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O belíssimo resort Costão do Santinho, em Florianópolis, foi o cenário de um produtivo encontro de jornalismo. Tive a honra de fazer a palestra de abertura do seminário sobre o futuro do jornalismo promovido pelo Grupo ND, maior conglomerado de mídia de Santa Catarina. Auditório lotado de jornalistas. Muita gente jovem e entusiasmada com o nosso ofício.

O Grupo ND cresceu muito. Sua filosofia editorial pode ser resumida no mantra que seu fundador Mário Petrelli repetia incansavelmente: “Criticar sem destruir; elogiar sem bajular”. Uma síntese sugestiva de linha editorial. Prestar serviço, apostar na reportagem, denunciar os malfeitos, mas não ter vergonha de mostrar o que dá certo: eis uma fórmula que se mostrou vitoriosa.

O que vi e ouvi suscitou a reflexão que compartilho com você, amigo leitor. O cenário do consumo de informação preocupa. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Perdemos a hegemonia das audiências. Não falamos mais de cima para baixo. O vertical foi substituído pelo horizontal. Impõe-se conversar com a audiência. Vivemos um momento disruptivo e de desintermediação. Todos, sem exceção, percebemos que chegou para o jornalismo a hora da reinvenção.

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização. Trata-se de um fenômeno generalizado.

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais do que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores da política, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais do que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

A imprensa de qualidade, séria e independente, é essencial para a democracia. E tudo isso, tudo mesmo, depende da nossa coragem e humildade para fazer a urgente e necessária autocrítica.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções. Esta quadra, sem dúvida dura e difícil para o nosso setor, também pode abrir uma avenida de oportunidades. Os pessimistas, os que têm os olhos no retrovisor, vivem de saudade. Chegou o momento de olhar para frente.

Você leu este comunicado da Meta? “Testes aleatórios nos ajudarão a criar uma solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias no Canadá.”

Não, ele não foi interpretado ou reescrito. Copiei e colei a partir do site original:  “Conforme nos preparamos para consentir com a legislação, anunciamos hoje que iremos começar testes em ambas as plataformas [Facebook e Instagram] que irão limitar alguns usuários e editores a visualizar e compartilhar alguns conteúdos de notícia no Canadá”.

O comunicado na forma de uma conquista tecnológica tem como contexto a aprovação do Projeto de Lei C-18, que versa sobre o mercado de notícias online. E a Meta não deixa qualquer margem de dúvida quanto ao que está obstinada a concretizar: “Pretendemos encerrar a disponibilização de conteúdo de notícias no Canadá permanentemente após a aprovação do Projeto de Lei C-18.

O que levaria uma empresa no século XXI a erguer um exército em combate a uma instituição basilar da história da democracia? 

O que diz a Lei de Notícias Online?

A Lei de Notícias Online canadense é um desdobramento natural e previsível da regulamentação pela qual as big techs vêm passando em vários países. Mais precisamente, o Canadá segue o caminho aberto pela Austrália que, no começo de 2021, instituiu o News Media Bargaining Code e colocou veículos e plataformas a negociarem um pagamento recorrente aos editores. 

(Se você não é da área, vale contar que a razão disso está no fato de as empresas de redes sociais terem adotado o modelo de negócio da publicidade que, até então, sustentava os meios de comunicação. Isso, sem assumir responsabilidade pelo conteúdo que nelas circula).

Voltando ao Canadá, a Lei C-18 diz que estarão isentos de cobrança os intermediários de notícias digitais que celebrarem acordo com empresas jornalísticas sob os seguintes critérios selecionados:    

  • forneçam compensação justa às organizações de notícia pelo conteúdo disponibilizado;
  • assegurem que uma parte da remuneração seja usada pelas organizações de notícias para apoiar a produção de conteúdo jornalístico local, regional ou nacional;
  • não permitam que a influência corporativa prejudique a liberdade de expressão e a independência jornalística de qualquer meio de comunicação;
  • contribuam para a viabilidade do mercado de notícias canadense;
  • garantam que uma parte significativa das empresas de notícias locais e independentes se beneficie, contribuam para sua viabilidade e incentivem modelos de negócio inovadores;
  • visem uma variedade de meios de comunicação com fins lucrativos e sem fins lucrativos e que sejam firmados com organizações de notícia que prestem serviços a todos os mercados e a várias populações, em particular a mercados locais e regionais.

A história se repete

Diante da provável obrigatoriedade em destinar parte de sua receita às empresas jornalísticas daquele país, a Meta achou melhor investir em uma “solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias”. 

A ameaça de bloqueio e a efetiva proibição do compartilhamento de conteúdo noticioso em todos os produtos da Meta não é novidade. Assim como os legisladores canadenses se inspiraram no modelo australiano, a Meta repete agora exatamente o que fez na Austrália, em 17 de fevereiro de 2021, quando bloqueou todo conteúdo jornalístico até que o texto da lei fosse flexibilizado. 

Na Califórnia a situação não está diferente. Um dia após legisladores democratas e republicanos terem apresentado – e aprovado em primeira instância – o projeto de lei California Journalism Preservation Act, o porta-voz da Meta, Andy Stone publicou em seu perfil de Twitter que seria “forçado a remover as notícias do Facebook e do Instagram”.

As justificativas apresentadas pela Meta

À medida em que a história se repete, o discurso fica mais direto e sem floreios.

A justificativa para tal postura é que os legisladores não entendem como funciona a internet e ignoram a realidade. Veja o que dizem os comunicados oficiais:

Fevereiro/2021 – Austrália

A lei proposta não entende fundamentalmente a relação entre nossa plataforma e os editores que a usam para compartilhar conteúdo de notícias. Isso nos deixou diante de uma escolha difícil: tentar cumprir uma lei que ignora as realidades desse relacionamento ou parar de permitir conteúdo de notícias em nossos serviços na Austrália.

Junho/2023 – Canadá

A Lei de Notícias Online é uma legislação fundamentalmente falha que ignora as realidades de como nossas plataformas funcionam, as preferências das pessoas que as usam e o valor que fornecemos aos editores de notícias.” 

Maio/2023 – Califórnia

“A lei falha por não reconhecer que os publishers e broadcasters colocam seu conteúdo na nossa plataforma por vontade própria.”

Por que as plataformas precisam pagar aos veículos?

Andy Stone tem razão quando diz que os publishers compartilham seu conteúdo na plataforma livre e espontaneamente. Por uma ingenuidade algo oportunista, acreditamos que as redes sociais solucionariam nossos problemas de tráfego em troca de pouco ou quase nenhum esforço. É fato: não solucionaram e ainda prejudicaram o ecossistema de consumo de notícias ao adotar uma dinâmica de distribuição totalmente opaca

Mesmo assim, se um veículo ainda publica seu conteúdo em redes sociais, o faz em busca de algum benefício. Geralmente, o benefício é geração de (cada vez menos) audiência ou consciência de marca. Então parece ilógico usar uma plataforma espontaneamente e esperar que ela ainda pague por isso.

Um dos argumentos que os legisladores estão usando para justificar a cobrança de taxas das big techs em favor dos meios de comunicação é a infringência de direitos de autor, uma tese falha, já que é o próprio veículo quem publica seu conteúdo ali. (Com o Google a história é diferente e o expediente adotado pela empresa também é outro; fica para outro post).

Se o problema das leis, segundo a Meta, é que elas “não entendem a realidade”, vamos a situações indubitavelmente reais, suficientes para embasar a exigência de pagamento das big techs a empresas jornalísticas. 

