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Timothy Marshall

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Tudo aquilo que é imutável tende a ser pouco atrativo para o jornalista. O motivo é simples: se não muda, não gera novas pautas; se permanece igual tende a ser assunto frio de reportagem. Este não é um problema para quem trabalha nas editorias políticas, no entanto. Para além do fato do jornalismo exercer o papel de vigilante do poder, a cobertura política é atraente graças à sua relevância e às novas pautas geradas diariamente. Mas ainda que os gabinetes mudem, as ideologias se alternem no poder e o relacionamento entre governos se transforme, há outros fatores que foram determinantes para a geopolítica ao longo da história e que continuarão a sê-lo independentemente da agenda política das lideranças do presente.

É disto que trata o livro Prisioneiros da Geografia, do jornalista britânico Timothy Marshall. A sua tese é que planícies e montanhas, desertos e rios, frio e calor são elementos cruciais na política global, mesmo que regularmente subestimados. Por este motivo, Marshall argumenta que “As realidades físicas que sustentam a política nacional e internacional são desconsideradas, com demasiada frequência, tanto quando se escreve sobre história quanto na cobertura contemporânea da mídia acerca dos assuntos mundiais”. Em relação a esta colocação, é legítimo argumentar que não há razão para que a geografia seja, em si própria, assunto de primeira ordem para os jornalistas. Isso, no entanto, não significa que ela não possa orbitar as matérias sobre políticas internacionais quando estas são determinadas ou amplamente influenciadas pelo terreno e pelo clima.

Exemplos sobre a correlação entre política e geografia não faltam. O noticiário internacional nos últimos anos – e em especial nos últimos meses – foi diversas vezes protagonizado pela China e pela Rússia. O posicionamento adotado por ambos de confrontar a ordem liberal promovida pelo Ocidente tem gerado repercussões importantes na política global. Nos últimos tempos, vimos um embate crescente entre EUA e China que provocou até mesmo uma guerra comercial envolvendo importantes sanções. A Rússia, por sua vez, tomou a drástica decisão de invadir a Ucrânia no início deste ano motivada, entre outras coisas, pelo desejo de retomar sua influência em uma região cada vez mais próxima da esfera ocidental.

Basta olhar para os mapas, no entanto, para entender como a geografia também exerce seu papel nas políticas conduzidas por cada país. Ela explica, por exemplo, o motivo pelo qual os conflitos entre Índia e China – dois países com mais de 1 bilhão de cidadãos, que compartilham fronteira, não são culturalmente alinhados e rivalizam influência sobre a região – nunca foram significativos. Entre os dois países, afinal, existe a maior cadeia de montanhas do mundo, os Himalaias, que impedem o movimento fácil e rápido de grandes forças militares. Mesmo que a tecnologia avance, o obstáculo geográfico continua sendo um forte elemento de dissuasão de um conflito aberto entre os dois países.

Com a guerra em andamento entre Rússia e Ucrânia, por sua vez, a geografia também ajuda a entender o que está em jogo para além dos motivos ideológicos que colocaram os dois países em conflito. Enquanto as montanhas criam uma fronteira natural e de difícil transposição entre China e Índia, o mesmo não pode ser dito sobre os dois países europeus. Entre eles não existem barreiras naturais – o que representa, para a Rússia, tanto uma oportunidade de invasão quanto uma ameaça de ser invadida. Neste sentido, a cortina de ferro criada pela União Soviética no século passado era útil para a Rússia não apenas em sua disputa com os EUA por influência global, mas também por colocar obstáculos políticos onde sempre faltaram obstáculos geográficos impedindo o movimento de tropas do oeste para o leste.

Como é possível ver no mapa, da Polônia até a Rússia o terreno começa a se abrir sem a interferência de montanhas capazes de criar uma fronteira natural entre os países.

É verdade que as tentativas de invasão à Rússia – de Napoleão a Hitler – foram frustradas, entre outras coisas, devido à dificuldade de lidar com o rigoroso inverno e de manter linhas de suprimento e comunicação tão extensas. Mas isso não significa que a Rússia, com seus mais de 3000 km de fronteira com a Europa, não se sinta em uma posição de vulnerabilidade frequente. Os planos de Putin parecem, neste momento, distantes de retomar toda a esfera de influência que seu país possuía durante a Guerra Fria. Ainda assim, conquistar a Ucrânia ou colocar no poder do país um presidente fantoche e subserviente aos comandos de Moscou significaria, para além de reduzir a influência ocidental sob o leste europeu, adicionar um obstáculo entre a Europa e o vasto território russo.

