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Ucrânia

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“Hoje, novamente, eu julgo necessário retornar aos trágicos eventos que estão ocorrendo na região de Donbass e às questões-chave para garantir a segurança da própria Rússia”. Foi com estas palavras que o presidente russo Vladimir Putin lançou, no dia 24 de fevereiro deste ano, sua “operação militar especial” contra a Ucrânia – eufemismo difícil para aquilo que deveria simplesmente ser chamado de guerra.

A região de Donbass, localizada no leste ucraniano, faz fronteira com a Rússia e compreende as Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk – ambas reconhecidas como independentes por Moscou apenas três dias antes do início do conflito. De acordo com Putin, o objetivo da “operação especial” era proteger as pessoas desta região que estavam sendo submetidas “a bullying e genocídio pelo regime de Kiev” desde que o governo pró-Rússia da Ucrânia foi derrubado em 2014.

Para entender as disputas que levaram ao atual conflito entre os dois países, é fundamental levar em conta que a Ucrânia possui uma quantidade significativa de russos étnicos concentrados na porção leste do seu território. Em regiões como Donetsk e Luhansk, a língua ucraniana sequer é majoritária. Ao contrário, o russo é falado por 74% e 68% da população respectivamente segundo censo de 2001 – o último realizado no país. Desde 2014, o governo Putin tem apoiado separatistas pró-Rússia que já controlam boa parte da região. Desta forma, Donetsk e Luhansk são uma complicação para o governo ucraniano, que precisa despender esforços e recursos para lutar pelo território que é uma das suas principais zonas industriais. Esta complicação, que resulta de grupos étnicos russos utilizados politicamente por Moscou, não apenas compromete a unidade territorial da Ucrânia, como atravanca a política interna de todo o país.

Embora a Ucrânia compartilhe uma longa fronteira e uma longa história com a Rússia, ela não é o único país a abrigar parcelas significativas de minorias russas em seu território. Ao contrário, tais grupos étnicos são parte do legado deixado pela União Soviética em todo o leste europeu e hoje consistem em um elemento estratégico da geopolítica russa para toda a região.

Situação similar é observada na Crimeia – uma península estrategicamente localizada no Mar Negro que abriga, assim como Donetsk e Luhansk, uma população majoritariamente russa. Quando as manifestações nacionalistas e pró-europeias tomaram conta da Ucrânia em 2013 e 2014, resultando na deposição do então presidente aliado de Moscou Viktor Yanukovych, a Crimeia acabou por se separar do restante do país. Este movimento também foi feito sob comando e incentivo do Kremlin, que não apenas deu apoio aos separatistas como enviou tropas disfarçadas para ocupar a península. Atualmente a Crimeia é considerada um território ucraniano sob ocupação russa, e o governo de Kiev continua a reivindicar a região. No entanto, mesmo que ela mude novamente de mãos, a quantidade de russos étnicos que lá residem continuará sendo um problema de difícil resolução e fonte de problemas para a Ucrânia.

Todos estes elementos podem parecer inteiramente circunstanciais e serem reflexo de uma situação particular da Ucrânia. Esta interpretação, no entanto, esconde um fato importante: embora a Ucrânia compartilhe uma longa fronteira e uma longa história com a Rússia, ela não é o único país a abrigar parcelas significativas de minorias russas em seu território. Ao contrário, tais grupos étnicos são parte do legado deixado pela União Soviética em todo o leste europeu e hoje consistem em um elemento estratégico da geopolítica russa para toda a região.

 

Conflitos Congelados – uma realidade e uma estratégia

A Guerra Fria terminou com a inquestionável derrota da União Soviética no início da década de 1990 causada, sobretudo, pela falência completa do modelo político e econômico comunista. A riqueza produzida pelo capitalismo ocidental, por sua vez, se confirmava como um grande sucesso que levou até mesmo regimes fechados como o da China a abrir seu mercado para o resto do mundo naquele período. O contraste entre o fracasso político e econômico do polo soviético e o sucesso do Ocidente era tão grande que cientistas políticos como Francis Fukuyama declaravam “o fim da história” – isto é, o fim da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal como forma final de governo. Trinta anos mais tarde, no entanto, é possível ver que a vitória do Ocidente não significa que o comunismo e os problemas causados por décadas de controle russo sobre o leste europeu tenham morrido com a URSS.

