Entre tantos assuntos que rondam o cotidiano jornalístico, as fakes news surgem com frequência entre os mais debatidos. No meio, há uma preocupação lógica com os problemas que as informações falsas causam à sociedade. Afinal, se é função da mídia deixar o público bem informado, a disseminação de mentiras é claramente um obstáculo a este propósito final.
Ao entrar de cabeça na luta contra a desinformação, no entanto, é possível esquecer de analisar a questão em si, suas implicações, a gravidade do problema e, principalmente, o papel que o jornalista pode exercer. A solução do fact-checking” parece beirar a unanimidade entre profissionais da comunicação, podendo realmente ser boa para expor uma mentira evidente antes que tome grandes proporções. Mas há considerações importantes a serem feitas relativas a esta prática, inclusive ao olhar para a sociedade, com quem o jornalista deve dialogar e perceber como boa parte dela enxerga a questão.
Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades.
Dado que no amplo e inflamado debate público dos anos recentes encontramos não apenas informações deliberadamente mentirosas, mas também distorções de fatos verdadeiros e dados descontextualizados, aplicar uma medida única e definitiva para o problema não é algo muito fácil, para não dizer impossível.
A atuação dos fact-checkers oferece uma alternativa à exposição de notícias falsas. O problema, no entanto, está muitas vezes em definir o que é verdadeiro. Certamente há questões objetivas facilmente identificáveis, mas em muitos outros casos a fronteira entre verdade e mentira não será tão clara. Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades. O falso consenso ou mera opinião também podem oferecer uma interpretação parcial do mundo ao nosso redor, permitindo que enquadremos como mentira algo que talvez não esteja fechado para o debate.
É certo que, em um mercado aberto, a checagem de fatos tem seu lugar e um público consumidor. Mas institucionalizar grupos de checadores de notícias como controladores oficiais da verdade pode ser um risco para a livre circulação de informações.
Ao se colocar em uma posição de infalibilidade, muitas empresas de mídia se fecham para a autorreflexão e passam a ver na sociedade um obstáculo à realização de seu propósito maior. Parte do descrédito midiático resulta da desconexão com o público, o que é reforçado por seu posicionamento de detentora oficial da verdade. Uma vez que as redes sociais amplificaram as vozes da crítica e do questionamento, o jornalismo oficial simplesmente perdeu o monopólio da comunicação.
É preciso, portanto, questionar sobre o valor gerado pela checagem de notícias, dado que no atual momento há ampla circulação de informações, opiniões e conteúdo de entretenimento. Ao atuar apenas de forma reativa, revisando e corrigindo aquilo que é divulgado por tantos outros, o jornalismo gera pouco valor para si mesmo.
É curioso pensar em crise no jornalismo em um momento de tanta difusão de conteúdo. Mesmo empresas cujo produto nada tem a ver com informação oferecem conteúdo que agrega conhecimento ao seu público e gera engajamento com a marca. Diversas pessoas qualificadas trespassam o cada vez mais frágil filtro jornalístico para difundir nas redes suas opiniões e visões de mundo. Há valor sendo criado em todo canto para pessoas que buscam se distrair, se informar, conhecer novas ideias e ouvir histórias cativantes. Como competir com isso apenas checando um limitado número de notícias que correm nos meios mais diversos?
O funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria.
A discussão que deveria rondar o jornalismo acerca do fenômeno das fake news está limitada. Não se trata apenas de mostrar a verdade e a mentira que rondam a comunicação de massa que hoje existe e, portanto, de controlar e regular o que está chegando aos ouvidos do público. Este posicionamento ignora o potencial do jornalismo, cujo poder reside não apenas em dar informação ao público, mas em ajudá-lo a compreender o mundo a sua volta.
Ainda que em termos gerais, o funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria. O mercado midiático possui suas particularidades e, muitas vezes, a desinformação conta com forte apelo humano. Ainda assim, investigar, descobrir informações relevantes e produzir conteúdo de qualidade, de verdadeira qualidade – o que é o trabalho do jornalista -, pode contribuir mais para o esclarecimento do que se passa ao nosso entorno no atual e confuso cenário de debate público, do que simplesmente caçar mentiras produzidas.
O problema da desinformação não é novo; ao contrário, existe desde que o mundo é mundo e continuará existindo enquanto o ser humano for humano. A novidade são as novas tecnologias, que permitem uma disseminação maior e mais veloz da informação. Mas esta é uma via de mão dupla, pois se a mentira pode ser compartilhada com grande facilidade, velocidade e alcance, o mesmo serve para a verdade, para o conteúdo de qualidade.
A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo.
Colocar o jornalismo de volta a sua posição de destaque por meio do aprimoramento do conteúdo que distribui não é solução definitiva para o problema da desinformação. Não é possível dissipar e ordenar o caos informativo dos tempos atuais, mas permitir que o público se guie neste cenário é algo que está nas mãos do jornalista, desde que ele esteja disposto a criar e oferecer um tipo de conteúdo de real valor.
A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo. A realidade é que a internet quebrou o intermédio da mídia, dando à população um poder sem precedente de buscar diversas fontes de informação e de expressar aquilo que pensa. O jornalismo precisa dos ouvidos tanto quanto precisa da boca. E ser checado pela opinião pública é essencial para que não se perca em sua própria bolha.
Mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar.
É possível acreditar que a circulação de informações incorretas e inverídicas levam a um empobrecimento das crenças populares, ou ainda a um risco à democracia. A verdade é que o aumento da circulação de notícias e opiniões também provoca um amadurecimento da população em sua busca por compreender a realidade. Certo conflito, como acontece no próprio processo dialético do discurso, estimula o raciocínio ao contrapor, com argumentos, qualquer tese desenvolvida, filtrando o conhecimento e o aproximando da verdade.
Portanto, mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar. Não se trata de achar que regulações e controles não são necessários em sociedade. A mentira descarada, quando criada para difamar, enganar e manipular, precisa ser exposta como tal. Mas a luta contra a desinformação pode também ser positiva ao ofertar conteúdo de alta relevância e grande profundidade intelectual. No fundo, tal discussão diz respeito às pessoas, que formam suas opiniões com base nas informações que circulam por todos os canais. Se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor.
