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Isto é do ser humano: como é difícil falar da própria humildade!

O mero fato de considerar-nos uma pessoa humilde parece se auto invalidar. Mas na era em que tudo é mensurável, vamos tentar medir nossa Humildade Intelectual.

Preparamos este teste com base em um artigo científico publicado pela Journal of Personality Assessment e adaptamos a situações tipicamente vividas na rotina de um jornalista.

Baixe o teste gratuitamente. Sugerimos que você o imprima ou tome nota de suas respostas e pontuações numa folha de papel.  Você precisará somá-las. O documento traz todas as instruções.

Ao invés de uma sentença, este teste pretende ser uma ferramenta de autoconhecimento que pode ajudar-nos a melhorar não apenas como jornalistas, mas como seres humanos.

BAIXAR TESTE (pdf)

Dos mesmos produtores de “minha falha é ser perfeccionista” e da expressão “com todo o respeito” que antecede falas conscientemente desrespeitosas, cresce a recorrência dos adeptos ao “posso estar enganado, mas…“.

Esta semi(pseudo?)-humildade geralmente funciona no nosso discurso cotidiano como um salvo conduto, uma permissão para dizermos qualquer coisa como certa e verdadeira, ainda que não seja.

Lembrei disso ontem de manhã, ao conversar com o Pedro Franco, pesquisador brasileiro na New York University (NYU), sobre Humildade Intelectual (HI). Numa breve busca sobre o tema, encontrei este artigo publicado em 2020 no Journal of Personality, dizendo, em síntese, que:

A Humildade Intelectual (HI) se refere a reconhecermos o quanto nossas crenças pessoais ou percepções podem estar erradas. Quanto mais baixa a HI, maior a tendência em presumir que pessoas que pensam diferente de nós são intelectual e moralmente inferiores. – thanks ao site O Futuro das Coisas

Originalmente, a pesquisa relata a percepção que temos de nossos oponentes políticos e do quanto a falta dessa Humildade Intelectual está na raiz do que hoje chamamos “polarização do debate”. O autor, Mattheu L. Stanley, PhD em Psicologia e Neurociência na Duke University, notou que as pessoas que concordam com a frase “Eu aceito que minhas crenças e atitudes possam estar erradas” são menos propensas a rotular negativamente seus oponentes.

A arrogância do cancelamento

Isso tem a ver com uma notícia que li também ontem pela manhã, referente às demissões na redação da Revista Crusoé, ocorridas ontem. Abertamente identificada com a “causa” Lava Jato e tradicionalmente apoiadora de Sérgio Moro no cenário político, o site O Antagonista, pai da Crusoé, nunca ocultou o posicionamento nem a identidade editorial do grupo. Na notícia que li, o ex-deputado Jean Wyllys, do PSOL, se referiu aos (ex)integrantes da revista e a seus simpatizantes como “uma classe dominante burra.

Para além da singeleza do adjetivo usado por Jean Wyllys para se referir a um grupo político oponente – o que pode ser pior que “burro”? bobo? feio? – o ex-parlamentar serviu como perfeito exemplar da espécie dos desprovidos de Humildade Intelectual ao anular sumariamente qualquer possibilidade de diálogo com aqueles que discordam de suas crenças. Sim, isso é o chamado “cancelamento”. E pode acontecer em qualquer direção, sob qualquer ideologia.

Existe humildade intelectual no jornalismo?

Deixando o debate político para entrar no universo jornalístico, me perguntei como o jornalista se relaciona com a Humildade Intelectual, uma vez que a informação publicada em veículos se propõe verdadeira e correta? Será que o jornalismo ocupa um patamar que está acima da Humildade Intelectual e é assim que deve ser?

Não faria sentido o editor ponderar possíveis falhas ou pedir “desculpa por qualquer coisa!” no fim de cada matéria. Até porque esta seria aquela semi-pseudo-humildade de que falamos antes. O processo jornalístico, assim como o método dialético, deveria ser a garantia de que toda informação publicada seja verdadeira. Mas também como a dialética, onde toda tese está sujeita a uma antítese que levará à síntese, o trabalho do jornalista é uma construção intelectual, um recorte da realidade (framing) segundo esse próprio jornalista.

IMPORTANTE: É importante destacar que esta reflexão não se propõe filosófica, ou seja, questionar a existência de uma só verdade tampouco sobre o que é esta verdade. Tomemos aqui verdade como compromisso jornalístico, com o fato real e não com a ficção.

O ideal de espelhar a realidade em nossos relatos fez com que nossa profissão acreditasse, por muitas gerações, que estaria dispensada da humildade intelectual. Inclusive se consolidou o contrário: jornalista precisa ter certeza daquilo que diz, sem margens a subjetividades e enviesamentos, sob pena de enfraquecer a matéria.

Notícia nunca foi lugar de discussão, mas de afirmação. Não existe notícia beta e toda correção a ser feita dói na alma do profissional, marca a fogo como o gado, brutalmente, destruindo a credibilidade longamente conquistada.

O ideal se transforma em premissa

Toda essa necessidade premente que o jornalista carrega de trazer certezas no que diz se transformou, aos poucos, de ideal em premissa. No ideal, olho para a frente, para aquilo que almejo, aonde quero chegar. Na premissa, ao contrário, eu parto de uma certeza: a de que tudo o que eu diga será a verdade, sem lugar para questionamentos ou para enquadramentos diferentes – sem espaço para a humildade intelectual.

E isso ficou explícito no comentário que um colega deixou – espontânea e anonimamente – em uma pesquisa sobre diálogo com as audiências, que temos feito aqui no Orbis Media Review (em breve será publicada):

Pouco converso com o público. Usualmente, só para corrigir alguma informação inverídica publicada por algum leitor em resposta ao que publico em meu perfil pessoal, ou para dar algum tipo de esclarecimento em caso de má compreensão na leitura das reportagens. Sempre com o fim de evitar que distorções se espalhem. No mais, evito ao máximo discussões em redes sociais e nunca opino a respeito de nada. Minha apuração está no texto da reportagem. Ela é mais importante do que qualquer opinião pessoal.

Confesso que fiquei impressionada com a assertividade do comentário do (ou da) colega!

