Um grupo de alunos que participaram de um workshop sobre Audience First, no ano passado, fizeram um exercício tão simples quanto raro na correria da redação: selecionei algumas manchetes de veículos mainstream (generalistas, não especializados) e pedi que eles respondessem 2 perguntas em relação a cada uma delas:
- Quem vai se interessar por esta notícia?
- Qual o efeito ela produzirá na vida dessa pessoa?
Antes que alguém pense que este é um exercício de Teoria dos Usos e Gratificações, paremos antes. É um caminho para encontrar a ancoragem (vamos falar disso noutro momento), para descobrir a motivação de uma pessoa ao decidir acessar tal conteúdo, vista da perspectiva de quem consome – e não de quem produz.
O desafio, aqui, é esquecer um pouco do futuro do pretérito e não escolher as pautas de acordo com o que o público deveria saber. – Ah, então só vou publicar aquilo que as audiências querem consumir? Ou seja, tragédia, bizarrice e celebridades? – Não. Até porque um jornalismo útil e de qualidade não pode trabalhar com esta visão polarizada sobre sua própria capacidade de produção.
De volta ao exercício – e de forma totalmente espontânea! – todo nós nos surpreendemos com o padrão de efeitos que esperamos causar na população:
- revolta
- indignação
- dúvida
- incerteza
- desconfiança
- desânimo
- medo
- preocupação
- indiferença
Dá só uma olhada…
A menos que você esteja muito interessado em paleontologia, a seleção despretensiosa de notícias é para fazer o povo sair correndo sem olhar para trás! Brincadeiras à parte, sabemos que o cidadão médio não procura por boas notícias e nem espera que o jornalismo o deixará feliz. Isso é tarefa para a Netflix, para o Instagram…
A preocupação, aqui, vai além do estado de ânimo que nosso trabalho provoca nas pessoas. A frustração, a revolta são partes da existência e precisamos enfrentá-las, saber como lidar com elas, nem que seja nas próximas eleições. O problema é quando isso se torna dogma e não deixa espaço para a utilidade da notícia, para a aplicabilidade da informação no dia a dia das audiências.
Quem quer ver notícia para ficar revoltado o tempo todo?
Não defendo a ideia de que veículos especializados em denúncias se furtem de praticar o jornalismo que investiga, que derruba autoridades ou interfere na cotação do dólar. Aqui há uma situação delicada de erro de proporção que contamina boa parte dos veículos. Um espaço absurdo é dado à cobertura do Big Brother político, cuja maior parte dos “fatos” noticiados não exerce impacto algum no dia a dia da população. Mas toma conta do noticiário porque “é revoltante” ou “vai causar indignação”. É isso mesmo o que queremos com o nosso trabalho?
Deixo aqui o desafio das 2 perguntas, sobretudo para veículos generalistas (os hiperlocais e os segmentados estão mais próximos de um jornalismo útil e aplicável): perguntem-se, antes de cada pauta, quem irá, de fato, dedicar tempo e atenção para saber deste assunto E, principalmente, o que vocês esperam que tal informação cause na vida desta pessoa. Quem sabe, assim, recuperamos a relevância e a confiabilidade da população.

