira regular, pode-se estabelecer certa interdependência. O perigo é evidente.” – e cita Walter Lippmann: “O jornalista está, inevitavelmente, em contato pessoal com os líderes políticos e homens de negócio, criando relações de confiança e de simpatia; é muito mais difícil e embaraçoso ignorá-las”. 

O jornalista precisa da fonte para fazer seu trabalho. A fonte precisa do jornalista para difundir suas ideias. (Sim, estou pensando no tapete verde do Congresso.) É um ambiente favorável à formação de um rede de cooperação! Você me ajuda e eu te ajudo. Simples assim. Esta é a percepção que os news avoiders têm da nossa profissão.

O jornalista escreve notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências e perdendo a relevância no cenário midiático.

Soma-se a isso os contatos viciados, o tempo sempre exíguo, as cobranças por audiência e a carência de postos de trabalho em redações. Repórteres se vêem praticamente numa situação de “fazemos qualquer negócio para manter nosso emprego”, mesmo que isso signifique publicar notícias que não fazem a menor diferença na rotina do cidadão.

Diante de cada pauta, pergunte-se: o que o meu leitor fará com esta notícia? Como ela vai influenciar na sua vida? Como vai melhorar sua rotina?

Lá em 2015 eu escrevia: “NelsonTraquina alerta que, aos jornalistas, os benefícios aparecem na eficácia de seu trabalho e na estabilidade do posto que ocupam, uma vez que usam uma autoridade para validar sua notícia. Do outro lado, as fontes oficiais também se beneficiam com a difusão de seus atos de maneira profissional, o que lhes dá relevância e reforça sua legitimidade. É comum, conforme diz o autor, que sob tais condições o jornalista passe a escrever notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências em nome de garantir sua sobrevivência nesta rotina profissional. Raquel San Martín reproduz a fala de um jornalista entrevistado em suas pesquisas: ‘Quando estou escrevendo sobre política, penso nos político, na classe dirigente, que controla o poder’.

O autocentramento da cultura profissional do jornalista reforça o microclima na atividade, fazendo com que o jornalismo seja uma trabalho feito para o espelho, ou seja, por e para o próprio repórter e sua rede imediata de contatos.” [Leia-se: fazemos jornalismo para nós mesmos e para os políticos que nos rodeiam.]

Entendem, agora, por que insisto há 17 anos em aproximar o jornalista do público? Porque é no microcosmos de nossas rotinas e interesses que vivemos, trabalhamos, entendemos o mundo e podemos fazer alguma diferença.

Interesse jornalístico

Falando em interesses, toda essa discussão passa pelos valores-notícia. O “interessante” sempre é para alguém. E não há nenhum ranço nesta observação.

Gosto quando Juan Ramón Muñoz-Torres busca na filosofia o entendimento para o interessante como valor-notícia. INTER-ES: A etimologia da palavra interesse conduz a tudo o que é ou está entre algo ou alguém. Por seu caráter relacional, o interesse é algo tipicamente pessoal e pertence ao que Aristóteles chamava de “prática” ou práxis, relativo ao conhecimento aplicado, ao “obrar”. O interesse, portanto, é aquilo que leva o indivíduo à ação. Pergunte-se, diante de cada pauta: o que o leitor fará com esta notícia? Qual ação ela pode desencadear em sua vida?

Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência.

Se nos movemos por interesses [no melhor dos sentidos, como motivação], precisamos buscá-lo para sairmos do estado de inércia e, enfim, viver! No entanto, tomar atitudes é o que menos passa na cabeça desse pessoal cansado do noticiário de política…

A justificativa deles é que não podem fazer nada para melhorar a política retratada nas notícias. Mesmo diante da corrupção denunciada por uma reportagem de jornalismo investigativo, eles pensam como a Emily (UK): “Ninguém pode realmente mudar isso. Porque no final do dia não conta o que nós, pequeninos, pensamos. É tudo o que o governo decidir fazer. Isso é o mais importante”.

Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência.Muitos evitam as notícias sobre política como grande parte da estratégia de gerenciar suas emoções. Ao invés de se engajarem com as notícias, eles se sentem tristes a respeito do estado das coisas e frustrados sobre a própria impotência em mudá-lo. Eles preferem conservar suas energias emocionais para enfocar em seus próprios problemas”, concluem os autores da pesquisa.

Para aproximar política e público

Chame isso de individualismo ou de espírito de sobrevivência, não importa. O fato é que o noticiário político não conversa com a vida das pessoas, não diz como tal fato pode impactar a rotina de cada um – se é que os fatos noticiados realmente têm poder de impacto. 

É claro que o público se ocupará de problemas que realmente tocam suas vidas! É a conta de luz que sobe, o remédio que não chega no posto, o perrengue com o banco, a obra no condomínio, a reunião na escola dos filhos… Não sobra tempo nem atenção para que a bancada xpto pressione o relator Fulaninho a incluir o veto do Beltrano na pauta de votação do Senado.

Só que boa parte dos veículos que cobrem política ainda dá isso. E prioritariamente isso! Posso imaginar o repórter tomando o rumo da Esplanada de manhã cedo, condicionado a transformar em notícia todo o espirro que alguém der por ali. Não é assim que o jornalismo funciona. Mas foi nisso que se tornou: um retrato autocentrado de acontecimentos insossos e sem impacto imediato na vida do cidadão.

Critérios de noticiabilidade, para que te quero…

É como se muitas redações tivessem esquecido dos critérios de noticiabilidade. É isso: falta critério na seleção das pautas. Ao menos, falta o uso de bons parâmetros e a noção de que eles existem para agir como critérios de desempate diante de fatos necessariamente relevantes à população. A ideia é de Muñoz-Torres, a quem os valores-notícia não são atributos a serem encaixados nos acontecimentos, sob a obrigação burocrática. Os valores-notícia brotam dos fatos. É como se a realidade acenasse ao repórter e dissesse: eu preciso ser noticiada! Não o contrário.

Quando Boczkowski e Mitchelstein publicaram o livro The News Gap, em 2013, provaram em números o abismo que existe entre aquilo que sai no jornal e o que é de interesse da população. “Ao contrário das principais escolhas dos jornalistas, as preferências do público são marcadas por uma forte predileção por assuntos que não tratem do poder público, além das “notícias-que-você-pode-usar” (o que significa matérias com implicações diretas na vida cotidiana)”, escreve o casal. 

O que fazer?

Como conclusão da pesquisa deste ano, com os news avoiders, os autores recomendam que os veículos criem esforços para separar suas atividades de tudo aquilo que tem a ver com a elite do poder público no imaginário popular. Essa seria uma condição para recuperarmos a credibilidade aos olhos de nossas audiências e, só então, voltarmos a ter relevância em suas vidas. Particularmente, vejo que uma das formas de se fazer isso é conectando o noticiário político à rotina da população. E se um fato não trouxer esta conexão, então não se trata de uma notícia. Que venha o próximo.

Acrescento à recomendação deles:

  • Não copie e cole trechos do Diário Oficial da União. São textos chatos e longos, nada jornalísticos.
  • Não se “acostume” com o juridiquês da política brasileira. O jornalismo existe para traduzir a realidade, fazer a mediação com o público, lembra? 😉 Você pode saber o que significa “pedir vista” ou “substitutiva”. Mas o público não é obrigado a saber disso e ele não vai procurar no Google para entender sua matéria.
  • Nem tudo tem que ser noticiado! Lembre-se que há vida além do Congresso, do Planalto, dos gabinetes, palácios e câmaras locais. O público não precisa estar a par de tudo o que você vê. Logo, o que parece ser uma super novidade para você talvez não faça o menor sentido para suas audiências, a menos que você contextualize.
  • Fuja do jornalismo declaratório. Ele tende a ser pobre e desinteressante.
  • Recomendo fortemente este artigo que fala da importância de publicarmos menos notas e com mais qualidade. A maior parte do noticiário de política é commoditie e aparece em vários veículos simultaneamente.
  • [O que mais você sugere?]