Perceba, no texto, que tudo o que vem do público já vem manchado pelo “erro”:

… corrigir alguma informação inverídica publicada por algum leitor…

… esclarecer em caso de má compreensão na leitura das reportagens…

Ele (ou ela) só vai dialogar com o leitor para corrigi-lo. Este é seu dever porque o que ele (ou ela) diz é o correto. Perceba que ele (ou ela) sequer cogita a possibilidade de ser corrigido pelo leitor. Ou ainda, se isso acontece, não é uma interação que mereça a sua resposta.

Sua apuração que está na reportagem é soberana, única e inquestionável. – Uma vez que isso é dito de forma ampla e não se referindo a uma reportagem específica, fica nítida a baixa humildade intelectual, a indisponibilidade para dialogar com o diferente, a certeza de que a verdade está em si e que esta é uma premissa, não um ideal.

Por que isso é tão grave?

A gravidade de uma baixa humildade intelectual não leva apenas ao cancelamento do oponente, mas fere valores que a própria comunidade jornalística defende com veemência: a começar pela democracia e pela pluralidade de ideias, pela riqueza do debate.

Mais grave ainda é a falta do reconhecimento de que, sim, podemos estar redondamente enganados, de que somos falíveis e de que algo não se consolida como verdade porque saiu no jornal ou na TV. Até porque nossa própria apuração pode estar enviesada, mesmo sem querer, pelo simples fato de ser… nossa!

Queremos, sempre, acertar. Este é o ideal. Mas sentir que somos infalíveis é tão grave quanto errar. Pior, talvez. A humildade intelectual pode ajudar a crescermos na intenção, no compromisso, no esforço – mas nunca na premissa – de acertar.

O que eu ganho com a Humildade Intelectual?

Ganha novas ideias. Não é o caso de absorver o ponto de vista de quem confronta o seu relato. Você pode continuar discordando de seus oponentes. Mas o fato de se expor a perspectivas opostas leva a sua mente a aprimorar o seu ponto de vista, desenvolvendo um raciocínio mais refinado, que buscará sempre superar o seu opositor.

Esta tentativa de superação não pode ser confundida com a Humildade Intelectual em si, ao contrário. Ela é o movimento natural da mente em busca de uma readequação do pensamento e, se for feito a partir da anulação do ponto de vista contrário, só reforçará a arrogância do indivíduo. O aperfeiçoamento do raciocínio acontece a partir do reconhecimento – temporário ou permanente – de que o seu oponente pode estar certo. Só assim você identificará os pontos onde precisa melhorar a sua construção.

Outra pesquisa na área da Psicologia, da Universidade da Califórnia, concluiu que adultos intelectualmente humildes desenvolvem maior capacidade cognitiva, são mais criativos e aceleram processos de aprendizagem. Para chegar a este resultado, porém, tiveram que ouvir e pensar a respeito de pontos de vista radicalmente opostos aos seus.

Teste sua Humildade Intelectual

Este teste, recomendado por vários pesquisadores, foi desenvolvido por um… jornalista! Shane Snow já publicou na GQ, New Yorker, Wired e Fast Company sobre inovação e desenvolvimento humano. Já desenvolveu reportagens investigativas sobre tráfico de armas e corrupção governamental. O teste armado por ele é amplo e avalia a Humildade Intelectual do participante em âmbito geral da vida.

Nós preparamos uma adaptação para jornalistas, a partir do teste The development and validation of the Comprehensive Intellectual Humility Scale, publicado pelo Journal of Personality Assessment. Descubra o seu score de Humildade Intelectual.

BAIXAR O TESTE DE HI PARA JORNALISTAS (pdf)

 

Um grupo de alunos que participaram de um workshop sobre Audience Firstno ano passado, fizeram um exercício tão simples quanto raro na correria da redação: selecionei algumas manchetes de veículos mainstream (generalistas, não especializados) e pedi que eles respondessem 2 perguntas em relação a cada uma delas:

  • Quem vai se interessar por esta notícia?
  • Qual o efeito ela produzirá na vida dessa pessoa?

Antes que alguém pense que este é um exercício de Teoria dos Usos e Gratificações, paremos antes. É um caminho para encontrar a ancoragem (vamos falar disso noutro momento), para descobrir a motivação de uma pessoa ao decidir acessar tal conteúdo, vista da perspectiva de quem consome – e não de quem produz.

O desafio, aqui, é esquecer um pouco do futuro do pretérito e não escolher as pautas de acordo com o que o público deveria saber. – Ah, então só vou publicar aquilo que as audiências querem consumir? Ou seja, tragédia, bizarrice e celebridades? – Não. Até porque um jornalismo útil e de qualidade não pode trabalhar com esta visão polarizada sobre sua própria capacidade de produção.

De volta ao exercício – e de forma totalmente espontânea! – todo nós nos surpreendemos com o padrão de efeitos que esperamos causar na população:

  • revolta
  • indignação
  • dúvida
  • incerteza
  • desconfiança
  • desânimo
  • medo
  • preocupação
  • indiferença

Dá só uma olhada…

A menos que você esteja muito interessado em paleontologia, a seleção despretensiosa de notícias é para fazer o povo sair correndo sem olhar para trás! Brincadeiras à parte, sabemos que o cidadão médio não procura por boas notícias e nem espera que o jornalismo o deixará feliz. Isso é tarefa para a Netflix, para o Instagram…

A preocupação, aqui, vai além do estado de ânimo que nosso trabalho provoca nas pessoas. A frustração, a revolta são partes da existência e precisamos enfrentá-las, saber como lidar com elas, nem que seja nas próximas eleições. O problema é quando isso se torna dogma e não deixa espaço para a utilidade da notícia, para a aplicabilidade da informação no dia a dia das audiências.

Quem quer ver notícia para ficar revoltado o tempo todo?

Não defendo a ideia de que veículos especializados em denúncias se furtem de praticar o jornalismo que investiga, que derruba autoridades ou interfere na cotação do dólar. Aqui há uma situação delicada de erro de proporção que contamina boa parte dos veículos. Um espaço absurdo é dado à cobertura do Big Brother político, cuja maior parte dos “fatos” noticiados não exerce impacto algum no dia a dia da população. Mas toma conta do noticiário porque “é revoltante” ou “vai causar indignação”. É isso mesmo o que queremos com o nosso trabalho?