Ao longo dos últimos 10 anos, fatos reais provocados direta ou indiretamente pelas redes sociais causaram prejuízos históricos aos veículos:

  • verba publicitária migra da imprensa para as redes;
  • plataformas utilizam as audiências segmentada pela presença de veículos e as vendem para anunciantes;
  • redes sociais entregam audiência orgânica, tornam os meios de comunicação dependentes disso e, depois, derrubam arbitrariamente o alcance dos posts, impactando na queda de audiência;
  • os veículos se veem obrigados a alocar mais esforços e a publicar mais conteúdo nas plataformas em busca do tráfego perdido, onerando a operação;
  • para ter algum alcance nas redes, empresas jornalísticas se obrigam a pagar para promover posts e chegar a uma audiência que, antes, era delas.

Programas de apoio ao jornalismo foram criados pelas big techs ao longo desses fatos para amenizar o caos que elas instauravam no setor. O golpe de misericórdia será o impedimento explícito de veiculação de conteúdo jornalístico nestes espaços. Se essa for, de fato, a nova “realidade”, resta esperar que ela seja o marco de uma nova e produtiva etapa da indústria jornalística, mais centrada em seus próprios produtos, com real controle de suas operações. Quem viver verá.

O que diz nosso senso comum sobre o posicionamento ideológico da direita e da esquerda em relação à imprensa? Estes grupos aprovam ou reprovam o que fazemos, leem ou não leem o que publicamos, concordam ou não concordam com o que escrevemos?

Algo que ajuda a entender estas questões é uma recente pesquisa publicada pelo YouGov que perguntou aos americanos se eles confiam ou não confiam nas empresas de mídia. Os dados dizem respeito a nada menosdo que 56 veículos presentes nos EUA, dentro os quais estão alguns dos mais reconhecidos do mundo, como o New York Times, a revista Time, Forbes, The Economist e a rede BBC, para citar apenas alguns. Figurões, de fato, que desfrutam de uma longa tradição no jornalismo.

Ainda assim, quem realmente conquistou o primeiríssimo lugar da pesquisa foi o The Weather Channel – o canal do tempo americano.

No primeiro momento, esta constatação pode trazer algum desânimo. Mas há de se convir que o dado talvez não seja lá muito surpreendente considerando que o canal esteve distante de qualquer polêmica em função da própria natureza de seu conteúdo. Todos os outros veículos presentes na pesquisa tratam, de um jeito ou de outro, da rotina política – o assunto que mais tem dividido as pessoas e resultado em fadiga em relação às notícias nos últimos anos.

Em mais detalhes

Toda a polarização que observamos no cotidiano e nos embates que se passam nas redes sociais se refletem na opinião em relação às empresas de mídia. A CNN americana, por exemplo, assim como New York Times, fez um combate ferrenho a Donald Trump no período em que foi presidente dos EUA. Não à toa, no recorte da pesquisa que apresenta o grau de confiança por preferência eleitoral, estes são dois dos três veículos que mais dividiram Republicanos e Democratas, juntamente com a MSNBC. Portanto, se a CNN, a MSNBC e o New York Times possuem uma ótima pontuação de confiança entre Democratas (55, 54 e 53 pontos respectivamente), a pontuação delas entre Republicanos é extremamente negativa (-37, -37 e -30 pontos).

São pouquíssimos veículos que tem um grau de aprovação similar entre estes dois grupos. Novamente, o The Weather Channel desfruta de muita confiança entre eleitores da direita e da esquerda. Outros que não dividem muito Republicanos e Democratas são empresas de mídia menores, como o The Daily Caller (diferença de 12 pontos entre cada grupo), The Washington Examiner (11 pontos), The Federalist (10 pontos) e o Infowars (4 pontos).

Além disso, o que a pesquisa nos mostra é que mesmo entre os eleitores médios que não apresentaram uma preferência partidária, o grau de confiança nas empresas de mídia não é muito alto. Para os veículos tradicionais, o que pode explicar isso é a própria polarização e a fadiga em relação às polêmicas políticas que incomodam justamente aqueles que não são politizados (algo que foi apontado pela Reuters em relatório de 2022).

Mas política não explica tudo. No caso dos canais menores como os já citados acima, este baixo nível de confiança pode ser explicado pelo simples fato de não serem amplamente conhecidos ou não possuírem uma longa tradição jornalística (convenhamos, é difícil confiar naquilo que não conheço ou em um veículo que ainda não viveu tempo o suficiente para conquistar credibilidade).

 

Há algo de peculiar na direita

Um argumento caricato – e frequentemente utilizado – para explicar por que os Republicanos (e pessoas conservadoras em geral) não confiam nas empresas de mídia tradicionais é que elas têm sido fortemente impactadas por fake news, criando um eleitorado muitas vezes conspiracionista e avesso ao que publicamos.

Outra explicação que parece mais razoável (e também produtiva) é que a maior parte dos veículos presentes na pesquisa do YouGov tem conseguido falar a língua do eleitorado Democrata com muito mais sucesso do que a do eleitorado Republicano. Isso é algo presente no livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, em que os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin identificam como o eleitorado conservador (presente não apenas nos EUA) foi colocado à margem da discussão pública. Portanto, ao sentirem que o seu discurso e valores não são representados ou mesmo minimamente respeitados por diversas instituições (o jornalismo sendo uma delas), eles se revoltam contra toda esta classe falante. Parte deste argumento parece fazer sentido, embora não explique tudo aquilo que a pesquisa identificou.

Talvez o ponto mais curioso de se observar é que mesmo os veículos mais identificados com a direita não conseguiram uma pontuação de confiança equiparável ao que muitos veículos obtiveram perante o eleitorado Democrata. A Fox News, frequentemente associada ao que há de mais “direitista” por aí, obteve uma média de 41 pontos de confiança com os Republicanos. Embora seja um bom número, está abaixo da média de 50 ou mais pontos que NBC, Time, BBC e Washington Post – para citar apenas alguns – obtiveram entre Democratas.

Um dos casos mais interessantes de citar é o da revista National Review, que foi fundada em 1955 por William Buckley Jr., um dos mais influentes intelectuais e comentaristas políticos da direita de seu tempo. Ainda hoje a revista se propõe a publicar “comentários conservadores sobre as principais questões políticas e culturais, domésticas e globais”. Ainda assim, a National Review desfruta de um maior grau de confiança entre Democratas do que entre os próprios Republicanos (20 pontos contra 3). A margem é expressiva demais para ser ignorada. O que pode explicar este fenômeno?

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que há diversas divergências dentro do campo conservador. Nos EUA, em especial, é fácil notar este embate entre conservadores tradicionais, cujo pensamento continua sendo expresso pela revista National Review, e a corrente da direita que surgiu nos últimos anos e teve em Trump o seu principal expoente. Há uma profunda discordância entre os dois grupos, de forma que qualquer veículo que queira representar o conservadorismo terá uma grande dificuldade de ser a voz unânime deste grupo.

Um outro fator que talvez ajude a explicar este fenômeno, é que boa parte da direita tem apresentado, nos últimos anos, um comportamento mais personalista do que institucional. Isso significa que sua confiança tem estado mais presente em indivíduos específicos do que em órgãos públicos, um partido político, entidades sociais ou veículos da imprensa. Basta lembrar que quando foi eleito em 2016, Trump se apresentou como um outsider dentro de seu próprio partido. A sua briga não era apenas por uma agenda que ele considerava benéfica para o país, mas contra todo um establishment dominado ao longo de muitos anos por uma cultura progressista em ascensão. Pouco importa aqui discutir se ele estava certo ou não – há diversos argumentos que podem ser usados para refutar ou corroborar sua visão. O que importa é que esta característica – disseminada por Trump mas não criada por ele – se tornou a expressão de boa parte da direita ocidental. Tudo isto faz com que os veículos tenham dificuldade de conversar com os conservadores.

Ao todo, a maior parte da imprensa americana ressoa uma visão liberal de mundo – que embora não esteja associado à matriz tradicional da esquerda trabalhista, ecoa muito do pensamento progressista presente em todo o ocidente e rechaçado com diferentes níveis de intensidade pelas diversas correntes da direita atual.