Em nenhum lugar isso é mais claro do que em algumas das antigas repúblicas soviéticas, especialmente a Ucrânia, a Georgia e a Moldávia. Atualmente, a política interna e externa destes países é gravemente afetada por algo que se convencionou chamar de frozen conflicts, ou conflitos congelados. Estes surgem quando hostilidades entre grupos que dividem um mesmo território terminam com acordos de cessar-fogo, mas sem que os motivos responsáveis pelas hostilidades sejam endereçados. Desta forma, tais conflitos podem voltar a acontecer a qualquer momento uma vez que eles nunca foram verdadeiramente solucionados.

Conflitos congelados podem acontecer em qualquer parte do mundo, mas são vistos com mais frequência e de forma mais clara em países que compunham a antiga URRS e resultam, justamente, de conflitos étnicos. Por este motivo, as comunidades russas na Ucrânia, na Moldávia e na Geórgia são tão importantes, uma vez que permitem que a Rússia mantenha forte influência no leste europeu mesmo após estes países terem deixado de ser repúblicas soviéticas. Dito de outra forma, estas minorias acabam se tornando ativos explorados por Moscou para assegurar suas ambições geopolíticas.

Ao dar apoio direto ou indireto a separatistas, a Rússia não apenas compromete a integridade territorial, mas também o próprio desenvolvimento político e econômico de nações próximas ou vizinhas. O motivo é que tais países encontram sérias dificuldades em lidar com as disputas internas e com os sentimentos nacionalistas que surgem entre sua própria população. A raiva gerada contra a Rússia não apenas mantém estes conflitos vivos, como empurra as lideranças políticas para um imbróglio interminável.

Um exemplo é o Batalhão Azov, formado em 2014 por militantes nacionalistas ucranianos e torcidas organizadas de futebol que se voluntariaram como milícias paramilitares. O objetivo era lutar no leste do país contra separatistas apoiados por Moscou. Isso se deve ao fato de que o governo estava militarmente despreparado para fazer frente à Rússia. Assim, o Batalhão conseguiu atender uma demanda com a qual o Estado não conseguia lidar e não tardou a ser incorporado à Guarda Nacional da Ucrânia. Ainda em 2014 o Batalhão Azov obteve relevantes conquistas lutando na região de Donbass – a principal delas sendo a retomada da importante cidade costeira de Mariupol que já estava sob controle de forças russas naquele momento. Tudo isto, no entanto, tem tido um alto custo, uma vez que o esforço para combater os separatistas acaba por tirar do governo ucraniano o foco naquilo que realmente importa: a realização de reformas políticas e econômicas que possam modernizar o país. O confronto contra separatistas simplesmente drena muito do foco e dos recursos do Estado e acaba por dificultar os esforços por reformas.

Assim como a Ucrânia, a Moldávia também enfrenta dificuldades com um de seus territórios: a Transnístria. Localizada ao leste do país, a Transnístria é internacionalmente reconhecida como parte da Moldávia, embora na prática tenha seu próprio governo e parlamento. A região, atualmente, conta com tropas russas que foram instaladas por Moscou como forças de mediação e manutenção da paz. A situação no local é complicada, uma vez que a Transnístria lutou por sua independência e hoje conta com três línguas oficiais e uma população composta por russos, moldávios e ucranianos. Para o Kremlin, no entanto, a região oferece benefícios, uma vez que sua presença militar na região torna o governo altamente suscetível a intimidações. O motivo é que Moscou pode usar suas forças para ações diretas contra os interesses nacionais da Moldávia ou dar apoio aos separatistas, ocasionando ainda mais fragmentação territorial.