Deixo aqui o desafio das 2 perguntas, sobretudo para veículos generalistas (os hiperlocais e os segmentados estão mais próximos de um jornalismo útil e aplicável): perguntem-se, antes de cada pauta, quem irá, de fato, dedicar tempo e atenção para saber deste assunto E, principalmente, o que vocês esperam que tal informação cause na vida desta pessoa. Quem sabe, assim, recuperamos a relevância e a confiabilidade da população.

Quem trabalha com informação tem que ter muita vontade de servir. É com a compreensão de jornalismo como um serviço à sociedade que Marcello Corrêa Petrelli chegou à presidência do Grupo ND, conglomerado de mídia de Santa Catarina composto por 10 veículos, entre canais de televisão, jornais e plataformas digitais.

Em entrevista concedida ao jornalista Prof. Dr. Carlos Alberto Di Franco, no dia 12 de novembro de 2020, Petrelli apontou caminhos de prosperidade a empresas de comunicação. Tanto se fala nas dificuldades trazidas pela big techs, nos desafios apresentados pelas redes sociais, na dura competição pela atenção do usuário em tempos de overdose informativa. Mas para Petrelli, “quando se tem problemas, se tem oportunidades”.


“Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, lembra Marcello Pettreli, presidente do Grupo ND de comunicação, de Santa Catarina.

“A verdadeira revolução da redação é defender a simplicidade, a humildade e, principalmente, o desejo de servir, de buscar aquilo que realmente interessa às pessoas e se relacionar. Jornalista tem que gostar de se relacionar”, analisa o ex-agricultor, que entregava pizza nos Estados Unidos para bancar os estudos e hoje lidera uma equipe de quase 600 funcionários.

A simplicidade que Petrelli acredita estar na raiz dos desafios a serem abraçados pelos jornalistas começa na formação do profissional. “As escolas formam jornalistas com uma visão distante da realidade, de querer estar próximo dela”, critica. Ao invés do estereótipo do “jornalista que sabe tudo”, é preciso “se aproximar das pessoas do mundo real, do que elas querem ouvir e saber”.

Menos Brasília, mais jornalismo local qualificado

Ele lembra que, como jornalistas, temos o “cacoete” de priorizar a política nos nossos noticiários. Como o brasileiro já não confia mais em político, “falar de política o tempo inteiro é perder audiência”, sentencia Petrelli. Ele ainda alerta: “Quanto mais noticiamos a política, mais poder eles têm, mais distanciamento da sociedade eles tomam. Nós damos todo este foco, toda essa coisa de ‘Excelentíssimo Senhor’ aos políticos. Mas temos que dar foco para quem? Para as pessoas comuns que estão dando emprego, buscando soluções, o empresário, o cidadão que atua no terceiro setor, para esta sociedade maravilhosa que aparece muito pouco [no noticiário] mas que está nas redes sociais”, observa.

“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais assim. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos.”

É fato que as redes sociais trazem toda sorte de conteúdo e deixam nas mãos do usuário a tarefa de selecionar no que vai acreditar. “A pandemia colocou as redes sociais no lugar delas”, tranquiliza Petrelli, lembrando as inúmeras pesquisas que apontaram níveis de confiança discrepantes entre os veículos tradicionais e sites de relacionamento que retratam uma reaproximação do público a players de jornalismo profissional. Mas as redes vão além das fake news e mostram uma realidade muito particular que exerce profundo impacto na vida das pessoas. Este conteúdo, no entanto, não aparece na TV nem nos jornais. “Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, pondera.

Diminuir o volume da cobertura de Brasília ou mesmo das agendas de vereadores e deputados é um caminho possível e até indicado para a despolarização do debate. Petrelli lembra dos tempos em que vivia em San Diego, há cerca de 30 anos, e o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, visitou a cidade. O jornal local noticiou o fato na quinta página da edição; se fosse no Brasil, seria matéria de capa! Como diz o Prof. Di Franco, muitas vezes “sobra Brasília, mas falta informação local, regional qualificada”.

Jornalista, um prestador de serviços

Enquanto vários colegas propagam a ideia de que o “jornalismo existe para incomodar governo”, a população cria uma imagem do noticiário – e dos jornalistas – cada vez mais desagradável para conviver. Não é gratuito o crescimento dos news avoiders nem a propagação do jornalismo de soluções. Enquanto muitos de nós publicamos denúncias sob a expectativa de que elas mobilizem a população, o que geramos é sentimento de impotência e afastamos ainda mais os consumidores das notícias.

“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais preciso isso. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos”, orienta Petrelli.

O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações.

Mudar a cultura que envolve a prática do jornalismo não é fácil, ele concorda. Mas o quanto antes se começa, mais cedo se colhe os frutos. 

O primeiro passo é desenvolver no jornalista a percepção de que ele é um prestador de serviços. Isso passa pela humanização do profissional, pela adoção de uma postura mais transparente, que assume a culpa quando erra, que é criativo, sensível e, sobretudo, nutre relações com diferentes grupos de indivíduos. Entender de tecnologia é importante, mas já está virando uma commoditie. “O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações”, prenuncia Pettreli.

Ao invés de se impor diante da sociedade ou de “baixar” suas verdades, o profissional da imprensa precisa encontrar alegria e leveza naquilo que faz. “Comunicação é fazer o bem”, avalia Petrelli. Ainda que a realidade a ser noticiada costume ser difícil, é preciso tratar a informação com tranquilidade e apontar caminhos. Só assim as audiências sentirão a satisfação de perceberem que suas vidas foram melhoradas graças às informações trazidas por aquele veículo jornalístico.

Todo repórter merece um bom editor. Um tutor que o motive, um interlocutor que entenda de jornalismo e o faça rever decisões editoriais. E, em situações-limite, tome-as para si. Correção: não só merece como precisa. Seja eu, Luís Costa Pinto, Paulo Francis ou John Hersey…  Observe que fauna ampla esta – da jornalista que faz investigação social no Nordeste, passando pelo que impulsiona a derrocada de um presidente da República, o que escreve críticas ácidas e o que narra uma explosão que matou 140 mil pessoas. Um editor, este ser que vem sendo testado – muitas vezes, dispensado – diante da crise do jornalismo e da dinâmica acelerada da internet.