 

E o que dizer de nós mesmos

Agora que já olhamos bastante para o perfil e comportamento conservador, vamos falar um pouco de nós mesmos. Uma pesquisa publicada em 2021 pela Universidade Federal de Santa Catarina mostrou que o perfil dos jornalistas está fortemente atrelado ao espectro ideológico da esquerda. Nada menos do que 52,8% dos participantes se identificaram como sendo de esquerda, enquanto outros 25,9% disseram ser de centro-esquerda e 2% de extrema-esquerda. Já a centro-direita respondeu por 2,5% dos entrevistados. Apenas 1,4% e 0,1%, por sua vez, disseram ser de direita e extrema-direita respectivamente.

É interessante perceber que o número de profissionais se autodefinindo como de extrema-esquerda quase equivale ao total dos que se dizem de centro-direita. Se somados todos os espectros de uma mesma ideologia (do mais radical ao mais moderado), 80% dos jornalistas podem ser considerados de esquerda, enquanto que apenas 4% se dizem de direita. Os 16% restantes se disseram de centro ou preferiram não informar seu posicionamento.

Um último dado curioso é que 10,3% dos jornalistas entrevistados são filiados a algum partido político. Destes partidos, o PT é o mais popular com 40,1% de todos os filiados, seguido do PSOL (17,6%), PCdoB (7,8%), PSB (3,4%) e PSDB (2,9%). Esta taxa impressiona ainda mais se comparado com os dados coletados na época pelo Tribunal Superior Eleitoral, que mostravam que 7,4% de toda a população era filiada a algum partido político. Ou seja, jornalistas possuem um engajamento partidário mais alto do que a própria população que não necessita de nenhum compromisso com a isenção como nós.

 

Com quem estamos falando

Embora a equiparação das pesquisas do YouGov e da UFSC seja complicado por estarem tratando de países diferentes, o fato é que a direita, no Brasil como nos EUA, tem apresentado um comportamento similar em relação às empresas de mídia.

Mas se há um profundo ceticismo em relação à maior parte dos veículos, o que temos a ver com isso? Afinal, seguimos rigorosos critérios éticos, temos sempre a objetividade em mente e publicamos matérias que passam por diversos filtros de checagem. Se alguém não gosta disso e continua achando que a imprensa não é digna de confiança, o problema não é nosso, certo?

Bom, em parte. Por um lado, quem quer que argumente que a imprensa não tem a função de agradar a ninguém está parcialmente correto. Boa parte da nossa relevância vem do fato de que devemos apurar e publicar o conteúdo doa a quem doer. Entretanto, há muito mais no jornalismo do que isso. Não é preciso ficar chovendo no molhado: todos sabemos que uma informação passa por recortes, que os deadlines frequentemente dificultam uma apuração mais criteriosa e que os repórteres são propensos a falhas assim como qualquer outro ser humano.

A reportagem, portanto, jamais será ideal. Ela será o possível em uma dada circunstância. Mas isso não significa que não podemos nos esforçar mais para nos comunicarmos com os outros. O mundo de hoje, mais plural e complexo do que nunca, mostra que não basta estar atento à informação que será publicada. É preciso também estar atento ao linguajar que será empregado na matéria e quem irá consumi-la.

Neste sentido os dados da pesquisa da UFSC são importantes. Jornalistas terem uma preferência ideológica não é um problema e não faz de ninguém um profissional precário por si só. Ainda assim, é necessário um cuidado com vieses inconscientes, que levam muitos a acharem que seus valores são universais e bens absolutos questionados apenas por elementos radicais e extremistas da sociedade (há sempre uma justificativa legítima para as pessoas terem as ideias e valores que tem. Ser jornalista implica, frequentemente, se colocar no lugar dos outros).

Portanto, mesmo que a reportagem seja feita com a melhor das intenções e seguindo uma boa apuração, ainda assim é possível que a forma como ela foi produzida contenha vieses que, de tão inconscientes, o próprio jornalista não será capaz de notar, mas que não passarão desapercebidos por quem estiver consumindo o conteúdo.

Mais do que nunca, o jornalismo de hoje em dia não é mais apenas uma comunicação de mão única. O público precisa, cada vez mais, ser atendido – e fazer com que ele não se revolte com o conteúdo já é um grande passo para construir uma relação de confiança. Isso significa sempre publicar o que a audiência quer ouvir? Não, mas demonstrar que entendemos e respeitamos a sua visão de mundo, que somos capazes de tê-la em conta ao tratar de temas espinhosos e legitimamente debatíveis pode ser um bom caminho – em especial se quisermos nos conectar com partes da audiência que se sentem incompreendidas e que atualmente estão fora do nosso alcance.

Navegar pela internet realmente oferece grandes momentos de reflexão. Percebi isso outro dia quando procurava fotos em um destes muitos bancos de imagens que existem por aí. Na ocasião, precisava de uma que representasse o jornalismo, e embora houvesse uma porção de belas fotografias e ilustrações, o que mais chamou a atenção foram as imagens de itens como um megafone ou de uma pessoa gritando como se fosse ativista de uma causa qualquer. Engraçado que na busca por jornalismo tenham surgido tantas figuras que significam o oposto da nossa profissão – ou ao menos o oposto daquilo que deveria ser o seu pilar: a isenção, a objetividade, a imparcialidade.

Não vou negar: minha vontade de estudar jornalismo sempre foi ancorada no desejo de causar um impacto na sociedade. Acredito que eu não seja uma exceção entre tantos outros que entraram nesta área. Mas é preciso cuidado para que esta poderosa motivação não acabe nos desviando dos critérios que distinguem o jornalismo de outros tipos de manifestações públicas sobre eventos correntes.

Todas estas questões vêm na toada de um artigo do Professor Carlos Alberto Di Franco sobre o tema. Segundo ele, é preciso “lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos”. Assim, segundo ele, “É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital”.

Para mim, o apontamento mais arrebatador do artigo é de que a audiência ficará conosco apenas “se soubermos apresentar um produto de qualidade”.

Esta conclusão pode parecer óbvia, mas está longe disso. A PL das Fake News, que voltou ao noticiário em função dos recentes debates ocorridos em Brasília, é prova disso. Para além do projeto em si que muda a cada dia – e certamente terá sofrido novas alterações assim que este artigo for ao ar –, o que chama a atenção é o posicionamento corporativo de muitas empresas de mídia e associações do setor.

A ideia que parece guiar muitos dos nossos colegas é a de que a lei beneficia o jornalismo profissional e, mais importante do que isso, as notícias corretas e precisas que publicamos. Como consequência direta, o maior vencedor é a sociedade, que se fortalece ao ser nutrida com informações verdadeiras e bem apuradas.

Essa visão, entretanto, é demasiadamente simplista. Pouca coisa prova isso tão bem quanto a pandemia da Covid-19. Assim que começou a se espalhar pelo mundo e chamar a atenção do noticiário, por exemplo, muitas das empresas do setor foram rápidas em rechaçar a hipótese de o vírus ter surgido em um laboratório chinês – algo por vezes associado a algum tipo de teoria da conspiração.

Algo parecido aconteceu com as próprias vacinas, cujas alegações de causarem problemas como arritmia cardíaca eram frequentemente tratadas como negacionismo. Mesmo as máscaras, consideradas fundamentais para conter a disseminação do vírus eventualmente se mostraram duvidosas. Em todos estes casos, muitas empresas de mídia optaram por ouvir fontes oficiais, tratando-as como detentoras da verdade absoluta e suprimindo qualquer tentativa de questionamento.

Isso certamente não deve levar ao extremo de que a imprensa não é uma fonte confiável de informação. Ao contrário, tais apontamentos servem apenas para nos lembrarmos de que não somos uma fonte de informações corretas e precisas apenas pelo fato de existirmos.