Todos estes elementos beneficiam a política regional da Rússia, que perdeu o controle que tinha sobre a porção leste e central da Europa quando a União Soviética se desfez. Por mais que não haja nenhuma perspectiva do país retomar a influência que um dia possuiu na região, o Kremlin ainda assim consegue utilizar as minorias russas de forma estratégica para evitar, ao menos, que determinados países se aproximem do Ocidente.

Segundo artigo da Revista de Relações Internacionais da Columbia University, “A OTAN não admitirá membros com problemas territoriais não resolvidos por receio de que eles possam levar a aliança a um conflito militar. Tanto para a União Europeia como para a OTAN, os conflitos congelados têm o efeito indireto de gerar uma imagem pouco atraente dos países neles envolvidos, ao mesmo tempo em que os impede de atingir um nível de desenvolvimento que permitiria abordar seus problemas territoriais e os tornar parceiros internacionais legítimos”.

Após as manifestações de 2013 e 2014, a Ucrânia passou anos sem ter destaque no noticiário internacional – situação que somente foi mudar após a recente invasão promovida por Putin. Isto, por sua vez, pode gerar a sensação de que houve um hiato sem conflitos entre os dois países. Tal interpretação, no entanto, é incorreta. Por mais que não tenha havido embates diretos neste período, os anos que seguiram os protestos em Kiev e a anexação da Crimeia não foram nada tranquilos devido à disputa territorial envolvendo ucranianos e minorias russas. Mais importante ainda é que estes conflitos devem continuar acontecendo independentemente de qual seja o resultado da guerra.

Manter a instabilidade em países vizinhos é algo que beneficia a política externa de Moscou. Por meio desta estratégia, a Rússia tem conseguido manter um mínimo de influência em uma região que se voltou rapidamente para o Ocidente ao fim da Guerra Fria. No atual momento, os olhos estão voltados para a Ucrânia, mas é importante ter em vista a forma como a Rússia se utiliza das tensões sociais existentes no leste europeu para legitimar intervenções de maior ou menor grau na soberania dos Estados que faziam parte da antiga Cortina de Ferro, mas que, em sua maioria, continuam buscando maior integração com a Europa ocidental.

Desde que a Rússia lançou sua ofensiva contra a Ucrânia no dia 24 de fevereiro, a Europa se viu na curiosa posição de sentir-se, ao mesmo tempo, ameaçada e fortalecida. A invasão, é claro, gerou preocupações de que o conflito pudesse se alastrar para outros países europeus além de causar mais transtornos à economia do continente. Putin deixou a situação ainda pior quando ordenou que as forças nucleares de seu país fossem colocadas em alerta máximo poucos dias após o início do conflito. Embora a situação tenha sido e continue sendo temerária, a guerra parecia trazer ao menos uma boa notícia: a união dos países europeus após alguns anos de desgastes e conflitos internos.

O símbolo máximo deste desgaste interno havia sido a decisão tomada pelo Reino Unido de sair da União Europeia, mas não parou por aí. O futuro da OTAN também foi colocado em questionamento após Donald Trump chegar ao poder nos EUA em 2017. Para o então presidente americano, os EUA deveriam se afastar da agenda de cooperação multilateral e dar prioridade à posição de “America First”. Ao mesmo tempo, Trump também criticava diversos países europeus por não cumprirem a meta de investimento mínimo na organização (2% do PIB). Segundo relatório de 2021, apenas sete dos trinta Estados-membros investem ao menos 2% de seu PIB no orçamento de defesa da OTAN (são eles Grécia, EUA, Polônia, Reino Unido, Croácia, Estônia, Letônia e Lituânia).

Embora esta política americana fosse vista com maus olhos e criticada por ser isolacionista e nacionalista, a própria recusa dos europeus de investir o mínimo necessário em defesa demonstrava um desinteresse frente ao futuro da instituição. Emmanuel Macron, que sempre defendera o fortalecimento dos poderes da União Europeia, por sua vez, tampouco parecia muito comprometido com a OTAN, afirmando que ela sofria de “morte cerebral” em 2019. É certo que o presidente francês não criticava a OTAN pelos mesmos motivos que Trump. Seu objetivo, ao contrário, era a criação de um exército europeu que daria mais autonomia estratégica ao continente.

