O noticiário local que foi ao ar na noite da última terça-feira, 19, em São Paulo, revelou o quanto nos falta  aprender para fazer jornalismo. Em uma emissora, o apresentador anunciou: “Homem atira em assaltantes no Bom Retiro e não é indiciado por porte ilegal de arma nem por matar um dos ladrões“. Minutos depois, no outro canal, a manchete era: “Clientes e funcionários de restaurante no Bom Retiro são feitos reféns. Sequestadores foram baleados por vizinho.” Fiquei apenas nestes dois telejornais e a diferença no enquadramento de cada emissora me chocou mais do que a barbárie da acontecimento em si.

Há vários fatos no ocorrido. Há uma tentativa de roubo. Há bandidos armados. Há reféns na mira de pistolas. Há um vizinho do restaurante, também armado. Há dois homens baleados. E há uma obsessão ideológica acintosa norteando o trabalho em certas redações.

Pela ótica dos colegas, o sequestro parece ter sido apenas evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um cidadão, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

O programa onde ouvi a primeira chamada dedicou nada menos que seis minutos para declarar sua revolta com o cidadão que portava uma arma em local não autorizado e que atirou contra os criminosos. Ao exibir um vídeo cedido pela Polícia Militar, o repórter narra que o morador “caminha em direção aos sequestradores, é rendido por um deles e reage descarregando a arma em dois assaltantes“. Mas isso foi apenas um detalhe, na visão dos colegas. A tônica da reportagem, do começo ao fim, foi denunciar a impunidade sobre o porte de arma por uma pessoa que não suportou assistir passivamente seus vizinhos sendo torturados. Está claro que a reação colocou em risco a vida dos reféns e isso precisa ser mencionado no relato editorial. Porém, o sequestro virou paisagem. Pela ótica destes colegas, o crime parece ter sido apenas um evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um homem, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

A indignação do repórter com as autoridades que liberaram o autor dos disparos transbordava em trechos do boletim de ocorrência lidos no texto do off, em uma tentativa furiosa de legitimar sua ira contra aquele “assassino de sequestradores”. Uma das frases lidas no documento dizia que o atirador – exposto e nomeado pela reportagem – teria “recorrido ao chamado excludente de licitude“. Na certeza de que todos os espectadores de seu telejornal, transmitido pela TV aberta, entenderiam indubitavelmente a expressão “recorrido ao chamado excludente de licitude“, o repórter provou que estava engajado demais para lembrar que uma de suas funções vitais é traduzir à população, em linguagem simples e acessível, a informação que lhes foi dada por especialistas.

Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados?

Após assistir à reportagem, me peguei em um diálogo interno de ordem jornalística mas, mais do que isso, foi uma reflexão a respeito de civilidade e de humanidade. Desde quando um sequestro de trabalhadores inocentes tem menos valor notícia do que o fato de dois de seus autores terem sido baleados ao renderem um indivíduo com arma de fogo? Desde quanto telejornais criticam e questionam a decisão da Polícia em não deter alguém que sequer foi investigado? Quando foi que normalizamos a invasão e o roubo à propriedade privada? Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados? Desde quando o jornalismo milita pelo desarmamento da população? Desde quando jornalismo milita?

O que rotulamos como “absurdo”?

O caso acima ilustra o resultado de uma pesquisa publicada neste mês pelo Pew Research Center, com jornalistas norte-americanos de várias idades e cargos, atuantes em veículos. Mais da metade dos participantes (55%) admitiram que nem sempre os dois lados de uma pauta merecem receber a mesma cobertura. Isso é o mesmo que se posicionar, declarar apoio ou repúdio a algum aspecto da realidade e oferecer um conteúdo à sociedade como se fosse uma visão equilibrada dos fatos, como se fosse verdade em si.

Como jornalistas, sabemos que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Nos últimos anos houve uma multiplicação de veículos posicionados em vários pontos do espectro ideológico e político. No entanto, estes costumam firmar um pacto explícito com o leitor, que é ciente dos valores defendidos por aquele produto. Expôr a população à militância disfarçada de jornalismo é uma ofensa à sociedade. Justamente no momento em que o Brasil ocupa a primeira posição  no ranking de países onde mais se evita deliberadamente o consumo de notícias, há empresas de mídia que reagem dando ainda mais razões para as pessoas fugirem do noticiário.

Como jornalistas, nós mesmos sabemos que a linha divisória entre os gêneros informativo e opinativo é tênue e nem sempre fica clara às audiências. Nós também sabemos o quanto é difícil ser imparcial e que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, o esforço de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes.

Ao situarmos certos “lados” de uma discussão no universo do imponderável estamos, conscientemente, utilizando a atividade jornalística para difundir uma ideia ao invés de uma informação, para conduzir um pensamento ao invés de melhorar o estar-no-mundo da população, para alcançar interesses particulares que convergem, em última análise, na busca por poder. Nada mais antiprofissional, nada mais egoísta, nada mais desrespeitoso com quem ainda consome notícias na intenção pura de se manter informado.