É certo que o jornalismo possui sua ética própria, critérios de noticiabilidade que nos ajudam a definir as pautas mais pertinentes, exigências de apuração para garantir a qualidade do conteúdo publicado – elementos que contribuem para a profissionalização do nosso setor e do trabalho que realizamos. Mas para que todos estes elementos contribuam realmente para o bom jornalismo, é fundamental termos a noção clara de que o simples status de “jornalista” não garante a qualidade do conteúdo produzido. O contrário é mais verdadeiro: é a noção de nossa própria falibilidade e de nossas limitações que tendem a nos deixar sempre vigilantes para os erros e exageros que podemos cometer.


A retomada do protagonismo

Muita da nossa discussão sobre fake news se dá em função da desintermediação causada pelas mídias sociais – e como elas abriram espaço para que qualquer um pudesse escrever e falar aquilo que pensa, tirando dos jornais o protagonismo que sempre tiveram e abrindo a caixa de pandora para que todo tipo de mentira e desinformação saísse.

Mas mentiras e manipulações dos fatos sempre existiram. O que mudou é o alcance que elas podem ter nos dias de hoje e a perda da centralidade dos jornais como fontes confiáveis de informação. Contra dois destes elementos nós não podemos realmente lutar. Nenhum projeto de lei será capaz de suprimir e aniquilar informações consideradas falsas por qualquer órgão de Estado. O alcance do conteúdo não controlado e não produzido por nós, jornalistas, também não pode ser revertido a não ser que revertamos o próprio avanço tecnológico (o que parece improvável). A única coisa que realmente podemos fazer, portanto, é reconquistar o protagonismo que um dia tivemos – algo que não pode ser feito pelas vias da força.

Para isso, é fundamental entendermos que muitos embates presentes não se dão dentro do campo da verdade e da mentira, e sim no campo das interpretações sobre aquilo que é bom e aquilo que é ruim dentro do contexto atual. Isso faz com que o termo fake news seja frequentemente usado não para apontar erros objetivos nas informações presentes, mas para fazer um julgamento de valor sobre as posturas ideológicas de certos grupos sociais. E convenhamos, quando falamos em fake news estamos pensando em um grupo político específico, aquele de viés conservador que surgiu nos últimos anos e cujo posicionamento desagrada profundamente a maior parte do nosso setor.

Quando lançaram o livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin fizeram uma análise profunda, repleta de dados, mostrando alguns dos motivos que explicam a ascensão disso que nos acostumamos a chamar de direita conservadora e que teve expressões nacionais e internacionais com figuras como Bolsonaro, Trump, Le Pen. Confesso que não sei qual é o posicionamento pessoal dos dois autores sobre estes políticos e o movimento que eles representam. Mas também, pouco importa se são contra ou a favor. O que é realmente relevante é que eles conseguiram chegar a conclusões interessantes sobre os motivos por trás do surgimento destes movimentos ideológicos – conclusões que vão muito além daquela lista de palavras rasas que a então candidata à presidência dos EUA Hilary Clinton usou para descrever metade dos apoiadores de Trump: “racistas, sexistas, homofóbicos, xenofóbicos, islamofóbicos”.

Termos como estes simplificam movimentos sociais complexos. A própria Clinton, por exemplo, foi derrotada por Trump em 209 distritos americanos que haviam votado em Obama nas duas vezes em que ele concorreu ao cargo. Igualmente, Trump obteve o voto de um terço dos eleitores “latinos” do país, assim como o Brexit obteve mais ou menos a mesma quantidade de votos de grupos etnicamente minoritários da Inglaterra. Estes dados fazem parte da pesquisa de Eatwell e Goodwin e mostram como a palavra racismo e xenofobia não dão conta de explicar a ascensão da direita atual – na verdade, é possível que causem mais confusão do que esclarecimento.

Os dois autores até concordam que “alguns nacionais populistas enveredam no racismo e na xenofobia”, mas isso não deveria, segundo eles, “nos distrair do fato de que eles também tocam em ansiedades públicas abrangentes e legítimas”. Como bem explicam, estes eleitores questionam, por exemplo, “o modo em que as elites (culturais, políticas e mesmo econômicas) se tornaram cada vez mais isoladas das vidas e preocupações das pessoas comuns”. Estas pessoas também questionam “a erosão do Estado-Nação, que é visto como a única construção que foi capaz de organizar nossas vidas políticas e sociais”. Talvez mais significativo ainda, “elas questionam a capacidade das sociedades ocidentais de rapidamente absorver taxas de imigração (…) que não tem precedente na história da civilização moderna”, assim como questionam que tipo de sociedade estas e outras mudanças sociais levantadas por outros movimentos políticos criarão.

E ainda assim, pouco espaço houve na mídia para uma discussão aprofundada e uma tentativa genuína de entender as motivações por trás das preferências políticas desta parcela do eleitorado (o que não significa concordar com elas). Em 2017, por exemplo, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial francesa que terminou com a vitória de Emmanuel Macron, a revista Vanity Fair publicou o artigo “Marine Le Pen pode tornar o fascismo mainstream?”. Que haja diversos motivos legítimos para se criticar as posturas e políticas públicas defendidas pela então candidata é uma coisa, mas banalizar um termo tão complexo de uma ideologia que devastou a Europa em um momento específico da história é algo completamente diferente. Não há dúvidas de que tal conteúdo ofendeu uma parte considerável da população que tinha seus motivos legítimos para votar em Le Pen.

E aqui vai o ponto final sobre esta reflexão: a despeito das possíveis e eventuais fake news, da ampliação da capacidade de ler e publicar qualquer coisa no ambiente digital e dos excessos nos diferentes posicionamentos políticos que se encontram por aí, o fato é que a postura da sociedade – ou parte dela – em relação às empresas de mídia tem muito mais a ver com os nossos posicionamentos editoriais do que com estes e outros fatores externos.

É verdade que uma PL sobre o assunto pode até tornar o ambiente digital mais salutar, embora os custos disso devam ser seriamente questionados. Mas mesmo que isso aconteça, nada indica que o público voltará a confiar plenamente em nosso trabalho. Portanto, se quisermos reconquistar o protagonismo que já tivemos, precisamos que a população volte a ver relevância em gastar o seu tempo lendo aquilo que publicamos. Nada disso será possível se antes não conseguirmos demonstrar que entendemos o que o nosso público realmente pensa sobre os assuntos que cobrimos diariamente.

Minha mais recente coluna neste espaço opinativo teve um título bem estudado: “Jornalismo – a hora de recuperar o encanto”.  É disso que se trata. O jornalismo precisa recuperar a confiança dos consumidores. O texto repercutiu entre leitores e colegas. Recebi muitas mensagens. Isso mostra uma sadia inquietação. Um movimento de autocrítica e renovação.

Hoje, provocado por um excelente artigo de Martin Baron, ex-editor-executivo do Washington Post publicado no caderno “Ilustríssima” da Folha de S.Paulo no dia 15 de abril, volto ao tema. O texto é magnífico. E está ancorado no prestígio de um dos grandes nomes do jornalismo norte-americano.

Num momento de crise da mídia, Baron, na contramão de boa parte dos seus colegas, empunha o valor da objetividade como arma poderosa em defesa do jornalismo de qualidade.

“A maior parte do público, me arrisco a dizer, espera que os jornalistas sejam objetivos. Ignorar suas expectativas ou desafiá-las diretamente é um ato de arrogância. Demonstra leniência com nossos vieses, os consagra e, o que é mais grave, trai a causa da verdade”. O diagnóstico de Baron é certeiro: um dos elementos centrais da crise dos veículos está no questionamento e na corrosão cotidiana da objetividade.

Baron defende que devemos iniciar nossas pesquisas “com a cabeça aberta e então trabalhar da maneira mais conscienciosa possível. Isso requer uma disposição de ouvir, uma ânsia de aprender e uma consciência de que há muito que precisamos saber.” (…) “Não começamos já com as respostas prontas. Saímos em busca delas, primeiro com o desafio já grande de articular as perguntas certas e finalmente com a tarefa árdua de verificação.”