“PC é testa de ferro de Fernando [Collor]”, “Os dois dividem tudo”, contava com ineditismo Pedro Collor, o irmão do então presidente Fernando a Luís Costa Pinto, jovem repórter pernambucano que trabalhava na sucursal da Veja em Brasília. Mais de duas horas de conversa. Novo encontro à noite, agora à beira-mar da Praia de Pajuçara. Dois copos de Red Label como testemunha. O que tinha ali era uma bomba, sabia o jornalista. Só tinha um problema: a conversa não foi gravada; Pedro Collor não quis.

É urgente destacarmos a importância do editor capaz de desempenhar o papel que lhe cabe: aprimorar o conteúdo, dar consistência à informação e, anonimamente, permitir que o holofote da glória se volte para o repórter.

Na conexão Maceió-São Paulo se iniciava o diálogo entre o repórter e o diretor da Veja, Mario Sergio Conti. Por fim, Conti liga para Elio Gaspari – correspondente em Nova York, antecessor do cargo de Conti na Veja e cuja opinião ainda era muito respeitada na revista. Cinco horas da manhã, repórter vidrado na escrita, Elio Gaspari aconselha a não publicação até que houvesse uma gravação. A grande bomba que a revista tinha nas mãos não foi publicada naquele momento. Só seria edições depois, quando Luís Costa Pinto conseguiu que Pedro Collor desse a entrevista gravada – com o desfecho que todos conhecemos.

Se a primeira versão tivesse sido publicada, as consequências poderiam ter sido outras. “Você teria o maior problema de sua vida”, disse anos depois Gaspari ao repórter, em um jantar. “…Veja daria a entrevista e a revista começaria a circular no sábado. Ela não estava gravada. Não tinha foto de Pedro falando com você. As anotações tinham sido feitas com sua letra, a letra do jornalista. No domingo, o Pedro Collor, acertado com o governo, iria à TV e desmentiria tudo. Diria que o repórter inventou aquilo e a revista caiu na lorota. Você e a Veja estariam desmoralizados…”. A história é contada pelo próprio Costa Pinto em Trapaça, livro que ele lançou ano passado. 

Um editor que ponderasse. Foi o que faltou ao crítico Paulo Francis, quando escreveu o artigo Tônia Carrero sem peruca, no Diário Carioca de 17 de outubro de 1958, um texto “mesquinho e cruel” contra a atriz. O próprio Francis –  as aspas são dele – lamentaria depois não ter ouvido uma voz que o contrariasse, um editor que recomendasse o engavetamento do texto por alguns dias para então avaliar se tinha usado a dose certa de tinta. “O artigo é sórdido, imperdoável, uma das mais pungentes vergonhas da minha vida, porque foi pessoal, mesquinho, deliberadamente cruel, sem que houvesse motivo”, contou Francis em suas memórias, O afeto que se encerra (1981)

Pare, espere ou avance na apuração. Complete. Lembro de uma celeuma criada no Diário de Pernambuco, em 2008, onde eu estava como repórter especial e produzia cadernos com longas reportagens. Havia percorrido oito mil quilômetros entre o Norte e o Nordeste do Brasil, dividindo o trajeto com a colega Marcionila Teixeira e a fotógrafa Alcione Ferreira, para falar sobre a hanseníase, a doença mais antiga da história que se colocava como ameaça às novas gerações. 

Fui salva apenas por uma boa edição, feita por um profissional muito mais experiente que eu?  

Tinha a promessa de 12 páginas limpas de jornal de uma doença que até no papel enfrentava preconceito. Quando publicar? Investimentos editoriais assim costumam ter destaque na edição dominical, mas como estampar nesse dia uma reportagem sobre doença tão discriminada?. “A grande inovação será publicar no domingo. É a quebra do padrão”, defendeu o também repórter especial Vandeck Santiago, que para mim sempre funcionou como editor. A diretora de redação, Vera Ogando, decidiu: “Publica-se no domingo, sem dúvidas”. Repercussão grande. Ministério da Saúde negociou a publicação para uso informativo de agentes de saúde. Prêmio Esso. Acima do episódio, estava a presença de dois editores experientes que acompanharam da produção à publicação. 

Na ativa há duas décadas, na maior parte do tempo como repórter, não foi só um; vivi alguns dilemas e questionamentos sobre o papel do editor. Este a seguir conto em conversas em turmas de estudantes. Havia deixado a editoria de política e estava focada em especiais. Escrevi uma longa reportagem sobre o fenômeno das lan houses no Nordeste. Partilhei com Vandeck cada passo da matéria, assim como as dúvidas enfrentadas. Veiculada como série de reportagem, ganhou repercussão nacional, impressionou jurados e se destacou como reportagem de informação científica. No Recife, ouvi de colegas: “a edição estava brilhante”. Ali, duvidei da minha capacidade de repórter. Fui salva apenas por uma boa edição, feita por um profissional muito mais experiente que eu?  

O tempo mudou o modus operandi nas redações. Estamos diante do imediatismo imposto pela internet e padecendo com parcos recursos em virtude da crise econômica.

Meu editor percebeu a inquietação e insegurança da repórter iniciante sobre o resultado do esforço Sertão afora. “Leia Hiroshima, veja quantas vezes John Hersey teve de reescrevê-lo”. Sem comentários extras.

Primeiro, a reportagem sobre Hiroshima sairia em série, como de costume. Editores tomaram decisão inédita de condensar todo material em 30 mil palavras, numa única edição da New Yorker. O autor escreveu 150 páginas e as enviou aos editores. Eles fizeram um total de 200 observações até a reportagem ser concluída. Hersey havia passado seis semanas escrevendo a matéria. Só na primeira parte foram 47 observações com perguntas para a melhoria da matéria. Entre tantas, Harold Ross, um dos editores, apontava uma “falta grave”. Segundo ele, a primeira versão deixava pairar uma incerteza. Afinal, o que matou as pessoas: o incêndio, os escombros ou a concussão?

Aprendi a lição em 2007. O tempo mudou o modus operandi nas redações. Estamos diante do imediatismo imposto pela internet e padecendo com parcos recursos em virtude da crise econômica. Reduzem salários, postos e encurtam o processo produtivo. Hoje, em 2020, caminhei alguns quilômetros a mais. E chego aqui com a convicção de que é urgente destacarmos a importância do editor capaz de desempenhar o papel que lhe cabe: aprimorar o conteúdo, dar consistência à informação e, anonimamente, permitir que o holofote da glória se volte para o repórter.