As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

No afã de produzir conteúdos relevantes para o público, veículos e jornalistas seguem definindo, por si próprios, aquilo que julgam importante para suas audiências, sobretudo nos tempos de crise em que vivemos. Como consequência disso, vemos, hoje, nos noticiários, temáticas monótonas e que, por vezes, até podem trazer mais desespero que esperança aos leitores.

Antigamente, não se podia ter uma noção tão precisa das necessidades do público por se estar tão distante dele. No entanto, por que não atendemos as demandas de cada um dos nichos de nossos negócios, apesar de termos – aparentemente – uma dimensão exata delas?

Será que os jornais utilizam os critérios corretos para definir as prioridades de seus conteúdos? Estariam eles usando entre os critérios de noticiabilidade uma busca pelas reais necessidades de seus leitores, ou de suas próprias percepções?

A transformação que o mundo atravessa, diante da pandemia do novo coronavírus, está abalando diversas indústrias — inclusive a jornalística. Sem previsão para o fim da crise sanitária e econômica, anunciantes seguram o bolso. Em consequência, cai a verba publicitária que sustenta os veículos de comunicação, sobretudo aqueles que não têm assinatura como uma de suas fontes de receita.

Aqui no Brasil, empresas de mídia começaram a cortar o salário de jornalistas, seguindo a MP 936, que permite a redução de remuneração (em 25%, 50% ou 70%) proporcional à jornada de trabalho. As inevitáveis demissões já se confirmam em grupos como Abril e RBS. Os jornalistas se deparam com um cenário de instabilidade financeira, que parece aprofundar a crise na profissão em suas diversas frentes — de credibilidade, de influência e, claro, de mercado.

A mídia perdeu o monopólio da comunicação, e audiências pulverizadas foram se conectando cada vez mais a perfis pessoais e ideológicos em detrimento de publishers.

Desde a década passada, o jornalismo tem visto sua reputação colocada em xeque ao ser atacado duramente por governantes. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rotulou a imprensa americana de “fake news media” e “inimiga do povo”. Diferentemente de outras épocas, desta vez o desprestígio contou com expressiva adesão popular; cada vez mais, os americanos confiam menos na mídia

No Brasil, o boicote do presidente Jair Bolsonaro, fã de Trump, à imprensa tem sido semelhante. Perseguição a jornalistas e relatos de desrespeito e humilhação se tornaram comuns na cobertura do Palácio do Planalto, em Brasília. Só nos três primeiros meses de 2020, foi um ataque a cada três dias, aponta levantamento da ONG Repórteres Sem Fronteiras. Por aqui também, reportagens apuradas e que apresentam pluralidade de versões são tachadas de “fake news” por apoiadores do mandatário.

Além disso, a massificação das redes sociais e a popularização de smartphones permitiram a eclosão de inúmeros canais e formadores de opinião na web. Influenciadores, creators, youtubers, blogs e páginas afiliadas a movimentos sociais ou partidos políticos passaram a disputar com veículos a atenção de leitores e espectadores. A mídia perdeu o monopólio da comunicação, e audiências pulverizadas foram se conectando cada vez mais a perfis pessoais e ideológicos em detrimento de publishers. Como resultado, a influência da imprensa diminui, e a desinformação, muitas vezes fomentada pelos players em ascensão, impera.

Apesar de tanta má notícia para o jornalismo, a pandemia acarretou mudanças na rotina produtiva da notícia e no consumo de informação, que podem ser tanto oportunidades quanto esperanças para nossa profissão. 

A constatação de que é possível produzir um bom jornalismo de qualquer lugar, mesmo ao lado de onde você acorda, pode ajudar a salvar o nosso negócio!