Queremos juízes e médicos objetivos; por que não jornalistas? A pergunta de Baron está gritando em muitas críticas sinceras ao nosso trabalho. A busca da objetividade, nem sempre fácil ou tranquila, é uma meta a ser perseguida. Todos os dias.

O importante é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos. Precisamos lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos.

O bom repórter ilumina a cena, o jornalista manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, nem sempre é clara. Escapa, frequentemente, à perspicácia do leitor médio. Tem aparência de informação, mas não é. Daí a gravidade do dolo. Na verdade, a batalha da isenção, forte demanda da sociedade atual, enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência atrevida. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos próprios de certa delinquência editorial transformam um princípio ético irretocável numa grande farsa.

A apuração de faz-de-conta representa uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade. É um artifício que transmite um simulacro de objetividade, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade factual culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a reportagem. Cria-se a versão. Uma das grandes crises de nossa profissão é a perda da primazia do trabalho de reportagem.

A imprensa tem caído nessa armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando sua credibilidade. Ainda não conseguimos superar a síndrome dos rótulos. Alguns colegas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A reportagem é, ou deveria ser, sempre substantiva. O adjetivo é o enfeite da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.

É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital. Ficará conosco se soubermos apresentar um produto de qualidade.

A reportagem precisa ser recuperada. Deve ser trazida para posição central da produção jornalística. Basta de narrativas. Basta de militância ideológica, romântica ou não. Basta de contrabando opinativo na informação.

O público busca formar uma convicção equilibrada, corajosa e firme nos espaços de opinião e nos editoriais. Mas quer informação objetiva no conteúdo jornalístico.

Não devemos sucumbir à tentação do protagonismo. Nosso ofício, humilde e grandioso, é o de iluminar a história.

Numa cidadezinha sem nome, um dia aparece uma menina chamada Momo. A garota, órfã e carente de um lugar para se abrigar, acaba sendo acolhida pelas pessoas locais, que levam roupas para aquecê-la e comida com a qual possa se alimentar. Um anfiteatro abandonado acaba tornando sua moradia e, também, o local onde as pessoas vão visitá-la.

Nesta fantasia do alemão Michael Ende, a menina Momo acaba se tornando um ponto de encontro para a pequena comunidade local que recorre a ela para ouvir seus problemas, mas também uma adversária para os homens cinzentos – criaturas estranhas de pele acinzentada que representam o banco do tempo. São estes homens que prometem economizar o tempo das pessoas para que elas possam usá-lo futuramente com os devidos juros. É claro que, na obra, este tempo nunca é devolvido, e quanto mais tempo os cidadãos locais economizam, menos tempo têm para atividades consideradas não essenciais.

Obras infantojuvenis, sejam livros ou filmes, tendem a falar de temas complexos no linguajar próprio das crianças. Com Momo não é diferente, e o paralelo com uma sociedade que vive em senso de urgência é clara – e para nós, jornalistas, bastante útil. Afinal, se tudo é correria, podemos realmente esperar que o nosso trabalho seja devidamente acompanhado pelas pessoas? A verdade é que, independentemente da importância do serviço que prestamos, a boa leitura costuma ficar espremida entre o tempo do trabalho e o tempo do lazer. Como fazer para escapar dessa dura circunstância com um conteúdo que seja ativamente procurado pelo público, e não lido acidentalmente como acontece com tanta frequência?

O modelo pelo qual O Antagonista ficou tão conhecido é sempre uma opção. Aos moldes do Twitter, a ideia é publicar muitas matérias de forma extremamente enxuta, permitindo que nos encaixemos mais facilmente na rotina apertada das pessoas. Jornalisticamente falando, entretanto, há um problema. Toda matéria, por mais aprofundada que seja, oferece sempre um recorte da realidade. Quanto mais estreito for este recorte, menor será a capacidade da matéria de oferecer um retrato fiel e contextualizado do assunto em questão. Ademais, fica a dúvida sobre a capacidade deste modelo de engajar os leitores por muito tempo sem ficar constantemente publicando notícias quentes e polêmicas.

Para conseguir atingir os leitores com tempo cada vez mais escasso para a leitura, entretanto, a redução do tamanho das publicações não é a única solução. Ao contrário, há uma outra possibilidade ainda timidamente testada no Brasil em que o veículo aposta em artigos longos, detalhados e muito bem apurados. É certo que se o leitor já não dedica tanto tempo à leitura das publicações tradicionais, menor ainda será sua disposição para um conteúdo consideravelmente mais extenso. Para que este modelo editorial funcione, portanto, é preciso haver uma outra mudança cultural no jornalismo que envolve a quantidade de matérias publicadas diariamente.

Quem faz isso de maneira radical é o The Ken – publicação indiana que cobre notícias sobre negócios da Índia e do sudeste asiático. O diferencial mais chocante para nós é que, além do compromisso de ofertar matérias extensas e visualmente ricas, o veículo publica apenas um artigo por dia. Embora a quantidade de conteúdo seja pequena, a qualidade justifica a assinatura básica de 120 dólares por ano (algo próximo de R$ 50,00 por mês segundo a cotação atual da moeda). O preço é salgado perto do que nos dispomos a cobrar, e a publicação já contava com 30 mil assinantes em 2021.

Com isso, é verdade, o veículo abre mão de abordar inúmeras outras pautas relevantes do cotidiano que costumam ser publicadas por jornais tradicionais. Mas a questão é: o leitor consegue dar conta do tsunami informativo atual? Acredito que nem mesmo nós, jornalistas, conseguimos dedicar tempo de nossa rotina corrida para ler mais do que três ou quatro matérias. Não temos tempo para isso – o que dirá o leitor, que não vive da informação. Neste sentido, o The Ken oferece algo interessante: uma gama sucinta de conteúdo bem produzido para um leitor com pouco tempo à disposição para se dedicar a tudo aquilo que os jornais tradicionais publicam diariamente.

Este modelo possui uma dupla vantagem: da nossa parte, permite que os jornalistas, menos sobrecarregados com a obrigação de publicar muito, possam se dedicar a publicar melhor. Menos tempo empregado na publicação de vários artigos significa que mais tempo pode ser gasto na apuração de uma só matéria. Do lado do leitor, existe a vantagem de não precisar selecionar aquilo que há de mais importante para ler em um oceano de conteúdo oficial e não oficial. Tal tarefa é cansativa e, frequentemente, frustrante, pois gera a sensação de que não estamos conseguindo acompanhar o ritmo dos acontecimentos. Uma consequência habitual é a simples desistência de acompanhar o noticiário para ter em troca um certo nível de conforto e alívio emocional.

Além do escasso tempo que já temos para dedicar à leitura de artigos, o fato é que nosso dia a dia é marcado por incontáveis escolhas de maior e menor importância que temos de fazer. Tudo isso conta para um cotidiano desgastante onde a leitura jornalística acaba se tornando uma tarefa cansativa. Não é de surpreender que muitos se afastem do noticiário: ter que escolher o que ler dentre as incontáveis matérias que publicamos e entre os inúmeros veículos brasileiros existentes em uma rotina exaustiva, se torna simplesmente um esforço que para muitos não é recompensador. Por que não facilitar a vida do leitor? Por que não lhe oferecer uma gama menor, embora melhor, de conteúdo diário?

Realisticamente falando, devemos admitir que uma mudança radical para o modelo editorial e de negócios da publicação indiana seria extremamente complicado para os veículos brasileiros já estabelecidos. Uma matéria por dia, afinal, significaria abrir mão da receita publicitária tradicional – e dificilmente uma empresa de mídia teria fôlego financeiro o suficiente para bancar tão drástica mudança. Igualmente, a aposta em tal modelo editorial exigiria também uma atuação de nicho, o que também foge do padrão jornalístico com o qual estamos familiarizados. Infelizmente, a margem de manobra para novas iniciativas editoriais e financeiras é baixa. Mas, também, ninguém precisa girar 180º para começar um processo de mudança. Por essas e outras, mais do que um modelo definitivo, o The Ken oferece uma inspiração.