Há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acreditam, ingenuamente, que a balburdia do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõe a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem, talvez involuntariamente, que a Internet tende a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório, um ambiente embalado ao som de Samba de Uma Nota Só.  

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes.

Em tempos de tentativas de censura à liberdade de expressão, precisamos desenvolver um constante exercício de autocrítica. A reinvenção do jornalismo passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos e não para suas audiências. Como disse João Pereira Coutinho, “não são as redes sociais que matam os jornais; são eles próprios que se suicidam quando seguem o exemplo das redes”.

Na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeça para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso?  Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas matérias. Trata-se de um fato percebido nas redes. Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela Internet.

Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais, frequentemente, têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar a seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção.

O mercado de mídia tradicional para os jornalistas encolhe ano a ano. É um fenômeno mundial que assombra os profissionais. A boa notícia é que, do outro lado da balança, cresce exponencialmente a demanda por profissionais da comunicação especializados em Marketing Digital. É uma tendência que há mais de uma década vem se desenhando. E, entendam, de uma vez por todas, que veio para ficar. Tem muito espaço para os jornalistas se reinventarem nesse nicho de mercado, mesmo estando nos veículos de mídia tradicionais.

Os grupos de comunicação estão ávidos por profissionais capazes de propor projetos e soluções que ajudem a dar relevância aos produtos. Na disputa pelas verbas de mídia, os veículos sistematicamente precisam inovar para se manter interessantes para o público. E o diferencial, além da credibilidade, é a produção de conteúdo. 

Repensar os modelos de negócio e os produtos para atrair audiência e leitores já deixou de ser tarefa para a Alta Direção há tempos. Cabe a todos nós, jornalistas que somos, ocupar esse espaço e propor novos modelos de negócio e produtos. Mas aí vem uma questão: o que vamos fazer? Não há fórmula mágica e nem um único caminho! Cada um pode olhar as suas habilidades, seus interesses e propor soluções. 

Mergulhados na rotina diária da redação, reconheço que as urgências e demandas dominam. Mas não deixem para se qualificar quando o mundo desabar na sua cabeça…

Hoje, em pleno distanciamento social – e incertezas no mercado -, observa-se o crescimento de oportunidades de trabalho para jornalistas nos anúncios do LinkedIn, grupos de Facebook e WhatsApp. As habilidades mais requisitadas são funções de social media: especialista de SEO, gestor de mídias digitais, criação de anúncios, monitoramento de redes, gestor de comunidade e a produção de conteúdo, expertise que a maioria dos jornalistas é craque e tira de letra.

O conteúdo de qualidade é capaz de engajar a audiência, dar credibilidade e fazer a diferença numa estratégia cuidadosamente desenhada para decolar no mundo digital. Vivenciamos o crescimento exponencial dos podcasts e o surgimento de startups que fazem curadoria de conteúdo. Além disto, está cada dia mais sólido o conceito de desintermediação de marcas: empresas investindo na criação de plataformas próprias e na produção de conteúdo customizado.

Neste “novo” mercado estão as vagas mais interessantes. Mas centenas de jornalistas enfrentam a barreira inicial para ocupar e concorrer a essas vagas: a qualificação nas ferramentas indispensáveis para trabalhar a comunicação no ambiente digital. E todos nós precisamos urgentemente desenvolver essas habilidades. Mergulhados na rotina diária da redação, reconheço que as urgências e demandas dominam. Mas não deixem para se qualificar quando o mundo desabar na sua cabeça…

Me fiz essa pergunta várias vezes: qual é a dificuldade? E parte do problema, penso eu, é que a dificuldade vem de bloqueios que carregamos ao longo da existência. Mudar hábitos e conceitos não é fácil. Exige um esforço e ter tempo livre para repensar e reaprender.

Parar para seguir

O tema é a minha, a sua, a nossa transformação digital, que todos falam, todos sabem que precisam, mas que não conseguem enfrentar o desafio e transpor as barreiras.  Me fiz essa pergunta várias vezes: qual é a dificuldade? E parte do problema, penso eu, é que a dificuldade vem de bloqueios que carregamos ao longo da existência. Para citar alguns: bloqueio da tradição, do ocupado, do especialista e até bloqueio da geração. Mudar hábitos e conceitos não é fácil. Exige um esforço e ter tempo livre para repensar e reaprender. Digo que o “momento da pausa”, necessário pelo distanciamento social, é propício à abertura de novas frentes de aprendizado. Muitos jornalistas podem e devem aproveitar! E mesmo estando em veículos de mídia tradicionais, é possível manter o emprego vencendo o preconceito e se qualificar para atuar como um jornalista digital. 

A minha intenção, ao organizar as ideias que apresento aqui, é compartilhar um pouco da minha vivência e da jornada que embarquei pra abandonar os hábitos arraigados, processos e rotinas que me acompanharam por três décadas na imprensa tradicional e que hoje me permitem manter ativa, interessada, necessária, criativa e ainda estar no mercado de trabalho. Como acredito que conhecimento é para ser compartilhado, trago alguns dos insights e experiências da jornada que me deu um norte e ganhou força no início de 2016, depois de ser demitida da empresa onde tive contrato formal de trabalho por 25 anos, jornadas extensas e exaustivas de trabalho. Tempo bom, de muito idealismo e com toda a estrutura para realizar o que a minha criatividade permitia. Mas se tudo mudou, não adianta ficar parado. É hora de agir!

Reaprendizagem Criativa

A minha jornada de conhecimento tem várias âncoras. Reaprendizagem Criativa é uma delas. Para reaprender, é necessário abandonar o que não nos representa mais e entrar, de cabeça, no processo de conhecer as tendências. Estamos neste momento: o que está posto já não nos representa. E o novo ainda está sendo desenhado, está em construção e quero fazer parte dele!

