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Este conteúdo faz parte da entrevista com o jornalista espanhol Lluís Cucarella, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local e diretor editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena. Acompanhe outros tópicos desta entrevista.


Orbis Media Review – É perceptível que os estudos sobre jornalismo local se enfocam mais a jornais e revistas e até o modelo de reader revenue parece combinar melhor com esses tipos de veículos. Como você vê a situação das emissoras locais de televisão aberta, que também sofrem com a perda da publicidade? No que elas devem mudar e qual modelo de negócio se torna mais promissor a elas?

Lluís Cucarella – Tenho algumas dúvidas se as empresas de televisão exclusivamente locais podem utilizar o modelo de reader revenue como base principal de negócio se, primeiro, elas não ampliam o perímetro de seus serviços.

Há alguns casos de televisões locais abertas que estão construindo serviços adicionais premium, ainda que não sabemos qual será o resultado no médio prazo. Esses serviços premium agregam desde uma plataforma de webTV premium, independentemente da programação aberta, até um sistema de clube do espectador, pelo qual a pessoa que paga uma mensalidade a este canal é convidada para eventos que a emissora promove.

Além disso, o assinante tem acesso a serviços informativos, como newsletter premium. Mas são emissoras locais que saíram de suas configurações originais para converterem-se em veículos digitais multiplataforma. Elas têm, por exemplo, uma presença informativa potente na web, que reaproveita conteúdos, mas que também têm produção exclusiva e compete informativamente com jornais locais.

A plataforma de webTV premium geralmente oferece conteúdos televisivos adicionais sem suprimir material veiculado no sinal aberto, mas traz conteúdos adicionais, mais seletos, como debates com líderes empresariais, entrevistas, inclusive cursos ou formação, comentários dos próprios jornalistas a respeito de temas concretos, bem como serviços sob demanda. 

De qualquer maneira, ainda estamos vendo como evoluem as TVs locais na hora de estabelecer um modelo de assinatura. Mas o primeiro passo realmente me parece este: superar as próprias localidades e configurações, com um serviço digital robusto que sirva inclusive como fonte primária de receita, àqueles usuários que estejam dispostos a pagar.


Acompanhe outros tópicos desta entrevista com Lluís Cucarella.

Qual o impacto que os veículos jornalísticos podem ter na economia local? Em Minas Gerais, a TV Integração responde esta pergunta de uma forma simples e eficiente. Não é apenas através da produção de conteúdo que o jornalismo cumpre com sua função social. Um serviço que mistura traços das antigas páginas amarelas dos guias telefônicos com o bom e velho “classificados” dá visibilidade ao comércio de bairro.

O MegaDelivery nasce da necessidade impulsionada pela pandemia. De portas fechadas, mas com as contas em aberto, pequenos negócios locais encontram na plataforma um jeito gratuito de chegar aos consumidores. “Analisamos os cadastros que estão sendo feitos e a grande maioria não tem condições de ser anunciante da TV”, pondera Wladmir Virote, gerente de negócios e administração da afiliada da TV Globo em Juiz de Fora e um dos responsáveis pelo projeto

Ao lado de Paulo Vieira, diretor de jornalismo da TV Integração e masteriano de 2013, Wladmir  vê no MegaDelivery um potencial de conscientização dos comerciantes a respeito do quão benéfica pode ser a propaganda e os resultados que ela traz. “Estamos vivendo um momento de dificuldade para todos os pequenos negócios e eles precisam dar vazão a seus produtos e serviços, precisam comunicar à população o que funciona e como”, analisa. 

Do Marquinhos Serralheiro aos Bolos da Tia Pati

São salões de beleza, doceiras, escritórios de contabilidade, floriculturas, serviços de lavagem de carro, motoboy, eletricistas, assistências técnicas autorizadas, professores de inglês e uma série de outros tipos de estabelecimentos de pequeno e médio porte. Nos primeiros cinco dias, o MegaDelivery cadastrou 667 negócios das 500 cidades com cobertura da TV Integração.

Amostra de estabelecimentos cadastrados no MegaDelivery

Na verdade, é o próprio estabelecimento quem faz o registro na plataforma. Após uma checagem automatizada de links de redes sociais, profissionais da emissora fazem a validação do cadastro antes que o negócio apareça no site. Nesta etapa inicial o desafio é povoar a plataforma. Para isso a TV criou campanhas em espaços editoriais e de publicidade. A próxima etapa será desenvolver o hábito dos consumidores mineiros usarem os filtros do site para localizarem profissionais e produtos acessíveis, mesmo em tempos de isolamento.

A volta do MegaMinas

Tornar o site uma referência para o comércio local da região não deve ser uma tarefa difícil, já que o MegaDelivery reativa a marca Megaminas, uma velha conhecida do internauta mineiro. O MegaDelivery deve ser um braço do Megaminas, portal de conteúdo da TV Integração que existiu entre 2001 e 2013, quando todos os sites locais das afiliadas da TV Globo passaram a operar sobre a marca G1.

“A ideia do MegaMinas é de ter outros módulos que estão em planejamento, como balcão de empregos, previsão do tempo, cotações financeiras e entretenimento local”, anuncia Wladmir. Apesar de resgatar algumas de suas funcionalidades, o MegaMinas não irá competir com a operação digital de notícias da emissora, que seguirá no G1.

Jornalismo para criar pontes

No livro “A armadilha do conteúdo”, o autor Bharat Anand fala de uma relevância dos veículos de outrora em criar conexões entre pessoas com interesses semelhantes. No fundo, estes jornais não ganhavam dinheiro vendendo conteúdo, mas conectando compradores e vendedores, empregados e empregadores em espaços amplamente frequentados.

Qualquer semelhança com Uber, Airbnb ou mesmo com as redes sociais não é mera coincidência. O negócio da mídia funciona, historicamente, através da relevância das conexões sociais que promove. O conteúdo atrai, incentiva o trânsito pela plataforma; mas o que realmente envolve – e noutros tempos, dava dinheiro – é o encontro de quem tem interesses complementares em comum.

A situação atual das empresas jornalísticas – especialmente das provenientes da mídia impressa – mostra que Bharat tinha razão. Por mais que o MegaDelivery seja de uso gratuito tanto para os donos dos estabelecimentos quanto para os clientes, a aproximação da TV Integração com as comunidades locais deve se aprofundar e, quem sabe, recuperar ao veículo a função de alto impacto social na criação de pontes que fortalecem a economia e as relações locais.