Ainda assim, o protagonismo dado por Macron à União Europeia não mudou o fato de que ela estava dividida internamente. Na Europa ocidental, ainda prevaleciam os políticos favoráveis ao bloco, mas os eurocéticos continuavam deixando os burocratas de Bruxelas – sede da UE – em estado de constante alerta. Se os ditos nacionalistas e populistas da Europa ocidental representavam um potencial de ameaça à coesão do organismo, em parte do Leste Europeu, por sua vez, eles já haviam alcançado o poder. Polônia e, principalmente a Hungria, são exemplos disto.

Tanto a OTAN, quanto a União Europeia continuam existindo, mas conversas sobre “Frexit” e “Polexit” (saída da França e da Polônia, respectivamente, do bloco europeu) certamente não eram bons sinais de vitalidade das organizações. A guerra na Ucrânia, no entanto, pareceu renovar ambas as entidades, sobretudo a OTAN. O motivo para isto, no fundo, é muito simples: a Rússia é um gigante frente aos países europeus. Sua economia pode até ser menor que a da Alemanha, da França, do Reino Unido e mesmo da Itália. Seu poder, porém, reside em como ela utiliza seus ativos. Ao passo que a maior parte dos europeus abandonaram parte considerável do controle sobre o setor energético, tão importante para a soberania nacional, há anos a Rússia utiliza suas reservas de gás natural para abastecer seus vizinhos ocidentais de forma estratégica: permitindo que os países mantenham suas luzes acesas e indústrias funcionando, ao mesmo tempo em que restringe ações vigorosas contra a própria Rússia por medo de que o abastecimento seja cortado. Ademais, a Rússia tem pouco menos que o dobro de habitantes que o maior país europeu (145 milhões de cidadãos frente aos 83 milhões da Alemanha), além de ser uma potência nuclear.

Se a OTAN servia como escudo de proteção contra uma ameaça potencial da Rússia, ela passou a ser vista, principalmente por países do leste e do norte da Europa, como uma necessidade após a invasão à Ucrânia. Finlândia e Suécia são exemplos claros disso. Ambos os países foram militarmente neutros durante a Guerra Fria, mas estão prestes a abandonar sua antiga política de não-alinhamento ao pedir para entrar na OTAN – algo que não deve tardar a acontecer. Como escreve Timothy Marshall, cujo livro já foi resenhado aqui no Orbis, os países do leste europeu conhecem uma verdade geográfica vital: “se você não está na Otan, Moscou está próximo e Washington D.C. está distante”. A atual guerra só deu mais razão a esta frase.

Ao mesmo tempo que a invasão russa deixou toda a Europa em estado de alerta, no entanto, ela também trouxe como consequência algo que Putin talvez não tenha calculado: a revitalização da razão de ser da OTAN. Se antes a Europa estava dividida internamente e o Tratado do Atlântico Norte parecia sem propósito, agora passou a haver um motivo concreto e urgente para os diversos países europeus buscarem políticas comuns a fim de conter o ressurgimento da Rússia como ameaça militar. A questão a ser pensada é a seguinte: essa união é real ou apenas circunstancial? Assim que a guerra terminar, é possível esperar que a Europa permaneça unida ou as velhas rachaduras de antes deverão voltar a aparecer?

Um Continente Dividido entre Globalismo e Nacionalismo

A União Europeia, em muitos sentidos, é uma organização contraditória. Ao mesmo tempo que ela busca manter o continente unido e em paz, suas políticas cada vez mais centralizadas tem resultado, na prática, em um crescente conflito entre nações que buscam manter um maior grau de soberania e outras – incluindo a própria UE – que desejam concentrar mais poder no âmbito supranacional (uniões políticas multinacionais cujo poder é delegado pelos Estados-membros)

Esta queda de braço entre o poder local e o poder supranacional, por sua vez, permitiu que partidos políticos contrários à União Europeia tenham ganhado relevância por dar voz a um sentimento negligenciado – e até mesmo atacado – pelos partidos tradicionais. O caso mais claro de sucesso foi o UKIP (UK Independence Party, ou Partido de Independência do Reino Unido), que conseguiu pressionar o então Primeiro-Ministro britânico David Cameron a levar adiante o referendo que resultou no Brexit. Embora a saída da União Europeia tenha sido aprovada por voto direto da população, não faltaram acusações ao UKIP de ser radical, nacionalista, populista e até mesmo xenófobo.