Há quatro anos optei por ser uma profissional liberal. Desde então fiz diversos cursos rápidos no Brasil e fora do país. Nessa altura da minha existência não adianta mestrados e doutorados. Há um mundo de oportunidades, muitas gratuitas, para ajudar o jornalista a entender o momento de transformação e muitas técnicas a serem aprendidas. E a cada novo evento me vem a frase de Sócrates, o filósofo grego “só sei que nada sei”… Meus interesses vão da comunicação a assuntos de Inteligência Artificial, decoração, mindfulness, o que se passa no Vale do Silício, nos grandes players do mercado da comunicação, no Tik Tok e outras plataformas que estão emergindo. 

Quando não alimentamos pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos aprender alguma coisa nova, de fato.

Recentemente descobri que, intuitivamente, adotei no meu processo de requalificação e de reinvenção o shoshin, que é um conceito presente nas religiões e filosofias orientais, sendo um dos pilares do zen-budismo japonês. É também o título de um famoso livro da década de 70, de Shunryu Suzuki, “Mente Zen, mente de principiante”. Na prática, shoshin significa manter-se sempre aberto ao aprendizado. Isso inclui todas as formas de absorver conhecimento e habilidades

Transportei o conceito para o meu desafio de mudança na Era da Informação. Incorporei no meu mindset que a transformação digital estava trazendo um grande impacto para a profissão que adotei por vocação e paixão. O jornalismo não estava morrendo, mas se reinventado, abrindo novas possibilidades de modelos de negócios e de empresas, de desintermediação dos veículos de comunicação como publisher e o surgimento de startups focadas em curadoria de conteúdo e publicações digitais de nicho.

Um marco no meu processo de reaprendizagem foi a decisão de fazer, em 2016, o curso Gestão de Empresas de Mídia do ISE, Instituição associada à Universidade de Navarra, na Espanha, um centro de estudo da Comunicação e da Transformação Digital. Vibrei! No ano seguinte, lá estava eu na turma do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia. Conheci jornalistas que também estavam nessa jornada, interessados em abraçar o novo momento da profissão.

Muita discussão de casos e principalmente insights para pensar novos negócios. Contato com narrativas transmídia, projetos nativos digitais. Experiências no Brasil e noutros países. E a oportunidade de estar lado a lado com quem está pensando e fazendo o novo momento da mídia no Brasil. Uma troca muito rica que extrapola o aprendizado em sala de aula. Foi o início de um círculo virtuoso da minha reaprendizagem criativa. E uma ideia criativa é a soma de inputs que estão na sua cabeça. Daí vem a inspiração para você também fazer a transição para a comunicação na era digital. 

A mente de principiante

Voltando ao conceito do “shoshin”. Nossa “mente original” é sempre rica e autossuficiente. É uma mente vazia e aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante. Mas poucas na mente do expert que eu acreditava ser como veterana do jornalismo. Suzuki Sensei explica o conceito: “na mente do principiante há muitas possibilidades. Na mente do perito há poucas”. Ou seja, se você acha que já aprendeu o suficiente sobre um determinado assunto, no nosso caso, jornalismo, bloqueia sua mente e perde a oportunidade de aprender cada vez mais. Quando não alimentamos pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos aprender alguma coisa nova, de fato.

Um jornalista com mente de perito deixa de tentar aprender novas habilidades porque acha que já tem conhecimento suficiente. E, especialmente no novo momento do jornalista, isso é mortal! Novidades aparecem o tempo todo. Ideias sólidas são derrubadas de repente. Abordagens novas sempre jogam luz sobre velhos problemas mal resolvidos. Assim, o mais importante é manter a sua mente de principiante.

E onde vou chegar com todo esse processo de Reaprendizagem Criativa? Eu não sei… E como a resposta para o futuro do jornalismo também não é simples, essa também não é uma resposta simples para os profissionais jornalistas. Tenho muitos webinares pela frente….

Hoje faço consultoria em Gestão de Empresas de Mídia, Planejamento e Desenvolvimento de Estratégias de Comunicação e Gestão de equipes, projetos de produção de conteúdo, formato de produção audiovisual e recentemente, projetos de Inbound marketing e Brand Publishing. Aprendo a cada novo desafio. O home office, compartilhado com afazeres domésticos, demandas da família e um equilíbrio melhor entre a vida profissional e pessoal entraram no meu dia a dia. Sou mais calma, mais serena, mais feliz!

“O importante é engajar o público…”

“O desafio é entender as necessidades do usuário…”

“Precisamos saber quem são as audiências…”

Frases como estas se repetem em palestras, aulas e até em reuniões de trabalho, envolvendo jornalistas minimamente preocupados com o futuro a curto prazo de sua atividade. Se tornaram mantras, slogans, lugares-comuns que apenas sinalizam uma urgência na indústria editorial. Lamentavelmente, porém, a repetição dessas frases nem sempre está acompanhada por gestos que traduzem um esforço concreto para responder à urgência das redações interagirem com as pessoas.

Seguido recorremos aos dados para “saber quem é o usuário do nosso site”. Números de pageviews e trajetos de navegação formam uma ideia substancial sobre os hábitos de navegação desse sujeito, mas se restringem ao nosso produto.

Então surge a ideia de se fazer uma pesquisa – geralmente de mercado – para descobrir quais são os padrões de consumo que nossas audiências têm. A tarefa – que pode trazer informações riquíssimas – costuma ficar nas mãos do departamento de marketing, vendas, sem o envolvimento das redações. Ainda que os jornalistas participem de um esforço como este, seria uma ação pontual e não supriria a necessidade de interação contínua tão típica do ambiente digital.

A pesquisa Potencial de Membership e de Relacionamento com o Público nas Redações Brasileiras ouviu 123 jornalistas atuantes em veículos nacionais, no começo deste ano, sobre seus hábitos de interação com as audiências. Embora quase 67% tenham dito que têm clareza sobre o perfil do público online, 17% não lembram quando foi a última vez que responderam um comentário ou mensagem enviados pelo usuário; 14% nunca responderam e 11% confessaram não ter sequer o hábito de ler o feedback do público.

gráfico última vez que você respondeu a uma mensagem ou comentário do usuário, jornalista

Quando questionados sobre a disponibilidade que teriam para interagir com aqueles que são a razão maior de o jornalismo existir, mais da metade (51%) aceitou dedicar, no máximo, uma hora por semana. Por outro lado, a imagem que estes jornalistas têm das suas audiências é de que elas são atentas e exigentes, o que reforça o compromisso de veículos e seus profissionais se adequarem às demandas destes consumidores.