Além de ser o maior país do mundo, a Rússia enfrenta outros desafios peculiares. Embora a maior parte de sua superfície esteja na Ásia, apenas 22% da população vive lá (motivo que também se deve, em grande medida, à geografia). Para além dos Montes Urais, que dividem os dois continentes, e em direção à Sibéria, a Rússia é um país inóspito, “congelada por meses a fio, com vastas florestas (taiga), solo pobre para a agricultura e vastas extensões de pântanos”, segundo Marshall. Assim, o país tem muito território, demasiadas fronteiras, onze diferentes fusos e muita pouca gente para ocupar toda esta área.

Os desafios territoriais russos não se encerram aí. O país também enfrenta dificuldades em sua saída para o mar (embora seja cercado por oceanos a norte e a leste). Isto explica, em grande parte, a dificuldade da Rússia de se tornar efetivamente uma potência econômica mundial. Devido ao seu posicionamento no globo, o país praticamente não detém portos de águas mornas. Tanto no Ártico quanto na fronteira com o Pacífico, os portos russos congelam por vários meses do ano. No Oceano Báltico a situação tampouco é melhor, pois até que sua frota marítima consiga atingir o Atlântico, precisa inicialmente passar pela Estônia e Finlândia (o primeiro país já faz parte da OTAN e o segundo está ativamente buscando se juntar à Organização juntamente com a Suécia). Mais ainda, para atingir o Mar do Norte, a frota russa precisa também cruzar o estreito de Escagerraque, controlado pela Dinamarca e Noruega, ambos parte da OTAN. Como diz Marshall em seu livro:

Essa falta de um porto de águas mornas com acesso direto aos oceanos sempre foi o calcanhar de Aquiles da Rússia, tão estrategicamente importante para ela quanto a planície do norte da Europa. A Rússia está em desvantagem geográfica, salva de ser uma potência muito mais fraca apenas graças a seu petróleo e ao gás.

O mapa mostra a difícil saída da Rússia pelo Mar Báltico, cercado por diversos países da OTAN como Estônia, Letônia e Lituânia, além da Noruega e da Dinamarca no estreito de Escagerraque.

O Mar Negro é tentador para Putin justamente por dar acesso a portos de águas mornas ausentes em outras partes do país. Mas assim como a geografia conta muito para a política internacional russa, ela também é importante para a Turquia, que pouco desejo tem de compartilhar o controle sobre aquelas águas que se conectam ao Mar de Mármara, Egeu e Mediterrâneo até, enfim, desembocar no Atlântico. Isso explica, também, a posição adotada pelo governo turco desde que a guerra teve início.

Recep Tayyip Erdogan é ideologicamente parecido com Putin. Ambos minaram a liberdade de imprensa e prenderam oponentes políticos a fim de se manterem no poder. Talvez mais importante ainda é o fato de que ambos se opõem aos EUA e enxergam o capitalismo ocidental como uma arma para enfraquecer seus governos. Se adicionarmos a estes elementos que unem as duas lideranças o fato de que 30% da energia turca provém do gás russo, seria difícil imaginar o governo de Erdogan se opondo a Putin e tomando certas medidas que beneficiam a posição ocidental. O improvável tornou-se certo com poucas semanas de conflito, no entanto. Desde que Putin ordenou a invasão da Ucrânia, a Turquia não apenas fechou o estreito de Bósforo, que cruza Istambul conectando o Mar de Mármara ao Mar Negro, para a frota russa, como enviou à Ucrânia seus drones Bayraktar para ajudá-los no combate.

São inúmeros os motivos que explicam a decisão tomada por Putin de invadir a vizinha Ucrânia. Desde o início do conflito não faltaram jornalistas, acadêmicos e especialistas em geral tratando da importância de Kiev na história russa, sobre as implicações de aproximar a Ucrânia da OTAN e a conexão histórica entre os povos dos dois países que agora se encontram em combate. Mas como bem disse Marshall, a geografia está entre os assuntos mais subestimados e menos abordados na cobertura internacional, mesmo que muitas das políticas adotadas pelos governantes sejam frequentemente determinadas, influenciadas ou limitadas por este fator. O livro Prisioneiros da Geografia é, portanto, um grande ponto de partida para qualquer jornalista que queira acrescentar o “porquê” ao “o que” dos assuntos internacionais.