Tag

Verdade

Browsing

“Todos cisnes são brancos”. 

Quantos cisnes brancos uma pessoa precisa ver para ter certeza absoluta da afirmação acima? 

Por outro lado, quantos cisnes de diferente cor precisamos ver para termos certeza de que a afirmação é falsa? 

Esta questão foi apresentada pelo filósofo austríaco Karl Popper para delinear a teoria da falseabilidade, ou seja, a capacidade de refutar uma teoria utilizando-se de evidências. Colocando de outra forma, nunca podemos ter absoluta certeza sobre a verdade de uma afirmação universal ao passo que basta apenas uma evidência em contrário para que possamos dispensá-la por inteiro.

O que isso tem a ver com a nossa área? Nos últimos tempos, tem-se visto diversos jornalistas utilizando de afirmações oficiais para desacreditar e deslegitimar determinados posicionamentos políticos dos quais não gostam. Exemplos? A pandemia do coronavírus nos oferece vários, sendo o mais clássico deles o de que milhões de pessoas morrerão caso não seja feito um lockdown total.

Meses depois do início das quarentenas, vemos que os poucos países que adotaram medidas menos ou nada rigorosas não apresentaram o caos previsto. Ao mesmo tempo, países que se fecharam por completo continuam vendo o número de casos aumentar. Ocorre que, ao cálculo científico sobre o número de mortes, não foi dada a oportunidade de ser falseado para sabermos se era ou não verdade. E nisso os jornalistas deram uma grande ajuda, sem nunca ter o interesse em questionar a autoridade da “ciência” que não ganha o status de verdade absoluta apenas por ser rotulada como tal.

Se pudermos tirar uma conclusão resumida da reflexão de Popper é que devemos ter cuidado em achar que descobrimos uma verdade absoluta quanto podemos de fato ter descoberto apenas uma verdade parcial ainda não refutada.

Na ânsia de criticar governos e políticos que não são de seu agrado, quantas vezes o jornalismo não se escondeu da dúvida para alçar ao nível de verdade universal aquilo que, no máximo, é uma teoria não testada ou não debatida?

Aprende-se que, no constante exercício da profissão jornalística, é sempre imprescindível ouvir os dois lados de um fato, e que esta seria [teoricamente] a atitude ideal do bom jornalista! Mas, na prática, sabemos que ouvir os dois lados e garantir a imparcialidade tão sonhada pela grande mídia é tão difícil  – ou praticamente impossível – se levássemos em conta a essência fundamentalmente humana do jornalismo. 

A ideia defendida por Geneva Overholser em “Death to bothsidesism” nos traz à vida real e expõe a tentativa frustrada do mainstream em buscar uma neutralidade utópica na produção de notícias. A jornalista, veterana do The New York Times e do The Washington Post, defende o fim dessa isenção que, no fim das contas, acaba por apresentar uma “realidade a preto-e-branco ao leitor”. Além disso, afirma que a mesma imparcialidade faz com que “as pessoas pensem que não há nada sólido em que possam acreditar”.

Por essas e outras razões, fica difícil aceitar que a regra de ouro – defendida não só pelos publishers brasileiros como no mundo todo, desde o século passado – esteja cada dia mais comprometida.

E você, caro leitor, deve estar se perguntando: se a objetividade não serve ao jornalismo, o que, então, podemos fazer?

Podemos, todas as noites, deitar nossas cabeças no travesseiro com muita tranquilidade, sabendo que nossa sociedade (ainda) suporta a liberdade de defender pontos de vista sem que falemos obrigatoriamente dos dois lados de um fato. “Mas, com isso não estimulamos a bolha?”, podem perguntar. Também. Contudo, o jornalismo não é o grande culpado nessa história. Enquanto os veículos procurarem a verdade – nem que para isso tenham que declarar o fim deste “Doisladismo” – e tiverem a noção de que juntos podem manter a democracia, então grande parte da missão estará cumprida. 

Por isso, considerando o contexto mercadológico em que veículos de diferentes posições podem (e precisam) coexistir, não seria esta uma evolução do modo de se defender a democracia?

Trabalhar com verdades é uma tarefa complicada, pois elas nem sempre são fáceis de encontrar, podem ser conflituosas e estão sujeitas às circunstâncias. Muitas vezes, uma informação conhecida não é nem de perto tão relevante quanto aquelas que no momento desconhecemos. Afinal, um dado ignorado ou pouco apurado pode mudar toda a nossa percepção da realidade.

Se verificar fatos, portanto, já é uma tarefa delicada, o que dizer de julgar a intenção daqueles que criam e divulgam conteúdo? Um veículo de fake news, afinal, não é aquele que publica uma mentira ou gafe pontual, mas aquele que age com o intuito de enganar a população, desinformar e manipular. Mas como podemos conhecer a intenção de outros jornalistas ou meros influenciadores? Não seria nossa ideologia falando mais alto?

É verdade que jornalistas devem trabalhar com a verdade, mas quem nos deu a tarefa de ser juiz do trabalho alheio para controlar o conteúdo que circula nos ambientes de debate público de hoje?

No dia do jornalista, 7 de abril, fui surpreendido por um post no Facebook. Seu autor, Eduardo Castro, brilhante jornalista, mexeu com o coração do seu ex-professor de ética da comunicação. 

“Amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar. Foi o que você disse no dia da minha formatura e eu lembro todos os dias que levanto para trabalhar. Parabéns, professor”. 

Confesso que me emocionei. Ao mesmo tempo, caro Eduardo, ao revisitar o que eu te disse lá atrás, e que você não esqueceu, renovei minha convicção da importância daqueles valores: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade radicalizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor.  Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá blá blá  na entrada do Palácio da Alvorada, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo não deve confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa  e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. 

Chegou a hora do jornalismo propositivo e inspirador.