A leitura destes dados e a aplicação do questionário foram feitas sob o marco da implementação do modelo de negócio de associação – ou membership – em redações brasileiras. O esquema vem sendo testado por uma série de veículos em diversos países, como Estados Unidos, Holanda, Argentina, Grécia, África do Sul, entre outros.

A compreensão de membership utilizada nesta pesquisa é a proposta pelo The Membership Puzzle Project, iniciativa da Universidade de Nova York (CUNY) dedicada à investigação e encubação de projetos que adotam o modelo de associação. Ele presume que, ao contrário de pagar por conteúdo, o usuário seja um parceiro do veículo, acreditando nos mesmos valores, reforçando sua identidade.

Ao trazer o usuário para o seu lado – e não deixá-lo do outro lado do balcão – o veículo que adota o membership prevê o compartilhamento de decisões editoriais com os sócios ou afiliados. Estes usuários pagam para ser parte das operações do veículo, decidindo pautas, dando feedback, colaborando com tarefas de apoio editorial, traduzindo conteúdos, servindo como beta-tester ou de tantas outras formas que comportam muita criatividade.

Para alcançar tamanho grau de engajamento, a redação precisa estar disposta a interagir com o público. Não há outra forma desse usuário se sentir parte de algo enquanto ele não for ouvido, considerado, reverberado pela mídia que ele próprio financia.

Este é o maior desafio do membership hoje, no Brasil. O relatório de 29 páginas mostra o cenário atual e quais caminhos existem para se começar uma transformação cultural na relação entre jornalistas e público no jornalismo.

Esta pesquisa teve o apoio da ANER e da ANJ.

O que é uma comunidade? Um grupo de indivíduos que compartilham uma preocupação mútua pelo bem estar uns dos outros.


Charles H. Vogl, The Art of Community

Estes são tempos difíceis para todos. Mesmo aqueles que estão saudáveis podem se sentir entediados, ansiosos e com medo.

Como resultado, gerentes de comunidades virtuais estão percebendo um aumento na intensidade emocional. Em três sessões, este artigo irá oferecer conselhos sobre como gerir, dar suporte e atender a sua comunidade em um momento como este:

  • O que as pessoas precisam
  • Como reagir
  • Medidas essenciais

O que as pessoas precisam

Durante crises, há dois tipos de pessoas: aquelas que precisam de ajuda e pessoas que desejam ajudar.

Se trata das mesmas pessoas em diferentes momentos, cujas atitudes se baseiam em suas situações atuais.

Neste momento, membros de sua comunidade possuem algumas necessidades centrais, que incluem:

  1. Pessoas querem informações
  2. Pessoas querem se sentir menos solitárias
  3. Pessoas querem se sentir úteis
  4. Pessoas querem processar seus sentimentos e ver que outros se importam com elas
  5. Pessoas querem ajuda em termos materiais

1. Pessoas querem informações

Este é um momento de incertezas e de rápidas mudanças. O público está buscando informações confiáveis bem como conselhos da mídia e entre si. Encontre especialistas e dê a eles uma plataforma para falar. Tenha certeza de que qualquer coisa que você compartilhar esteja atualizada e verificada – onde for possível, compartilhe links de suas fontes.

Se assegure de que sua comunidade possa facilmente ver o dia e a hora em que as informações foram compartilhadas. Se você estiver preocupado com a possibilidade de o Google indexar uma publicação sua que seja temporal, considere adicionar uma nota de esclarecimento para os leitores sobre a o quão atual uma informação é, linkando este dado a fontes que sejam frequentemente atualizadas.

2. Pessoas querem se sentir menos solitárias

Comunidades dizem respeito à conexão e esta pandemia está isolando todos nós. Veja como você pode providenciar formas de conectar os membros mais isolados de sua comunidade e criar maneiras de fazê-los se sentirem mais acolhidos e engajados.

Rotinas podem ajudar no estabelecimento da normalidade. Veja se há maneiras pelas quais sua comunidade possa se reunir regularmente para uma atividade, como discussões semanais sobre um dado assunto.

3. Pessoas querem se sentir úteis

Descubra maneiras de as pessoas se apoiarem e se ajudarem entre si. Pode ser criando e gerenciando sistemas para que elas ajudem os outros, com o Google forms, ou convidando membros da comunidade a assumirem papéis de apoio como “acolhedores de novos membros” ou “pessoa que organiza atividades para outros”.

Se você estiver facilitando um sistema de apoio, saiba que isso exigirá um gerenciamento de recursos. Você não quer criar uma situação em que alguém esteja contando com um voluntário de sua comunidade para um serviço essencial e que, com toda a boa intenção, essa pessoa não consiga executar a tarefa de forma segura.

Sempre que possível, conecte pessoas com recursos existentes em suas áreas ao invés de tentar replicar estes serviços com versões com finalidade própria.Se você de fato decidir preencher uma necessidade em sua comunidade, tente fazer uma parceria com uma organização sem fins lucrativos que pode ajudar a garantir que você esteja bem colocado para dar suporte efetivo às pessoas.

4pessoas querem processar seus sentimentos e ver que outros se importam com elas

Neste momento, todos estão processando um novo tipo de intensidade emocional. Uma das formas que usamos para processar emoções é enquadrando esses sentimentos em uma linguagem. Neste artigo da Harvard Business Review, David Kessler explica que a experiência que estamos atravessando agora é uma forma de luto:

“A perda da normalidade; o medo do custo econômico; a perda das conexões. Isso está nos atingindo e estamos de luto. Coletivamente. Não estamos acostumados a este tipo de luto coletivo no ar… Estamos também sentindo um luto antecipado. Luto antecipado é aquele sentimento que passamos a ter quando estamos incertos sobre o que o futuro nos reserva. Com um vírus, esse tipo de luto é muito confuso para as pessoas. Nossa mente primitiva sabe que algo ruim está acontecendo, mas você não consegue enxergar o que é. Isso quebra o nosso sentido de segurança.”