Os 5 fatos que listo a seguir podem não ser a solução para o jornalismo, mas seguramente servem de farol para diretores de redação, executivos dos veículos de comunicação e estudiosos que, como eu, buscam o modelo de negócios ideal para produção de conteúdo de qualidade:

1. O zap e o Face estão em baixa na confiança dos brasileiros

A TV e os jornais são os veículos de comunicação em que os brasileiros mais confiam sobre informações do coronavírus. A constatação foi de pesquisa Datafolha publicada em 23 de março. A televisão conta com 61% de confiança; os jornais, 56%; rádio, 50%; e, mais atrás, os sites de notícia, 38%. WhatsApp e Facebook têm apenas 12% de confiança cada um. 

Mas o dado que sobressai é o nível de desconfiança nas duas marcas de Mark Zuckerberg em relação aos conteúdos divulgados da Covid-19: 58% não confiam no zap e 50% não confiam no Face. A desconfiança na TV, jornais e rádio não passa dos 12%. Em sites de notícia, 22%. Como jornalista, é um alento saber que a população reconhece no jornalismo profissional a informação mais confiável para basear práticas de prevenção da doença.

2. Audiência do jornalismo cresce na TV e na Internet

A pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil, do Orbis Media Review, aponta que os sites de notícia e a TV aberta são os principais canais de novidade sobre a Covid-19. Dos 240 entrevistados de 25 de março a 2 de abril, 78% se informam a partir de portais e 54% pela TV.

Em linha com os números do Datafolha e do Orbis Media Review, os resultados positivos de sites de notícia e canais de TV nos últimos meses indicam que os brasileiros estão correndo para o jornalismo profissional para se municiar contra a Covid-19. Maior portal brasileiro, o UOL informou que em março a cobertura da crise do coronavírus levou a “índices sem precedentes de audiência”. Foram quase 1 bilhão de visitas, de acordo com o Google Analytics. Em abril, a Folha atingiu recorde de páginas vistas, embalada também pela crise política. 

Na TV aberta, programação especial de coronavírus elevou a audiência da Rede Globo. Na TV paga, o segmento de notícias foi o que mais cresceu durante a quarentena. Apenas de 9 a 22 de março, o aumento no número de aparelhos ligados nos canais all-news foi de 111%.

3. Jornalismo científico e de saúde ganha relevância

Não é surpresa que mais reportagens de saúde e de ciência estejam nas manchetes dos jornais e sites de notícia. Afinal, a curiosidade sobre a doença, as descobertas mais recentes sobre o vírus, as dúvidas sobre os tratamentos potenciais, a expectativa pela vacina, tudo isso está na pauta do dia. O jornalismo cola na ciência, e ambos reafirmam mutuamente sua importância — um dueto mais do que necessário em tempos de negacionismo.

No HuffPost, onde trabalho, temos uma repórter totalmente dedicada à saúde e à ciência. Ela tem conseguido antecipar estudos, como o que relaciona desigualdade social a acesso a testes de Covid-19 no Brasil, e deu furos como o da limitação de confiabilidade dos testes rápidos, que depois virou notícia no Globo

Segundo a pesquisa do Orbis Media Review, há uma demanda substancial por pesquisas sobre a cura ou vacina do coronavírus (50% dos entrevistados). Como não há horizonte para o fim da crise de saúde e da busca por esse tipo de informação, o jornalismo científico se apresenta como um dos caminhos mais promissores para a imprensa.

4. A “redação distribuída” veio para ficar

Diversas redações de jornais e sites de notícia estão operando integralmente via home office. Se num primeiro momento emergiram as dificuldades de trabalhar de casa e focar individualmente em tarefas que antes se faziam coletivamente, em voz alta e com muito barulho, os jornalistas vão se adaptando ao novo ambiente de trabalho, onde mais uma vez as tecnologias digitais ganham protagonismo inequívoco.

“As infraestruturas digitais implantadas agora devem ser mantidas e desenvolvidas para funcionar paralelamente aos espaços físicos. Ao fazer isso, nós podemos capitalizar em todas as coisas que mantêm o trabalho distribuído tão efetivo.”

Tom Treweinnard

Em entrevista ao Jornalistas&Cia, o editor de Esportes do Estadão, Robson Morelli, conta que todos os profissionais estão trabalhando remotamente. “Nós agora estamos nos contatando via ferramentas de meeting, videoconferências, e o processo fica mais lento, mas funciona. Alguns especialistas dizem que talvez essa situação possa vir a se tornar um legado, pois as pessoas se deram conta de que é possível trabalhar remotamente sem perder a qualidade do que é feito”, opina.