A máxima de que o cliente tem sempre razão é certamente questionável, mas que suas necessidades devem ser sempre altamente consideradas é um pressuposto que não devemos perder de vista. O caos informativo, por si só, já afasta incontáveis pessoas do jornalismo. Este fator, aliado à rotina conturbada que todos temos, produz um cenário ainda mais complicado para as empresas de mídia. Não podendo vencer os homens cinzentos com a ajuda de criaturas místicas, resta a nós adequar o conteúdo que vendemos a este cenário em que o tempo é um recurso cada vez mais escasso na rotina das pessoas.

Desde que o primeiro turno das eleições presidenciais foi concluído, os erros dos institutos de pesquisa se tornaram assunto de amplo debate. Mesmo agora, que o pleito de 2022 terminou, o tema dificilmente se esvairá tão cedo – e não sem razão. Tanto ao cargo de presidente, quanto nas disputas pelos governos estaduais e vagas ao Senado, a verdade é que a maior parte dos institutos erraram drasticamente. Não é de hoje que eleitores buscam dar um voto útil e estratégico a um ou outro candidato – favorecendo-o não por uma preferência em si, mas por uma rejeição maior ao seu opositor. Neste sentido, pesquisas eleitorais sempre interferem na realidade. No caso mais recente, no entanto, esta interferência é ainda mais grave, uma vez que as eleições não foram influenciadas por uma leitura correta da realidade, e sim distorcidas em função dos erros graves cometidos pelos institutos de pesquisa.

Entender como determinadas ações impactam no mundo real é uma discussão fundamental para jornalistas, e há quem diga que a missão de ser imparcial existe justamente para que os profissionais da área apenas reportem os acontecimentos e influenciem o mínimo possível na realidade.

Entretanto, o fato é que não há um consenso sobre a função do jornalismo. Para alguns, este mercado existe para prover a população com informações relevantes, mas também para investigar temas de interesse público. De um outro lado mais filosófico, argumenta-se que o jornalismo exerce a função de situar as pessoas na realidade. Essa é a hipótese lançada por Robert Park, para quem “a função da notícia é orientar o homem e a sociedade em um mundo real”.

Em concreto, isso significa que nossa realidade é limitada a um âmbito curto, protagonizado por familiares e amigos, localizado em ambientes como trabalho, a escola, a faculdade… Desta forma, sem a existência das notícias, dificilmente daríamos conta do que acontece fora do nosso círculo de convívio cotidiano. O noticiário, assim, nos joga em outras realidades, que frequentemente envolve aquilo que é inusitado tanto negativamente quanto positivamente.

Uma das conclusões é que publicar aquilo que foge da normalidade é, por assim dizer, o normal do jornalismo. Não falamos que o fulano foi trabalhar normalmente na segunda-feira de manhã, mas podemos publicar que, a caminho do trabalho, o ciclano sofreu um determinado acidente ou foi vítima de violência. Este é um comportamento padrão da profissão, e faz sentido. O problema é quando tratamos de alguns fatos atípicos com tanta regularidade que o excepcional passa a ser interpretado como algo corriqueiro.

Exemplo: se os jornais reportam exaustivamente casos de violência à mão armada – como sequestros e homicídios -, boa parte dos leitores pode começar a superdimensionar, com o tempo, a própria existência e o uso das armas de fogo na sociedade. Este exemplo é mais presente nos Estados Unidos, onde armamentos são comercializados com mais facilidade e o debate público sobre o uso delas é corriqueiro. Em termos de percepção, a consequência é que o público acredita que o número de americanos que possuem uma arma de fogo é muito maior que na realidade. Este fenômeno foi observado pelo instituto de pesquisa YouGov. Segundo ele, 32% da população possui uma arma de fogo, mas o público, quando questionado sobre o assunto, respondeu em média que 54% dos americanos possuem uma.

Ou seja, o que o YouGov percebeu é que existe um abismo entre a percepção que os americanos têm da realidade e a realidade em si. O caso das armas de fogo é apenas um dos objetos apresentados pela pesquisa, mas há ainda muitos outros grupos da sociedade que são superdimensionados ou subestimados pela população. Pessoas filiadas a sindicatos, por exemplo, compõem 4% da população, enquanto as pessoas entrevistadas pela pesquisa estimaram, em média, que o número real é de 36%.

Esta discrepância também é perceptível em relação a grupos étnicos e identitários. Na opinião daqueles que participaram da pesquisa, 41% da população é negra e 39% têm origem hispânica. Os números reais, entretanto, são de 12% e 17% respectivamente. Os entrevistados também estimaram que transexuais respondem por 21% da população, enquanto muçulmanos e indígenas correspondem, individualmente, a 27% da sociedade. A realidade é que cada um deles equivale a apenas 1% da população. Gays e lésbicas, por sua vez, constituem 3% do país, mas os americanos acreditam que são 30%. Já ateus respondem por 3% da sociedade – número muito inferior aos 33% que os americanos acreditam existir.

Da mesma forma como existe uma super-representação em relação a tais grupos, o contrário acontece com outras parcelas da sociedade. Setenta por cento da população se declara cristã, por exemplo, enquanto os americanos acreditam que o número correto é 58%. Há outros dados em relação à renda, escolaridade e hábitos gerais que revelam uma grande discrepância entre o que os americanos enxergam como a realidade social do país e como ela é de fato.

É importante dizer que estes dados dizem respeito aos EUA apenas e que, em momento algum, o YouGov aponta o jornalismo como responsável pela desconexão entre realidade e percepção da realidade. Na verdade, muitos fatores podem explicar este fenômeno, incluindo a própria política, que também acaba por pautar a discussão pública através dos temas que traz para debate. Portanto, a regularidade com que determinados assuntos são abordados influencia na percepção que temos do mundo ao nosso redor. É justamente neste sentido que o jornalismo também pode estar contribuindo para o agravamento do fenômeno.

 

Moldando a realidade com fatos e como isto influencia o leitor

Nos últimos anos, poucos temas foram mais discutidos pelos jornais do que as fake news. O quase consenso que se formou entre profissionais da área é que notícias enganosas ou simplesmente falsas têm de ser combatidas – embora a forma de combatê-las ainda seja discutida. Entretanto, mesmo que informações propositalmente falsas sejam um problema evidente, é preciso reconhecer que há mais de uma forma de gerar uma percepção distorcida da realidade. Neste sentido, até fatos podem se tornar enganosos quando não são tratados na devida proporção ou sem o contexto necessário.

Inúmeros fatos noticiosos ocorrem todos os dias, e cabe aos jornalistas decidir quais deles realmente serão veiculados. Aquilo que resolvemos destacar, desta forma, se torna a realidade visível, o que é muito diferente da realidade em si ou em sua totalidade. Isso ocorre e influencia a percepção que o público tem do seu ambiente de convívio mesmo que o jornalista dê destaque a determinados acontecimentos sem um alto grau de enviesamento ideológico. Quem controla a linguagem e aquilo que é dito é capaz de moldar não apenas a opinião pública, mas talvez ainda mais fundamental, a percepção que temos do mundo a nossa volta.

Se assumirmos que os dados americanos sobre realidade e percepção de realidade podem se estender a outros países, então fica muito claro que a sociedade – ou parte dela – não está sendo adequadamente informada.