Antes que isso acontecesse, entretanto, o acadêmico português João Carlos Espada já alertava para o crescente apelo dos movimentos políticos e populares eurocéticos. Em edição de 2014 do Journal of Democracy, ele chegou a concordar que muitos destes partidos eram de fato radicais, mas seu apelo crescia entre os eleitores não por causa do radicalismo, mas por serem os únicos que davam voz a um sentimento popular latente e legítimo:

O motivo para o seu sucesso (partidos eurocéticos) reside menos na radicalização dos eleitores europeus do que naquilo que todos estes partidos têm em comum: darem voz a uma reinvindicação ignorada pelos partidos liberais-democráticos. Esta reinvindicação consiste no apelo para descentralizar mais poderes ao nível ‘local’ (o que significa, no contexto da União Europeia, ao nível nacional), e para devolver poderes para as mãos dos parlamentos nacionais.

Por trás deste fenômeno está o fato de que a descentralização da política europeia é considerada um assunto ilegítimo por grande parte da classe política do continente. É comum que partidos políticos concordem a defendam as normas constitucionais de seus respectivos países (ou mesmo de uma organização supranacional como acontece na Europa). Mas respeitando este ordenamento jurídico, muitas discordâncias podem existir entre os representantes democraticamente eleitos. Desta forma, é legítimo e até benéfico que haja debate sobre questões como gastos públicos, privatização de empresas, políticas migratórias, desde que elas não interfiram no arranjo constitucional de determinada nação.

O problema na Europa é que a discussão sobre a descentralização dos poderes adquiridos pela União Europeia não é aceita como parte do debate legítimo da política. Ao contrário, tal assunto é frequentemente rejeitado de forma dogmática, como se fosse assunto constitucional inviolável e indiscutível. Assim, praticamente todos os partidos tradicionais da política europeia tem se ausentado e mesmo lutado para impedir este debate de acontecer, gerando um vácuo de representação que vem sendo preenchido apenas por partidos e políticos “outsiders” rapidamente acusados de ameaçar a estabilidade democrática do continente com seu populismo, radicalismo e nacionalismo. Ora, a marginalização de um debate legítimo e democrático em nome da própria democracia não é apenas uma incoerência, mas também uma violação aos princípios que tornam qualquer país livre. Ademais, este posicionamento também é perigoso como bem aponta Espada:

Entregar a tais partidos políticos (eurocéticos) um assunto poderoso ao tratar a posição de ‘mais Europa’ (em contrapartida à defesa de mais autonomia aos estados-nação) como um princípio sacrossanto é um erro múltiplo: faz destes partidos mais fortes; semeia confusão ao permitir que preferências normais pela descentralização sejam identificadas com uma agenda iliberal; expõe qualquer um que exprima ligeiras tendências pela descentralização a suspeitas de ‘extremista’.

Desta forma, o que se vê no continente europeu não é, necessariamente, uma radicalização de partidos e eleitores céticos quanto à União Europeia, mas a acusação de radicalismo por parte de grupos políticos que se negam a aceitar a discussão sobre mais autonomia ao estado-nação como algo legítimo. Na falta, portanto, de meios para debater este assunto sem sofrer rapidamente a pecha de radical, e sem que haja maneiras efetivas de reduzir o poder adquirido nas últimas décadas pela UE, resta à parcela considerável do eleitorado abraçar a marginalização imposta justamente pelos partidos tradicionais. Quanto mais assuntos são retirados da esfera do debate legítimo, mais limitada se torna a democracia, uma vez que as demandas outrora razoáveis passam a ser acusadas, com cada vez mais frequência, de serem radicais.