A observação de Morelli vai ao encontro da tese do cofundador da Fathm, consultoria americana de jornalismo digital, Tom Treweinnard. No artigo A crise do coronavírus vai acabar em algum momento, mas a redação distribuída veio para ficar, publicado pelo NiemanLab, ele lista os benefícios dessa nova dinâmica do jornalismo, que deixou temporariamente os limites espaciais das redações para estar espalhada pelas residências dos jornalistas.

“As infraestruturas digitais implantadas agora devem ser mantidas e desenvolvidas para funcionar paralelamente aos espaços físicos”, escreve Treweinnar. “Ao fazer isso, nós podemos capitalizar em todas as coisas que mantêm o trabalho distribuído tão efetivo.”

O home office seguramente reduz custos de uma redação. Gastos com instalações, manutenção do espaço, seguros, segurança, limpeza: tudo isso pode ser poupado se o local de trabalho dos editores for sua casa. A constatação de que é possível produzir um bom jornalismo de qualquer lugar, mesmo ao lado de onde você acorda, pode ajudar a salvar o nosso negócio!

Treweinnar também relata que este novo cenário tem implicações positivas para acessibilidade e diversidade. Como boa parte dos grandes veículos de comunicação fica em capitais e em bairros centrais, há entraves econômicos, sociais e espaciais para que jornalistas de periferias, oriundos de cidades menores e com deficiência física possam integrar os quadros dessas empresas. A redação distribuída seria mais inclusiva na medida em que o deslocamento para o centro não seria mais pré-requisito para trabalhar no jornal X ou no site Y.

5. Esta é a hora da reconexão com o público 

Além do medo do novo coronavírus e dos efeitos econômicos da pandemia, como o desemprego e a pobreza, o próprio isolamento é uma preocupação constante. Como passar o tempo, de que modo enfrentar o tédio, como contornar a ansiedade, a solidão e até a depressão são questões que perpassam pessoas de todas as faixas etárias nesta quarentena.

Esta é uma oportunidade única para o jornalismo fazer-se importante, para além de noticiar sobre o novo coronavírus. Muita gente, aliás, não quer saber de doença. A busca por boas notícias saltou no Google americano, de acordo com o The New York Times. Os Estados Unidos lideram hoje o ranking da Covid-19, com mais de 1,1 milhão de casos confirmados.

A National Geographic criou duas newsletters com fatos positivos para enviar aos leitores durante este período de pandemia. “As pessoas estão buscando uma razão para continuar”, afirmou o editor-executivo de newsletters, David Beard, ao NYT. Uma newsletter é dirigida aos pais e filhos — para “explorações” em família — e a outra, intitulada Your Weekly Escape traz histórias de pessoas e lugares extraordinários, com as belíssimas imagens que são características da publicação. “Eu penso nela [Weekly Escape] como um app de meditação, mas é jornalismo“, resume Beard.

No Brasil, as lives são ferramentas poderosas de informação, comunicação e entretenimento que têm se popularizado ainda mais nesta quarentena. De custo relativamente baixo, se comparado ao aparato de produção de vídeo de TVs e estúdios, a transmissão ao vivo de uma entrevista, um bate-papo sobre um tema de interesse da audiência pode estreitar vínculo com os leitores-seguidores no YouTube, Twitter, Facebook e principalmente Instagram.

No HuffPost, também escolhemos fazer lives de temas que fogem do novo coronavírus. Os seguidores do Instagram são convidados a participar de cineclubes, conversas com estrelas de reality show e debates sobre temas de comportamento da atualidade. As perguntas dos leitores são tão importantes quanto a do jornalista que conduz a entrevista. 

Este senso de pertencimento e participação pode contribuir com o resgate da confiança nos veículos de comunicação. Como diz o pesquisador João Arantes, “se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor”.


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.