O desengajamento do público com as empresas de mídia tradicionais já é uma dura realidade. Portanto, para além de ser um dever ético da profissão buscar sempre um alto grau de isenção e um compromisso total com a verdade, a própria moderação na escolha de pautas e abordagem das matérias é, também, uma questão de sobrevivência dos jornais tal qual os conhecemos. É verdade que a perda de receitas provenientes da publicidade foi um duro golpe para as empresas. Outros modelos de negócios, no entanto, existem – mas só podem ser implementados com sucesso se os leitores continuarem engajados com os veículos. Para que isso aconteça, é necessário produzir um conteúdo que dialogue com os valores, ideias e necessidades da população. Igualmente, é preciso que as pessoas consigam relacionar as informações publicadas com a realidade na qual estão inseridas. Caso contrário, corremos um sério risco de perder relevância ao falar de temas e assuntos com os quais poucos conseguem se identificar, além de permitir que a tendência de migração da audiência para outras fontes de informação continue em crescimento.

O noticiário local que foi ao ar na noite da última terça-feira, 19, em São Paulo, revelou o quanto nos falta  aprender para fazer jornalismo. Em uma emissora, o apresentador anunciou: “Homem atira em assaltantes no Bom Retiro e não é indiciado por porte ilegal de arma nem por matar um dos ladrões“. Minutos depois, no outro canal, a manchete era: “Clientes e funcionários de restaurante no Bom Retiro são feitos reféns. Sequestadores foram baleados por vizinho.” Fiquei apenas nestes dois telejornais e a diferença no enquadramento de cada emissora me chocou mais do que a barbárie da acontecimento em si.

Há vários fatos no ocorrido. Há uma tentativa de roubo. Há bandidos armados. Há reféns na mira de pistolas. Há um vizinho do restaurante, também armado. Há dois homens baleados. E há uma obsessão ideológica acintosa norteando o trabalho em certas redações.

Pela ótica dos colegas, o sequestro parece ter sido apenas evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um cidadão, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

O programa onde ouvi a primeira chamada dedicou nada menos que seis minutos para declarar sua revolta com o cidadão que portava uma arma em local não autorizado e que atirou contra os criminosos. Ao exibir um vídeo cedido pela Polícia Militar, o repórter narra que o morador “caminha em direção aos sequestradores, é rendido por um deles e reage descarregando a arma em dois assaltantes“. Mas isso foi apenas um detalhe, na visão dos colegas. A tônica da reportagem, do começo ao fim, foi denunciar a impunidade sobre o porte de arma por uma pessoa que não suportou assistir passivamente seus vizinhos sendo torturados. Está claro que a reação colocou em risco a vida dos reféns e isso precisa ser mencionado no relato editorial. Porém, o sequestro virou paisagem. Pela ótica destes colegas, o crime parece ter sido apenas um evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um homem, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

A indignação do repórter com as autoridades que liberaram o autor dos disparos transbordava em trechos do boletim de ocorrência lidos no texto do off, em uma tentativa furiosa de legitimar sua ira contra aquele “assassino de sequestradores”. Uma das frases lidas no documento dizia que o atirador – exposto e nomeado pela reportagem – teria “recorrido ao chamado excludente de licitude“. Na certeza de que todos os espectadores de seu telejornal, transmitido pela TV aberta, entenderiam indubitavelmente a expressão “recorrido ao chamado excludente de licitude“, o repórter provou que estava engajado demais para lembrar que uma de suas funções vitais é traduzir à população, em linguagem simples e acessível, a informação que lhes foi dada por especialistas.

Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados?

Após assistir à reportagem, me peguei em um diálogo interno de ordem jornalística mas, mais do que isso, foi uma reflexão a respeito de civilidade e de humanidade. Desde quando um sequestro de trabalhadores inocentes tem menos valor notícia do que o fato de dois de seus autores terem sido baleados ao renderem um indivíduo com arma de fogo? Desde quanto telejornais criticam e questionam a decisão da Polícia em não deter alguém que sequer foi investigado? Quando foi que normalizamos a invasão e o roubo à propriedade privada? Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados? Desde quando o jornalismo milita pelo desarmamento da população? Desde quando jornalismo milita?

O que rotulamos como “absurdo”?

O caso acima ilustra o resultado de uma pesquisa publicada neste mês pelo Pew Research Center, com jornalistas norte-americanos de várias idades e cargos, atuantes em veículos. Mais da metade dos participantes (55%) admitiram que nem sempre os dois lados de uma pauta merecem receber a mesma cobertura. Isso é o mesmo que se posicionar, declarar apoio ou repúdio a algum aspecto da realidade e oferecer um conteúdo à sociedade como se fosse uma visão equilibrada dos fatos, como se fosse verdade em si.

Como jornalistas, sabemos que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Nos últimos anos houve uma multiplicação de veículos posicionados em vários pontos do espectro ideológico e político. No entanto, estes costumam firmar um pacto explícito com o leitor, que é ciente dos valores defendidos por aquele produto. Expôr a população à militância disfarçada de jornalismo é uma ofensa à sociedade. Justamente no momento em que o Brasil ocupa a primeira posição  no ranking de países onde mais se evita deliberadamente o consumo de notícias, há empresas de mídia que reagem dando ainda mais razões para as pessoas fugirem do noticiário.

Como jornalistas, nós mesmos sabemos que a linha divisória entre os gêneros informativo e opinativo é tênue e nem sempre fica clara às audiências. Nós também sabemos o quanto é difícil ser imparcial e que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, o esforço de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes.

Ao situarmos certos “lados” de uma discussão no universo do imponderável estamos, conscientemente, utilizando a atividade jornalística para difundir uma ideia ao invés de uma informação, para conduzir um pensamento ao invés de melhorar o estar-no-mundo da população, para alcançar interesses particulares que convergem, em última análise, na busca por poder. Nada mais antiprofissional, nada mais egoísta, nada mais desrespeitoso com quem ainda consome notícias na intenção pura de se manter informado.

O esforço para manter o profissionalismo nunca se fez tão urgente. Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, a tentativa de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes. Em qualquer profissão há procedimentos a serem seguidos, há convenções que precisam ser respeitadas. Por que haveria de ser diferente conosco? Por que seria aceitável transformar nosso trabalho num ato de interesse próprio? Há lugares socialmente legítimos para defendermos nossos ideiais: há grupos de estudo, há partidos políticos, há protestos pacíficos, há ONGs, centros comunitários, assembleias legislativas e mesmo o Congresso Nacional. Estes, sim, são espaços de ativismo; não o jornal, não o noticiário da TV aberta, não de forma sorrateira, fazendo de conta que é jornalismo.

Como podemos ajudar?

Procurar um novo modelo de negócio que sustente veículos no longo prazo é fundamental. Publicar conteúdos em formatos alternativos é necessário. Dialogar com o público, então, é urgente. Mas enquanto reproduzirmos a polarização do debate no fruto de nossos trabalhos, dificilmente voltaremos a ser percebidos como profissionais relevantes na vida de alguém.

Pense comigo: a lei da escassez rege relações de interesse de toda ordem, não apenas em transações comerciais. Existe uma oferta exagerada de informação, sobretudo instigando a polarização social. Entre discussões em redes sociais, estudos acadêmicos, fake news e mesmo em relatos opinativos válidos, qualquer ponto de debate está bem suprido de defesa. Não precisamos – nem devemos – ser mais um agente desta ou daquela bandeira. Isso equivale a dissolver o jornalismo num mar de subjetividades que não apenas nos descaracteriza, mas nos vulgariza. Seremos apenas mais um na multidão.

O que há em escassez na sociedade, hoje? Isto é, onde e como podemos fazer a diferença na vida das pessoas?

O American Press Institute (API) se lançou ao desafio de entender o que está escapando do olhar das redações e, não por acaso, a descoberta diz respeito à melhoria do convívio social. O fornecimento de informações sólidas e a abertura de espaços propícios ao diálogo foram apontados como formas de o jornalismo contribuir, com relevância, com a sociedade. Às vezes isso passa pela conscientização de que, mesmo sem querer, estamos agindo como apoiadores de causas, como críticos deste ou daquele político, ou que vemos como “realidade” aquilo que não passa de um recorte da nossa compreensão. Repito: isso pode ser inconsciente. E espero que o seja! Assim, temos alguma chance de recuperar a relevância do que fazemos na rotina das comunidades.