A União Europeia continua sendo defendida pela maior parte dos europeus. A sua taxa de aceitação permanece alta em países como Espanha, Portugal, Alemanha, Itália e mesmo algumas nações do leste europeu como a Polônia. Não há razão, portanto, em negar que as vozes eurocéticas sejam ouvidas, já que elas sequer constituem a maioria do eleitorado nos principais países do bloco. No entanto, ao adotar esta postura, os partidos tradicionais acabam, eles próprios, gerando um radicalismo que não tinha razão para existir e que corrói a Europa internamente.

União Substancial ou Circunstancial?

É preciso reconhecer que o propósito da OTAN e da União Europeia são diferentes. Enquanto a primeira organização é essencialmente militar, a segunda existe para fins de cooperação econômica e política. Os motivos que fazem uma prosperar ou naufragar, portanto, não necessariamente afetam a outra. Ainda assim, ambas só existem enquanto houver unidade entre os países que as compõe. Desta forma, uma maior união em torno da OTAN, causada neste momento pela guerra à Ucrânia, pode representar uma maior união entre todas as nações. Mesmo que a UE não forneça benefícios militares tão urgentes neste momento, ela representa um ponto de unidade entre países que não se viam tão claramente ameaçados desde o fim da Guerra Fria.

O problema para a Europa é que toda esta união é circunstancial. Passada a guerra, as mesmas rachaduras que vinham crescendo nos últimos anos devem voltar a aparecer. A guerra na Ucrânia, afinal, não resolveu nenhum dos problemas existentes no seio do continente, isto é, o conflito entre aqueles que desejam delegar mais poderes à União Europeia e entre os que preferem resgatar a autonomia de suas nações, bem como os atritos frequentes entre as constituições de cada país e as decisões supranacionais vindas de Bruxelas.

Se a falta de unidade europeia é, essencialmente, um problema interno, não há por que esperar que um elemento externo vá solucionar tal questão. A disputa entre o poder supranacional e o poder local existe no mundo todo. Na Europa, esta problemática é ainda mais presente, uma vez que a União Europeia exerce sua autoridade diretamente em cada um dos Estados-membros. Enquanto os governos locais e as entidades supranacionais não interferem uma na outra, os conflitos permanecem adormecidos. Conforme a poder internacional cresce, entrando em rota de colisão com a soberania nacional, no entanto, mais estes conflitos se fazem presentes.

A guerra aberta contra a Ucrânia mostrou ao Ocidente, de forma franca, que ainda existem adversários dispostos a confrontar a ordem liberal por eles promovida. Embora este seja um desafio urgente para os europeus, é preciso lembrar que as feridas que dividem o continente não deixaram de existir e devem voltar a ficar aparentes assim que a guerra terminar. Quando isto acontecer, será necessária uma análise interna profunda. O Reino Unido já decidiu sua posição: entre delegar poderes à União Europeia ou resgatar sua soberania nacional, optou pela segunda. A Europa continental eventualmente terá de fazer o mesmo questionamento acerca do âmbito onde o poder político deve ser depositado. A guerra promovida pela Rússia pode influenciar os países europeus a adotar uma posição ou outra, mas no final, o futuro do continente deve ser decidido principalmente pelo resultado desta tensão entre os governos locais e o poder supranacional.

Tudo aquilo que é imutável tende a ser pouco atrativo para o jornalista. O motivo é simples: se não muda, não gera novas pautas; se permanece igual tende a ser assunto frio de reportagem. Este não é um problema para quem trabalha nas editorias políticas, no entanto. Para além do fato do jornalismo exercer o papel de vigilante do poder, a cobertura política é atraente graças à sua relevância e às novas pautas geradas diariamente. Mas ainda que os gabinetes mudem, as ideologias se alternem no poder e o relacionamento entre governos se transforme, há outros fatores que foram determinantes para a geopolítica ao longo da história e que continuarão a sê-lo independentemente da agenda política das lideranças do presente.