David Kessler

Este momento é aterrorizante para muitos e parece injusto. Membros de sua comunidade podem estar lidando com dificuldades econômicas, perda de liberdade, aumento do estresse por estarem presos em casa com seus parentes e filhos. Além disso, podem estar enfrentando a doença ou a morte de um amigo próximo ou membro da família. Muitos desejarão compartilhar essas dores com outras pessoas, incluindo sua comunidade. Seu papel aqui é testemunhar, reconhecer, oferecer compaixão e fazer com que cada pessoa sinta que foi ouvida.

5. Pessoas querem ajuda em termos materiais

Veja a discussão acima sobre a criação de uma infraestrutura para ajudar as pessoas a se apoiarem.

Você deve ter uma diretriz estabelecida para quando as pessoas começarem a compartilhar pedidos de financiamento para apoiarem a si e seus negócios.

Não há uma resposta correta aqui – proibir estes financiamentos irá ajudar as pessoas a evitar possíveis golpes, mas também pode levar membros centrais de sua comunidade a se tornarem incapazes de alcançar outros que desejam ajudar em um momento de necessidade. Se você decidir permitir pedidos de financiamento, você deveria identificar de onde eles vêm e postar avisos claros para que todos fiquem atentos a URLs falsas (como aquelas que parecem links do PayPal mas na verdade são esquemas fraudulentos ou desonestos).

Como reagir

Desinformação

Estamos vendo muitas pessoas compartilhando desinformações sobre a doença e sua disseminação. Isso não é normalmente feito com a intenção de causar danos e sim de ajudar – a maioria das pessoas não é especialista em diferenciar a boa da má informação, podendo confiar em fontes que você não considera confiáveis.

Nós recomendamos remover comentários que contenham desinformação e, se você observar padrões de desinformações que são compartilhadas, escreva um artigo de sua autoria para corrigir equívocos. O site First Draft News tem uma série fantástica de dicas e recursos para ajudá-lo com isso. A lista no fim deste artigo, começando a partir do trecho que diz “Aqui estão algumas coisas para ter em mente quando abordamos conteúdo manipulado” é particularmente útil, assim como o é o guia “Fazendo reportagens responsáveis em uma era de desordem informativa”.

Um impressionante volume de questões

Para organizações jornalísticas, a rádio educacional KPCC criou um excelente documento de engajamento baseado em seu uso da ferramenta Hearken para responder questões da comunidade. Eles identificaram diferentes categorias de consulta com um claro fluxo interno de como responder cada uma das questões. Você pode achar útil pegar essas categorias e descobrir como e onde sua comunidade pode reagir a elas.

Questões e pedidos repetidos

Só porque você respondeu uma questão uma vez, não pode esperar que todos tenham visto sua resposta ou lembrem dela. Neste momento de confusão e incerteza, você também pode ver um número esmagador de questões e preocupações. Garanta que seja claro e fácil encontrar respostas relevantes e que as informações fornecidas permaneçam atualizadas.

Membros da comunidade estressados e com raiva

Este é um momento em que sua paciência e generosidade são mais necessárias do que nunca. Você pode ter que alterar as regras e permitir que as pessoas fiquem mais chateadas do que o normal – mas não jogue fora todas as suas diretrizes. Todos em sua comunidade precisam se sentir seguros e protegidos por você em seu espaço.

Você precisa se manter calmo, ser acolhedor e compassivo. Se você costuma ser otimista e feliz, pode ser que precise se reajustar um pouco, assumindo que todos estão ansiosos e estressados. Não diga às pessoas que tudo ficará bem pois pode ser que isso não aconteça. Ter compaixão e responder perguntas, ao invés de assumir a situação vivida por alguém, será um longo caminho a ser percorrido.

Como a ex-diretora de operações da MetaFilter, Jessamyn West, escreveu em um de nossos guias comunitários, “Uma das ferramentas que mais usamos é enviar e-mails a usuários dizendo ‘Ei, está tudo bem?’” Você pode precisar checar como estão as pessoas com mais frequência do que fazia no passado. Se puder fazer isso, elas irão apreciar.

Além disso, lembre-se de que você não é um terapeuta e que não é o seu trabalho tomar o lugar de um. É OK dizer “isso parece ser muito difícil, sinto muito”, ao invés de tentar consertar as coisas. Isso pode ser suficiente para que as pessoas sintam, se não melhores, ao menos que foram vistas e ouvidas.

Seja humano, mas não muito humano. Embora a sua comunidade irá frequentemente apreciar te identificar como uma pessoa real ao contrário do “Moderador 7”, se você estiver se sentindo estressado e chateado não traga isso para dentro da comunidade que você gerencia. Isso irá aumentar o estresse e a ansiedade dos outros, que podem se sentir desconfortáveis em lhe pedir apoio e recursos. Tal atitude pode danificar a estabilidade de sua comunidade. Encontre outros lugares de apoio que não sejam em comunidades que você gerencia.

Medidas essenciais

Permaneça focado em sua missão principal de antes da pandemia e mantenha o foco em como essa missão se conecta, neste momento, com as necessidades de sua comunidade. Esteja pronto para redirecionar essa demanda para outros lugares, caso não possa ou não deva fornecer um serviço ou estrutura de suporte.

Não fique dependente de uma pessoa para nada. Qualquer um de nós poderia ficar doente ou precisar tomar conta, sem aviso prévio, de um familiar enfermo. Garanta que alguém que você confia tenha acesso às senhas, caixas de e-mail e outros sistemas que você usa. Se um endereço de e-mail pessoal está atualmente sendo usado em sua comunidade para o relato de queixas ou problemas, considere fazer uma mudança para um e-mail genérico e compartilhado.

Esteja ciente de traumas secundários. Administrar uma comunidade neste momento pode ser um trabalho emocionalmente desgastante, especialmente se você estiver lidando com discussões sobre morte e dificuldades econômicas. Esteja atento para estes sinais de traumas secundários e peça às pessoas ao seu redor para que façam o mesmo.

Jamais lide com sua comunidade caso esteja cansado, faminto ou de qualquer outra forma emocionalmente vulnerável. Você não será capaz de dar suporte a outros e poderá causar danos duradouros com suas ações.

Seja gentil. Fique calmo. Beba água. Faça pausas regulares.

Finalmente…

Este é um trabalho difícil e importante. Obrigado por estar presente para sua comunidade quando ela mais precisa de você.


Conteúdo originalmente publicado pelo Coral Project, da Vox Media, e licenciado por Creative Commons (CC BY 4.0).