O esforço para manter o profissionalismo nunca se fez tão urgente. Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, a tentativa de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes. Em qualquer profissão há procedimentos a serem seguidos, há convenções que precisam ser respeitadas. Por que haveria de ser diferente conosco? Por que seria aceitável transformar nosso trabalho num ato de interesse próprio? Há lugares socialmente legítimos para defendermos nossos ideiais: há grupos de estudo, há partidos políticos, há protestos pacíficos, há ONGs, centros comunitários, assembleias legislativas e mesmo o Congresso Nacional. Estes, sim, são espaços de ativismo; não o jornal, não o noticiário da TV aberta, não de forma sorrateira, fazendo de conta que é jornalismo.

Como podemos ajudar?

Procurar um novo modelo de negócio que sustente veículos no longo prazo é fundamental. Publicar conteúdos em formatos alternativos é necessário. Dialogar com o público, então, é urgente. Mas enquanto reproduzirmos a polarização do debate no fruto de nossos trabalhos, dificilmente voltaremos a ser percebidos como profissionais relevantes na vida de alguém.

Pense comigo: a lei da escassez rege relações de interesse de toda ordem, não apenas em transações comerciais. Existe uma oferta exagerada de informação, sobretudo instigando a polarização social. Entre discussões em redes sociais, estudos acadêmicos, fake news e mesmo em relatos opinativos válidos, qualquer ponto de debate está bem suprido de defesa. Não precisamos – nem devemos – ser mais um agente desta ou daquela bandeira. Isso equivale a dissolver o jornalismo num mar de subjetividades que não apenas nos descaracteriza, mas nos vulgariza. Seremos apenas mais um na multidão.

O que há em escassez na sociedade, hoje? Isto é, onde e como podemos fazer a diferença na vida das pessoas?

O American Press Institute (API) se lançou ao desafio de entender o que está escapando do olhar das redações e, não por acaso, a descoberta diz respeito à melhoria do convívio social. O fornecimento de informações sólidas e a abertura de espaços propícios ao diálogo foram apontados como formas de o jornalismo contribuir, com relevância, com a sociedade. Às vezes isso passa pela conscientização de que, mesmo sem querer, estamos agindo como apoiadores de causas, como críticos deste ou daquele político, ou que vemos como “realidade” aquilo que não passa de um recorte da nossa compreensão. Repito: isso pode ser inconsciente. E espero que o seja! Assim, temos alguma chance de recuperar a relevância do que fazemos na rotina das comunidades.

Podemos ajudar a traçar, através do jornalismo honesto, o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, do respeito mútuo e da integridade do ser humano.

Kevin Loker, diretor de pesquisa do API, considera essencial repensar o papel do jornalismo na vida das pessoas. “Se não mostrarmos uma abertura para a autorreflexão e mudança quando as críticas forem justas, nosso trabalho pode ser descartado como um empreendimento partidário ou monocultural. E quando isso acontece, perdemos o público.”

O vácuo deixado pelo público nos relatórios de audiência não prejudica apenas o desempenho financeiro das empresas de mídia. Não coloca em risco apenas nossos empregos. Ele gera um outro vácuo, dessa vez, na engrenagem social. Sem fontes confiáveis de informação, dignas do respeito da população e de legitimidade editorial, abre-se uma lacuna de civilidade, pronta para ser preenchida pelo caos, pela intolerância e pela selvageria humana.

Em 2016, ao perceber que a política fraturava relações humanas, um grupo de jornalistas norte-americanas criou o projeto Spaceship Media, com o objetivo de auxiliar cidadãos com opiniões opostas a dialogarem outra vez. As jornalistas atuam em parceria com veículos locais na identificação de temas antagônicos em uma determinada comunidade: da instalação de uma indústria a políticas migratórias, do armamento da população ao preconceito racial. Uma vez que são mapeados simpatizantes de diferentes “lados” da polêmica, o Spaceship Media pesquisa e fornece estudos, notícias, relatórios sobre o caso para preparar os participantes para um encontro presencial.

Com a moderação de jornalistas, os grupos antagônicos se reúnem em espaços comunitários – escolas, igrejas, bibliotecas públicas – e seguem um roteiro de quatro perguntas feitas mutuamente:

  1. O que você acha que o outro grupo pensa sobre você?
  2. O que você pensa sobre o outro grupo?
  3. O que você deseja que o grupo oposto saiba sobre você?
  4. O que você deseja saber sobre o outro grupo?

Com criatividade e fazendo um jornalismo honesto, podemos ajudar a traçar o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, da capacidade de escuta, do respeito mútuo e da integridade do ser humano. E podemos começar já, servindo como exemplo.

Autor

Jornalista, Doutora em Comunicação Social. Editora Orbis Media Review. Professora e Pesquisadora do Master Negócios de Mídia.