É disto que trata o livro Prisioneiros da Geografia, do jornalista britânico Timothy Marshall. A sua tese é que planícies e montanhas, desertos e rios, frio e calor são elementos cruciais na política global, mesmo que regularmente subestimados. Por este motivo, Marshall argumenta que “As realidades físicas que sustentam a política nacional e internacional são desconsideradas, com demasiada frequência, tanto quando se escreve sobre história quanto na cobertura contemporânea da mídia acerca dos assuntos mundiais”. Em relação a esta colocação, é legítimo argumentar que não há razão para que a geografia seja, em si própria, assunto de primeira ordem para os jornalistas. Isso, no entanto, não significa que ela não possa orbitar as matérias sobre políticas internacionais quando estas são determinadas ou amplamente influenciadas pelo terreno e pelo clima.

Exemplos sobre a correlação entre política e geografia não faltam. O noticiário internacional nos últimos anos – e em especial nos últimos meses – foi diversas vezes protagonizado pela China e pela Rússia. O posicionamento adotado por ambos de confrontar a ordem liberal promovida pelo Ocidente tem gerado repercussões importantes na política global. Nos últimos tempos, vimos um embate crescente entre EUA e China que provocou até mesmo uma guerra comercial envolvendo importantes sanções. A Rússia, por sua vez, tomou a drástica decisão de invadir a Ucrânia no início deste ano motivada, entre outras coisas, pelo desejo de retomar sua influência em uma região cada vez mais próxima da esfera ocidental.

Basta olhar para os mapas, no entanto, para entender como a geografia também exerce seu papel nas políticas conduzidas por cada país. Ela explica, por exemplo, o motivo pelo qual os conflitos entre Índia e China – dois países com mais de 1 bilhão de cidadãos, que compartilham fronteira, não são culturalmente alinhados e rivalizam influência sobre a região – nunca foram significativos. Entre os dois países, afinal, existe a maior cadeia de montanhas do mundo, os Himalaias, que impedem o movimento fácil e rápido de grandes forças militares. Mesmo que a tecnologia avance, o obstáculo geográfico continua sendo um forte elemento de dissuasão de um conflito aberto entre os dois países.

Com a guerra em andamento entre Rússia e Ucrânia, por sua vez, a geografia também ajuda a entender o que está em jogo para além dos motivos ideológicos que colocaram os dois países em conflito. Enquanto as montanhas criam uma fronteira natural e de difícil transposição entre China e Índia, o mesmo não pode ser dito sobre os dois países europeus. Entre eles não existem barreiras naturais – o que representa, para a Rússia, tanto uma oportunidade de invasão quanto uma ameaça de ser invadida. Neste sentido, a cortina de ferro criada pela União Soviética no século passado era útil para a Rússia não apenas em sua disputa com os EUA por influência global, mas também por colocar obstáculos políticos onde sempre faltaram obstáculos geográficos impedindo o movimento de tropas do oeste para o leste.

Como é possível ver no mapa, da Polônia até a Rússia o terreno começa a se abrir sem a interferência de montanhas capazes de criar uma fronteira natural entre os países.

É verdade que as tentativas de invasão à Rússia – de Napoleão a Hitler – foram frustradas, entre outras coisas, devido à dificuldade de lidar com o rigoroso inverno e de manter linhas de suprimento e comunicação tão extensas. Mas isso não significa que a Rússia, com seus mais de 3000 km de fronteira com a Europa, não se sinta em uma posição de vulnerabilidade frequente. Os planos de Putin parecem, neste momento, distantes de retomar toda a esfera de influência que seu país possuía durante a Guerra Fria. Ainda assim, conquistar a Ucrânia ou colocar no poder do país um presidente fantoche e subserviente aos comandos de Moscou significaria, para além de reduzir a influência ocidental sob o leste europeu, adicionar um obstáculo entre a Europa e o vasto território russo.