Podemos ajudar a traçar, através do jornalismo honesto, o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, do respeito mútuo e da integridade do ser humano.

Kevin Loker, diretor de pesquisa do API, considera essencial repensar o papel do jornalismo na vida das pessoas. “Se não mostrarmos uma abertura para a autorreflexão e mudança quando as críticas forem justas, nosso trabalho pode ser descartado como um empreendimento partidário ou monocultural. E quando isso acontece, perdemos o público.”

O vácuo deixado pelo público nos relatórios de audiência não prejudica apenas o desempenho financeiro das empresas de mídia. Não coloca em risco apenas nossos empregos. Ele gera um outro vácuo, dessa vez, na engrenagem social. Sem fontes confiáveis de informação, dignas do respeito da população e de legitimidade editorial, abre-se uma lacuna de civilidade, pronta para ser preenchida pelo caos, pela intolerância e pela selvageria humana.

Em 2016, ao perceber que a política fraturava relações humanas, um grupo de jornalistas norte-americanas criou o projeto Spaceship Media, com o objetivo de auxiliar cidadãos com opiniões opostas a dialogarem outra vez. As jornalistas atuam em parceria com veículos locais na identificação de temas antagônicos em uma determinada comunidade: da instalação de uma indústria a políticas migratórias, do armamento da população ao preconceito racial. Uma vez que são mapeados simpatizantes de diferentes “lados” da polêmica, o Spaceship Media pesquisa e fornece estudos, notícias, relatórios sobre o caso para preparar os participantes para um encontro presencial.

Com a moderação de jornalistas, os grupos antagônicos se reúnem em espaços comunitários – escolas, igrejas, bibliotecas públicas – e seguem um roteiro de quatro perguntas feitas mutuamente:

  1. O que você acha que o outro grupo pensa sobre você?
  2. O que você pensa sobre o outro grupo?
  3. O que você deseja que o grupo oposto saiba sobre você?
  4. O que você deseja saber sobre o outro grupo?

Com criatividade e fazendo um jornalismo honesto, podemos ajudar a traçar o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, da capacidade de escuta, do respeito mútuo e da integridade do ser humano. E podemos começar já, servindo como exemplo.

O cenário do consumo informação preocupa. E muito. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Vamos lá: 54% das pessoas evitam ativamente o noticiário no Brasil. Quase metade daqueles que dizem fugir das notícias no mundo e também aqui alega que está esgotada do noticiário de política e sobre Covid-19. Outra razão apontada pelo público é o impacto emocional negativo que as notícias causam. Só baixo astral.

Os dados estão no artigo da professora Ana Brambilla que disseca o último relatório global sobre jornalismo digital do Reuters Institute. Vale a pena uma leitura atenta. Suscita preocupação, mas também pode abrir uma avenida de oportunidades. Chegou a hora da reinvenção.

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização.

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais do que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação da corrupção. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa? Com seriedade e profundidade e não como consequência do jogo político. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais do que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.

Toda a vez que surge um novo veículo de jornalismo, dois fenômenos acompanham o lançamento:

  • a promessa de que este veículo vai revolucionar o mercado de mídia;
  • a sensação de que isso não passa de mais um embuste.

Com a recém-lançada “Semafor” – que iniciou as operações hoje –  não é diferente. Em março deste ano li na Axios sobre uma nova publicação em gestação por dois grandes nomes da mídia norte-americana: Justin Smith (ex-chefe da Bloomberg Media) e Ben Smith (ex-colunista de mídia do New York Times e ex-editor-chefe do Buzzfeed News). Alguns investidores achavam o projeto “muito vago” e fugiam dele. No entanto, foram necessários apenas quatro meses para a história mudar.

O então chamado Project Coda prometia ser um produto jornalístico de elite, disposto a preparar o terreno para uma cobertura intensiva das eleições presidenciais de 2024, além de ter verticais de tecnologia, finanças, clima, segurança internacional e mídia. Mas o carro-chefe já estava decidido e seria mesmo a política norte-americana.

A movimentação dos Smith chamou a atenção do mercado não apenas pela audácia – e astúcia – de criar um veículo jornalístico em meio à profunda crise que o setor enfrenta. A dupla andava passando o chapéu entre milionários do setor, como Jessica Lessin, fundadora do icônico The Information, David Bradley, presidente emérito da The Atlantic, John Thornton, cofundador do Texas Tribune e do bilionário de criptomoedas Sam Bankman-Fried. E não é que deu certo?

Em pouco tempo, os fundadores da Semafor levantaram US$ 25 milhões para dar vida à publicação. A escolha por investidores particulares ao invés de empresas de capitais de risco foi proposital, para garantir mais segurança ao novo veículo, que não sofrerá tanta pressão para dar retorno imediato. As fontes de receita da Semafor, por enquanto, estão previstas para repetir os velhos modelos de publicidade, assinaturas (no futuro) e eventos presenciais.

Por outro lado, a Semafor surpreende por detalhes inovadores de sua proposta editorial.

Jornalistas na linha de frente

O nome do autor de cada matéria aparecerá quase com o mesmo destaque visual do que o título do conteúdo. A proposta enfrenta um tabu na indústria da mídia, em que profissionais têm uma opinião dividida entre preservar suas identidades e brilharem mais do que o veículo a ponto de concorrerem com ele nas redes sociais.

Na Semafor, a intenção é estimular que o público mantenha contato com o jornalista, que será incentivado a atuar em redes sociais e construir comunidades. Para o lançamento, a publicação conta com 30 jornalistas alocados em Londres, Nova York, Washington, com planos de expansão para a África ou o Oriente Médio.

Dependendo dos talentos editoriais que a Semafor conseguir fisgar do mercado, novos verticais poderão surgir, respeitando as especialidades de dedicação de cada jornalista.

Remuneração diferenciada

O protagonismo da redação promete ser um diferencial significativo da publicação. A empresa declarou que garantirá aos jornalistas o recebimento de “toda ou da maior parte” da receita proveniente de suas propriedades intelectuais, como contratos de livros ou direitos de filmes.

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Notícia de um lado, opinião do outro

O design do site colocará ênfase na divisão clara entre seções de relatos factuais e espaços opinativos. A meta é que não haja qualquer traço de opinião fora da seção de opinião (ou de análises dos repórteres). Noutro espaço estarão as informações factuais. A iniciativa é uma forma de reagir à mistura de informação e opinião que os Smith dizem ser praticada sem constrangimento por muitos veículos da atualidade.

O que esperar da Semafor?

Como uma startup de notícias nativa digital, a Semafor quer conquistar o mundo – ao menos a parte anglófona. A exemplo de Buzzfeed, Quartz, Vice e do moribundo Huffington Post, a Semafor pretende alcançar uma audiência global. E a escolha do nome reflete esta ambição: a palavra é uma variação de “semaphore” que, no inglês, significa um sistema de sinalização náutica. Sim, ela é um falso cognato ao português: semáforo, em inglês, é traffic lights. Mas o campo semântico é o mesmo.

E o que “semaphore” tem a ver com audiência global. É que a palavra tem uma grafia, uma sonoridade e uma denotação semelhantes em cerca de 30 idiomas, segundo Justin Smith.

Por enquanto, o domínio ainda está ocupado com um warm up convidando o público a deixar o e-mail. Mas um evento reunindo os fundadores e alguns jornalistas da redação e de outros veículos já aconteceu neste dia 7 de julho, para marcar o lançamento da publicação. Houve transmissão ao vivo e ficou gravado no YouTube. O tema é providencial: Sinais e Ruídos – Polarização e Confiança nas Notícias.