Além de ser o maior país do mundo, a Rússia enfrenta outros desafios peculiares. Embora a maior parte de sua superfície esteja na Ásia, apenas 22% da população vive lá (motivo que também se deve, em grande medida, à geografia). Para além dos Montes Urais, que dividem os dois continentes, e em direção à Sibéria, a Rússia é um país inóspito, “congelada por meses a fio, com vastas florestas (taiga), solo pobre para a agricultura e vastas extensões de pântanos”, segundo Marshall. Assim, o país tem muito território, demasiadas fronteiras, onze diferentes fusos e muita pouca gente para ocupar toda esta área.

Os desafios territoriais russos não se encerram aí. O país também enfrenta dificuldades em sua saída para o mar (embora seja cercado por oceanos a norte e a leste). Isto explica, em grande parte, a dificuldade da Rússia de se tornar efetivamente uma potência econômica mundial. Devido ao seu posicionamento no globo, o país praticamente não detém portos de águas mornas. Tanto no Ártico quanto na fronteira com o Pacífico, os portos russos congelam por vários meses do ano. No Oceano Báltico a situação tampouco é melhor, pois até que sua frota marítima consiga atingir o Atlântico, precisa inicialmente passar pela Estônia e Finlândia (o primeiro país já faz parte da OTAN e o segundo está ativamente buscando se juntar à Organização juntamente com a Suécia). Mais ainda, para atingir o Mar do Norte, a frota russa precisa também cruzar o estreito de Escagerraque, controlado pela Dinamarca e Noruega, ambos parte da OTAN. Como diz Marshall em seu livro:

Essa falta de um porto de águas mornas com acesso direto aos oceanos sempre foi o calcanhar de Aquiles da Rússia, tão estrategicamente importante para ela quanto a planície do norte da Europa. A Rússia está em desvantagem geográfica, salva de ser uma potência muito mais fraca apenas graças a seu petróleo e ao gás.

O mapa mostra a difícil saída da Rússia pelo Mar Báltico, cercado por diversos países da OTAN como Estônia, Letônia e Lituânia, além da Noruega e da Dinamarca no estreito de Escagerraque.

O Mar Negro é tentador para Putin justamente por dar acesso a portos de águas mornas ausentes em outras partes do país. Mas assim como a geografia conta muito para a política internacional russa, ela também é importante para a Turquia, que pouco desejo tem de compartilhar o controle sobre aquelas águas que se conectam ao Mar de Mármara, Egeu e Mediterrâneo até, enfim, desembocar no Atlântico. Isso explica, também, a posição adotada pelo governo turco desde que a guerra teve início.

Recep Tayyip Erdogan é ideologicamente parecido com Putin. Ambos minaram a liberdade de imprensa e prenderam oponentes políticos a fim de se manterem no poder. Talvez mais importante ainda é o fato de que ambos se opõem aos EUA e enxergam o capitalismo ocidental como uma arma para enfraquecer seus governos. Se adicionarmos a estes elementos que unem as duas lideranças o fato de que 30% da energia turca provém do gás russo, seria difícil imaginar o governo de Erdogan se opondo a Putin e tomando certas medidas que beneficiam a posição ocidental. O improvável tornou-se certo com poucas semanas de conflito, no entanto. Desde que Putin ordenou a invasão da Ucrânia, a Turquia não apenas fechou o estreito de Bósforo, que cruza Istambul conectando o Mar de Mármara ao Mar Negro, para a frota russa, como enviou à Ucrânia seus drones Bayraktar para ajudá-los no combate.

São inúmeros os motivos que explicam a decisão tomada por Putin de invadir a vizinha Ucrânia. Desde o início do conflito não faltaram jornalistas, acadêmicos e especialistas em geral tratando da importância de Kiev na história russa, sobre as implicações de aproximar a Ucrânia da OTAN e a conexão histórica entre os povos dos dois países que agora se encontram em combate. Mas como bem disse Marshall, a geografia está entre os assuntos mais subestimados e menos abordados na cobertura internacional, mesmo que muitas das políticas adotadas pelos governantes sejam frequentemente determinadas, influenciadas ou limitadas por este fator. O livro Prisioneiros da Geografia é, portanto, um grande ponto de partida para qualquer jornalista que queira acrescentar o “porquê” ao “o que” dos assuntos internacionais.